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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.4 São Paulo Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000400002 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Uso de medicamentos do nascimento aos dois anos: Coorte de Nascimentos de Pelotas, RS, 2004

 

Uso de medicamentos desde el nacimiento hasta los dos años: Cohorte de Nacimientos de Pelotas, Sur de Brasil, 2004

 

 

Edilson Almeida de OliveiraI; Andréa Dâmaso BertoldiI, II; Marlos Rodrigues DominguesIII; Iná Silva SantosII; Aluísio J D BarrosII

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo, RS, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Epidemiologia. Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina. Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pelotas, RS, Brasil
IIIPrograma de Pós-Graduação em Educação Física. Departamento de Desportos. Escola Superior de Educação Física. UFPel. Pelotas, RS, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a utilização de medicamentos em crianças aos três, 12 e 24 meses de idade.
MÉTODOS: Estudo transversal utilizando dados da Coorte de Nascimentos de Pelotas, RS, de 2004. Foram incluídas 3.985 crianças aos três meses, 3.907 aos 12 meses e 3.868 aos 24 meses de idade. O desfecho considerado foi o uso de medicamentos pelas crianças nos 15 dias anteriores à entrevista. Informações sobre as variáveis independentes (medicamentos utilizados, fonte de indicação, forma de aquisição, regularidade do uso e grupos terapêuticos) foram coletadas por meio de questionário padronizado, em entrevista aos pais nos domicílios.
RESULTADOS:
As prevalências de uso de medicamentos aos três, 12 e 24 meses foram de 65,0% (IC 95%: 63,5;66,5), 64,4% (IC 95%: 62,9;65,9) e 54,7% (IC 95%: 53,1;56,2), respectivamente. Com o avanço da idade observou-se diminuição no número total de medicamentos utilizados e aumento na automedicação, essa última chegando a 34% aos 24 meses. Também, a freqüência do uso de medicamentos em caráter eventual aumentou e diminuiu a de uso contínuo. Os medicamentos foram adquiridos principalmente com recursos próprios e cerca de 10% foi adquirido pelo Sistema Único de Saúde. Observou-se mudança no perfil dos grupos terapêuticos mais utilizados em função da idade. Aos três meses, o maior uso foi de medicamentos dermatológicos (36%); aos 12 meses, de medicamentos para o sistema respiratório (24%); e, aos 24 meses, de analgésicos (26%). Comparando-se o uso aos 24 meses com o dos três meses de idade observou-se diminuição na utilização de: medicamentos destinados ao trato alimentar e metabolismo, aos órgãos dos sentidos, sistema cardiovascular e produtos dermatológicos. Houve aumento na utilização de: medicamentos anti-infecciosos sistêmicos, destinados ao sistema musculoesquelético, ao sistema respiratório, analgésicos, antiparasitários, inseticidas e repelentes.
CONCLUSÕES:
A utilização de medicamentos nesta coorte foi elevada e remete à necessidade de priorização do uso racional de medicamentos nos primeiros anos de vida.

Descritores: Uso de Medicamentos. Lactente. Estudos de Coortes.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir la utilización de medicamentos en niños a los tres, 12 y 24 meses de edad.
MÉTODOS: Estudio transversal utilizando datos de la Cohorte de Nacimientos de Pelotas, Sur de Brasil, de 2004. Fueron incluidas 3.985 niños a los tres meses, 3.907 a los 12 meses y 3.868 a los 24 meses de edad. El hecho considerado fue el uso de medicamentos por los niños en los 15 días anteriores a la entrevista. Informaciones sobre las variables independientes (medicamentos utilizados, fuente de indicación, forma de adquisición, regularidad en el uso y grupos terapéuticos) fueron colectadas por medio de cuestionario estandarizado, en entrevista a los padres en los domicilios.
RESULTADOS: Las prevalencias en el uso de medicamentos a los tres, 12 y 24 meses fueron de 65,0% (IC 95%: 63,5;66,5), 64,4% (IC 95%: 62,9;65,9) e 54,7% (IC 95%: 53,1;56,2), respectivamente. Con el avance de la edad se observó disminución en el número total de medicamentos utilizados y aumento en la automedicación, ésta última alcanzando el 34% a los 24 meses. También, la frecuencia en el uso de medicamentos en carácter eventual aumentó y disminuyó con relación al uso continuo. Los medicamentos fueron adquiridos principalmente con recursos propios y cerca de 10% fue adquirido por el Sistema Único de Salud. Se observó cambio en el perfil de los grupos terapéuticos más utilizados en función de la edad. A los tres meses, el mayor uso fue de medicamentos dermatológicos (36%); a los 12 meses, de medicamentos para el sistema respiratorio (24%); e, a los 24 meses, de analgésicos (26%). Al compararse el uso a los 24 meses con el de los tres meses de edad se observó disminución en la utilización de: medicamentos destinados al tracto alimenticio y metabolismo, a los órganos de los sentidos, sistema cardiovascular y productos dermatológicos. Hubo aumento en la utilización de: medicamentos anti-infecciosos sistémicos, destinados al sistema músculo esquelético, al sistema respiratorio, analgésicos, antiparasitarios, insecticidas y repelentes.
CONCLUSIONES: La utilización de medicamentos en esta cohorte fue elevada y remite a la necesidad de priorizar el uso racional de medicamentos en los primeros años de vida.

Descriptores: Derechos Sexuales y Reproductivos. Relaciones Familiares. Núcleo Familiar. Composición Familiar. Valores Sociales. Antropología Cultural.


 

INTRODUÇÃO

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50% dos medicamentos são receitados ou vendidos de forma inadequada, aproximadamente S! da população não tem acesso a medicamentos essenciais e 50% dos pacientes não tomam corretamente seus medicamentos.ª

Estudos internacionais indicam que o uso de medicamentos na infância é elevado,14,24 especialmente entre crianças menores de dois anos.17,25 Além disso, um estudo conduzido nos Estados Unidos entre 2002 e 2005 mostrou que o uso crônico de diversos grupos terapêuticos vem aumentando.7

A oferta de medicamentos de venda livre associada à prática da automedicação pode levar à utilização indevida de medicamentos. No Reino Unido o uso de medicamentos ineficazes para o tratamento da febre é freqüentemente relatado pelos pais das crianças.21

A OMS faz restrições de uso e recomendações para vários fármacos amplamente utilizados em crianças no Brasil.b Aos três meses de idade, 69% das crianças gaúchas consumiam medicamentos, sendo os mais utilizados o ácido acetilsalicílico, cloreto de benzalcônio/soro fisiológico e dimeticona/homatropina; combinações de três ou mais fármacos foram utilizadas por 19%; e a utilização crônica de medicamentos chegou a 20%.26

Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas mostram que o uso elevado de medicamentos desde a tenra idade é preocupante: as intoxicações por medicamentos subiram de 15% em 2000 para 29% em 2004, e as crianças menores de cinco anos são a maioria das vítimas (35% dos casos).c Em 2007, os medicamentos foram a causa mais freqüente de intoxicação no Brasil, com média superior a 20 crianças intoxicadas por dia.d

O objetivo do presente estudo foi descrever a utilização de medicamentos em crianças de três, 12 e 24 meses de idade.

 

MÉTODOS

Foram utilizados dados da Coorte de Nascimentos de Pelotas, RS, de 2004. A coorte inclui todas as crianças nascidas em 2004, de mães residentes na zona urbana do município de Pelotas e no bairro Jardim América, contíguo a Pelotas e pertencente ao município de Capão do Leão. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2007, a população de Pelotas é de 339.934 habitantes, com Produto Interno Bruto (PIB) per capita de R$ 8.248,00. A população de Capão do Leão é de 23.655 habitantes, com PIB per capita de R$ 9.022,00.e

Em 2004 nasceram 4.287 crianças em Pelotas, das quais 4.231 estavam vivas. Nas primeiras 24 horas após o parto, as mães foram convidadas a participar do estudo, sendo realizadas as primeiras entrevistas com a mãe e a avaliação do recém-nascido. Quando as crianças completaram três, 12 e 24 meses de idade foram realizadas visitas domiciliares de acompanhamento. O estudo contou com 3.985 crianças aos três meses, 3.907 aos 12 meses e 3.868 aos 24 meses de idade. Excluídos os óbitos, as taxas de seguimento foram de 95,7%, 94,3% e 93,5%, respectivamente. Desde o início do estudo até a visita de 24 meses, as perdas e recusas totalizaram 6,5% (274 crianças). Mais detalhes metodológicos, incluindo características das amostras, podem ser obtidos em outras publicações.3,23

O desfecho analisado foi o uso de medicamentos pelas crianças aos três, 12 e 24 meses, independentemente do motivo, indicação ou grupo terapêutico. Em todos os acompanhamentos questionou-se se a criança havia recebido algum medicamento nos últimos 15 dias. Posteriormente, indagou-se quais eram os nomes dos medicamentos e foram solicitadas as embalagens e receitas de todos os medicamentos utilizados. Investigou-se também:

  • motivo do uso;
  • responsável pela indicação (prescrição médica atual; prescrição médica anterior, que caracterizava o reaproveitamento de uma prescrição médica usada anteriormente; outro profissional de saúde; mãe; familiar/amigo; ou outro);
  • forma de aquisição do medicamento (recursos próprios, fornecido pelo Sistema Único de Saúde -SUS ou outras fontes);
  • regularidade de utilização, por meio da categorização nas formas: eventual (uso esporádico nos últimos 15 dias) ou contínuo (usado todos os dias por um mês ou mais).

Automedicação foi considerada como utilização de medicamento a partir de uma prescrição médica para tratamento anterior ou indicação por outra pessoa que não um médico.

Os medicamentos utilizados foram classificados nos níveis 1 (grupo anatômico) e 2 (grupo terapêutico) da classificação ATC (Anatomical Therapeutic Chemical), preconizada pela OMS.f Nesse sistema, os fármacos são divididos em grupos, de acordo com o órgão ou sistema sobre os quais atuam e conforme suas propriedades químicas, farmacológicas e terapêuticas. A partir do motivo do uso, os medicamentos foram classificados no primeiro nível ATC e seu respectivo subgrupo, no nível 2. Os medicamentos para os quais não havia informação sobre o motivo de uso para classificar o nível 2 foram agrupados na categoria "sem classificação ATC nível 2". Os medicamentos pertencentes ao grupo N02 - Analgésicos (ATC nível 2) são descritos no texto como analgésicos/antipiréticos, uma vez que todos os medicamentos utilizados pertenciam ao subgrupo N02B (nível 3), que se refere aos analgésicos não opióides.

As análises envolveram a apresentação de valores absolutos e relativos das variáveis em estudo nos três acompanhamentos da coorte. Para o cálculo das prevalências e número de medicamentos administrados às crianças utilizou-se o número de crianças incluídas em cada acompanhamento como denominador das proporções. Para as demais análises o denominador das proporções foi o número total de medicamentos utilizados pelas crianças de cada acompanhamento. Foram realizados testes do qui-quadrado para analisar a diferença das proporções entre os três seguimentos, considerando um nível de significância de 5%.

A entrada de dados foi realizada no programa EpiInfo 6.0. A validação da digitação, o processo de consistência e criação de variáveis, bem como as análises, foram feitos no pacote estatístico Stata 9.

Todas as fases do estudo de coorte de nascimentos de 2004 de Pelotas foram aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (processo nº 4.06.00.006, aprovado em 20/6/2006 e processo nº 4.06.01.113, em 9/3/2005). As entrevistas e exames foram realizados somente após consentimento por escrito dos pais ou responsáveis.

 

RESULTADOS

Das 4.231 crianças pertencentes à coorte de nascimentos que iniciaram o estudo em 2004, cerca de 40% era primogênito, 10% apresentou baixo peso ao nascer, 85% nasceu a termo e aproximadamente 55% nasceu de parto normal. A maioria das mães estava na faixa de 20-29 anos, possuía entre cinco e oito anos completos de estudo, era desprovida de plano de saúde privado (planos pré-pagos de saúde) e teve o seu parto financiado pelo SUS.

As prevalências do uso de medicamentos aos três, 12 e 24 meses foram de 65,0% (IC 95%: 63,5;66,5), 64,4% (IC 95%: 62,9;65,9) e 54,7% (IC 95%: 53,1;56,2), respectivamente. Conforme a Tabela 1, mesmo considerando a pequena redução no número de crianças na amostra dos três aos 24 meses, o número total de medicamentos utilizados diminuiu com o avanço da idade em 27%. A não-utilização de medicamentos manteve-se constante aos três e 12 meses (p = 0,59), porém ocorreu aumento de dez pontos percentuais em sua freqüência aos 24 meses de idade (p < 0,001). A utilização de dois ou mais medicamentos decresceu com o aumento da idade (p < 0,001).

A automedicação apresentou freqüência crescente em função da idade com 11%, 26% e 34% aos três, 12 e 24 meses, respectivamente (p < 0,001). O reaproveitamento de uma prescrição médica anterior passou de 5,2% aos três meses para 18,4% aos 24 meses. Quando a fonte de indicação foram as mães, houve um aumento na freqüência, passando de 2,6% aos três meses para 10,7% aos 12 meses e daí para 12,0% aos 24 meses (p < 0,001) (Tabela 1).

Quanto à forma de aquisição dos medicamentos utilizados, mais de 80% se deu por meio de recursos próprios e o fornecimento gratuito pelo SUS ocorreu em torno de 10% dos casos (Tabela 1). Entre os medicamentos mais usados nos três acompanhamentos, houve maior participação do SUS na aquisição dos antimicrobianos (38%) e vitaminas/antianêmicos (29%), seguida de medicamentos para doenças do trato respiratório (15%) e analgésicos/antipiréticos (10%). Menores proporções de aquisição pelo SUS corresponderam aos produtos dermatológicos e antidiarréicos (5%).

No que se refere à regularidade de utilização dos medicamentos houve predomínio do uso eventual em todos os acompanhamentos, com aumento gradual dos três aos 24 meses. Já a freqüência de utilização de forma contínua diminuiu em cerca de 50% dos três aos 24 meses (p < 0,001) (Tabela 1).

Na análise dos grupos terapêuticos (Tabela 2), os grupos mais freqüentemente utilizados aos três meses foram os seguintes subgrupos dos produtos dermatológicos: D01 - antifúngicos de uso dermatológico, D02 - emolientes e protetores e D08 - antissépticos/desinfetantes (31%); os analgésicos/antipiréticos (N02 = 13,5%), os antidiarréicos, anti-inflamatórios e anti-infecciosos intestinais (A07 = 11,8%) e os medicamentos para o sistema respiratório como um todo (R = 11,0%). Aos 12 meses, 23,5% dos medicamentos utilizados eram para o sistema respiratório (R), um quinto (20,5%) eram analgésicos/antipiréticos (N02), seguidos por antianêmicos e vitaminas (A11 + B03 = 16,3%), produtos dermatológicos (D01 + D02 + D08 = 9,7%) e anti-infecciosos para uso sistêmico (J = 8,7%). Aos 24 meses, os analgésicos/antipiréticos (N02) continuaram sendo os mais usados (26,0% de todos os medicamentos consumidos), seguidos pelos medicamentos utilizados no sistema respiratório (R = 24,5%), antianêmicos e vitaminas (A11 + B03 = 11,6%) e anti-infecciosos de uso sistêmico (J = 10,0%).

Considerando o primeiro nível de classificação da ATC, ao comparar o uso aos três e aos 24 meses, observou-se uma diminuição na utilização de medicamentos destinados ao trato alimentar e metabolismo, da ordem de 54%, de produtos dermatológicos em torno de 84%, dos utilizados nos órgãos dos sentidos em torno de 52% e de 75% para os utilizados no sistema cardiovascular. Ainda, houve aumento da utilização de fármacos anti-infecciosos para uso sistêmico em quase três vezes, daqueles destinados ao sistema musculoesquelético (10 vezes), dos analgésicos (duas vezes), de produtos antiparasitários, inseticidas e repelentes (17 vezes) e para os medicamentos utilizados no sistema respiratório (duas vezes) (Tabela 2). A Figura mostra a mudança no perfil dos medicamentos mais utilizados nos três estudos, utilizando o segundo nível da classificação ATC.

 

 

DISCUSSÃO

A prevalência do uso de medicamentos nos acompanhamentos dos três e 12 meses de idade das crianças da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 foi de aproximadamente 65% e, aos 24 meses, de 55%. Esses dados são semelhantes aos encontrados no Avon Longitudinal Study of Parents and Children, conduzido na Inglaterra, em que ¾ das crianças foram expostas a algum tipo de medicamento antes de dois meses de idade.14 Em outro estudo realizado no Reino Unido 96% das mães relataram que seus filhos tinham recebido medicação, excluindo vacinas, durante os primeiros seis meses de vida.11 Na Alemanha, um estudo identificou que 50,8% das crianças e adolescentes haviam utilizado pelo menos um medicamento nos últimos sete dias, sendo encontrada maior freqüência entre as crianças de zero a dois anos (74,9%).15 O uso de medicamentos de venda livre em crianças com idade pré-escolar foi de 66,7% em estudo realizado nos Estados Unidos.16 Em outra coorte de nascimentos acompanhada na mesma cidade do atual estudo (Coorte de Nascimentos de Pelotas de 1982), o uso global de medicamentos alcançou 56% das crianças entre 35 e 53 meses de idade.4

A automedicação, definida pela OMS como a seleção e utilização de medicamentos pelos indivíduos para tratar doenças ou sintomas auto-reconhecidos,g é caracterizada pelo uso de medicamento sem a devida prescrição, orientação e/ou acompanhamento do médico ou dentista.h Sua ocorrência foi observada no presente estudo, sobretudo aquela originada de uma prescrição médica anterior, outro profissional de saúde, a mãe, familiar/amigo e outros, bem como maior ocorrência aos 24 meses de idade (34%). Embora o uso de medicamentos por meio de prescrição médica atual tenha decrescido com o avanço da idade (variando de 89% aos três meses para 66% aos 24 meses), os valores são ainda superiores à freqüência referida em outro estudo sobre o uso de medicamentos na Coorte de Nascimentos de 1982. Nesse estudo, seguindo metodologia semelhante, 62% dos medicamentos utilizados nas crianças entre 35 e 53 meses de idade foram indicados por médico.4 Esse achado sugere que a automedicação vem aumentando, conforme o avanço da idade, ao menos em crianças menores até dois anos.

Estudo transversal realizado em dois municípios do estado de São Paulo sobre automedicação em crianças e adolescentes identificou a ocorrência de automedicação em 56,6% da amostra, sendo as mães as principais responsáveis (51%).20 No atual estudo, a influência da mãe na automedicação chegou a 12,0% aos 24 meses de idade (tendo partido de 2,6% aos três meses). Tal fato pode explicar que as mães aprendem e incorporam práticas de tratamento orientadas por médicos, nem sempre adequadas para a situação.6

Conforme estudo entre crianças australianas, a automedicação tem sua prática facilitada pela existência dos medicamentos de venda livre, cujo uso é generalizado, mesmo não havendo evidência em relação à sua eficácia nem informação sobre o risco potencial de toxicidade.1 Os medicamentos de venda livre, especialmente aqueles usados para sintomas de gripe e resfriados, estão sujeitos a risco de sobredosagem, subdosagem e efeitos adversos. Em estudo realizado nos Estados Unidos, 1.500 crianças foram tratadas por efeitos adversos relacionados a medicamentos de venda livre contra gripe e resfriado em um serviço de emergência pediátrica num período de dois anos.22 Não existem dados que sustentem o uso de medicamentos de venda livre para crianças nos primeiros anos de vida, embora eles continuem a ser utilizados. Para avaliar a real inadequação do uso de medicamentos por automedicação é fundamental que a análise leve em consideração o tipo de medicamento utilizado.

Tendo em vista ser um estudo de base populacional, destaca-se o baixo percentual de fornecimento gratuito (SUS) dos medicamentos utilizados e a elevada proporção de medicamentos obtidos por recursos próprios. Esses dados indicam que também nos primeiros anos de vida a principal opção de aquisição de medicamentos envolve um gasto com saúde, assim como em outros estudos sobre acesso e gastos com medicamentos no Brasil.5,18

O uso contínuo de medicamentos decresceu com o aumento da idade, de 30,7% aos três meses para 14,2% nos 24 meses. No entanto, a utilização aos três meses foi 50% superior à encontrada em outro estudo de coorte, em que a utilização ininterrupta, por um mês ou mais, ocorreu em 20% das crianças.26 Tal fato pode ser decorrente de modificações nas práticas de prescrições em função do perfil de morbidade, considerando o intervalo de 11 anos entre um estudo e o outro. Um estudo americano mostrou que a prevalência do uso de medicamentos de uso contínuo em crianças vem aumentando em várias classes terapêuticas avaliadas no período de 2002 a 2005 e que essa tendência pode estar relacionada com o aumento dos fatores de risco para doenças crônicas.7

A maior freqüência do uso de medicamentos dermatológicos aos três meses de idade está de acordo com os resultados do estudo de base populacional da Inglaterra aos dois meses de idade.14 Em estudo de coorte realizado em três países europeus (Itália, Reino Unido e Holanda), as maiores freqüências, entre as crianças com idade inferior a dois anos, foram de medicamentos anti-infecciosos seguidos dos destinados ao sistema respiratório, dermatológico e os analgésicos.25

A utilização de analgésicos/antipiréticos apresentou aumento em função da idade, chegando a 26,0% no estudo de 24 meses. Um dos analgésicos utilizados nas crianças foi o ácido acetilsalicílico (3,7%, 10,6% e 9,5% dos analgésicos utilizados, aos três, 12 e 24 meses, respectivamente). Tal resultado é preocupante, visto que o uso de tal medicamento em crianças com infecções virais pode desencadear a Síndrome de Reye.10 Outros usos de medicamentos suscitam questionar o possível uso inapropriado como antidiarréicos em crianças de três meses e anti-inflamatórios aos 12 meses de idade. Sabe-se que o uso de antidiarréicos é contra-indicado em crianças e que a terapia de reidratação oral (TRO) é a recomendação do Ministério da Saúde desde 1982 como medida de controle das doenças diarréicas.19 A prevenção continua a ser a medida mais importante na gestão da doença diarréica e inclui, entre outras medidas, o saneamento adequado, métodos de preparação e transformação de alimentos, abastecimento de água potável, higiene das mãos e instalações sanitárias.8

As mudanças no perfil da utilização de medicamentos entre os três acompanhamentos relacionam-se com o perfil epidemiológico de morbidade e cuidados de cada idade. Em estudo conduzido com crianças de até quatro anos de idade da Grande São Paulo nos anos de 1994-95, observou-se que as morbidades mais freqüentes nas crianças de até um ano de idade eram as doenças respiratórias, diarréia, problemas dermatológicos e doenças infecciosas. As mesmas doenças foram as mais prevalentes nas crianças de um a quatro anos; entretanto, aumentou a frequência das doenças infecciosas.9 Também o estudo inglês12 sobre sintomas e consultas em crianças pré-escolares encontrou que os sintomas mais freqüentes em três grupos de idade (< seis meses; seis a 17 meses; 18 a 29 meses) são aqueles relacionados ao sistema respiratório (gripe e tosse), cujas freqüências aumentam com a idade. Os sintomas relacionados ao trato alimentar e metabolismo (cólica, diarréia e vômitos) são mais freqüentes nos mais jovens. Embora a febre tenha sido freqüente nos três grupos de idade, sua freqüência tendeu a aumentar com a idade.

Existem restrições de uso e recomendações preconizadas pela OMS para vários fármacos amplamente utilizados em crianças no Brasil, como, por exemplo, ibuprofeno, paracetamol, benzilpenicilina procaína, trimetoprim e prometazina, entre outros. Em relação aos anti-inflamatórios, a OMS preconiza o uso do ibuprofeno apenas para crianças maiores de três meses e o paracetamol é contra-indicado como antiinflamatório, devido à falta de benefício comprovado.b Todos esses medicamentos foram usados nos três acompanhamentos, alguns deles (ibuprofeno, paracetamol e trimetoprim) amplamente.

Entre as limitações deste estudo, pode ter ocorrido erro de recordatório, o que se procurou dirimir com a adoção de um período recordatório de 15 dias. Eventuais imprecisões quanto ao medicamento utilizado pelas crianças no momento do relato das mães durante as entrevistas foram atenuadas pela solicitação dos receituários médicos e apresentação das caixas dos medicamentos em uso pelas crianças (nos três acompanhamentos, para mais de 55% dos medicamentos relatados, foram apresentadas as embalagens).

A discussão de quando e qual medicamento deve ser ou não utilizado por uma criança perante alguns sintomas clínicos é antiga. Essa utilização necessita de bases clínicas e justificativas farmacológicas, pois, como relatado em estudo sobre prevalência de sintomas e consultas em crianças pré-escolares, febre, sintomas respiratórios e gastrintestinais são comuns no início da vida.12 Assim, os pais devem ser aconselhados a utilizar o tratamento mínimo necessário, uma vez que o uso de dois fármacos aumenta os riscos de sobredosagem, subdosagem e de efeitos adversos; além de aumentar os custos e resultar em maior medicalização nas crianças.13

O medicamento deve ser um elemento de primeira atenção, já que pode constituir potencial benefício quando usado de forma racional, assim como pode representar risco potencial quando não são tomadas as medidas adequadas para seu uso.2

A elevada prevalência da utilização de medicamentos entre as crianças indica a necessidade da promoção do uso racional de medicamentos nessa faixa etária, levando-se em consideração a relação risco-benefício. O conhecimento sobre o perfil da utilização dos medicamentos num estudo de base populacional com caráter longitudinal pode contribuir com a construção de políticas públicas na área do medicamento, visando garantir o acesso aos medicamentos necessários e a diminuição do uso indevido de medicamentos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Andréa Dâmaso Bertoldi
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Av. Unisinos, 950
93022-000 São Leopoldo, RS, Brasil
E-mail: andreadamaso.epi@gmail.com

Recebido: 16/12/2009
Aprovado: 14/2/2010
Oliveira EA foi apoiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES; bolsa de mestrado).

 

 

Artigo baseado na dissertação de mestrado de Oliveira EA, apresentada à Universidade do Vale do Rio dos Sinos em 2009.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Organización Mundial de la Salud. Promoción del uso racional de medicamentos: componentes centrales. Ginebra; 2002. (Perspectivas políticas sobre medicamentos de la OMS, 5).
b World Health Organization. WHO Model list of essential medicines for children. 2007 [citado 2010 mai 24] Disponível em: http://www.who.int/childmedicines/publications/EMLc%20(2).pdf
c Sistema Nacional de Informação Tóxico Farmacológica - SINITOX. 2004 [citado 2010 mai 24]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/sinitox/2004
d Agência Fiocruz de Notícias. SINITOX. Sistema Nacional de Informação Tóxico Farmacológica. 2007 [citado 2010 mai 24]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1211&sid=9
e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2007 [citado 2010 mai 24]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1
f WHO Collaborating Centre for Drug Statistics Methodology. Anatomical therapeutic chemical (ATC) classification index with defined daily doses (DDDs). Oslo, 1998.
g World Health Organization. The role of the pharmacist in self-care and self-medication. Hague; 1998. (Report WHO/DAP/98.13).
h Ministério da Saúde. Portaria MS/GM Nº 3.916, de 30 de outubro de 1998. [Aprova a política nacional de Medicamentos]. Brasília, DF; 1998.

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