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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.4 São Paulo Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000400007 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Perfil epidemiológico dos pacientes em terapia renal substitutiva no Brasil, 2000-2004

 

Perfil epidemiológico de los pacientes en terapia renal substitutiva en Brasil, 2000-2004

 

 

Mariangela Leal CherchigliaI; Elaine Leandro MachadoI; Daniele Araújo Campo SzusterI; Eli Iola Gurgel AndradeI; Francisco de Assis AcúrcioI; Waleska Teixeira CaiaffaI; Ricardo SessoII; Augusto A Guerra JuniorI; Odilon Vanni de QueirozI; Isabel Cristina GomesIII

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública. Departamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Medicina. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG, Brasil
IIDepartamento de Medicina. Faculdade de Medicina. Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIIPrograma de Pós-Graduação em Estatística. Departamento de Estatística. Instituto de Ciências Exatas. UFMG. Belo Horizonte, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever o perfil epidemiológico e clínico de pacientes em terapia renal substitutiva, identificando fatores associados ao risco de morte.
MÉTODOS: Estudo observacional, prospectivo não concorrente, a partir de dados de 90.356 pacientes da Base Nacional em Terapias Renais Substitutivas, no Brasil. Foi realizado relacionamento determinístico-probabilístico do Sistema de Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade/Custo e do Sistema de Informação de Mortalidade. Foram incluídos todos os pacientes incidentes que iniciaram diálise entre 1/1/2000 e 31/12/2004, acompanhados até a morte ou final de 2004. Idade, sexo, região de residência, doença renal primária, causa do óbito foram analisados. Ajustou-se um modelo de riscos proporcionais para identificar fatores associados ao risco de morte.
RESULTADOS: Ocorreu um aumento médio de 5,5% na prevalência de pacientes em terapia enquanto a incidência manteve-se estável no período. Hemodiálise foi a modalidade inicial predominante (89%). A maioria dos pacientes era do sexo masculino, com idade média de 53 anos, residente na região Sudeste, e apresentava causa indeterminada como principal causa básica da doença renal crônica, seguida da hipertensão, diabetes e glomerulonefrites. Desses pacientes, 7% realizou transplante renal e 42% evoluiu para o óbito. Os pacientes em diálise peritoneal eram mais idosos e apresentavam maior prevalência de diabetes. Entre os não transplantados, 45% foi a óbito e, entre os transplantados, 7%. No modelo final de riscos proporcionais de Cox, o risco de mortalidade foi associado com o aumento da idade, sexo feminino, ter diabetes, residir nas regiões Norte e Nordeste, diálise peritoneal como modalidade de entrada e não ter realizado transplante renal.
CONCLUSÕES: Houve aumento da prevalência de pacientes em terapia renal no Brasil. Pacientes com idade avançada, diabetes, do sexo feminino, residentes nas regiões Norte e Nordeste e sem transplante renal apresentam maior risco de morte.

Descritores: Insuficiência Renal Crônica, epidemiologia. Terapia de Substituição Renal. Sistemas de Informação Hospitalar. Registros de Mortalidade.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir el perfil epidemiológico y clínico de pacientes en terapia renal substitutiva, identificando factores asociados al riesgo de muerte.
MÉTODOS: Estudio de observación, prospectivo no concurrente, a partir de datos de 90.356 pacientes de la Base Nacional en Terapias Renales Substitutivas, en Brasil. Fue realizado reracionamiento determinístico-probabilístico del Sistema de Información de Mortalidad. Fueron incluidos todos los pacientes incidentes que iniciaron diálisis entre 1/1/2000 y 31/12/2004, acompañados hasta la muerte o final de 2004. Edad, sexo, región de residencia, enfermedad renal primaria, causa del óbito fueron analizados. Se ajustó un modelo de riesgos proporcionales para identificar factores asociados al riesgo de muerte.
RESULTADOS: Ocurrió un aumento promedio de 5,5% en la prevalencia de pacientes en terapia, con relación a la incidencia se mantuvo estable en el período. Hemodiálisis fue la modalidad inicial predominante (89%). La mayoría de los pacientes era del sexo masculino, con edad promedio de 53 años, residente en la región Sureste y presentaba causa indeterminada como principal causa básica de la enfermedad renal crónica, seguida de la hipertensión, diabetes y glomerulonefritis. De esos pacientes, 7% realizaron transplante renal y 42% evolucionaron a óbito. Los pacientes en diálisis peritoneal eran más ancianos y presentaban mayor prevalencia de diabetes. Entre los no transplantados, 45% fueron a óbito y, entre los transplantadas 7%. En el modelo final de riesgos proporcionales de Cox, el riesgo de mortalidad estuvo asociado con el aumento de la edad, sexo femenino, tener diabetes, residir en la región Norte y Noreste, diálisis peritoneal como modalidad de entrada y no haber realizado transplante renal.
CONCLUSIONES: Hubo aumento de la prevalencia de pacientes en terapia renal en Brasil. Pacientes con edad avanzada, diabetes, del sexo femenino, residentes en la región Norte y Noreste y sin transplante renal presentan mayor riesgo de muerte.

Descriptores: Insuficiencia Renal Crónica, epidemiología. Terapia de Reemplazo Renal. Sistemas de Información en Hospital. Registros de Mortalidad.


 

 

INTRODUÇÃO

O envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida, decorrentes da transição demográfica nas últimas décadas no Brasil, contribuíram para mudanças no perfil de morbimortalidade e aumento da prevalência das doenças crônicas, entre elas a doença renal crônica (DRC).7 Hipertensão e diabetes são os principais fatores de risco para DRC e estão se tornando mais freqüentes na população em geral, contribuindo para o aumento da incidência de DRC.4

A DRC é um problema mundial de saúde pública. As doenças do rim e trato urinário contribuem com aproximadamente 850 mil mortes a cada ano e 15 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade, constituindo-se na 12ª causa de morte e na 17ª causa de incapacidade.23 O estágio final da DRC é denominado insuficiência renal crônica terminal (IRCT), quando o paciente necessita de uma terapia renal substitutiva (TRS) para sobreviver. As TRSs disponíveis são a diálise (hemodiálise [HD] e diálise peritoneal [DP]) e o transplante renal (TX). A prevalência de IRCT na população mundial aumentou 6% entre 2003 e 2004.7 Ao final de 2004, aproximadamente 1,8 milhão de pacientes estavam submetidos à TRS no mundo, representando uma prevalência de 280 pacientes por milhão de população (pmp). Desses, 77% encontrava-se em alguma forma de diálise e 23% era de transplantados renais.7

O crescimento da população com DRC tem implicações substanciais para as políticas públicas de saúde, sobretudo pelo custo elevado dos pacientes em TRS, com 85% a 95% dessa terapêutica subsidiada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).18 A coleta de informações sistematizadas sobre pacientes em diálise tem sido um desafio para a maioria dos países. No Brasil, observa-se uma escassez de dados de abrangência nacional que contribuam para o monitoramento da população em TRS.18 Uma possibilidade de superar tal dificuldade é a utilização de informações oriundas de sistemas de dados administrativos, cujo objetivo primordial é o registro de pagamentos de procedimentos realizados pelo SUS para os pacientes em TRS.

O presente estudo teve por objetivo descrever o perfil epidemiológico e clínico dos pacientes em TRS no Brasil, identificando fatores associados ao risco de morte.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo do tipo observacional, prospectivo não concorrente, derivado de estudo maior, intitulado "Projeto TRS - Avaliação econômico-epidemiológica das terapias renais substitutivas no Brasil", conduzido pelo Grupo de Pesquisa em Economia da Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais.5 A fonte de dados utilizada foi a Base Nacional em TRS, desenvolvida por meio da técnica de relacionamento determinístico-probabilístico aplicada aos bancos de dados de Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade/Custo (Apac) do Sistema de Informação Ambulatorial (SIA) do SUS e o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), com o objetivo de habilitar o seguimento de coorte.5,15

Considerando que os procedimentos de TRS são ininterruptos, foi realizado um processo de imputação das informações para as lacunas de registros em modalidades de TRS existentes entre o primeiro mês de observação, a ocorrência do óbito ou o término de acompanhamento, seja pela finalização do estudo (31/12/2004), seja por perda de acompanhamento. O critério de imputação adotado foi o de preenchimento aleatório, quando se tratava de intervalos entre modalidades diferentes, e repetição, em caso da mesma modalidade nos extremos do intervalo.

A população estudada incluiu todos os pacientes incidentes registrados na Base Nacional em TRS, que iniciaram diálise no período de 1/1/2000 a 31/12/2004, com pelo menos três meses consecutivos de registros de procedimentos à entrada na coorte. Para a análise de sobrevida foram excluídos os pacientes que faleceram nos três primeiros meses em TRS e os menores de 18 anos.

A variável dependente foi o tempo decorrido entre a data de entrada na modalidade inicial de tratamento até a data do óbito do paciente. As variáveis independentes foram: características demográficas (idade, sexo, município e região de residência); clínicas (diagnóstico inicial da causa de IRC [Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde - 10ª Revisão - CID 10], modalidade de tratamento [HD, DP e TX], tempo de tratamento); e de desfecho (óbito, continuidade de tratamento ou perda de seguimento). Foi definida como modalidade inicial de tratamento a primeira modalidade na qual o paciente permaneceu por pelo menos três meses consecutivos, não tendo sido consideradas as mudanças posteriores de modalidade.

Foi realizada análise descritiva por meio de distribuições de freqüências, medidas de tendência central e de variabilidade para as características estudadas. O teste χ2 foi utilizado para verificar diferenças de proporções entre variáveis categóricas e o teste t de Student para comparação de variáveis contínuas.

A análise de sobrevida considerou o tempo total em TRS (HD ou DP) e o tempo de sobrevida após a realização do transplante renal, independentemente das mudanças entre modalidades. O óbito foi considerado como evento final e os pacientes somente foram censurados por perda de seguimento ou ao final do período de estudo.10

Para a identificação do efeito independente das variáveis explicativas da sobrevida, utilizou-se o modelo multivariado de riscos proporcionais de Cox (hazard ratio - HR). A suposição de proporcionalidade dos riscos foi avaliada pela análise do gráfico log minus log. A qualidade do ajuste do modelo final foi avaliada por análise gráfica dos resíduos de Martingale e Deviance. As análises foram realizadas utilizando-se o pacote survivalª do software livre Rb 2.7.2, sendo adotado um nível de significância de 5%.

O Projeto TRS foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, Parecer ETIC 397/2004.

 

RESULTADOS

No Brasil, no ano 2000, 68.467 pacientes realizaram TRS, dos quais 8.501 evoluíram a óbito e 1.190 foram perdidos no acompanhamento até 31/12/2004. Entre os 58.746 pacientes em TRS no final desse ano, observou-se uma prevalência de 354 pmp (Tabela 1). Outros 17.114 pacientes iniciaram tratamento em 2000, o que corresponde a uma taxa de incidência 103 pmp. Entre 2000 e 2004, observou-se um aumento médio de 5,5% na prevalência de pacientes em TRS. As taxas de incidência apresentaram-se estáveis no período e as taxas de letalidade aumentaram.

Entre 2000 e 2004, 90.356 pacientes iniciaram diálise no Brasil, com predomínio de hemodiálise (Tabela 2). A maioria apresentava causa indeterminada como principal causa básica da DRC, seguida da hipertensão e outras doenças cardiovasculares, diabetes e glomerulonefrites. Desses pacientes, 7% realizou transplante renal (doadores vivos ou não) e 42% evoluiu para o óbito. As três principais causas de óbito entre esses pacientes foram relacionadas à DRC. Observou-se uma elevação gradativa na idade média de entrada em TRS no decorrer do período estudado, de 52 anos em 2000 para 54 anos em 2004. Nos cinco anos de acompanhamento, observou-se tempo médio de permanência em TRS de 19 meses.

Nas cinco regiões do País, a menor idade média de entrada em TRS foi observada entre pacientes residentes na região Centro-Oeste (média = 51; DP = 17,2 anos) e a maior, na região Sul (média = 55; DP=17,5 anos), que também apresentou o maior percentual de pacientes idosos (31%). Nas cinco regiões, a maioria dos pacientes (de 60% a 69%) iniciou TRS em faixa etária intermediária (20 a 64 anos).

A principal causa de DRC no primeiro registro dos pacientes da maioria das regiões foi hipertensão e outras doenças cardiovasculares (variando de 42% a 54%), exceto a região Norte, onde a causa mais freqüente foi diabetes (36%). Em todas as regiões, a maioria dos pacientes portadores de IRCT iniciou TRS em hemodiálise, com maior percentual na região Nordeste (92%). O maior percentual de DP ocorreu entre pacientes residentes na região Sudeste (12%). Na região Norte, 4% dos pacientes realizaram transplante, enquanto os maiores percentuais foram observados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste (8% cada). A região Norte apresentou o maior percentual de óbitos (47%) e a região Centro-Oeste o menor (39%). O maior tempo médio de permanência em TRS foi na região Sudeste (20 meses) e o menor na região Norte (16 meses).

A maioria dos pacientes que iniciou TRS em hemodiálise (Tabela 2) era do sexo masculino, com idade média de 53 anos, na faixa etária de 45 a 64 anos. Para aqueles que iniciaram em DP a distribuição por sexo foi semelhante, com idade média de 55 anos, e predomínio de pacientes na faixa etária acima de 65 anos. Observou-se maior número de pacientes nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul.

Dos pacientes incidentes em hemodiálise, 10% iniciou TRS tendo como acesso a fístula arteriovenosa. Em DP, 28% realizou os procedimentos de treinamento indicados à entrada em tratamento. Ao final do período de acompanhamento, 47% dos pacientes em DP e 42% em hemodiálise foram a óbito, devido principalmente a diabetes mellitus e doenças cardiovasculares. O tempo médio de permanência dos pacientes em TRS foi semelhante para ambas as modalidades.

Na Tabela 3, observa-se maior proporção de pacientes do sexo masculino no grupo de pacientes transplantados. A idade média foi de 37 anos e 2% tinha mais de 65 anos. Entre os pacientes que não realizaram transplante a idade média foi 55 anos e 28% deles tinham idade superior a 65 anos.

Dentre os pacientes transplantados, as principais causas determinadas de DRC foram as glomerulonefrites, seguidas da hipertensão e outras doenças cardiovasculares e diabetes. Para os pacientes não transplantados observaram-se a hipertensão e outras doenças cardiovasculares, diabetes e glomerulonefrites. Foram a óbito 45% dos pacientes não transplantados e 7% entre os transplantados. A média de permanência entre os não transplantados foi de 19 meses e de 41 meses para os transplantados.

Os 76.949 pacientes para a análise de sobrevida foram selecionados do total de 90.356 pacientes que iniciaram diálises no Brasil entre 2000 e 2004, excluindo-se 2.727 pacientes menores de 18 anos e 10.680 que morreram nos três primeiros meses de tratamento.

A Figura apresenta as curvas de sobrevida para os pacientes que iniciaram TRS entre 2000 e 2004 no Brasil, segundo características selecionadas. O gráfico (b) com as probabilidades cumulativas de sobrevida de Kaplan-Meier por regiões apresentou cruzamento entre as curvas referentes às regiões Sudeste e Centro-Oeste. Como não houve diferença entre essas duas regiões pelo teste de Log-rank (p = 0,66), elas foram agrupadas a fim de evitar a violação da suposição de proporcionalidade dos riscos, produzindo assim curvas que não se cruzavam e significativamente diferentes entre si.

Observaram-se menores tempos medianos até o óbito para pacientes com 65 anos ou mais; sexo feminino; diabéticos; residentes na região Nordeste e que tiveram DP como modalidade inicial. Não foi possível calcular o tempo mediano até o óbito entre os pacientes transplantados.

No modelo final de riscos proporcionais de Cox, o risco de mortalidade associou-se ao aumento da idade, sexo feminino, diabetes, residir nas regiões Norte e Nordeste, DP como modalidade de entrada e não ter realizado transplante renal (Tabela 4).

A análise dos gráficos dos resíduos Martingale e Deviance sugeriu não haver pontos atípicos (outliers) na análise, que poderiam influenciar a estimativa dos riscos relativos. Em nenhum desses gráficos houve ocorrência de resíduos maiores que 3 ou menores que -3.

 

DISCUSSÃO

O presente estudo, realizado com dados populacionais de pacientes em terapia de substituição renal atendidos no SUS, mostra aumento da prevalência do número de pacientes em TRS, embora a incidência tenha se mantido constante. A maioria desses pacientes iniciou o tratamento em hemodiálise em idade produtiva, é residente na região Sudeste e tem como causa básica da IRCT a hipertensão ou diabetes. Ao final do período de seguimento, 42% dos pacientes foram a óbito e apenas 7% realizou transplante. Constatou-se maior sobrevida para pacientes que realizaram transplante renal.

O aumento médio da prevalência da IRCT, estimado em 5% no Brasil, também segue a tendência observada internacionalmente (6%) para a população mundial.7 A prevalência encontrada para o Brasil, de 431 pmp, é maior que a média dos países latino-americanos (349 pmp em 2001),6 mas inferior à dos países desenvolvidos (700 pmp na Europa e 1.403 pmp nos EUA)3 ou mesmo às descritas para países como Uruguai (809 pmp), Chile (662 pmp) e Argentina (571 pmp).6 Esses dados sugerem que no Brasil uma parcela de pessoas com IRCT não tem sido diagnosticada ou não tem acesso aos serviços de saúde.12 Além disso, é provável que muitos pacientes com DRC morram por complicações decorrentes de diabetes e hipertensão antes de atingirem o estágio final da DRC. A taxa de incidência se manteve no período, como tem ocorrido no EUA e em diversos países desenvolvidos.20 O pequeno aumento da taxa de letalidade entre os anos de 2000 e 2004 pode ser devido à subnotificação de dados com identificação do paciente no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), como relatado por Queiroz et al (2009).15

No Brasil, os homens representaram a maioria (57%) dos pacientes incidentes, achado similar ao de estudos internacionais.8,9,19 A principal causa de DRC encontrada pelo nosso estudo foi hipertensão, seguida de diabetes, contrariando estudos realizados em outros países da América,6,8,9,19 em que o diabetes foi apontado como a principal causa. As diferenças observadas entre os estudos podem ser resultado de dificuldades em se estabelecer um diagnóstico preciso dessa doença no Brasil, como se pode inferir pelo alto percentual de causas indeterminadas. Observou-se uma proporção relevante de glomerulonefrites, que pode estar associada a agentes infecciosos,c aproximando o perfil brasileiro do de países africanos e divergindo do que ocorre em países mais desenvolvidos.1

A maior concentração de pacientes em TRS nas regiões Sudeste e Sul do país pode ser resultante da maior densidade populacional nessas regiões e da maior disponibilidade de serviços de saúde de alta complexidade tecnológica, o que favoreceria o acesso dos pacientes.21 Moura et al,11 utilizando para análise somente o arquivo de cadastro de pacientes da Apac, encontraram prevalência, taxa de incidência e causa básica de IRCT semelhantes aos do presente estudo, bem como o perfil de distribuição de pacientes entre regiões brasileiras.

A distribuição dos pacientes entre as modalidades de hemodiálise e DP, 89% e 11%, respectivamente, está em concordância com o cenário mundial.7 Em conformidade com o cenário mundial, os resultados do presente estudo mostram que a população em diálise tem se tornado mais idosa. Nos Estados Unidos, em 1996, os pacientes com 65 anos ou mais representaram 46% da população incidente em terapia renal.10

Apesar de não ser a principal causa básica de DRC, o diabetes apresenta maior contribuição proporcional para pacientes que iniciaram em DP do que para aqueles em hemodiálise, sugerindo uma alocação diferenciada de pacientes entre essas modalidades. Nos países desenvolvidos, os pacientes em DP são mais autônomos, têm melhor escolaridade, fazem um melhor preparo antes de iniciar a TRS e apresentam menos comorbidades.19 A maioria dos pacientes com IRCT pode ser tratada em qualquer modalidade de TRS, conforme suas condições clínicas, tendo cada uma delas vantagens e desvantagens. Entretanto, acredita-se que no Brasil, a exemplo de outros países, a seleção da modalidade se baseia nas condições clínicas, mas também em razões não médicas, como: reembolso financeiro, falta de informação consistente ao paciente sobre as opções, disponibilidade de recursos, aspectos de ordem moral, social e cultural.3

No presente estudo, 10% dos pacientes que iniciaram hemodiálise o fizeram com acesso vascular definitivo (fístula arteriovenosa); em países europeus esse percentual foi de 66% e nos EUA, de 15%.14 No Brasil, o alto percentual de pessoas iniciando hemodiálise com acesso temporário indica a possibilidade de dificuldades no acesso ao nefrologista antes do estágio terminal da doença, diagnóstico tardio ou mesmo subdiagnóstico da DRC.12

No Brasil, foram transplantados 7% dos pacientes incidentes em cinco anos de seguimento, no Reino Unido esse percentual foi de 6,2%,17 na Austrália 5,7% e na Nova Zelândia 3,7%.d Essa população transplantada iniciou TRS mais jovem e com maior proporção de glomerulonefrites (47%) como causa primária da DRC. Apesar da existência de uma lista de espera única, pacientes residentes na região Sudeste tiveram maior acesso ao transplante renal, revelando disparidades geográficas relatadas em outros estudos.13 Apesar do aumento da demanda por transplante de rim e do crescimento expressivo da lista de espera, tem sido relatado que o acesso ao transplante renal é bastante desigual entre regiões do País, especialmente para a população de baixa renda, sem plano privado de saúde e que reside distante dos Centros Transplantadores, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste.e

Conforme outros estudos,9,16 encontramos maior sobrevida para pacientes que realizaram transplante renal. Ainda, maior mortalidade de pacientes em TRS foi associada ao aumento da idade e à presença de diagnóstico de diabetes. Estudos internacionais mostram que, além desses fatores, um longo tempo de espera na lista para o transplante contribui para maior mortalidade.22 Além disso, tem sido relatada uma vantagem na sobrevida, em longo prazo, para pacientes transplantados, mesmo em pacientes diabéticos.9

Nesse estudo observou-se menor sobrevida para pacientes que iniciaram TRS em DP, comparativamente àqueles em HD. Esse achado pode ser devido a um provável viés de seleção na alocação dos pacientes para a DP como modalidade inicial, uma vez que, como relatado anteriormente, notou-se maior proporção de pacientes que iniciaram nessa modalidade com maior idade média e maior proporção de diabéticos. Não há consenso na literatura sobre os benefícios de sobrevida entre as diferentes diálises. Entretanto, estudos recentes sugerem maior sobrevida em DP no primeiro ano em TRS, seguido de uma sobrevida equivalente entre as modalidades.8,22

É necessário que se tenham registros confiáveis e disponíveis relativos às TRSs no País, pois eles são fundamentais para o conhecimento de vários aspectos da doença renal crônica, como sua prevalência, incidência, mortalidade e fatores que influenciam em sua evolução. Contudo, a coleta sistematizada de dados dos pacientes em diálise permanece um desafio na maioria dos países. Além disso, podem fornecer dados para caracterizar a realidade do tratamento dialítico, a identificação de problemas no provimento da terapêutica, a análise da sobrevida, da morbidade e da qualidade de vida dos pacientes. Esse conjunto de informações pode subsidiar o planejamento das ações e sustentar o uso mais racional dos recursos econômicos direcionados a essa terapêutica de alto custo.18

Apesar das possibilidades que a Base Nacional em TRS propicia, a utilização de um sistema de dados administrativos, cujo propósito é o faturamento e não a pesquisa, resulta em algumas informações incompletas, inconsistentes e inexistentes. Tais características limitam a possibilidade de realizar maiores inferências. Como exemplo, pode-se citar a ausência de dados socioeconômicos (raça, educação e renda) e clínicos (comorbidades), fundamentais para avaliar a eqüidade no acesso às TRSs, bem como fatores de risco associados. Além disso, destacamos a alta proporção de causas indeterminadas (44%), que prejudicou a distribuição das causas de DRC; em países desenvolvidos, esse percentual é no máximo de 19%.2 Outras informações importantes e ainda ausentes nessa Base referem-se à internação (causa, tempo de permanência) e ao tipo de doador para o transplante renal (vivo ou não).

Em conclusão, houve aumento da prevalência de pacientes em terapia renal no Brasil, sendo alta a mortalidade no período de cinco anos de acompanhamento. Os fatores associados ao maior risco de mortalidade foram o aumento da idade, sexo feminino, ter diabetes, residir nas regiões Norte e Nordeste, diálise peritoneal como modalidade de entrada e não ter realizado transplante renal. Esses achados podem contribuir para o aperfeiçoamento da atenção ao portador de doença renal crônica no País.

 

AGRADECIMENTOS

Aos demais pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Economia da Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais, por sugestões ao projeto e ao manuscrito.

 

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Correspondência | Correspondence:
Mariangela Cherchiglia
Av. Alfredo Balena, 190 - Santa Efigênia Sala 706
30130-100 Belo Horizonte, MG, Brasil
E-mail: cherchml@medicina.ufmg.br

Recebido: 14/8/2009
Aprovado: 5/2/2010
Pesquisa financiada por: Fundo Nacional de Saúde/Ministério da Saúde (Convênio Nº 4864/2005), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (Processo 409729/2006-0) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - Fapemig (Processo EDT 3284/06).

 

 

Trabalho apresentado no XVIII Congresso Mundial de Epidemiologia e VII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em Porto Alegre, RS, 2008.
Os autores declaram não haver conflitos de interesses.
a Therneau T. Survival analysis, including penalized likelihood: package version 2.34-1 [Internet]. R-Forge Statistics. [citado 2008 out 20]. Disponível em: https://r-forge.r-project.org/search/?type_of_search=soft&group_id=0&atid=0&forum_id=0& group_project_id=0&words=package+version+2.34-1&Search=Search
b R Development Core Team (2008). R: A language and environment for statistical computing. R Foundation for Statistical Computing, Vienna, Austria. ISBN 3-900051- 07-0, URL http://www.R-project.org.
c Sesso R. Epidemiologia da doença renal crônica no Brasil e sua prevenção, Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo. In: Centro de Vigilância Epidemiológica "Prof. Alexandre Vranjac". Insuficiência renal crônica para profissionais da saúde. [citado 2007 jan 21]. Disponível em: http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/cronicas/irc_prof.htm
d Campbell S, McDonald S, Chang S, Excell L, Livingsdon B. Transplantation In: McDonald S, Chang S, Excell L. ANZDATA Registry. Report 2007. Australia and New Zealand Dialysis and Transplant Registry. Adelaide, South Australia. 2007. vol. 8:1- 22.
e Tribunal de Contas da União. Secretaria de Fiscalização e Avaliação de Programas de Governo. Avaliação do TCU sobre o Programa Doação, Captação e Transplante de Órgãos e Tecidos. Brasília, DF: 2006.