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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.44 no.5 São Paulo Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010000500016 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Auto-avaliação da saúde em adultos no Sul do Brasil

 

Autoevaluación de la salud en adultos en el Sur de Brasil

 

 

Marco Aurélio PeresI; Anelise Viapiana MasieroII; Giana Zabarto LongoII; Gino Chaves da RochaII; Izabella Barison MatosII; Kathie NajnieIII; Maria Conceição de OliveiraII; Marina Patrício de ArrudaII; Karen Glazer PeresI

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil
IICentro de Ciências da Saúde. Universidade do Planalto Catarinense. Lages, SC, Brasil
IIIFundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar fatores associados à auto-avaliação da saúde em adultos.
MÉTODOS: Estudo transversal, de base populacional, com amostra de 2.051 adultos de 20 a 59 anos de Lages, SC, em 2007. Foram aplicados questionários domiciliares para obter dados sobre auto-avaliação da saúde, condições socioeconômicas e demográficas, tabagismo, de estilo de vida e morbidades auto-referidas. Foram aferidos pressão arterial, peso, altura e circunferência abdominal. A análise multivariável foi realizada por regressão de Poisson, ajustada pelo efeito do delineamento amostral e estratificada por sexo.
RESULTADOS: A prevalência de auto-avaliação da saúde positiva foi de 74,2% (IC 95%: 71,3;77,0), significativamente maior nos homens (82,3%, IC 95%: 79,3;85,0) do que nas mulheres (66,9%, IC 95%: 63,2;70,7). Homens mais pobres, menos escolarizados e mais velhos apresentaram maiores prevalências de auto-avaliação da saúde negativa. Após o ajuste, níveis pressóricos elevados e referir chiado no peito foram fortemente associados à auto-avaliação negativa entre os homens. A prevalência de auto-avaliação negativa foi maior em mulheres mais pobres, menos escolarizadas e mais velhas e dentre as que apresentaram obesidade abdominal. Níveis pressóricos elevados, diabetes, chiado no peito e sintomas de falta de ar permaneceram associados ao desfecho após o ajuste nas mulheres. O número de morbidades auto-referidas por homens e mulheres associou-se à auto-avaliação da saúde negativa.
CONCLUSÕES: Os mais velhos, as mulheres, os mais pobres e menos escolarizados avaliam sua condição de saúde como regular ou ruim. Quanto maior o número de morbidades auto-referidas, maior a proporção de indivíduos com auto-avaliação de saúde negativa, sendo o efeito das morbidades maior entre as mulheres.

Descritores: Adulto. Autoavaliação (Psicologia). Estilo de Vida. Pesos e Medidas Corporais. Fatores Socioeconômicos. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde. Levantamentos Epidemiológicos.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar factores asociados con la autoevaluación de la salud en adultos.
MÉTODOS: Estudio transversal, de base poblacional, con muestra de 2.051 adultos de 20 a 59 años de Lages, Sur de Brasil, en 2007. Fueron aplicados cuestionarios domiciliares para obtener datos sobre autoevaluación de la salud, condiciones socioeconómicas y demográficas, tabaquismo, de estilo de vida y morbilidades autoreferidas. Se compararon la presión arterial, peso, altura y circunferencia abdominal. El análisis multivariable fue realizado por regresión de Poisson, ajustado por el efecto del delineamiento muestral y estratificado por sexo.
RESULTADOS: La prevalencia de autoevaluación de la salud positiva fue de 74,2% (IC 95%: 71,3;77,0) significativamente mayor en los hombres (82,3% [79,3;85,0]) que en las mujeres (66,9% [63,2;70,7]). Hombres más pobres, menos escolarizados y más viejos presentaron mayores prevalencias de autoevaluación de salud negativa. Posterior al ajuste, niveles de presión elevados y referir chillido en el pecho fueron fuertemente asociados con la autoevaluación negativa entre los hombres. La prevalencia de autoevaluación negativa fue mayor en mujeres más pobres, menos escolarizadas y más viejas y entre las que presentaron obesidad abdominal. Niveles de presión elevados, diabetes, chillido en el pecho y síntomas de falta de aire permanecieron asociados al resultado posterior al ajuste en las mujeres. El número de morbilidades autoreferidas por hombres y mujeres se asoció a la autoevaluación de la salud negativa.
CONCLUSIONES: Los más viejos, las mujeres, los más pobres y menos escolarizados evalúan su condición de salud como regular o mala. En la medida que aumentaba el número de morbilidades autoreferidas, mayor era la proporción de individuos con autoevaluación de salud negativa; entre las mujeres, el efecto de las morbilidades es mayor.

Descriptores: Adulto. Autoevaluación (Psicología). Estilo de Vida. Pesos y Medidas Corporales. Factores Socioeconómicos. Conocimientos, Actitudes y Práctica en Salud. Encuestas Epidemiológicas.


 

 

INTRODUÇÃO

A auto-avaliação das condições da saúde tem sido utilizada em inquéritos populacionais por sua fácil aplicação e alta validade e confiabilidade. É marcador de desigualdades entre subgrupos populacionais, apresenta bom poder preditivo para morbi-mortalidade e permite comparações internacionais.11,21 Indivíduos com auto-avaliação de sua saúde negativa apresentaram risco relativo de morte quase duas vezes maior em relação àqueles que avaliaram sua saúde como excelente.7

Avaliação de saúde auto-referida é uma medida subjetiva que combina componentes físicos, emocionais e nível de satisfação com a vida. A percepção individual sobre a saúde é importante indicador per si, uma vez que níveis individuais de bem-estar podem influenciar a qualidade de vida.19

Estudos de base populacional sobre auto-avaliação de saúde são importantes para o conhecimento das condições de saúde e seu monitoramento ao longo do tempo. Possibilitam avaliar a efetividade de políticas, ações e serviços de saúde. A auto-avaliação de saúde pode ser incorporada ao sistema de vigilância à saúde por sua relativa facilidade operacional.

A realização de estudos sobre auto-avaliação de saúde é recomendada pela Organização Mundial de Saúde;3 entre os estudos de base populacional realizados no Brasil, destacam-se o inquérito da Pesquisa Mundial de Saúde realizado em 2003,20 o módulo de saúde na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) de 1998 e 2003,1,5,6 e o inquérito sobre saúde e condição de vida no estado de São Paulo.ª

Tendo em vista a importância desses estudos populacionais, o presente estudo teve por objetivo analisar os fatores associados à auto-avaliação da saúde em adultos.

 

MÉTODOS

Estudo transversal realizado em Lages, SC, de maio a outubro de 2007. A população do município no ano de 2005 era de 166.733 habitantes, 97,4% destes residente na zona urbana.b Em 2000 o município apresentava índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M) de 0,813, ocupando a 74ª posição entre os 293 municípios de Santa Catarina e a 315ª posição dentre os 5.564 municípios brasileiros.c A amostra representativa consistiu em 2.051 adultos de 20 a 59 anos completos residentes na zona urbana (52% da população total do município).b Este estudo se insere em um amplo inquérito de saúde com vários desfechos investigados, em que para cada desfecho foi realizado cálculo específico do tamanho da amostra, suficiente para estimar a prevalência da auto-avaliação de saúde. Foi adotado nível de 95% de confiança, prevalência de auto-avaliação de saúde como regular e ruim de 25%,d erro amostral de 3,5 pontos percentuais e efeito do desenho do estudo igual a dois. Adicionou-se 10% ao tamanho da amostra para compensar perdas e recusas e 20% para controlar os possíveis fatores de confusão na análise multivariável, totalizando 1.531 indivíduos. Para o estudo de associações entre a auto-avaliação e as variáveis independentes, adotou-se nível de 95% de confiança, poder de 80%, expectativa do desfecho (auto-avaliação da saúde como negativa) no grupo não exposto de 20%, razão entre o número de expostos e não expostos de 20:80 e risco relativo mínimo a ser detectado de 1,6. O tamanho mínimo da amostra para o estudo dessas associações foi de 722 indivíduos. As análises foram estratificadas por sexo. Foi utilizado o programa EpiInfo versão 6.04.

A amostragem foi realizada por conglomerados, em dois estágios. Primeiro foram sorteados 60 dos 186 setores censitários de Lages por meio de amostragem casual simples, sem reposição, usando-se tabelas de números aleatórios. Depois, sorteou-se um quarteirão e, nele, uma esquina foi sorteada como ponto de partida para o percurso dos domicílios, iniciando-se o trabalho de campo no sentido horário. Foram incluídos 34 indivíduos em 17 domicílios por setor.

Foram excluídos: indivíduos institucionalizados (prisões, asilos, hospitais), os que apresentavam algum impedimento físico ou mental (gestantes, indivíduos amputados, acamados, portadores de aparelho gessado) e aqueles que não tiveram condição de permanecer na posição adequada para aferição das medidas antropométricas. As perdas corresponderam aos residentes em domicílios sorteados visitados no mínimo quatro vezes, incluídas no mínimo uma visita em finais de semana e outra em período noturno, sem que o examinador/entrevistador conseguisse localizar a pessoa sorteada ou sua recusa em participar.

As visitas domiciliares foram realizadas por dez duplas de entrevistadores, supervisionados. Os entrevistadores de campo foram treinados e desconheciam os objetivos do estudo. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista face a face e incluiu a tomada da pressão arterial em dois momentos (no início e no final da aplicação do questionário) e a realização de medidas antropométricas. Para se obter a padronização na aferição dessas medidas, foram realizados treinamento e pré-teste do questionário com 30 adultos de 20 a 59 anos, residentes na área de abrangência de uma unidade local de saúde. O estudo piloto foi realizado com 90 pessoas em um dos setores censitários sorteados. Houve ampla divulgação da pesquisa nos principais meios de comunicação da região (emissora de rádio mais ouvida, TV e jornal de circulação regional), a fim de proporcionar maior adesão. O controle de qualidade da coleta dos dados foi realizado em 10% da amostra por meio de entrevista telefônica por um dos supervisores.

A variável dependente do estudo foi a auto-avaliação de saúde geral obtida por meio da pergunta: "De um modo geral, em comparação com pessoas de sua idade, como o(a) Sr. (Sra.) considera seu estado de saúde?". As categorias de resposta excelente, muito bom e bom foram agrupadas na categoria de auto-avaliação da saúde como positiva e as categorias regular e ruim foram consideradas auto-avaliação de saúde como negativa.

As variáveis independentes foram agrupadas em: sociodemográficas; hábitos e comportamentos relacionados à saúde; e pressão arterial e medidas antropométricas; condições de saúde auto-referidas. As primeiras compreenderam: idade (20 a 29, 30 a 39, 40 a 49 e 50 a 59 anos); escolaridade (< 4, 5 a 8, 9 a 11, > 12 anos completos de estudo); renda familiar per capita, em reais (0,026 a 0,500; 0,510 a 0,880; 0,890 a 1,580; 1,590 a 19,740); cor da pele auto-referida (branca, preta, parda, amarela e indígena); estado civil (com companheiro(a) e sem companheiro(a)).

Hábitos e comportamentos relacionados à saúde compreenderam tabagismo (não fumante, ex-fumante e fumante no momento da entrevista);22 nível de atividade (suficiente > 150 minutos/semana e insuficiente <150 minutos/semana), medida pela versão resumida em português do Questionário Internacional de Atividade Física (Ipaq);10 e problemas com álcool, pesquisados usando o questionário CAGE (Cut down, annoyed, guilty, eye-opener questionnaire), validado no Brasil.15 Foram considerados indivíduos com problemas relacionados ao uso de álcool aqueles que apresentaram valores de CAGE > 1.

Os níveis pressóricos foram mensurados no início e no final da aplicação do questionário (pelo menos 10 minutos), tendo sido considerada a segunda aferição. As aferições foram efetuadas com o entrevistado sentado, pés apoiados no chão, pernas descruzadas, braço esquerdo relaxado e apoiado sobre a mesa na altura do coração com palma da mão voltada para cima. Utilizaram-se aparelhos de pressão arterial eletrônicos, com leitura digital, devidamente calibrados (Techline®)..Os níveis pressóricos sistólico e diastólico foram categorizados em normal e elevado. Foram definidos como portadores de níveis pressóricos elevados os indivíduos que apresentaram pressão sistólica > 140 mmHg (PAS > 140 mmHg) e/ou pressão diastólica > 90 mmHg (PAD > 90 mmHg), ou indivíduos sabidamente hipertensos que estivessem em uso regular de medicação anti-hipertensiva.4 O peso corporal foi aferido com os indivíduos trajando roupas leves, descalços, em posição ereta, pés juntos e braços posicionados ao longo do corpo, com as palmas das mãos voltadas para a perna. A aferição do peso foi realizada com balanças digitais portáteis (Tanita®) com variação de 0,1 kg e capacidade de até 150 kg; os participantes foram pesados uma única vez. A estatura foi medida com a fixação da fita métrica inelástica em uma superfície vertical sem rodapés a um ponto distante 100 cm do chão, com o auxílio de fita adesiva. Foi avaliada com o indivíduo sem calçados, sem adornos na cabeça, em pé, com os calcanhares unidos e estes, os glúteos, os ombros e a cabeça tocavam a superfície vertical da parede, adotando-se a linha de visão horizontal no momento da inspiração. Peso e altura foram utilizados para calcular o índice de massa corporal (IMC). Indivíduos foram classificados em: eutróficos (IMC < 25 kg/m2), com sobrepeso (25,0 kg/m2 < IMC < 29,9 kg/m2) ou obesos (IMC > 30 kg/m2).22 A aferição da linha natural de menor circunferência da cintura foi realizada com o uso da mesma fita métrica, com o indivíduo em pé no momento da expiração. Os pontos de corte para normalidade foram < 102 cm nos homens e < 88 cm nas mulheres, considerando-se com obesidade abdominal os indivíduos com medidas acima desses valores.18

Perguntou-se sobre diagnóstico médico de diabetes mellitus, auto-referência de chiado no peito nos últimos 12 meses, relato de falta de ar em caminhadas mais rápidas no chão reto ou ao andar em uma pequena subida e diagnóstico de bronquite crônica.17

Investigaram-se a ocorrência de episódio de dor de dente nos seis meses anteriores à entrevista e o número de dentes naturais presentes em cada arcada (dez dentes naturais ou mais; menos de dez dentes naturais; nenhum dente natural).

Foi criada uma variável que combinava todas as condições de saúde geral e bucal auto-referidas categorizada em: nenhuma morbidade auto-referida, uma, duas e três ou mais.

Os dados foram duplamente inseridos no programa EpiInfo, versão 6.04; a verificação de consistência e análise dos dados foram realizadas no pacote estatístico Stata versão 9. Todas as análises foram ajustadas pelo efeito do delineamento amostral e ponderadas pela freqüência por sexo, e os pesos determinados pela razão entre as proporções dos sexos na população do município, obtida no IBGE e na amostra. Foi realizada estatística descritiva das variáveis da população amostrada, e para estimar as associações entre a variável dependente e cada variável independente foram usados o teste do qui-quadrado e de tendência linear, quando apropriado. A análise múltipla foi realizada por meio da regressão de Poisson, apresentando as razões de prevalências para auto-avaliação de saúde negativa e respectivos intervalos com 95% de confiança. As análises seguiram modelo teórico de determinação, hierarquizado em três blocos de variáveis. O primeiro bloco, mais distal, foi formado pelas variáveis socioeconômicas e demográficas que, hipoteticamente, condicionam as variáveis do bloco 2 fatores comportamentais, que por sua vez influenciam as variáveis clínicas do bloco 3, e estas, o desfecho em estudo. As variáveis com p < 0,20 na análise bivariada foram selecionadas para a análise múltipla. Inicialmente, foram incluídas na análise as variáveis do bloco 1, ajustadas entre si. Posteriormente, foram inseridas no modelo múltiplo as variáveis do bloco 2, ajustadas entre si e pelas variáveis do bloco 1. As variáveis do bloco 3 foram inseridas no modelo e ajustadas entre si e pelas variáveis dos blocos 2 e 1.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Planalto Catarinense, sob protocolo no. 001/2007, em novembro/2006. Os participantes da pesquisa assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

 

RESULTADOS

A taxa de resposta foi de 98,6%, o que equivale a 2.022 indivíduos, dos quais 61,5% eram mulheres. A prevalência geral estimada de auto-avaliação da saúde positiva foi de 74,2% (IC 95%: 71,3;77,0); entre os homens foi de 82,3% (IC 95%: 79,3;85,0) e 66,9% (IC 95%: 63,2;70,7) entre as mulheres.

Em ambos os sexos, foi maior a proporção de indivíduos com maior renda, mais escolarizados, mais jovens, de cor da pele branca ou amarela que avaliaram sua saúde como positiva do que entre aqueles mais pobres, com menor escolaridade, de cor da pele preta, parda ou indígena. Entre os homens, a ausência de companheira foi associada à auto-avaliação positiva, enquanto cor da pele não teve significância estatística. A maior proporção de auto-avaliação da saúde positiva foi observada em homens com escolaridade igual ou superior a 12 anos (91,1%), enquanto a menor proporção foi entre mulheres com quatro ou menos anos de estudo (44,7%) (Tabela 1).

Mais indivíduos não-fumantes e eutróficos avaliaram sua saúde como positiva. Dentre os homens, apenas o tabagismo foi associado à auto-avaliação de saúde negativa. A proporção de auto-avaliação positiva foi maior entre os que nunca fumaram, seguidos pelos ex-fumantes e, por último, os fumantes atuais. Ser ativo fisicamente não alcançou significância estatística com auto-avaliação da saúde positiva entre os homens. Entre as mulheres, além do tabagismo, foram associados com a auto-avaliação de saúde negativa o estado nutricional e a circunferência da cintura. Mulheres com excesso de peso e obesas e aquelas que apresentaram obesidade abdominal auto-avaliaram sua saúde como negativa (Tabela 2).

As menores proporções de indivíduos que auto-avaliaram sua saúde positiva foram observadas em adultos com níveis pressóricos elevados, naqueles que referiram diabetes, chiado no peito, falta de ar, bronquite e menor número de dentes naturais presentes. Quanto maior o número de morbidades, menor a proporção de indivíduos com auto-avaliação positiva da saúde (Tabela 3).

A Tabela 4 apresenta as razões de prevalências brutas e ajustadas entre auto-avaliação da saúde negativa e variáveis entre os homens. Dentre as variáveis do bloco socioeconômico e demográfico, renda per capita, escolaridade e idade permaneceram associadas à auto-avaliação da saúde negativa. Homens mais pobres, menos escolarizados e mais velhos apresentaram maiores prevalências de auto-avaliação negativa quando comparados aos mais ricos, mais escolarizados e mais jovens. Tabagismo e atividade física perderam associação quando ajustados pelas variáveis do bloco socioeconômico e demográfico. Dentre as morbidades investigadas, permaneceram associadas à auto-avaliação negativa, após ajuste: apresentar níveis pressóricos elevados e referir chiado no peito, enquanto apresentar sintomas de falta de ar esteve no limite da associação. O número de morbidades foi fortemente associado à auto-avaliação de saúde negativa. As razões de prevalências variaram de 2,3 a 5,0 entre os homens com uma morbidade e aqueles com três ou mais, respectivamente.

 

 

Para as mulheres, a auto-avaliação da saúde negativa foi fortemente associada à renda familiar per capita, escolaridade e idade. A prevalência de auto-avaliação da saúde negativa foi maior entre as mulheres mais pobres, menos escolarizadas e mais velhas e entre aquelas que apresentaram obesidade abdominal. Essas associações mantiveram-se após o ajuste pelas variáveis mais distais. Dentre as morbidades associadas na análise bruta, apenas níveis pressóricos elevados, diabetes, chiado no peito e sintomas de falta de ar permaneceram associados ao desfecho após o ajuste. Assim como para os homens, o número de morbidades foi fortemente associado à auto-avaliação da saúde negativa (Tabela 5).

 

 

DISCUSSÃO

Três quartos da população estudada avaliaram sua saúde positiva, com diferenças marcantes segundo idade, gênero, renda e escolaridade. Os mais velhos, as mulheres, os mais pobres e menos escolarizados avaliam sua condição de saúde como sendo pior. Quanto maior o número de morbidades auto-referidas, maior a proporção de indivíduos com auto-avaliação de saúde negativa e com maior magnitude do efeito das morbidades entre as mulheres. Esses resultados são coerentes com aqueles da Pesquisa Mundial da Saúde realizada no Brasil e da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios - 1998.1,5,20,21

Os níveis de escolaridade interferem na percepção da saúde, na apreensão de informações sobre promoção e prevenção da saúde, na adoção de estilos de vida considerados saudáveis, na adesão aos tratamentos terapêuticos e no uso de serviços de saúde.e Ao optar por uma resposta, o entrevistado indica seu estado geral, considerando-se as dimensões física, social e psicológica/mental. Estudos sugerem que a dimensão física parece exercer maior influência sobre a auto-percepção da saúde.f

O efeito da auto-avaliação da saúde sobre o risco de morte varia segundo os níveis de educação e renda. A auto-avaliação da saúde como ruim é fortemente associada à mortalidade entre adultos de alta escolaridade e/ou alta renda.8 Nossos resultados confirmam os de Dachs,5 que identificou que 70% das pessoas pertencentes ao primeiro decil de renda apresentaram auto-avaliação da saúde positiva, enquanto entre as do decil superior esse valor foi de 87%. Maior renda está associada à aquisição de bens e produtos, incluindo medicamentos, maior acesso a atividades de lazer e maior autonomia no trabalho, aspectos associados à saúde. Pessoas com nível mais elevado de escolaridade relatam aspectos multidimensionais como sentimentos de bem-estar físico, psicológico, ser ativo fisicamente e não apresentar doenças, quando comparados com as de menor escolaridade. Estas tendem a avaliar a saúde, relacionando-a aos aspectos físicos e funcionais.12

A prevalência de auto-percepção da saúde negativa aumentou significativamente com a idade, a exemplo do que ocorreu nos resultados do Inquérito Multicêntrico de Saúde no Estado de São Paulo/ISA-SP.f No presente estudo, os mais jovens avaliaram sua saúde como boa. Entre eles, identificou-se diferença de percepção segundo sexo; os homens avaliaram sua saúde de maneira mais positiva. A proporção de auto-avaliação da saúde positiva entre as mulheres na faixa etária dos 30-39 anos foi semelhante à dos homens na faixa etária de 40-49 anos. As mulheres, por utilizarem mais os serviços de saúde, podem ter maior proporção de diagnósticos de doenças e relatam mais suas queixas do que os homens14-16

Os percentuais de insatisfação com a própria saúde aumentaram segundo idade entre as mulheres, o que corrobora resultados de estudos brasileiros1,21 e internacionais.2,13,g Tabagismo, atividade física, diabetes, sintomas de bronquite e número de dentes naturais presentes perderam significância estatística quando ajustados pelos blocos de variáveis distais, sugerindo que esses fatores atuam como mediadores entre as condições sociais e auto-avaliação de saúde.

Os principais vieses em estudos transversais são o de seleção e de causalidade reversa. O modelo teórico hipotético adotado simula um modelo de determinação, mas não é possível assegurar que a cadeia de determinação estabelecida de fato tenha ocorrido. Esse exercício teórico é preferível à simples entrada de variáveis por critérios eminentemente estatísticos. No presente estudo, obteve-se amostra representativa da população de 20 a 59 anos do município, taxa de resposta superior a 90% e a amostra foi distribuída homogeneamente entre as faixas etárias. Entretanto, a proporção de mulheres na amostra foi superior à da população, razão pela qual se decidiu realizar as análises globais ponderadas pelo sexo. Todos os instrumentos de coleta de dados adotados no estudo são validados e utilizados no Brasil e exterior. Da mesma forma, os instrumentos de medidas (peso, altura, pressão) foram calibrados. A equipe de coleta de dados realizou treinamento e padronização, houve controle de qualidade da coleta de dados, o que contribui para a validade interna do estudo.

A literatura sobre o tema adota diferentes formas de categorização do desfecho. O Inquérito de Saúde do Estado de São Paulo (para pessoas acima de 60 anos) utilizou o Medical Outcome Study (MOS) 36 item (Short form 36 SF 36), validado no Brasil. Segundo Theme-Filha,21 pesquisas baseadas em entrevistas sobre saúde em Barcelona e a PNAD 98 utilizaram as categorias: muito boa, boa, regular, muito ruim e ruim, semelhantes à adotada pela Pesquisa Mundial de Saúde Brasil 2003 (muito boa, boa, moderada, ruim, muito ruim). No National Health Interview Survey de 1996, nos Current Population Survey dos EUA e no Health and Social Survey realizado em Quebec, Canadá, as alternativas foram as mesmas adotadas no presente estudo,21 enquanto o estudo longitudinal em trabalhadores do ramo elétrico e gás da França (Gazel study) adotou uma escala com oito categorias entre muito boa e muito ruim.9 Essas diferenças metodológicas dificultam a comparação entre os estudos.

Os mais velhos, as mulheres, os mais pobres e menos escolarizados avaliam sua condição de saúde como regular ou ruim. Quanto maior o número de morbidades auto-referidas, maior a proporção de indivíduos com auto-avaliação de saúde negativa, sendo o efeito das morbidades maior entre as mulheres. Recomenda-se que a auto-avaliação de saúde integre o sistema de vigilância à saúde, pois é de obtenção relativamente simples na realização de inquéritos populacionais.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Marco Aurélio Peres
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
Centro de Ciências da Saúde
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade
88010-970 Florianópolis, SC, Brasil
E-mail: mperes@ccs.ufsc.br

Recebido: 13/5/2009
Aprovado: 6/4/2010
Matos IB foi apoiada pelo Fundo de Incentivo a Pesquisa da Universidade do Planalto Catarinense (auxílio à pesquisa; processo no 2006/12).

 

 

Os autores declaram não haver conflitos de interesses.
a Cesar CLG, Carandina L, Alves MCGP, Barros MBA, Goldbaum M. Saúde e condição de vida em São Paulo. Inquérito multicêntrico de saúde no Estado de São Paulo ISA-SP. São Paulo: USP/FSP; 2005.
b Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativas de população. [cited 2007 Jan 15] Available from: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/default.shtm
c Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Atlas do Índice de Desenvolvimento Humano. [cited 2009 Jan 10] Available from: www.pnud.org.bra/atlas/tanking/IDH-M
d Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio: acesso e utilização de serviços de saúde: 2003. Rio de Janeiro: IBGE; 2005.
e Ministério da Saúde Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais de Saúde. As causas sociais das iniqüidades em saúde no Brasil: relatório final. Brasília, DF; 2008.
f Barros MBA. Auto-avaliação de saúde. In: Cesar CLG, Carandina L, Alves MCGP, Barros MBA, Goldbaum M. Saúde e condição de vida em São Paulo. Inquérito multicêntrico de saúde no Estado de São Paulo ISA-SP. São Paulo: USP/FSP; 2005. p.173-82.
g Bellerose C, Lavallée C, Caminard J. Health and social survey, 1992-93. Highlights: Ministére de la Santé et des services Sociaux-Gouvernement du Québec; 1994.