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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.4 São Paulo ago. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000400009 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Validade do instrumento WHO VAW STUDY para estimar violência de gênero contra a mulher

 

Validez de instrumento para estimar violencia de género contra la mujer

 

 

Lilia Blima SchraiberI; Maria do Rosário Dias O LatorreII; Ivan França JrIII; Neuber José SegriII; Ana Flávia Pires Lucas D'OliveiraI

IDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública (FSP). USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Saúde Materno-Infantil. FSP-USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Validar o instrumento do estudo World Health Organization Violence Against Women (WHO VAW) sobre violência psicológica, física e sexual por parceiros íntimos contra mulheres.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado em vários países entre 2000 e 2003, inclusive Brasil. Selecionaram-se amostras aleatórias e representativas de mulheres de 15-49 anos com parceiros íntimos, residentes na cidade de São Paulo, SP, (n = 940) e na Zona da Mata de Pernambuco (n = 1.188). Realizou-se análise fatorial exploratória das perguntas sobre violências (quatro psicológicas, seis físicas e três sexuais), com rotação varimax e criação de três fatores. Calculou-se alfa de Cronbach para análise da consistência interna. Para a validação por grupos extremos, médias de escores (zero a 13 pontos) de violência foram testadas em relação aos desfechos: auto-avaliação de saúde, atividades diárias, presença de dor ou desconforto, ideação e tentativa de suicídio, grande consumo de álcool e presença de transtorno mental comum.
RESULTADOS: Foram definidos três fatores com variância acumulada semelhante (0,6092 em São Paulo e 0,6350 na Zona da Mata). Para São Paulo, o primeiro fator foi determinado pela violência física, o segundo pela sexual e o terceiro pela psicológica. Para a Zona da Mata, o primeiro fator foi composto pela violência psicológica, o segundo pela física e o terceiro pela sexual. Coeficientes de alfa de Cronbach foram 0,88 em São Paulo e 0,89 na Zona da Mata. As médias dos escores de violência foram significativamente maiores para desfechos menos favoráveis, exceto tentativa de suicídio em São Paulo.
CONCLUSÕES: O instrumento mostrou-se adequado para estimar a violência de gênero contra a mulher perpetrada por seu parceiro íntimo e pode ser utilizado em estudos sobre o tema. Ele tem alta consistência interna e capacidade de discriminar as formas de violência psicológica, física e sexual, perpetrada em contextos sociais diversos. O instrumento também caracteriza a mulher agredida e sua relação com o agressor, facilitando análises de gênero.

Descritores: Maus-tratos conjugais. Violência contra a Mulher. Violência Sexual. Violência Doméstica. Gênero e Saúde. Estudos Transversais. Estudos de Validação.


RESUMEN

OBJETIVO: Validar preguntas sobre violencia psicológica, física y sexual por parejas íntimas contra mujeres.
MÉTODOS: Estudio transversal, coordinado por la Organización Mundial de la Salud, realizado en varios países (2000-2003), inclusive Brasil. Se seleccionaron muestras aleatorias y representativas de mujeres de 15-49 años con parejas íntimas, residentes, en la ciudad de Sao Paulo (en Sureste de Brasil, n=940) y en la Zona de Mata de Pernambuco (en Noreste de Brasil, n=1188). Se realizó análisis factorial exploratorio de las preguntas sobre violencias (cuatro psicológicas, seis físicas y tres sexuales), con rotación varimax y elaboración de tres factores. Se calculó alfa de Cronbach para análisis de la consistencia interna. Para la validación por grupos extremos, promedios de escores (cero a 13 puntos) de violencia fueron evaluadas con relación a los resultados: auto-evaluación de salud, actividades diarias, presencia de dolor o incomodidad, concepción de idea e intento de suicidio, grande consumo de alcohol y presencia de trastorno mental común.
RESULTADOS: Fueron definidos tres factores con varianza acumulada semejante (0,6092 en Sao Paulo y 0,6350 en la Zona de Mata). Para Sao Paulo, el primer factor fue determinado por la violencia física, el segundo por la sexual y el tercero por la psicológica. Para la Zona de Mata, el primer factor estuvo compuesto por la violencia psicológica, el segundo por la física y el tercero por la sexual. Coeficientes de alfa de Cronbach fueron 0,88 en Sao Paulo y 0,89 en la Zona de Mata. Los promedios de los escores de violencia fueron significativamente mayores para resultados menos favorables, excepto intento de suicidio en Sao Paulo.
CONCLUSIONES: El instrumento se mostró adecuado para estimar la violencia de género contra la mujer perpetrada por su pareja íntima y puede ser utilizado en estudios sobre el tema. El mismo tiene alta consistencia interna y capacidad de discriminar las formas de violencia psicológica, física y sexual, perpetrada en contextos sociales diversos. El instrumento también caracteriza a la mujer agredida y su relación con el agresor, facilitando análisis de género.

Descriptores: Spouse Abuse, Violence Against Women, Sexual Violence, Domestic Violence, Gender and Health, Cross-Sectional Studies. Validation Studies.


 

 

INTRODUÇÃO

O número de estudos acerca da violência contra a mulher tem crescido desde a última década do século XX. No início, as pesquisas sobre a violência buscaram estimar as magnitudes do problema10,25 e, mais recentemente, analisar fatores associados a sua ocorrência e explorar sua participação como fator relevante para vários desfechos em saúde.1,5,12,13

Esses estudos apresentam uma multiplicidade de desenhos, amostras10,25 e instrumentos.2,3 Os instrumentos apresentam, via de regra, determinado rol de atos, discriminando-os como diferentes situações24 nas relações interpessoais, conjugais e familiares. A depender de como tais relações estão discriminadas, o rol de atos pode abordar as situações, como conflitos de gênero, isto é, como relações assimétricas e orientadas segundo a perspectiva da desigualdade de gênero. O rol pode ser mais amplo, como na Conflict Tactic Scale (CTS),22,24 validada no Brasil16 e que enumera detalhadamente desentendimentos verbais, agressões físicas e sexuais, ou pode restringir-se a alguns atos, como no Abuse Assessment Screen (AAS).15

Diversos autores2,4,11,17,24 discutem como abordar a violência contra a mulher, a mensuração da violência e as possibilidades comparativas ante contextos socioculturais diversos. Tendo em vista a polissemia do termo violência - também observada no Brasil -18,20 e as dificuldades comunicacionais decorrentes, há necessidade de os instrumentos discriminarem os atos de agressão em questionários ou outras formas de se indagar sobre situações de violência. Esses cuidados metodológicos servem para evitar dificuldades no entendimento das perguntas de tal forma que possam levar a viés de informação sobre as agressões ou abusos sofridos por parte das mulheres em inquéritos, minimizando a subestimação das violências.

Outro elemento relevante é a identificação do agressor, discriminando-o de modo claro no instrumento. Essa identificação do autor das violências nem sempre é realizada e depende da perspectiva explicativa adotada em cada estudo acerca da violência. Isso porque tal identificação permite não apenas caracterizar o ato perpetrado e individualizar a vítima, mas mostrá-lo como o produto de um comportamento agressor.7,21,24,ª A literatura aponta a existência de três diferentes perspectivas explicativas como construções teóricas mais comuns na abordagem da violência contra a mulher (como fenômeno familiar, individual ou de gênero)21 e a adoção de cada uma delas redundará em instrumentos diferentes. No presente artigo, nosso interesse está nos estudos que se valem da perspectiva de gênero, pois entendem a violência como produto de conflitos que surgem nas relações de casal, em situações mais estáveis e mais duradouras, ou mesmo em namoros ou encontros afetivo-sexuais, podendo ocorrer entre homens e mulheres ou em pares de mesmo sexo.

Os conflitos são tidos como resultantes das desigualdades de valor e poder nessas relações. Essas situações não são estruturais de um indivíduo ou de uma dinâmica familiar, mas dependentes de aspectos processuais de como as relações são construídas e da cultura vigente, nas distintas atribuições sociais de homens e mulheres constituintes das relações de gênero em produção em cada sociedade. Isso permite desenvolver um modelo de explicação, tal como o ecológico,9,13 em que, mesmo partindo do comportamento individual, amplia-se a compreensão da violência como produto das relações conjugais, do contexto comunitário e das relações sociais mais amplas.

Buscando aprofundar o conhecimento sobre a violência de gênero e permitir comparações transculturais, em 1998, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou um estudo multipaíses: o WHO Multicountry Study on Women's Health and Domestic Violence.7,8 Baseado em inquéritos domiciliares, o estudo objetivou estimar a prevalência das diferentes formas de violência contra mulheres e fatores associados à violência por parceiro entre os dez países inicialmente participantes (Bangladesh, Brasil, Etiópia, Japão, Namíbia, Peru, Samoa, Sérvia e Montenegro, Tailândia e Tanzânia). Foram, ainda, exploradas as associações dessa violência com questões de saúde e as estratégias ou serviços que as mulheres usam para lidar com a violência de seus parceiros. Em conformidade com sua perspectiva de gênero, foi estudada a violência física, sexual ou psicológica perpetrada pelos parceiros íntimos das mulheres ao longo de sua vida ou nos 12 meses anteriores à aplicação do questionário. Outras formas de violência foram investigadas,7,8 mas vão além do escopo do presente estudo. Para garantir qualidade e comparabilidade em contextos socioculturais diversos, valeu-se de uma extensa padronização de definições, desenho, metodologia e ética da pesquisa.6,7,19

O propósito do presente artigo é analisar a validade das perguntas, em português, sobre violência (psicológica, física e sexual) por parceiros íntimos das mulheres.

 

MÉTODOS

O estudo da OMS foi realizado entre 2000 e 2003. Cada país participante selecionou dois sítios de pesquisa: uma grande cidade e uma região de características urbano-rurais; no Brasil, a cidade de São Paulo (SP) e a região da Zona da Mata de Pernambuco (ZMP), respectivamente, totalizando 15 municípios. São Paulo é uma cidade cosmopolita, com cerca de 11 milhões de habitantes e características de grande metrópole. A ZMP é uma região urbano-rural, com produção de cana de açúcar e turismo, e com cerca de um milhão de habitantes, dos quais 60% em zona urbana.

Para inquérito domiciliar, realizado no Brasil em 2000-2001, foi constituída uma amostra aleatória e representativa em cada sítio, entrevistando-se em SP e na ZMP, respectivamente, 1.172 e 1.473 mulheres de 15 a 49 anos. Destas, 940 (SP) e 1.188 (ZMP) tiveram alguma vez na vida parceiros íntimos (parceria afetivo-sexual), sendo consideradas elegíveis para a presente análise. A montagem de equipes de pesquisadores responsáveis e de campo, os treinamentos, as supervisões e os controles de qualidade foram padronizados para todos os países participantes, pela equipe de coordenação do estudo multipaíses pertencente à OMS. Devido a especiais cuidados éticos que o tema exige, as equipes eram mistas e compostas de pesquisadores universitários com experiência em estudos epidemiológicos e de pesquisadores de organizações não-governamentais (ONG) feministas.6,8,19

O questionário foi composto por um núcleo comum de perguntas sobre violências.8,19 A formulação desse núcleo comum foi precedida de pesquisa qualitativa, realizada em SP e na ZMP, e concebida como etapa formativa do questionário.7 Foram realizados 16 grupos focais sobre violência doméstica com homens e mulheres de diferentes idades e procedência rural/urbana dos municípios estudados. Os participantes de cada grupo foram sempre indivíduos do mesmo sexo, quatro deles com homens e quatro com mulheres. Foram também estratificados por renda (< 5 e > 5 salários mínimos) e escolaridade (< 8ª e > 8ª série), realizando-se dois grupos com indivíduos de renda e escolaridade mais baixas e dois com indivíduos de renda e escolaridade mais altas. O objetivo foi estudar as representações de gênero nas camadas populares e nas camadas mais escolarizadas e ricas, bem como seu efeito sobre a violência doméstica e por parceiro íntimo contra mulheres. Buscou-se também alcançar termos e modos de uso corrente na linguagem sobre violência, como formas mais adequadas de nomear e perguntar a seu respeito. Além disso, foi observado como esses grupos lidam com a violência e qual relação estabelecem entre sua ocorrência e questões de saúde ou de seu cuidado. Dentro desses mesmos propósitos foram realizadas 12 entrevistas em profundidade com mulheres que haviam sofrido violência por seu parceiro íntimo (5 em ZMP e 7 em SP). Foram realizadas mais 39 entrevistas com informantes-chave de serviços especializados nesse tipo de atendimento em SP e na ZMP para abordar como profissionais envolvidos em assistência a casos de violência doméstica a representam e lidam com a situação.7,19

A elaboração final do núcleo comum, em inglês, efetivada pelo comitê internacional do estudo, contou com a participação dos pesquisadores dos países. Os dados da pesquisa qualitativa também guiaram a tradução e adaptação local do questionário, bem como subsidiaram melhores análises e interpretações dos resultados do inquérito em cada país. Tradutores oficialmente habilitados e com experiência no campo da saúde realizaram a tradução do núcleo comum. Adicionalmente, comitês consultivos (com 25 membros para SP e 22 para ZMP) participaram da adaptação cultural e melhor modo de formular as perguntas. Esses comitês eram compostos por pesquisadores em violência, gestores e profissionais de serviços de saúde, além de representantes de movimentos sociais feministas e de redes de serviços ou ONG especializadas no tema. Finalmente, o questionário foi retraduzido para o inglês (back translation) e pré-testado, avaliando-se a facilidade e duração de sua aplicação na fase de piloto da pesquisa.7

Nas análises, pelo delineamento complexo da amostragem, usou-se o software Stata, versão 9 com comandos svy, considerando o desenho da amostra.

Na validação dessas perguntas sobre violência, apresenta-se primeiro uma análise descritiva das variáveis relativas à mulher, violência psicológica, física e sexual. A comparação entre as médias de idade e número de filhos das duas áreas foi feita pelos respectivos intervalos com 95% de confiança. A comparação entre estado marital e escolaridade foi feita por meio do teste de associação pelo qui-quadrado.

Para análise de constructo, foi realizada análise fatorial exploratória considerando as perguntas relacionadas às violências (quatro psicológicas, seis físicas e três sexuais) separadamente para cada área (SP e ZMP). Isso porque, em se tratando da primeira apreciação desse instrumento quanto à sua validade, foi importante considerar contextos socioculturalmente diversos. Na análise fatorial foram selecionados três fatores cujo eigenvalue foi maior que um. Foi aplicada a rotação varimax, por tratar os domínios como independentes, considerando somente as cargas superiores a 0,5. Adicionalmente, para a análise da consistência interna, foi utilizado o alfa de Cronbach.

Após a análise fatorial, foram criados escores de violência para SP e ZMP para validação por grupos extremos (validade discriminativo).23 Para a montagem desse escore considerou-se que respostas positivas em cada uma das 13 questões relacionadas às violências representaria 1 ponto na contagem desse escore. Quanto maior o escore, maior a diversidade de atos de violência contra a mulher.

Foi feita uma comparação entre as médias dos escores de SP e ZMP, utilizando a comparação por IC 95% das duas áreas. Em seguida, para cada área em separado, foram comparadas as médias do escore das diferentes categorias de auto-avaliação de saúde (excelente/boa vs. regular/fraca/muito fraca), atividades diárias (sem problemas vs. alguns/muitos problemas), presença de dor ou desconforto (sem dor/dor leve vs. alguma/muita dor), se alguma vez pensou em se matar (sim ou não), se já tentou se matar (sim ou não) e grande consumo de álcool (sim [consumir quase todos os dias] vs. não [consumir uma ou duas vezes por semana, uma a três vezes no mês, ocasionalmente pelo menos uma vez no mês ou nunca]).

Também foi utilizado Self Reporting Questionnaire (SRQ-20) para avaliar a presença de transtorno mental comum. Foram comparadas as médias das categorias sem transtorno (0 a 7 pontos) vs. com transtorno (8 a 20 pontos), como em outra publicação dessa pesquisa multipaíses.14

Em todas as análises foi considerado significativo quando p < 0,05.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP e Hospital das Clínicas (CAPPesq-609/98) em 11/11/1998 e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Parecer 002/99) em 11/1/1999.

 

RESULTADOS

Em relação a parceria íntima na vida, houve diferença na idade das mulheres entre SP e ZMP (Tabela 1). O número de filhos vivos por mulher foi maior na ZMP. As mulheres de SP apresentaram melhor escolaridade e menos união informal, quando comparadas às mulheres da ZMP.

A Tabela 2 apresenta a prevalência de cada pergunta, segundo os três diferentes tipos de violência. No caso da violência física, embora tapas e empurrões sejam os atos mais relatados, a ameaça ou uso de armas pelo parceiro íntimo foi expressiva, sobretudo na ZMP, cuja freqüência é quase o dobro da encontrada em SP. Esse importante contraste entre SP e ZMP também ocorre com a violência sexual quanto às práticas consideradas degradantes ou humilhantes.

A análise fatorial considerando apenas as questões referentes à violência está na Tabela 3. Foram definidos três fatores com variância acumulada muito semelhantes entre SP (0,6092) e ZMP (0,6350). Para SP, o primeiro fator foi determinado pelas questões referentes à violência física, seguido pela violência sexual e finalmente pela violência psicológica. Somente a questão ameaçou machucá-la ou alguém de quem você gosta não permaneceu em nenhum fator, mas optou-se por mantê-la no escore de violência, pois foi significativa na ZMP.

Para a ZMP, o primeiro fator foi composto pelas questões de violência psicológica, o segundo pela física e o terceiro pela sexual. Na ZMP, a questão deu-lhe um tapa ou jogou algo em você que poderia machucá-la e a questão empurrou-a ou deu-lhe um tranco/chacoalhão foram selecionadas tanto no fator violência psicológica quanto no fator violência física. Mesmo assim, foram contabilizadas uma única vez no escore de violência.

Os coeficientes alfa de Cronbach foram altos para as duas regiões (0,88 para SP e 0,89 para ZMP), mostrando excelente consistência interna. Analisando a consistência interna de cada fator, os valores do alfa de Cronbach para os domínios psicológico, físico e de violência sexual foram de, respectivamente, 0,78, 0,83 e 0,78 para SP e 0,79, 0,83 e 0,77 para a ZMP. A Figura 1 apresenta os resultados dos escores obtidos para cada área. Observa-se que a distribuição é assimétrica à esquerda, com mais de dois terços das mulheres com pontuação entre 0 e 2 (respectivamente, 75,1% e 68,7%). As médias dos escores foram 1,7 (IC 95%:1,5;1,9) pontos em SP e 2,3 pontos (IC 95%: 2,1;2,5) na ZMP (p < 0,001). As medianas foram de zero ponto para SP e 1 ponto na ZMP, e os percentis 90% e 95% foram de 8 e 11 pontos para SP e de 10 e 12 pontos para a ZMP.

As comparações das médias segundo algumas questões de saúde e vida estão apresentadas na Figura 2. Na ZMP houve diferença entre as médias de tentativa de suicídio, mas não em SP. Em ambos os locais de estudo, as maiores médias do escore de violência foram encontradas entre as mulheres com baixa avaliação de saúde, com problemas para realizar atividades diárias, que sentiam alguma ou muita dor, que pensaram em se matar, que consumiam álcool quase todos os dias e possuíam transtorno mental comum.

Algumas médias do escore de violência considerando a mesma questão foram maiores na ZMP. O escore médio obtido por essas mulheres é estatisticamente superior aos observados em SP. As mulheres pernambucanas possuem mais problemas para realizar as atividades diárias, sentem mais dor ou desconforto e referiram pensar mais em se matar que as paulistanas.

 

DISCUSSÃO

Esta é a primeira validação do instrumento desenvolvido pela OMS. Os resultados da análise fatorial permitem afirmar que o instrumento em língua portuguesa mostrou-se adequado e pode ser utilizado em pesquisas que estudem a violência contra a mulher por parceiros íntimos. Além de possuir alta consistência interna, é capaz de discriminar diferentes formas de violência contra mulheres em seus domínios psicológico, físico e sexual perpetradas pelos parceiros íntimos em diferentes contextos sociais no Brasil.

O instrumento foi igualmente capaz de discriminar, em uma metrópole e em uma região urbano-rural, categorias de condições de saúde menos favoráveis que já possuíam evidências científicas1,5,10 de associação com violência por parceiros íntimos. A comparabilidade permitida por essa característica é muito importante para o estudo da violência por parceiros íntimos, pois a diversidade de definições de violência e instrumentos é um dos problemas do campo. Tal achado de desempenho similar do questionário nas duas regiões não exclui outras pesquisas e análises do instrumento de encontrarem diferenças importantes. São necessários estudos ulteriores nessa direção.

Estudos que tratam a violência contra a mulher como tema geral e revisões que tomam a violência contra a mulher como objeto3,10,18 apontam o fato de que essa violência pode ocorrer na forma de agressões, abusos ou assédios, em diversas esferas da vida social, doméstica ou não, na infância ou quando a mulher é adulta, por agressores tão distintos como o cônjuge ou estranhos na rua. Não obstante, são os atos de agressão perpetrados pelos parceiros íntimos ou cônjuges, mesmo que praticados fora do lar, que mais simbolizam essa violência contra a mulher, por ser seu principal agressor.8,13 Tal situação expressa e se fundamenta na perspectiva de gênero, pois, com as recentes mudanças socioeconômicas que incidem nas relações familiares - transformando os papéis e atribuições usuais dos homens e das mulheres -, aumentam os conflitos nas relações de casal e as situações de violência, surgindo a violência contra a mulher nessas condições como uma problemática de gênero.10,18

Essas questões podem explicar tanto o bom desempenho do presente instrumento quanto a similaridade de desempenho encontrada para duas regiões de contextos sociais distintos. Isso porque ele permite atingir diretamente essa marca cultural de gênero, que, embora com alguma diversidade em atos concretos praticados, perpassa diferentes condições socioeconômicas ou políticas.9,13 Ao definir com precisão quem é o respondente e sua posição na violência, assim como os atos relatados e a relação da mulher com o perpetrador, o presente instrumento evita tratar as relações de gênero como simétricas, permitindo análises voltadas especificamente para as questões da mulher no interior das desigualdades de gênero.6,24 Essa característica é relevante para o relato da violência por parte da vítima,4 além de apresentar itens com atos concretos diversos em três domínios e que aumenta a oportunidade de fala, melhorando a revelação.

Na mesma direção, outro aspecto positivo do presente instrumento é sua formulação em perguntas precisas, em razão de serem os itens dos três domínios de violência enunciados com a qualidade de atos específicos e bem concretos de agressão, permitindo clareza na indagação e boa comunicação da pergunta. Essa característica foi confirmada pela alta consistência interna encontrada pelos coeficientes de Cronbach para a violência psicológica, física e sexual, bem como suas independências na análise fatorial e rotação varimax.

Há na violência contra a mulher uma grande superposição das violências psicológica, física e sexual,9 também observada em estudos brasileiros.19 Esse aspecto pode explicar, por exemplo, as cargas cruzadas entre violência psicológica e físicas encontradas no presente estudo.

Por fim e considerando todos os aspectos comentados, podemos concluir que estudos de violência de gênero (psicológica, física ou sexual), tomada como desfecho ou exposição, contam com um adequado instrumento para estimar sua ocorrência ou associação com fatores determinantes ou conseqüências para a saúde, de forma comparável em diferentes locais e populações, possibilitando a ampliação do conhecimento sobre esse complexo fenômeno.

O instrumento é abrangente e relativamente curto, podendo ser utilizado tanto em investigações populacionais como em serviços de saúde ou outros, cujo interesse é obter informações sobre violência de gênero.

 

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Depto. Medicina Preventiva
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Recebido: 4/1/2010
Aprovado: 26/4/2010
Baseado na pesquisa "WHO MultiCountry Study on Women's Health and Domestic Violence against women" coordenada e financiada pela Organização Mundial de Saúde (Processo W6/181/13), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq; Processo 523348/96-7) e pelo Ministério da Saúde/Programa Nacional de DST/AIDS (Ref: 914 BRA 59DST-AIDS II; ED 00/4772; Unesco 914/BRA/59).
Schraiber LB, D'Oliveira AF e França Jr I são apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - bolsas produtividade em pesquisa, 1B, 1D, 2, respectivamente).

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Walby S. Improving the statistics on violence against women. In: Expert Group Meeting; 2005 Apr 11-14; Geneva, CH. Geneva: UN Division for the Advancement of Women; 2005.

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