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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.3 São Paulo June 2010  Epub May 21, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010005000018 

Adesão a protocolo pós-exposição ocupacional de acidentes entre cirurgiões dentistas

 

Adhesión a protocolo post exposición ocupacional de accidentes entre cirujanos dentistas

 

 

Andréa Maria Eleutério de Barros Lima MartinsI; Rodrigo Dantas PereiraII; Raquel Conceição FerreiraI

IDepartamento de Odontologia. Centro de Ciências Biológicas e da Saúde. Universidade Estadual de Montes Claros. Montes Claros, MG, Brasil
IICurso de Graduação em Odontologia. Instituto de Educação Superior. Faculdades Unidas do Norte de Minas. Montes Claros, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a adesão a protocolo pós-exposição ocupacional a acidentes e os fatores relacionados à adesão entre cirurgiões-dentistas.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado em Montes Claros, MG, de 2007 a 2008, com cirurgiões-dentistas em atividade clínica com relato de ocorrência de acidentes com instrumentos perfurocortantes no seu exercício profissional. As variáveis referentes à caracterização do dentista, condições de trabalho dos dentistas, caracterização da clientela atendida, características dos acidentes com instrumentos perfurocortantes sofridos pelos dentistas e condutas pós-acidentes foram avaliadas por meio de um questionário estruturado, previamente testado. Os dados foram submetidos à análise descritiva e ao teste qui-quadrado (p < 0,05).
RESULTADOS: Um total de 241 dentistas (89,2%) respondeu ao questionário. A adesão ao protocolo pós-exposição ocupacional foi relatada por 51,5%. A maioria dos profissionais relatou a detecção de sangue no momento do acidente. As brocas foram os instrumentos mais envolvidos nos acidentes e o dedo a parte do corpo mais acometida. Verificou-se maior prevalência de adesão ao protocolo pós-exposição entre aqueles com maior renda mensal (OR = 2,42, IC 95%: 1,03;5,71), atualização nos últimos dois anos (OR = 2,16, IC 95%: 1,09;4,27) e que realizavam pausa por jornada de quatro horas (OR = 1,23, IC 95%: 1,23;4,92). Os cirurgiões-dentistas que atendiam crianças (OR = 0,50, IC 95%: 0,27;0,93) e indivíduos de classe socioeconômica média, média alta e alta (OR = 0,54, IC 95%: 0,31;0,95) apresentaram menor prevalência de adesão ao protocolo pós-exposição ocupacional. A freqüência de adesão a um protocolo pós-exposição foi significativamente maior entre os indivíduos que seguiam as condutas descritas em protocolos pós-exposição.
CONCLUSÕES: Há baixa adesão ao protocolo pós-exposição ocupacional entre os dentistas, influenciada pelo conhecimento e renda mensal dos profissionais, pela realização de pausas, grupo etário e classe socioeconômica da clientela atendida.

Descritores: Odontólogos. Profilaxia Pós-Exposição. Conduta de Saúde. Exposição Ocupacional, prevenção & controle. Acidentes de Trabalho, prevenção & controle.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la adhesión a protocolo post exposición ocupacional a accidentes y los factores relacionados a la adhesión entre cirujanos dentistas.
MÉTODOS: Estudio transversal realizado en Montes Claros, Sureste de Brasil, de 2007 a 2008, con cirujanos dentistas en actividad clínica con relato de ocurrencia de accidentes con instrumentos perfurocortantes en el ejercicio profesional. Las variables relacionadas con la caracterización del dentista, condiciones de trabajo de los dentistas, caracterización de la clientela atendida, características de los accidentes con instrumentos perfurocortantes sufridos por los dentistas y conductas post accidentes fueron evaluadas por medio de un cuestionario estructurado, previamente testado. Los datos fueron sometidos al análisis descriptivo y a la prueba de chi-cuadrado (p<0,05).
RESULTADOS: Un total de 241 dentistas (89,2%) respondió el cuestionario. La adhesión al protocolo post exposición ocupacional fue relatada por 51,5%. La mayoría de los profesionales mencionó la detección de sangre en el momento del accidente. Las brocas fueron los instrumentos más involucrados en los accidentes y el dedo la parte del cuerpo más afectada. Se verificó mayor prevalencia de adhesión al protocolo post exposición entre aquellos con mayor renta mensual (OR=2,42, IC 95%: 1,03;5,71), actualización en los últimos dos años (OR=2,16, IC 95%: 1,09;4,27) y que realizaban pausa por jornada de cuatro horas (OR=1,23, IC 95%: 1,23;4,92). Los cirujanos dentistas que atendían niños (OR=0,50, IC 95%: 0,27;0,93) e individuos de clase socioeconómica media, media alta y alta (OR=0,54, IC 95%: 0,31;0,95) presentaron menor prevalencia de adhesión al protocolo post exposición ocupacional. La frecuencia de adhesión a un protocolo post exposición fue significativamente mayor entre los individuos que seguían las conductas descritas en protocolos post exposición.
CONCLUSIONES: Hay baja adhesión al protocolo post exposición ocupacional entre los dentistas, influenciada por el conocimiento y renta mensual de los profesionales, por la realización de pausas, grupo de edad y clase socioeconómica de la clientela atendida.

Descriptores: Odontólogos. Profilaxis Post-Exposición. Conducta de Salud. Exposición Profesional, prevención & control. Accidentes de Trabajo, prevención & control.


 

 

INTRODUÇÃO

A principal causa de acidentes de trabalho entre profissionais de saúde está relacionada ao uso de instrumentais perfurocortantes.3 Na odontologia, os acidentes com exposição ocupacional a material biológico são freqüentes em decorrência do trabalho com esses instrumentos em um campo de visão restrito e sujeito a movimentação do paciente.16,21 A prevalência de exposições ocupacionais foi de 39,10% entre dentistas de Florianópolis, SC, predominando lesões percutâneas.9 As exposições percutâneas representaram quase a totalidade dos acidentes envolvendo material biológico entre cirurgiões-dentistas de hospitais públicos em Brasília, DF.3 Outros trabalhos no Brasil, considerando diferentes períodos de referência (seis meses, um ano, a vida profissional), identificaram alta prevalência de acidentes com instrumentos perfurocortantes entre cirurgiões-dentistas, com valores variando de 26,0% a 75,0%.8,12,18

O sangue é o material biológico mais freqüentemente encontrado nas exposições ocupacionais, o que constitui um fator preocupante, uma vez que ele veicula patógenos como o vírus das hepatites B (HBV) e C (HCV) e o vírus da imunodeficiência humana (HIV).21 Os acidentes de trabalho com sangue e outros fluidos potencialmente contaminados devem ser tratados como emergência médica, pois as intervenções para profilaxia da infecção pelo HIV e hepatite B necessitam ser iniciadas logo após a ocorrência do acidente para obtenção de maior eficácia.7 Apesar de o risco de infecção por patógenos de transmissão sangüínea na odontologia ser considerado pequeno, existem casos comprovados de transmissão ocupacional na odontologia.4,7 O acidente pode ainda ter repercussões psicossociais, levando a mudanças nas relações sociais, familiares e de trabalho.13

Nenhuma medida pós-exposição é totalmente eficaz e não existe quimioprofilaxia para reduzir o risco de transmissão do HCV após exposição ocupacional.9 Assim, a transmissão de infecções ocupacionais deve ser evitada pela utilização de recursos para reduzir as exposições a material biológico, incluindo uma combinação de precauções-padrão, medidas de engenharia, práticas de trabalho e controles administrativos.7 Embora o contato do sangue com a pele e a mucosa possa ser reduzido por meio do uso de barreiras tradicionais, tais como luvas, elas não são efetivas na prevenção de ferimentos com instrumentos perfurocortantes.6

Nas situações em que exposições ocupacionais não puderam ser evitadas, condutas pós-exposição podem prevenir infecções e devem ser adotadas, incluindo avaliação imediata do acidente, quimioprofilaxia quando necessário, aconselhamento do profissional e do paciente e acompanhamento periódico do profissional.12,a,b No Brasil, o Ministério da Saúde tem disponibilizado manuais de orientação aos dentistas com normas para prevenção e protocolos de conduta em face de acidentes ocupacionais com material biológico.a,b Essas condutas devem ser divulgadas entre os profissionais e adotadas em estabelecimentos de saúde, incluindo consultórios e clínicas odontológicas.

Diante do exposto, o objetivo do presente estudo foi analisar a adesão a protocolo pós-exposição ocupacional e os fatores relacionados à adesão entre dentistas e características dos acidentes ocorridos.

 

MÉTODOS

Estudo epidemiológico, transversal realizado em Montes Claros, MG, entre setembro de 2007 e março de 2008. O universo do estudo referiu-se aos dentistas inscritos no Conselho Regional de Odontologia, Minas Gerais (CRO/MG), seção Montes Claros. Os critérios de exclusão adotados foram: não exercer atividade clínica ou atender fora do município, ser aposentado ou encontrar-se afastado por motivo de doença. Para definição dos participantes do estudo, inicialmente procurou-se contatar todos os profissionais por telefone ou pessoalmente, no momento em que a pesquisa foi apresentada. Foram realizadas três tentativas de contato por telefone ou visita ao consultório.

Os participantes responderam a um questionário estruturado, auto-aplicável.c A reprodutibilidade do instrumento foi testada por meio do coeficiente de concordância Kappa. Os questionários foram distribuídos em envelopes fechados não identificados e recolhidos após oito semanas no local de trabalho dos participantes. Os seguintes grupos de variáveis foram avaliados: caracterização do dentista, condições de trabalho dos dentistas, caracterização da clientela atendida, características dos acidentes com instrumentos perfurocortantes sofridos pelos dentistas e condutas pós-acidentes.

As variáveis referentes à caracterização do dentista foram sociodemográficas (faixa etária, sexo, estado civil, renda mensal), de formação profissional (anos de formado, maior titulação, atualização nos últimos dois anos), vacinação contra hepatite B e conhecimento da existência de protocolo pós-exposição ocupacional proposto pelo Ministério da Saúde. Condições de trabalho dos dentistas: tempo de exercício de clínica, dias trabalhados por semana, horas diárias trabalhadas na clínica, local de atendimento, sistema de trabalho adotado, atendimento simultâneo de pacientes, número de pacientes atendidos em quatro horas, pausas por jornada de quatro horas e nível de satisfação com a profissão, avaliada quantitativamente por nota atribuída de 1 a 10. A satisfação com a profissão foi categorizada em baixa, média e alta, para 0 a 6; 7 a 8; 9 e 10 pontos, respectivamente. Caracterização da clientela atendida: grupo etário, classe socioeconômica, percentual de pacientes conveniados, atendimento a pacientes sabidamente portadores de HIV, HBV ou HCV.

Os acidentes com instrumentos perfurocortantes foram caracterizados quanto a: tempo transcorrido desde o acidente, instrumental mais freqüentemente utilizado no momento do acidente, parte do corpo mais freqüentemente lesada e presença de sangramento no momento do acidente.

As condutas pós-acidente ocupacional avaliadas foram: adesão a algum protocolo pós-exposição, lavagem abundante do ferimento com água e sabão, registro da ocorrência de sangramento, da profundidade do ferimento, do procedimento odontológico que estava sendo realizado e do instrumento utilizado no momento do acidente; pesquisa de informações pessoais e história médica do paciente que possam estabelecer algum risco de infectividade; realização de testes sorológicos anti-HBV e anti-HIV e orientação ao paciente para submeter-se a testes sorológicos anti-HBV e anti-HIV para verificar infecção; e, finalmente, notificação do acidente a algum órgão de vigilância sanitária.

Foram identificados 565 dentistas inscritos no CRO/MG, subseção de Montes Claros, dos quais 60 não foram encontrados. Entre os 505 identificados, 333 eram elegíveis. Dos 172 excluídos, 109 não exerciam atividade clínica ou a exerciam fora do município, 56 eram aposentados e sete encontravam-se afastados por doença. Houve uma participação de 297 dentistas, obtendo-se uma taxa de resposta de 89,2%. Dos 297 participantes, 241 relataram ter sofrido acidente com instrumento perfurocortante na vida profissional. A investigação restringiu-se, portanto, a esses 241 profissionais.

Os dados foram submetidos a uma análise descritiva. A associação entre o relato da adesão ou não a um protocolo pós-exposição e as variáveis relativas à caracterização e condições de trabalho dos dentistas, caracterização da clientela atendida e condutas pós- acidentes foi verificada por meio do teste qui-quadrado de Pearson (nível de significância de 95%). Na análise bivariada, as variáveis estado civil, maior titulação, horas diárias trabalhadas, local de atendimento e grupo etário da clientela atendida foram dicotomizadas. A análise estatística foi realizada com o software SPSS 15.0.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética das Faculdades Unidas do Norte de Minas (Funorte/01/2006).

 

RESULTADOS

Dos 241 profissionais que relataram ter sofrido acidente com instrumento perfurocortante na vida profissional, 227 responderam a questão referente à adesão a um protocolo pós-exposição ocupacional e 117 (51,5%) relataram aderir a algum protocolo. A concordância, questão por questão, variou de 0,81 a 0,92.

A média de idade dos participantes foi de 37,4 anos (DP = 9,5), sendo a maioria mulher, casado, com renda de seis a dez salários-mínimos. Aproximadamente metade havia se formado há menos de dez anos e a maioria possuía especialização como maior titulação. A participação em cursos de atualização nos últimos dois anos foi alta, assim como o relato de ter completado o esquema vacinal anti-HB. Aproximadamente metade relatou ter conhecimento da existência de um protocolo pós-exposição ocupacional proposto pelo Ministério da Saúde (Tabela 1). Quanto às condições de trabalho dos dentistas, a maioria relatou exercer atividade clínica há mais de seis anos, trabalhava na clínica de cinco a seis dias por semana, em turnos diários de cinco a oito horas. Quase metade atendia exclusivamente no consultório particular. Durante os atendimentos, a maioria relatou atender a quatro mãos, não atender dois ou mais pacientes simultaneamente, atender de cinco a oito pacientes por jornada de quatro horas. Em relação a pausas por jornada de quatro horas de trabalho, a maior parte relatou não realizá-las. A maioria relatou alto nível de satisfação com a profissão. No que diz respeito à caracterização da clientela atendida pelos profissionais, a maioria relatou atender tanto crianças como adultos. A metade dos pacientes era de classe socioeconômica baixa ou média-baixa e a outra metade de classe média, média-alta ou alta. Poucos profissionais relataram ter atendido pacientes sabidamente portadores de HIV e HBV ou HCV (Tabela 2).

A maioria dos profissionais relatou ser a broca o instrumento perfurocortante mais freqüentemente envolvido, sendo o dedo o principal local acometido e com detecção de sangue no momento do acidente. Em relação às condutas pós-acidentes, a grande maioria relatou lavar abundantemente o local com água e sabão após ferimento com instrumento perfurocortante. A maior parte relatou não registrar a ocorrência de sangramento, a profundidade do ferimento, o procedimento realizado, o instrumento utilizado, bem como buscar informações pessoais e da história médica do paciente. Poucos relataram ter realizado testes sorológicos anti-HBV e anti-HIV após a exposição. A orientação do paciente para se submeter a testes sorológicos e notificação do acidente foram os procedimentos menos adotados (Tabela 3).

Verificou-se associação entre adesão a protocolo pós-exposição e renda mensal do dentista, atualização nos últimos dois anos, pausa por jornada de quatro horas, faixa etária e classe socioeconômica da clientela atendida. A freqüência dos profissionais que aderiram a algum protocolo aumentou significativamente com o aumento da faixa de renda mensal de um a cinco salários-mínimos para 11 ou mais salários-mínimos. Houve significativamente maior freqüência de adesão a um protocolo pós-exposição entre os que se atualizaram nos últimos dois anos e que relataram fazer pausa sempre que estão cansados. A adesão a um protocolo pós-exposição ocupacional foi menor entre os que atendiam exclusivamente crianças ou crianças e adultos, indivíduos de classes socioeconômicas média, média alta e alta, quando comparados àqueles que atendiam crianças e adultos, indivíduos de classes socioeconômicas baixa e média baixa, respectivamente (Tabela 4).

De modo geral, a freqüência de adesão a um protocolo pós-exposição foi significativamente (p < 0,05) maior entre os que responderam positivamente às condutas. Contudo, mesmo entre os que afirmaram aderir a um protocolo pós-exposição, muitos não seguiram corretamente as condutas preconizadas nos protocolos. Por exemplo, somente 25,4% dos dentistas, entre os que afirmaram adesão, relataram solicitar teste anti-HIV. Percentual ainda menor notificou o acidente (Tabela 5).

 

DISCUSSÃO

O risco ocupacional com agentes infecciosos é conhecido desde o início dos anos 1940. Porém, as medidas profiláticas e o acompanhamento clínico-laboratorial de trabalhadores expostos aos patógenos de transmissão sangüínea só foram desenvolvidos e implementados a partir da epidemia de Aids, no início da década de 1980. No Brasil, em 1996, o Ministério da Saúde publicou os "Procedimentos frente a acidentes de trabalho com exposição a material potencialmente contaminado com o vírus da Aids".d Em 2000, em publicação distribuída gratuitamente para todos os cirurgiões-dentistas pelos conselhos de classe, foram descritas as condutas diante de acidentes ocupacionais.ª Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou as condutas a serem seguidas após acidente com material perfurocortante, divulgadas e de livre acesso on-line.b Aproximadamente metade dos dentistas (52,4%) relatou desconhecer a existência de protocolos pós-exposição ocupacional. Uma possível explicação para esse resultado pode ser o fato de que mais da metade dos cirurgiões-dentistas participantes havia se formado há mais de 11 anos, quando possivelmente esses temas não eram abordados na graduação.

A prevalência da vacinação completa anti-HBV entre dentistas no presente estudo foi maior (91,4%) que a constatada (74,9%) entre cirurgiões-dentistas do mesmo município em 1999, que abrangeu os profissionais que sofreram e os que não sofreram acidentes.11 Esse crescimento parece refletir maior conscientização dos profissionais quanto à necessidade e à importância da vacinação como prevenção primária da hepatite B, pois um dos motivos observados para a não vacinação ou vacinação incompleta foi a falta de informação.11 Comparada com estudos estrangeiros, a prevalência da vacinação completa entre os cirurgiões-dentistas estudados foi superior àquela observada na Alemanha (74%)1 e na Tailândia (68%),10 mas ficou próxima à observada na África do Sul (90%)20 e no Reino Unido (99,0%).15 No presente estudo, os profissionais não foram questionados sobre a imunização pós-vacinação contra hepatite B, que deve ser verificada até um mês após a última dose do esquema vacinal. Os profissionais que não desenvolverem um nível de anticorpos adequado, após esquema vacinal primário, devem completar uma segunda série de três doses da vacina ou avaliar se são portadores do HBV.7

No presente estudo, os instrumentais mais freqüentemente envolvidos nos acidentes foram brocas, seguidas por sonda exploradora. Outros trabalhos na literatura, com diferentes amostras de dentistas, mostraram resultados similares.6,8,16 Cirurgiões-dentistas do município de Sertãozinho, SP, relataram maior freqüência de acidentes com agulhas de seringas e as brocas apareceram em terceiro lugar.2 Em consistência com outros estudos, o dedo foi a parte do corpo mais freqüentemente lesada.16 Para evitar tais acidentes, devem-se tomar cuidados ao receber, manipular ou passar instrumentos pontiagudos, não mantendo a ponta direcionada para o profissional e a equipe. Além disso, seringas e agulhas não devem ser reutilizadas, curvadas, quebradas ou manipuladas pelas mãos. Procedimentos simples, como não deixar brocas e outros instrumentos rotatórios montados no micromotor ou alta-rotação, podem reduzir os acidentes durante o exercício da clínica odontológica. Sendo os dedos a parte mais acometida no caso de acidentes perfurocortantes, foi observado que uma única luva pode reduzir o volume de sangue injetado por agulhas de sutura em 70%. No caso de agulhas ocas, a luva pode reduzir de 35% a 50% a inoculação do sangue.17

O sangue foi o material biológico observado no momento do acidente por 56,3% dos cirurgiões-dentistas. O contato com sangue pode ser responsável pela transmissão do HIV e do vírus da hepatite. Apesar do baixo risco de transmissão, devem-se avaliar todas as exposições ocupacionais a sangue ou outro material potencialmente infectante, incluindo saliva, independentemente da presença de sangue visível.7 Da mesma maneira, é de fundamental importância a adesão a um protocolo pós-exposição, visando reduzir as chances de infecção. Por tudo isso é questionável a adesão de somente 51,5% dos dentistas a protocolos pós-exposição no presente estudo. Em estudo anterior, a não-adesão a protocolo pós-exposição ocupacional foi explicada pelo fato dos profissionais se sentirem acanhados de submeter o paciente às medidas e ao relato de ocorrência do acidente em questão.19 Entretanto, as condições de trabalho parecem interferir na adoção de protocolos pós-exposição, pois as variáveis renda mensal, realização de pausas por jornada de quatro horas, grupo etário e classe socioeconômica da clientela atendida interferiram na prevalência da adesão. Adicionalmente, os resultados sugerem que o conhecimento favorece a adesão aos protocolos, uma vez que ela foi mais freqüente entre os que realizaram cursos de atualização nos últimos dois anos.

É preocupante a observação de que maiores percentuais de cirurgiões-dentistas afirmaram aderir a um protocolo, mas não adotaram condutas recomendadas nos protocolos pós-exposição ocupacional (percentuais variaram de 4,5% a 83,9%). Essa não-correspondência mostra a real situação entre cirurgiões-dentistas, de ausência de adesão, mesmo diante da alta prevalência de acidentes constatada na presente investigação e em estudo prévio.11 Trabalhos anteriores também mostraram altos percentuais de dentistas que não seguiram procedimentos adequados após exposições ocupacionais.8,14

Entre os cuidados imediatos após as lesões percutâneas, a lavagem exaustiva do local exposto com água e sabão foi relatada por quase a totalidade dos profissionais, resultado semelhante registrado em Florianópolis, SC.9 A lavagem promove a redução da carga de microorganismos abaixo do limiar da dose infecciosa, porém não se deve esfregar para evitar inoculação do vírus no interior dos tecidos.b

Na caracterização dos acidentes, observou-se que poucos profissionais registraram a profundidade do ferimento, a ocorrência de sangramento, o procedimento e o instrumento utilizado no momento do acidente. Esses dados que informam indiretamente a quantidade de sangue transferido na exposição são necessários para que o médico especializado determine a severidade da lesão e indique ou não quimioprofilaxia pós-exposição.

Em estudo caso-controle,5 verificou-se que o risco de transmissão do HIV foi influenciado pela profundidade do ferimento e pela presença de sangue visível no dispositivo, tendo sido maior quando o paciente fonte estava no estágio terminal da doença ou com Aids. Esse estudo também mostrou que a profilaxia com zidovudina após exposição percutânea ao sangue contaminado com o HIV reduziu a taxa de soroconversão em aproximadamente 81%.

O protocolo pós-exposição ocupacional recomenda ainda a realização de exames sorológicos anti-HIV e anti-HBsAg, dos profissionais e dos pacientes fonte, a fim de direcionar a quimioprofilaxia com anti-retrovirais para infecção pelo HIV, que deverá idealmente ser iniciada após duas horas do acidente ou a aplicação de gamaglobulina hiperimune para hepatite B, cuja maior eficácia é obtida com uso precoce, dentro de 24 a 48 horas após o acidente.a,b Além disso, o acompanhamento clínico laboratorial deve ser realizado para todos os profissionais acidentados que tenham sido expostos a pacientes fonte com sorologia desconhecida ou pacientes fonte infectados pelo HIV, HBV ou HCV, independentemente do uso de quimioprofilaxias ou imunizações.ª Nesse estudo, 28,4% e 12,8% dos participantes submeteram-se aos testes anti-HIV e anti-HBsAg, respectivamente, e uma pequena proporção de dentistas relatou realização de exames do paciente fonte. Esses achados reforçam a não adesão e o desconhecimento do protocolo pós-exposição por grande parte dos cirurgiões-dentistas de Montes Claros. Além disso, pode refletir uma relutância dos profissionais de serem testados para o HIV e outros patógenos transmitidos pelo sangue, provavelmente associada ao temor de discriminação ou conseqüências profissionais adversas.14 Adicionalmente, o dentista pode temer revelar ao paciente que sofreu um acidente envolvendo material biológico e ter constrangimento de perguntar ao paciente seu estado sorológico em relação a doenças de transmissão sexual e por uso de drogas injetáveis.9

Entre profissionais de saúde de hospitais públicos do Distrito Federal, incluindo cirurgiões-dentistas, 80,3% realizou o teste anti-HIV após acidentes ocupacionais.e O fato de os profissionais estarem em ambiente hospitalar pode ter facilitado a realização do teste. Além disso, outros profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros, podem apresentar maior conhecimento do risco de infecção e das condutas para evitá-la quando comparados a dentistas. Por outro lado, na presente investigação, 67,1% dos profissionais relataram buscar informações pessoais, avaliar a história de vida pessoal e médica do paciente para estabelecer algum risco de infectividade. Poderia ser considerado mais prudente dar seqüência a todas as etapas do protocolo pós-exposição, visando diminuir ao máximo o risco de infecção ocupacional.

A subnotificação do acidente a órgão de vigilância sanitária também foi relatada por outros pesquisadores, sendo justificada pela baixa severidade percebida da exposição, o baixo risco percebido do paciente fonte, o desconhecimento da necessidade de notificação e a complexidade do processo envolvido no registro do acidente ou o transtorno provocado pela interrupção do procedimento e do dia de trabalho, pela busca de atendimento médico e realização de exames.9,16 A subnotificação observada era esperada, uma vez que a notificação compulsória dos acidentes com exposição a material biológico foi regulamentada em 28 de abril de 2004 pela Portaria 777.b A notificação dos acidentes do trabalho é uma exigência legal e fornece dados relativos ao número, distribuição e características dos acidentes e das vítimas, constituindo uma base indispensável para indicação, aplicação e controle de medidas de prevenção.f

É intrigante o fato de 51,5% dos dentistas terem relatado adotar um protocolo pós-exposição ocupacional e as freqüências de adoção a medidas pós-exposição preconizadas variarem de 14,3% a 95,3%. Tendo em vista a natureza da investigação, pode-se especular que os resultados superestimem a adesão a protocolos pós-exposição ocupacional, uma vez que os sujeitos tendem a reportar comportamentos aceitáveis, mesmo quando não os adotam. Assim, é fundamental haver ações educativas permanentes e medidas de proteção individual e coletiva, visando à prevenção das exposições ocupacionais a material biológico. A prevenção é a principal e mais eficaz medida para evitar a transmissão ocupacional de doenças na prática odontológica.

 

AGRADECIMENTOS

Às Faculdades Unidas do Norte de Minas/Associação Educativa do Brasil pelo apoio logístico.

 

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Correspondência | Correspondence:
Andréa Maria Eleutério de Barros Lima Martins
Departamento de Odontologia
Universidade Estadual de Montes Claros
Av. Rui Braga, s/n - Vila Mauricéia
39401-089 Montes Claros MG
E-mail: martins.andreamebl@gmail.com

Recebido: 14/4/2009
Aprovado: 13/12/2009
Martins AMEBL e Ferreira RC são apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (bolsa de Incentivo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Tecnológico; Processos CDS-BIP-00169-09 e CDS-BIP-00164-09, respectivamente).

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Controle de infecções e a prática odontológica em tempos de Aids: manual de condutas - Brasília; 2000[citado 2009 fev 23]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/final/biblioteca/manual_odonto.pdf
b Ministério da Saúde. Portaria nº 777, de 28 de abril de 2004. Dispõe sobre os procedimentos técnicos para a notificação compulsória de agravos à saúde do trabalhador em rede de serviços sentinela específica, no Sistema Único de Saúde - SUS. Diario Oficial Uniao. 29 abr. 2004[citado 2009 abr 14];Seção 1:37-8. Disponível em: http://dtr2001.saude.gov.br/sas/Portarias/Port2004/GM/GM-777.htm
c Martins AMEBL. Uso de equipamento de proteção individual e vacinação contra Hepatite B entre cirurgiões dentistas de Montes Claros, MG [dissertação de mestrado].Belo Horizonte:Universidade Federal de Minas Gerais; 2001.
d Brígido LFM, Pinheiro MC. Procedimentos frente a acidentes de trabalho com exposição a material potencialmente contaminado com vírus da Aids (HIV). Bol Epidemiol. AIDS. 1996;4 (3):3-5.
e Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Serviços Odontológicos: Prevenção e Controle de Riscos. Brasília; 2006[citado 2009 fev 23]. (Série A. Normas e Manuais Técnicos). Acidente de trabalho e conduta após exposição ao material biológico. p. 55-8. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/servicosaude/manuais/manual_odonto.pdf
f Aquino JD. Considerações críticas sobre a metodologia de coleta e obtenção de dados de acidentes do trabalho no Brasil. São Paulo [dissertação de mestrado]. Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP;1996.

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