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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.45 no.1 São Paulo Feb. 2011  Epub Dec 10, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102010005000056 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Factores associados à hipertensão arterial nos utentes de farmácias em Portugal

 

Factores asociados con la hipertensión arterial en los usuarios de farmacias en Portugal

 

 

Sofia de Oliveira-MartinsI; Tiago OliveiraII; João J F GomesIII; Margarida CaramonaIV; José CabritaI

IInstitute for Research in Medicines and Pharmaceutical Sciences. Faculdade de Farmácia. Universidade de Lisboa (UL). Lisboa, Portugal
IIStatistics and Information Management Department. Instituto Superior de Estatística e Gestão de Informação. Universidade Nova de Lisboa. Lisboa, Portugal
IIIDepartment of Statistics and Operational Research and Center. Centro de Matemática e Aplicações Fundamentais. Faculdade de Ciências. UL. Lisboa, Portugal
IVUniversidade de Coimbra. Coimbra, Portugal

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência, tratamento e controlo da hipertensão e identificar factores associados em utentes de farmácias comunitárias.
MÉTODOS: Estudo transversal com 1.042 utentes de 40 a 65 anos em 60 farmácias comunitárias de Portugal Continental entre outubro de 2005 e janeiro de 2006. Os dados foram obtidos pela aplicação de questionário e medição de parâmetros biológicos. Foram realizadas três regressões logísticas sequenciais para verificar associação entre as variáveis.
RESULTADOS: A idade média foi de 53,7 anos e a razão homem/mulher foi 0,68. A prevalência da hipertensão arterial foi de 54,8%. Cerca de 70% dos hipertensos encontravam-se sob tratamento anti-hipertensivo e, destes, 47,7% estavam controlados. A hipertensão esteve positivamente associada à idade mais elevada, sexo masculino, ser casado, apresentar índice de massa corporal e nível de colesterol total mais alto, ser diabético, ter doença cardiovascular pessoal ou familiar precoce e reportar mais consultas médicas por ano. A hipertensão tratada mostrou-se positivamente associada a ser mulher, não casado, ser diabético, viver numa área urbana e reportar mais de três consultas médicas por ano. Nos hipertensos tratados, estar controlado foi positivamente associado a ter comportamento aderente à terapêutica anti-hipertensiva (auto-reporte), percepcionar o efeito desta medicação e ser de baixo risco cardiovascular. Os modelos preditivos apresentaram áreas sob as respectivas curvas ROC entre 0,72 e 0,78, com capacidade discriminatória aceitável.
CONCLUSÕES: A prevalência da hipertensão foi elevada, mas similar à encontrada em outros estudos realizados em Portugal. A proporção de doentes tratados foi satisfatória, em contraste com o nível insuficiente de controlo.

Descritores: Hipertensão, epidemiologia. Farmácias, utilização. Fatores de Risco. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia de la hipertensión, tratamiento y control, así como identificar factores asociados en usuarios de farmacias comunitarias.
MÉTODOS: Estudio transversal con 1.042 usuarios de 40 a 65 años en 60 farmacias comunitarias de Portugal Continental entre octubre de 2005 y enero de 2006. Los datos fueron obtenidos por la aplicación de cuestionario y medición de parámetros biológicos. Se realizaron tres regresiones logísticas secuenciales para verificar asociación entre las variables.
RESULTADOS: La edad promedio fue de 53,7 años y el cociente hombre/mujer fue 0,68. La prevalencia de la hipertensión arterial fue de 54,8%. Cerca de 70% de los hipertensos se encontraban bajo tratamiento anti-hipertensivo y, de estos, 47,7% estaban controlados. La hipertensión estuvo positivamente asociada con la edad más elevada, sexo masculino, ser casado, presentar índice de masa corporal y nivel de colesterol total más alto, ser diabético, tener enfermedad cardiovascular personal o familiar precoz y reportar más consultas médicas por año. La hipertensión tratada se mostró positivamente asociada a ser mujer, no casado, ser diabético, vivir en un área urbana y reportar más de tres consultas médicas por año. En los hipertensos tratados, estar controlado fue positivamente asociado a tener comportamiento adherente a la terapia anti-hipertensiva (auto-reportada), tener percepción del efecto de este medicamento y ser de bajo riesgo cardiovascular. Los modelos predictivos presentaron áreas bajo las respectivas curvas ROC entre 0,72 y 0,78, con capacidad discriminatoria aceptable.
CONCLUSIONES: La prevalencia de la hipertensión fue elevada, más similar a la encontrada en otros estudios realizados en Portugal. La proporción de enfermos tratados fue satisfactoria, en contraste con el nivel insuficiente de control.

Descriptores: Hipertensión, epidemiología. Farmacias, utilización. Factores de Riesgo. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

A hipertensão é um factor de risco bem estabelecido para as doenças cardiovasculares (DCV). Estima-se que seja responsável por cerca de 7,1 milhões de mortes prematuras no mundo17 e que contribua para o aparecimento de 62% das doenças cerebrovasculares e de 49% dos casos de doença isquémica cardíaca.20

A taxa de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) e por doença isquémica cardíaca diminuiu forte e consistentemente ao longo dos últimos 30 anos nos EUA, Japão e em vários países da Europa Ocidental. A terapêutica farmacológica anti-hipertensiva teve papel determinante nesta evolução positiva das DCV.11

No entanto, estudos confirmam que a percentagem de tratamento e controlo dos hipertensos está longe do desejado, mesmo nos países mais desenvolvidos.8,16

A hipertensão tem prevalência elevada também em Portugal, ultrapassando 40% na população adulta. O estudo Prevalence, Awareness, treatment and control of hypertension in Portugal (PAP study), realizado em nível nacional em 2003, identificou 42,1% de hipertensos na população adulta inquirida (18-90 anos); 46,1% destes estavam cientes de o ser, 39,0% encontravam-se tratados e quando tratados, 11,2% estavam controlados. Estes valores são baixos, particularmente no que diz respeito ao controlo da hipertensão.13

As estatísticas nacionais mostram que a morbilidade e a mortalidade por enfarte do miocárdio em Portugal encontram-se entre as mais baixas da Europa Ocidental, mas a taxa de mortalidade por AVC é uma das mais altas em nível mundial.3,14

Dado que um dos factores de risco mais importantes para o AVC é a hipertensão, particularmente se não diagnosticada ou adequada e atempadamente tratada e controlada, torna-se relevante e urgente identificar e avaliar o impacto dos preditores da prevalência, tratamento e controlo da hipertensão. Isso possibilitaria o delineamento de políticas de intervenção focalizadas sobre os grupos populacionais mais necessitados de intervenção, e o alcance de resultados mais efectivos.

O objetivo do presente estudo foi estimar a prevalência da hipertensão, de seu tratamento e controle e identificar factores associados.

 

MÉTODOS

Estudo observacional, descritivo e transversal, com amostra de utentes de 60 farmácias de cinco regiões de saúde de Portugal (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) de outubro de 2005 a janeiro de 2006. A distribuição das farmácias considerou a percentagem de população urbana/rural existente na respectiva região.

A amostra foi classificada em dois grupos: população urbana (residente nas freguesias predominantemente/mediamente urbanas) ou rural (residente nas freguesias predominantemente rurais), de acordo com o Instituto Nacional de Estatística.

Cada farmácia deveria seleccionar dois utentes/dia durante dez dias (o primeiro entre as 11-13 horas e o segundo entre as 16-18 horas), num total de 20 utentes. Foram critérios de inclusão: possuir idade entre 40 e 65 anos, entendimento da língua portuguesa e ausência de sinais de deficiências cognitivas ou mentais. Foi condição de participação que o farmacêutico responsável frequentasse a acção de formação do estudo.

Foram aplicados questionários estruturados, envolvendo variáveis sociodemográficas, comportamentais, clínicas e terapêuticas e medidos o colesterol total, a tensão arterial, o peso e a altura dos utentes.

A pressão arterial (PA) foi medida após cinco minutos de descanso sentado, por duas vezes (intervalo de três minutos) e foi considerado o valor médio das duas medições.ª Os aparelhos utilizados nesta medição eram semi-automáticos, clinicamente validados, munidos de uma braçadeira ajustável à circunferência do braço.

Os indivíduos que apresentavam PA > 140/90 mmHg (ou > 130/80 mmHg nos diabéticos) foram considerados hipertensos (HT), bem como os que estavam sob medicação anti-hipertensiva.20

Os indivíduos sob terapêutica farmacológica anti-hipertensiva foram considerados hipertensos tratados (HTT) e hipertensos controlados, os submetidos a terapêutica farmacológica (HTC), com valores de PA < 140/90 mmHg (ou < 130/80 mmHg nos diabéticos).

Foi recolhida amostra de sangue capilar para obtenção do valor de colesterol total e utilizou-se o aparelho Accutrend® GC. Os indivíduos foram considerados hipercolesterolémicos se o valor do colesterol total fosse > 190mg/ml ou sob medicação hipolipemiante. Indivíduos sob medicação antidiabética foram considerados diabéticos.

O índice de massa corporal (IMC) foi calculado com base no peso e na altura dos inquiridos descalços, medidos na farmácia.

Foram consideradas duas classes de hábitos tabágicos: fumador e não fumador.

O cálculo de risco cardiovascular global foi efectuado mediante a utilização da tabela Score® para os países de baixo risco, em que se inclui Portugal.2,5

A amostra foi calculada com base nas estimativas de população residente em Portugal Continental (40-65 anos) publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística (2001), assumindo prevalência do fenómeno (hipertensão) no grupo etário estudado de 55%,13 precisão de 3%, e intervalo com 95% de confiança (IC95%). A dimensão da amostra foi estimada em 1.056 indivíduos a partir da fórmula: N = 4zα2P(1-P)+ W2, em que zα corresponde ao grau de confiança desejado, P, à prevalência estimada e W, ao intervalo de erro.

A análise estatística foi realizada nos softwares SPSS (v15) e R-CRAN. Frequências absolutas e relativas, proporções, medidas de localização e de dispersão foram descritas para todas as variáveis.

A amostra foi dicotomizada em função da presença de HT, de HTT e de HTC. O estudo dos preditores da HTT englobou apenas os indivíduos HT (571 indivíduos). Para os preditores do controlo da HTC, foram considerados os indivíduos com HTT (400 indivíduos).

Análises bivariadas foram realizadas com utilização do teste do ÷2 e do teste exacto de Fisher para as variáveis categóricas, e do teste t-Student para as variáveis quantitativas. Foi utilizada a regressão logística para a identificação dos factores de risco de ser HT, HTT e HTC. Esta técnica consiste inicialmente na avaliação da associação univariada de cada variável com a variável resposta (HT, HTT, HTC). Esta avaliação foi feita pelo teste de Wald com nível de significância 20% (p < 20%). O modelo de regressão logística multivariado foi ajustado com processo de selecção stepwise para a obtenção do melhor modelo. O nível de significância para os testes foi de menos de 5% para a entrada de uma nova variável e mais de 15% para a saída.

Para a validação dos modelos de regressão logística finais, foi realizado teste de adequação (Hosmer-Lemeshow) de cada um aos resultados observados. Curvas ROC (Receiving Operating Curves) foram geradas para avaliar o poder de discriminação dos modelos.

Adotou-se nível de significância de p < 0,05 e IC95%.

A Figura 1 representa as três regressões logísticas sequenciais (HT, HTT e HTC) realizadas.

 

 

O Termo de Consentimento Informado foi obtido dos inquiridos, em concordância com a Declaração de Helsínquia, apesar de os questionários serem anónimos. O estudo recebeu aprovação da Comissão de Ética da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa em 21 de Março de 2005.

 

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 1.042 indivíduos, com média de idade de 53,7 anos (desvio-padrão, DP = 7,1), dos quais 59,4% eram mulheres. Obteve-se 98,7% da amostra pretendida (1.042/1.056), 14 questionários foram considerados inválidos por não conterem informação relativa às variáveis fundamentais.

As características sociais e sanitárias dos indivíduos estudados são apresentadas na Tabela 1.

 

 

Mais de metade da amostra era hipertensa (54,8%), hipercolesterolémica (63,1%), quase 30% obesa, cerca de 13% diabética e de 16% fumadora.

A prevalência da hipertensão na amostra foi de 54,8% e mais frequente nos homens: 61,0% no sexo masculino versus 50,6% no feminino.

Os valores médios da pressão arterial sistólica e diastólica foram 134,77 (IC95% 133,58;135,97; DP = 19,7) e 81,02 (IC95% 80,33;81,72; DP = 11,4), respectivamente.

A média de idade dos utentes HT foi de 55,49 anos e de 51,50 anos nos não hipertensos (p < 0,001).

A prevalência da hipertensão foi significativamente maior nos homens (p < 0,01), aumentou com a idade, não pareceu estar relacionada com o facto de residir em meio urbano ou rural, mas foi mais frequente nos indivíduos com menor grau de escolaridade e entre os casados.

A hipertensão também foi mais frequente nos indivíduos profissionalmente inactivos, nos diabéticos, hipercolesterolémicos, obesos, e entre aqueles que apresentaram antecedentes cardiovasculares pessoais e familiares precoces (p < 0,05). Este fenómeno não foi observado nos fumadores, e a prevalência da hipertensão foi mais elevada nos não fumadores.

Dos HT, 70% (400/571) encontravam-se medicados para a hipertensão.

A prevalência da hipertensão tratada foi mais elevada no sexo feminino (p < 0,05), aumentou com a idade, esteve relacionada com o facto de residir num local urbano (p = 0,001), mas não com o grau de escolaridade nem com o estatuto face ao trabalho e foi mais frequente nos indivíduos não casados (solteiros, divorciados ou viúvos).

A prevalência da hipertensão tratada foi mais elevada entre os diabéticos, entre aqueles com antecedentes cardiovasculares pessoais (p < 0,05) e nos não fumadores. HTT reportaram maior número de visitas ao médico por ano do que os não tratados (p < 0,05).

Quando submetidos a tratamento anti-hipertensivo, 47,7% (191/400) dos HT estavam controlados.

A prevalência da hipertensão controlada versus hipertensão não controlada não apresentou diferenças estatisticamente significativas para nenhuma das seguintes variáveis: sexo, idade, local de residência urbano ou rural, grau de escolaridade, estatuto face ao trabalho e estado civil, antecedentes CV pessoais ou familiares precoces e hábitos tabágicos (p > 0,05).

A prevalência da hipertensão não controlada foi mais elevada entre os diabéticos e os doentes de alto risco cardiovascular.

HTC reportaram maior número de visitas ao médico por ano do que os não controlados (p < 0,05), 52,8% dos HTC, reportaram pelo menos três consultas médicas no último ano.

Após ajustamento, a presença de hipertensão esteve positivamente associada à idade mais elevada, ao sexo masculino, ao estado civil casado, ao IMC mais elevado, ao nível de colesterol total mais alto, ao facto de ser diabético, de ter DCV pessoal e/ou familiar precoce e de reportar número mais elevado de consultas médicas por ano. Por outro lado, a presença de hipertensão mostrou-se negativamente associada aos hábitos tabágicos e foi menos frequente nos fumadores (Tabela 2).

O teste de ajuste deste modelo apresentou χ2=5,62 (p = 0,69 pelo teste de Hosmer & Lemeshow), i.e., não houve diferenças estatisticamente significativas entre os valores ajustados pelo modelo e os valores reais.

A curva ROC para o modelo da hipertensão apresentou área sob a curva de 0,78 (IC95% 0,75;0,81), o que significa que o modelo estima correctamente a probabilidade de HT superior à probabilidade de não HT em 78% dos pares (HT e não HT) (Figura 2).

 

 

As estimativas que podem ser obtidas a partir do modelo são exemplos de como este, por meio do levantamento do perfil de risco, pode contribuir para a análise sob uma perspectiva individual.

De acordo com o modelo obtido, uma mulher de 60 anos, casada, não diabética, não fumadora, não hipercolesterolémica, sem história pessoal ou familiar de DCV e um IMC = 25 kg/m2 apresenta probabilidade de 50,5% de ser hipertensa. Caso esta estimativa seja analisada com as mesmas características, mudando apenas o facto de passar a ser diabética, a probabilidade de ser hipertensa aumenta em 23%.

Ser tratado quando HT mostrou-se positivamente associado a ser mulher, a não ser casado, a ser diabético, a viver numa área urbana e a reportar mais que três consultas médicas/ano (Tabela 3).

O teste de ajuste deste modelo apresentou χ2 = 11,05 (p = 0,20 pelo teste de Hosmer & Lemeshow). Também para este modelo não existiram diferenças estatisticamente significativas entre os valores ajustados e os valores reais.

A curva ROC para o modelo "de ser tratado se hipertenso" apresentou área de 0,72 (IC95% 0,68;0,77).

Quando da avaliação univariada, não se encontraram preditores significativos para o modelo de regressão cujo desfecho era HTC.

As seguintes variáveis relacionadas à terapêutica anti-hipertensiva foram introduzidas na análise: número de medicamentos tomados, número de substâncias activas, grupos ATC das substâncias activas, número de toma diária, duração do tratamento, adesão à terapêutica auto-relatada, referência de efeitos secundários associados à medicação, percepção do efeito da terapêutica anti-hipertensiva.

Nova avaliação da associação univariada das variáveis estudadas com a variável resposta foi realizada, seguida do ajuste do modelo de regressão logística multivariado.

O controlo da hipertensão nos indivíduos medicados esteve positivamente associado ao facto de o doente relatar adesão à terapêutica, afirmar percepcionar o efeito da medicação e ser de baixo risco cardiovascular, de acordo com o modelo Score® para Portugal (Tabela 4).

O teste de ajuste deste modelo apresentou χ2 = 6,98 (p = 0,54 pelo teste de Hosmer & Lemeshow) e mostrou-se adequado à amostra observada.

A curva ROC para o modelo "de estar controlado se tratado", apresentou área de 0,77 (IC95% 0,72;0,82).

 

DISCUSSÃO

A hipertensão foi uma situação clínica frequente na nossa amostra (54,8%), a maioria dos HT encontrava-se medicada (70%) e quase metade dos HTT estava controlada (47,8%). A proporção de HTT e HTC neste estudo foi mais elevada que a encontrada noutros realizados na população portuguesa, mas a prevalência da hipertensão foi semelhante para os grupos etários estudados (40-65 anos).12,13

Os resultados do nosso estudo, em concordância com os apresentados por outros autores, sugerem que a prevalência da hipertensão em Portugal é inferior à observada noutros países industrializados, nomeadamente os EUA, Canadá, Espanha, Reino Unido e Suiça.9

A proporção de tratamento entre os HT foi alta no presente estudo (70%). Este facto está provavelmente relacionado com o local do estudo, a farmácia comunitária. Com efeito, no estudo PAP (2003), estudo de âmbito nacional em que um dos objectivos foi também a avaliação da prevalência de HTT, esta percentagem foi de 39% e 28,7% dos HTT tinham os valores de pressão arterial controlados.6 Outro estudo (2000), realizado na cidade do Porto e abrangendo população adulta com idade superior a 40 anos, reportou proporção de HT sob medicação anti-hipertensiva de 46,9%.12

A proporção de HTC, se tratados, foi também superior à proporção encontrada no estudo PAP (47,8% versus 28,7%), no entanto está de acordo com a chamada regra das metades, que, de forma genérica, verifica-se na maioria dos países desenvolvidos: cerca de metade dos HTT têm os níveis de pressão arterial controlados.16

A utilização dos aparelhos de medição da pressão arterial semi-automáticos neste estudo aumenta a validade das medições e evita o fenómeno descrito como end-digit-preference, arrolado como a tendência para arredondar os valores obtidos para o zero superior ou em múltiplos de cinco, criando clusters de medições da pressão arterial, sobretudo em torno dos valores 140/90 mmHg.1

Os resultados mostraram elevada prevalência de outros factores de risco cardiovasculares, nomeadamente a hipercolesterolémia (63,1%), a obesidade (29%) e a diabetes (12,5%). Estas proporções são semelhantes às encontradas noutros estudos nacionais, para o mesmo grupo etário (40-65 anos): Costa4 (2003) encontrou prevalência nacional da hipercolesterolémia de 63,8% e Santos & Barros15 (2003) prevalência da obesidade de 28,8% no grupo dos 40 aos 69 anos. Com base nestes dados, os resultados do presente estudo parecem ser consistentes com os observados na população portuguesa. No entanto, deve-se considerar a possibilidade de viés de selecção, pois, devido ao método de recrutamento na farmácia, a amostra é constituída por maiores proporções de indivíduos do sexo feminino e de grupos etários mais elevados do que o presente na população portuguesa.

A hipertensão esteve associada positivamente a factores cardiovasculares, como idade, sexo masculino, presença de diabetes e hipercolesterolémia, história cardiovascular pessoal e familiar precoce.

HT foi negativamente associada aos hábitos tabágicos. Não foram encontradas explicações na literatura, mas uma hipótese para este resultado é que ser HT possa levar ao abandono dos hábitos tabágicos.

HTT esteve associada sobretudo a factores relacionados com a acessibilidade a cuidados de saúde (viver numa área urbana e ter frequentado um maior número de consultas médicas por ano), mas também ser mulher, ser diabético e não ser casado/unido de facto.

O não controlo dos valores tensionais no HTT esteve associado a características próprias do doente: não adesão ao tratamento, o facto de não percepcionar o efeito terapêutico da medicação anti-hipertensiva, e ser de baixo risco cardiovascular.

A existência de efeitos secundários relacionados com o tratamento anti-hipertensivo detectados pelo doente não foi identificada como preditor significativo (p < 0,05) da falta de controlo dos valores tensionais no nosso modelo, mas teria sido se fosse considerado p < 0,10.

Variáveis como o tipo de medicação anti-hipertensiva tomada, número de medicamentos anti-hipertensivos ingeridos, número de tomas diárias e o número total de medicamentos tomados crónicamente foram analisados, mas não se monstraram associados ao não controlo da pressão arterial.

Sehestedt et al17 (2007) identificaram como principais preditores para o tratamento da hipertensão na Dinamarca o facto de ser diabético ou portador de DCV e de ter contacto mais frequente com o médico de clínica geral nos últimos 12 meses. Aumento do IMC demonstrou associação significativa, mas negativa com o facto de o indivíduo hipertenso receber tratamento. No estudo de Sehestedt et al,17 os autores não encontraram preditores com significado estatístico para o controlo da hipertensão, pois não recolheram dados relativos à toma da medicação.17

Esposti et al6 (2004) identificaram como preditores na Itália: a presença de diabetes mellitus, o aumento da idade do doente e da idade do médico. O número de outros medicamentos tomados habitualmente pelo doente e história prévia de enfarte do miocárdio foram considerados factores protectores do não controlo. Esse estudo conclui que o não controlo da hipertensão quando existe tratamento, está relacionado em simultâneo com características do doente e factores inerentes à relação existente entre o doente e o seu médico.

Knight et al10 (2001) na população americana, identificaram um conjunto de preditores independentes para o não controlo tensional: aumento da idade, regimes terapêuticos múltiplos, falta de conhecimento dos doentes sobre os valores da pressão sistólica desejáveis, e relato de efeitos secundários associados ao tratamento.

Face aos resultados obtidos no presente estudo e confrontados com os da literatura, parece-nos que os preditores para o controlo da HTA quando tratada, variam de acordo com o país provavelmente porque estão relacionados com o tipo de sistema de saúde e de cuidados médicos prestados e devem ser estudados em nível nacional.

As curvas ROC para os modelos de ser HT, HTT, ou HTC apresentam área abaixo da curva entre 0,72 e 0,78. Essa área é usada como medida da capacidade de discriminação do instrumento de rastreio, fornecendo um sumário estatístico global da sua acuidade diagnóstica. Quanto mais aproximada de 1 for a área, maior a acuidade do instrumento.18

De acordo com Hosmer & Lemeshow (2000), uma área entre 0,70 e 0,80 representa capacidade discriminatória aceitável. É possível concluir que as três áreas obtidas para os modelos de HT, HTT, ou HTC, possuem capacidade discriminatória aceitável.7

Não encontrámos estudos em Portugal cujo objectivo fosse o estudo dos preditores da HT, da HTT e da HTC. No entanto, pensamos que seu conhecimento é essencial para permitir a definição de estratégias de saúde pública adequadas à prevenção cardiovascular, e que possam auxiliar na identificação de populações-alvo necessitadas de cuidados médicos. Isso permitiria a constituição de uma ferramenta útil para o desenvolvimento de estratégias de tratamento efectivas em sub-populações específicas.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Sofia de Oliveira-Martins
Av. Prof. Gama Pinto, 1649-003
Lisboa, Portugal
E-mail: som@ff.ul.pt

Recebido: 9/3/2010
Aprovado: 7/6/2010

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Oliveira-Martins S, apresentada à Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa em 2010.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
a Ministério da Saúde, Direcção Geral da Saúde. Circular Normativa de 31/03/2004 - Diagnóstico, tratamento e controlo da hipertensão arterial. Lisboa; 2004.

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