SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.45 issue5Sugar cane burning pollution and respiratory symptoms in schoolchildren in Monte Aprazível, Southeastern BrazilSocioeconomic inequalities in expenditures and income committed to the purchase of medicines in Southern Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • text in English
  • English (pdf) | Portuguese (pdf)
  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.45 no.5 São Paulo Oct. 2011  Epub July 29, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000051 

Doença pulmonar obstrutiva crônica e fatores associados em São Paulo, SP, 2008-2009

 

Enfermedad Pulmonar Obstructiva Crónica y factores asociados en Sao Paulo, Sureste de Brasil, 2008-2009

 

 

Clóvis Arlindo de SousaI; Chester Luiz Galvão CésarII; Marilisa Berti de Azevedo BarrosIII; Luana CarandinaIV; Moisés GoldbaumV; Júlio Cesar Rodrigues PereiraII

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública. Departamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública (FSP). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Epidemiologia. FSP-USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Medicina Preventiva e Social. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IVDepartamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina. Universidade Estadual Paulista. Botucatu, SP, Brasil
VDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina. USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência e fatores associados à doença pulmonar obstrutiva crônica.
MÉTODOS: Estudo transversal, de base populacional com 1.441 indivíduos de ambos os sexos e com 40 anos de idade ou mais no município de São Paulo, SP, entre 2008 e 2009. As informações foram coletadas por meio de entrevistas domiciliares e os participantes foram selecionados a partir de amostragem probabilística, estratificada por sexo e idade, e por conglomerados em dois estágios (setores censitários e domicílios). Foi realizada regressão múltipla de Poisson na análise ajustada.
RESULTADOS: Dos entrevistados, 4,2% (IC95% 3,1;5,4) referiram doença pulmonar obstrutiva crônica. Após análise ajustada, identificaram-se os seguintes fatores independentemente associados ao agravo: número de cigarros fumados na vida (> 1.500/nenhum) RP = 3,85 (IC95%: 1,87;7,94), cansar-se com facilidade (sim/não) RP = 2,61 (IC95% 1,39;4,90), idade (60 a 69 anos/50 a 59 anos) RP = 3,27 (IC95% 1,01;11,24), idade (70 anos e mais/50 a 59 anos) RP = 4,29 (IC95% 1,30;14,29), problemas de saúde nos últimos 15 dias (sim/não) RP = 1,31 (IC95% 1,02;1,77), e atividade física no tempo livre (sim/não) RP = 0,57 (IC95% 0,26;0,97).
CONCLUSÕES: A prevalência da doença pulmonar obstrutiva crônica é elevada e está associada ao uso do tabaco e idade acima de 60 anos. Os problemas de saúde freqüentes e redução da atividade física no tempo livre podem ser considerados conseqüências dessa doença.

Descritores: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, epidemiologia. Fatores Associados. Estilo de Vida. Estudos Transversais.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To assess the prevalence of chronic obstructive pulmonary disease and related risk factors.
METHODS: A population-based cross-sectional study with 1,441 individuals of both sexes aged 40 years or more was conducted in the city of São Paulo, Brazil, between 2008 and 2009. A two-stage (census tract, household) cluster random sampling stratified by sex and age was used and data was collected through home interviews. Multiple Poisson regression was used in the adjusted analysis.
RESULTS: Of all respondents, 4.2% (95%CI: 3.1;5.4) reported chronic obstructive pulmonary disease. After adjustment the following factors were found independently associated with self-reported chronic obstructive pulmonary disease: number of cigarettes smoked in their lifetime (>1,500 vs. none) (PR=3.85; 95%CI: 1.87;7.94); easily fatigued (yes vs. no) (PR=2.61; 95%CI: 1.39;4.90); age (60;69 vs. 50;59) (PR 3.27; 95%CI: 1.01;11.24); age (70 and over vs. 50;59) (PR 4.29; 95%CI: 1.30;11.29); health conditions in the last 15 days (yes vs. no) (PR=1.31; 95%CI: 1.02;1.77); leisure-time physical activity (yes vs. no) (PR=0.57; 95%CI: 0.26;0.97).
CONCLUSIONS: The prevalence of chronic obstructive pulmonary disease is high in the population studied and is associated with smoking and age over 60. Frequent health conditions and low leisure-time physical activity are a consequence of the disease.

Descriptors: Pulmonary Disease, Chronic Obstructive, Epidemiology.Risk Factors. Life Style. Cross-Sectional Studies.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia y factores asociados con la enfermedad pulmonar obstructiva crónica.
MÉTODOS: Estudio transversal, de base poblacional con 1.441 individuos de ambos sexos y con 40 años de edad o más en el municipio de São Paulo, Sureste de Brasil, entre 3008 y 2009. Las informaciones fueron colectadas por medio de entrevistas domiciliares y los participantes fueron seleccionados a partir de muestreo probabilístico estratificado por sexo y edad, y por conglomerados en dos fases (sectores censitarios y domicilios). Se realizó regresión múltiple de Poisson en el análisis ajustado.
RESULTADOS: De los entrevistados, 4,2% (IC95% 3,1;5,4) mencionaron enfermedad pulmonar obstructiva crónica. Posterior al análisis ajustado, se identificaron los siguientes factores independientemente asociados con el agravio: número de cigarros fumados en la vida (>1500/ninguno) RP=3,85 (IC95% 1,87;7,94), cansarse con facilidad (si/no) RP=2,61 (IC95% 1,39;4,90), edad (60 a 69 años/50 a 59 años) RP=3,27 (IC95% 1,01;11,24), edad (70 años y más/50 a 59 años) RP=4,29 (IC95% 1,30;14,29), problemas de salud en los últimos 15 días (si/no) RP=1,31 (IC95% 1,02;1,77) y actividad física en el tiempo de ocio (si/no) RP=0,57 (IC95% 0,26;0,97).
CONCLUSIONES: La prevalencia de la enfermedad pulmonar obstructiva crónica es elevada y está asociada al uso del tabaco y edad por encima de 60 años. Los problemas de salud frecuentes y reducción de la actividad física en el tiempo de ocio pueden ser considerados consecuencias de dicha enfermedad.

Descriptores: Enfermedad Pulmonar Obstructiva Crónica, epidemiología. Factores de Riesgo. Estilo de Vida. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é caracterizada por limitação do fluxo aéreo não totalmente reversível, progressiva e associada a uma resposta inflamatória anormal dos pulmões à inalação de partículas ou gases nocivos. Os principais fatores de risco são: fumaça do cigarro, poeiras ocupacionais, irritantes químicos, poluição ambiental, baixa condição socioeconômica e infecções respiratórias graves na infância.2

O processo inflamatório crônico pode produzir modificações dos brônquios (bronquite crônica) e causar destruição do parênquima pulmonar (enfisema), com conseqüente redução de sua elasticidade. A presença dessas alterações é variável em cada indivíduo e determina os sintomas da enfermidade. Os sintomas incluem tosse crônica, produção de expectoração e dispnéia ao esforço; embora a DPOC comprometa os pulmões, também produz conseqüências sistêmicas significativas para o sistema muscular e o cardiovascular. As mudanças compostas por inflamação, hipersecreção de muco, contração da musculatura lisa das vias aéreas, espessamento da parede brônquica, perda de retração elástica e destruição alveolar levam à limitação do fluxo aéreo, à inadequação da relação ventilação-perfusão e à hiperinsuflação pulmonar. Com exceção da asma, a DPOC engloba a bronquite crônica e o enfisema, e essas duas doenças possuem definições próprias: a bronquite crônica refere-se à presença de tosse e produção de expectoração por pelo menos três meses em dois anos consecutivos; o enfisema é definido por destruição alveolar.2

A DPOC é uma das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo, impondo substancial sobrecarga econômica sobre o indivíduo portador da doença e o sistema de saúde. Os custos diretos incluem despesas médicas (remédios, exames, consultas e serviços hospitalares) e não-médicas (transporte e aluguel/compra de equipamentos domiciliares) associadas à doença. Os custos indiretos refletem as perdas causadas por redução ou interrupção da produtividade em virtude do adoecimento ou morte precoce. Combinando a prevalência da doença com seu impacto, estimam-se gastos da ordem de US$ 1.522,00 por doente por ano, quase três vezes o custo por doente asmático.5 Dados de uma coorte prospectiva de 1.510 pacientes com DPOC, acompanhados na Espanha durante o ano 2000, mostraram que os pacientes mais graves geraram custo anual de US$ 2.911,00, os moderados, de US$ 2.047,00 e os leves, de US$ 1.484,00.20

Halbert et al10 (2003) analisaram a prevalência da DPOC em 17 cidades da Europa e da América do Norte a partir de 32 artigos científicos publicados entre 1961 e 2001. As prevalências variaram de 4% a 10% e foram estimadas a partir de diagnósticos espirométricos, de sintomas respiratórios e de doença auto-referida.

A prevalência da DPOC esteve entre 6% e 15,8% na cidade de São Paulo em 2003, a depender do critério diagnóstico espirométrico.18 Para a América Latina, a prevalência variou de 7,8% na Cidade do México a 19,7% em Montevidéu.19

Existe importante carência de informações sobre prevalência de DPOC e fatores associados. O fator de risco considerado mais importante para presença da DPOC é a fumaça de cigarro. O cachimbo, o charuto e outros tipos de tabaco populares em muitos países também são fatores associados à DPOC. Fatores adicionais incluem: poeiras e produtos químicos ocupacionais; poluição do ar intradomiciliar, proveniente de fogões a lenha utilizados para cozinhar e aquecer residências pouco ventiladas; poluição extradomiciliar, que se acrescenta ao impacto total de partículas inaladas do pulmão, embora seu papel específico para determinação da DPOC não seja bem compreendido; e a exposição passiva à fumaça de cigarro, que também pode contribuir para sintomas respiratórios e para a DPOC.2,17

Nos Estados Unidos, a DPOC é a quarta causa de morte, e a maior causa de morbidade e incapacidade; cerca de 715.000 hospitalizações ocorreram no país por DPOC em 2005.1 Segundo o último consenso2 sobre DPOC, a doença foi a quinta maior causa de internação no sistema público de saúde em maiores de 40 anos no Brasil em 2003, com 196.698 internações e gasto aproximado de R$ 72 milhões. A mortalidade por DPOC no Brasil alcançou 38 mil pessoas por ano, classificada entre a quinta e a sexta causa de morte no País (excluindo mortalidade por causas externas). Entre 1997 e 2007 a mortalidade por essa doença cresceu 24,3%.ª

Considerando a relevância desse problema no País, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência e os fatores associados à DPOC.

 

MÉTODOS

Estudo transversal, de base populacional, utilizando-se os dados do Inquérito de Saúde no Município de São Paulo 2008 (ISA-Capital 2008) de 2008 a 2009. A amostra total foi de 3.271 pessoas e selecionados os adultos de ambos os sexos com 40 anos ou mais, perfazendo total de 1.441 indivíduos.

Os participantes foram selecionados por meio de amostragem probabilística, estratificada por sexo e idade, e por conglomerados em dois estágios: setores censitários e domicílios. A partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD-2002), que amostrou no município de São Paulo 267 setores censitários urbanos, foram sorteados 70 setores.b

As informações foram obtidas por meio de questionário estruturado em 21 blocos temáticos com a maioria das questões fechadas, aplicado à pessoa sorteada.c As entrevistas foram realizadas por pessoal treinado e supervisionado durante toda a duração do inquérito. Entrevistas por telefone ou diretamente no domicilio foram realizadas em amostra aleatória de 5% das entrevistas para assegurar o controle de qualidade na coleta de dados. A taxa de não resposta foi de 22,5% e 7,3% de domicílios vagos ou cujos moradores se recusaram a informar se havia alguém da faixa etária de interesse residindo no domicílio.

A variável dependente utilizada foi a DPOC referida (sim/não). As variáveis independentes selecionadas para análise foram:

  • variáveis sociodemográficas e econômicas: sexo, idade, raça/cor, situação conjugal, escolaridade do indivíduo, renda familiar, caracterização do domicílio, tipo de moradia, número de cômodos no domicílio e destino do esgoto;
  • variáveis de estilo de vida: tabagismo, número de cigarros por dia, tempo de fumo, número de cigarros fumados na vida, calculado pelo número médio de cigarros por dia que fuma ou fumou e o número de anos de uso do fumo, dependência alcoólica avaliada por meio do teste Cut down, Annoyed by criticism, Guilty e Eyeopener (CAGE), e se realiza atividade física no tempo livre;
  • condições de saúde: índice de massa corporal (IMC) calculado com dados de peso e estatura referidos, dorme mal, cansado(a) o tempo todo e cansa com facilidade, que são itens do instrumento Self-Report Questionnaire (SRQ-20), internação nos 12 últimos meses prévios à entrevista, noites de internação, problemas de saúde nos 15 dias anteriores à entrevista, e relatos da presença de hipertensão, diabetes, alergia, rinite, anemia, doença de coluna, artrite/reumatismo/artrose, doença renal crônica, acidente vascular cerebral, depressão/ansiedade/problemas emocionais, osteoporose e doença do coração.

A associação entre as variáveis independentes e DPOC foi examinada na análise bivariada pelo teste χ2 com nível de significância de 5%. Foram utilizadas razões de prevalência e intervalos de 95% de confiança e realizada regressão múltipla de Poisson para análise ajustada. No modelo múltiplo, foram consideradas as variáveis que tiveram p < 0,20 na análise bivariada, e permaneceram no modelo apenas aquelas com p < 0,05. Interações entre as variáveis do modelo final foram examinadas. Em todas as análises, considerou-se o efeito do desenho amostral para análise de inquéritos baseados em delineamentos complexos.

Utilizou-se o programa SPSS 16.0, que permite incorporar os pesos distintos das observações.

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Processo n° 381/2001). Os entrevistados assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no qual eram explicados os objetivos da pesquisa e as informações solicitadas, garantida a confidencialidade das informações obtidas.

 

RESULTADOS

Dos 1.441 entrevistados com 40 anos ou mais, 55,6% eram do sexo feminino, 66,3% de cor branca e 69,4% possuíam cônjuge. Quanto à escolaridade, 44% tinham escolaridade fundamental e 27,9% possuíam ensino médio. Moravam em domicílios caracterizados como casa 68%, 73,7% em moradia própria e 71,7% residiam em domicílios com quatro cômodos ou mais (Tabela 1).

A prevalência estimada para DPOC auto-referida foi de 4,2% (IC95% 3,1;5,4). As variáveis associadas na análise bruta foram: idade (p < 0,030), número de cigarros fumados na vida (p < 0,001), sentir-se cansado(a) o tempo todo (p = 0,011), cansar-se com facilidade (p < 0,001), realização de atividade física no tempo livre (p = 0,047), presença de problemas de saúde nos últimos 15 dias à entrevista (p = 0,046), rinite (p = 0,030) e osteoporose (p = 0,031) (Tabelas 1, 2 e 3).

As variáveis independentes associadas à DPOC auto-referida no modelo de regressão múltipla de Poisson foram: número de cigarros fumados na vida (> 1.500/ nenhum) (RP = 3,85; IC95% 1,87;7,94), cansar-se com facilidade (sim/não) (RP = 2,61; IC95% 1,39;4,90), idade (60 a 69 anos/50 a 59 anos) (RP = 3,27; IC95% 1,01;11,24), idade (70 anos e mais/ 50 a 59 anos) (RP = 4,29; IC95% 1,30;14,29), apresentar problemas de saúde nos últimos 15 dias anteriores à entrevista (sim/não) (RP = 1,31; IC95% 1,02;1,77), e atividade física no tempo livre (sim/não) (RP = 0,57; IC95% 0,26;0,97) (Tabela 4).

Não houve interação entre número de cigarros fumados na vida e cansar-se com facilidade (p = 0,279). A atividade física no tempo livre não modificou associação para problemas de saúde nos 15 dias anteriores à entrevista (p = 0,747) e cansar-se com facilidade (p=0,101). Não houve interação entre cansar-se com facilidade e problemas de saúde nos últimos 15 dias anteriores à entrevista (p = 0,401). A idade não modificou associação para nenhuma variável, exceto para o número de cigarros fumados na vida (p < 0,001).

 

DISCUSSÃO

A prevalência estimada para DPOC auto-referida foi de 4,2% (IC95% 3,1;5,4%). Os dados sobre a prevalência de DPOC na América Latina são relativamente escassos. O único estudo publicado no Brasil até 2004 havia sido realizado em Pelotas, RS.17 Esse estudo foi do tipo transversal em amostra randomizada de 1.053 pessoas com mais de 40 anos, em que se estimou a prevalência de bronquite crônica avaliada segundo os critérios clínicos clássicos. A prevalência de 12,7% de pessoas com bronquite crônica foi observada nesta amostra. Embora tenha grande importância na epidemiologia de bronquite crônica no Brasil, este estudo não avaliou a prevalência de DPOC, pois não incluiu o enfisema.

O projeto Platino foi um estudo transversal de base populacional com objetivo de avaliar a prevalência de DPOC em 2003. São Paulo foi a primeira cidade estudada e, a depender do critério diagnóstico espirométrico, as prevalências variaram entre 6%17 e 19,7%18 na América Latina.

Segundo Halbert et al11 (2006), a prevalência de DPOC diagnosticada por espirometria foi de 9,2% (IC95% 7,7;11,0) em 37 estudos e de DPOC auto-referida foi de 4,9 (IC95% 2,8;8,3) em sete estudos, valor semelhante ao encontrado no presente estudo.

Para o desenvolvimento da DPOC, é necessário haver interação entre exposição a fatores de risco ambientais, como a fumaça do cigarro, e presença de fatores individuais.14 Os fatores individuais envolvem, por exemplo, deficiência de alfa-1 antitripsina, hiper-responsividade brônquica, desnutrição, prematuridade e infecções respiratórias recorrentes.2 Determinada geneticamente, a deficiência de alfa-1 antitripsina ocorre de 3% a 10% da população caucasiana e está associada à ocorrência da DPOC.14 Em 1963,15 Laurell & Eriksson mostraram que indivíduos com deficiência dessa proteína protetora dos pulmões apresentaram aumento da prevalência de enfisema, devido à perda da função de inibir a elastase neutrofílica, capaz de destruir o parênquima pulmonar. Apesar de não existirem evidências da contribuição da variação genética para ocorrência da DPOC, autores relatam que a hereditariedade pode responder por até 40% das ocorrências de bronquite crônica.9

O fator de risco mais importante para ocorrência da DPOC é a fumaça de cigarro. O cachimbo, o charuto e outros tipos de uso de tabaco também são considerados fatores de risco. Para o presente estudo, o número de cigarros fumados na vida (> 1.500) apresentou RP 3,9 vezes maior para DPOC em comparação àqueles que nunca fumaram. O estudo Platino mostrou que os fumantes apresentavam RP de 2,04 (IC95%: 1,41;2,95) para DPOC quando comparados aos não fumantes de São Paulo em 2003.18 De acordo com o II Consenso Brasileiro sobre DPOC,2 aproximadamente 15% dos fumantes desenvolvem DPOC, percentual que pode estar subestimado. Estudo de coorte16 com 8.045 pessoas acompanhadas durante 25 anos na cidade de Copenhague, Dinamarca, estimou que, entre aqueles com hábito de fumar nesse período, 25% deles desenvolveram DPOC.

As maiores prevalências de DPOC são encontradas entre a sexta e a sétima década de vida.17,18 No presente estudo, independentemente da quantidade de cigarros fumados na vida, idade > 60 anos foi significante para presença de DPOC. A história natural da obstrução crônica do fluxo aéreo mostra que mesmo os indivíduos que nunca fumaram ou que não são suscetíveis aos males do cigarro perdem, em média, 25% de função pulmonar entre os 40 e 80 anos.6 A prevalência de DPOC foi 1,3 vez maior em indivíduos que relataram problemas de saúde nos 15 dias anteriores à entrevista, quando comparados aos que não relataram problemas de saúde. A razão de prevalência para DPOC foi 2,6 vezes maior para aqueles que se cansam com facilidade, comparados aos que não se cansam com facilidade. A DPOC causa prejuízos para a mecânica pulmonar, a musculatura periférica e o sistema cardiovascular, o que pode explicar a dispnéia e a percepção de cansaço ao realizar qualquer forma de esforço físico.8, 22, 23

Alterações na mecânica pulmonar originam-se da obstrução brônquica que favorece o aprisionamento de ar nos pulmões. Cronicamente, esse processo fisiopatológico tende a levar à hiperinsuflação pulmonar, o que reduzirá a capacidade física aos esforços físicos cada vez menores. As alterações fisiopatológicas na DPOC tendem a se agravar com a progressão da doença e a desencadear sintomas limitantes nos pacientes, como dispnéia. Dessa forma, as atividades da vida diária do indivíduo são reduzidas e, conseqüentemente, instala-se um ciclo vicioso no qual ele limita suas atividades para amenizar os sintomas.22 Esse repouso excessivo leva a pessoa com DPOC ao descondicionamento físico, considerado o principal fator para perda de massa muscular.8,23

Portadores de DPOC possuem risco de mortalidade por doença cardiovascular, independentemente do uso do tabaco. Esse fenômeno pode estar relacionado à pré-disposição genética comum entre aterosclerose e enfisema, pois ambas são doenças inflamatórias sistêmicas.23 Comorbidades associadas à inflamação sistêmica, incluindo doenças cardiovasculares e diabetes mellitus, são comuns entre indivíduos com DPOC. Em recente estudo conduzido na Inglaterra com registros de cuidados primários de 1.204.100 pessoas com 35 anos ou mais, observou-se que DPOC diagnosticada por médicos esteve associada com chance aumentada para doença cardiovascular (OR = 4,98; IC95% 4,85;5,81), acidente vascular cerebral (OR = 3,34; IC95% 3,21;3,48) e diabetes mellitus (OR = 2,04; IC95% 1,97;2,12).4

Indivíduos com DPOC apresentaram redução da prevalência de realização da atividade física no seu tempo livre (RP = 0,57; IC95% 0,26;0,97). Em virtude da incapacidade provocada pela doença e limitação das atividades diárias para amenizar os sintomas, os indivíduos com DPOC permanecem na posição sentada grande parte do dia. Essa preferência pelo repouso excessivo é explicada pela sensação de falta ar e de esgotamento muscular precoce na presença de qualquer intensidade de atividade física.22

Ao contrário do senso comum, a prática supervisionada de exercício físico em qualquer estádio da doença é altamente recomendada, e a reabilitação pulmonar tem por objetivo otimizar a performance física e social, e a autonomia do paciente. A reabilitação pulmonar envolve quatro componentes: tratamento medicamentoso; treinamento da musculatura ventilatória; programa educacional, com intervenções psicossociais e comportamentais; e treinamento físico. Os benefícios obtidos com a reabilitação pulmonar nos indivíduos com DPOC envolvem: melhora da capacidade de exercício e da qualidade de vida relacionada à saúde; redução da sensação de falta de ar e do número de hospitalizações, bem como dias de internação hospitalar; e, ainda, redução da sensação de dispnéia a partir do treinamento dos músculos dos membros superiores.2

A promoção da atividade física reduz o risco de desenvolvimento da DPOC: estudo de caso-controle no Japão, com 278 casos e 335 controles com idades entre e 50 e 75 anos, concluiu que as pessoas que permaneceram ativas ao longo da vida tiveram melhor função pulmonar quando comparadas aos sedentários. Foi observado OR ajustado de 0,59 (IC95% 0,36;0,97) para DPOC entre os fisicamente ativos, quando comparados aos inativos.13 Para o mesmo estudo, a dispnéia apresentou OR de 0,56 (IC95% 0,36;0,88) para os ativos em comparação aos inativos fisicamente.

As diretrizes de saúde pública a respeito da atividade física para adultos publicadas pelo American College of Sports Medicine (ACSM) e pela American Heart Association (AHA) recomendam o mínimo de 30 minutos de atividade física de intensidade moderada (por ex., caminhada), cinco vezes por semana, ou 20 minutos de atividade física de intensidade vigorosa (por ex., caminhada rápida ou corrida), três vezes por semana, é necessário para a manutenção e promoção da saúde. Em virtude da relação dose-resposta entre exercício físico e saúde, indivíduos que desejam melhorar a sua aptidão física, reduzir o seu risco para doenças crônicas e incapacidades ou prevenir o ganho de peso podem beneficiar-se superando o mínimo recomendado de atividade física.12

Garcia-Aymerich et al7 (2005) acompanharam 6.790 adultos durante dez anos para analisar associação entre atividade física regular e declínio da função pulmonar, e risco de DPOC em fumantes e não fumantes. Para os indivíduos (fumantes e não fumantes) que realizavam entre médio e elevado nível de atividade física, o risco relativo para desenvolver DPOC foi de 0,80 (IC95%: 0,65;0,98) em comparação com o grupo de baixo nível de atividade física. Para os fumantes ativos que realizam atividade física entre médio e elevado nível, também houve proteção para desenvolvimento da DPOC com risco relativo de 0,77 (IC 95% 0,61;0,97), em comparação ao grupo com baixo nível de atividade física.

A atividade física pode prevenir o aparecimento da DPOC independente do uso de tabaco, e a plausibilidade biológica da influência da atividade física sobre o declínio da função pulmonar baseia-se no efeito antiinflamatório. O exercício físico, além de reduzir níveis de citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α e proteína C-reativa), aumenta a concentração de citocinas antiinflamatórias (IL-4, IL-10 e TGF-β) quando comparado ao grupo controle.3

Morbidade auto-referida é uma limitação, pois pode-se subestimar a prevalência da doença respiratória em virtude do viés de memória e/ou ausência de diagnóstico. No entanto, Mullerova et al21 (2004) defendem a validade da auto-referência para os estudos epidemiológicos em doenças respiratórias, em virtude de os dados oferecerem sensibilidade e especificidade adequadas em rastreamentos populacionais, o que pode refletir indiretamente a prevalência real da doença e constituir um indicador indireto com bom grau de confiabilidade. Do ponto de vista epidemiológico, estimar a prevalência de doenças respiratórias auto-referidas na população é uma maneira simples e direta para obter informações sobre a saúde e apresenta bons níveis de concordância, reprodutibilidade e custo-benefício, quando se consideram os resultados obtidos de avaliações clínicas.

Estudos transversais com delineamento amostral complexo são amplamente empregados em epidemiologia. O fato de utilizar conglomeração implica em maior imprecisão nas estimativas da variância do que amostragem aleatória simples, que por sua vez implica mais imprecisão que uma amostra estratificada. Estudos com amostra complexa devem prover estimativa precisa de parâmetros, e o efeito de desenho (Deff) avalia quanto disso foi obtido, considerando a razão de variância em amostragem aleatória simples e complexa. Além de ser utilizado para o planejamento de pesquisa no cálculo do tamanho de amostra, o Deff é utilizado para avaliar o erro cometido ao se ignorar o plano amostral complexo e analisar os dados como se fossem extraídos por meio de amostra aleatória simples. O Deff refere-se ao "preço" pago pelo pesquisador por ter sua tarefa facilitada ao investigar apenas conglomerados sorteados, elevando a imprecisão do estudo, devido às possíveis correlações das unidades amostrais dentro e entre os conglomerados.24

Os achados do presente estudo apontam a importância da DPOC, associada ao uso do tabaco e idade acima de 60 anos. Os problemas de saúde freqüentes e redução da atividade física no tempo livre podem ser considerados resultados dessa doença. Considerando a tendência de aumento da DPOC devido à crescente longevidade da população, o diagnóstico precoce e a necessidade de abordagem educacional para cessação do tabagismo e para prática de atividades físicas são de extrema importância para qualidade de vida relacionada à saúde desses indivíduos e redução do impacto econômico da doença para o sistema de saúde.

 

REFERÊNCIAS

1. Brown DW, Croft JB, Greenlund KJ, Giles WH. Trends in hospitalization with chronic obstructive pulmonary disease - United States, 1990-2005. COPD. 2010;7(1):59-62. DOI:10.3109/15412550903499548        [ Links ]

2. Consenso Brasileiro sobre Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica II - DPOC. J Bras Pneumol. 2004;30(Supl 5):S1-42.         [ Links ]

3. Das UN. Anti-inflammatory nature of exercise. Nutrition. 2004;20(3):323-6. DOI:10.1016/j.nut.2003.11.017. DOI:10.1016/j.nut.2003.11.017        [ Links ]

4. Feary JR, Rodrigues LC, Smith CJ, Hubbard RB, Gibson JE. Prevalence of major comorbidities in subjects with COPD and incidence of myocardial infarction and stroke: a comprehensive analysis using data from primary care. Thorax. 2010;65(11):956-62. DOI:10.1136/thx.2009.128082        [ Links ]

5. Fiedman M, Hilleman DE. Economic burden of chronic obstrutive pulmonary disease: impact of new treatment options. Pharmacoeconomics. 2001;19(3):245-54.         [ Links ]

6. Fletcher C, Peto R. The natural history of chronic airflow obstruction. Br Med J. 1977;1(6077):1645-8. DOI: 10.1136/bmj.1.6077.1645        [ Links ]

7. Garcia-Aymerich J, Lange P, Benet M, Schnohr P, Antó JM. Regular physical activity modifies smoking-related lung function decline and reduces risk of chronic obstructive pulmonary disease: a population-based cohort study. Am J Respir Crit Care Med. 2007;175(5):458-63. DOI: 10.1164/rccm.200607-896OC        [ Links ]

8. Gosker HR, Wouters EFM, van der Vusse GJ, Schols AMWJ. Skeletal muscle dysfunction in chronic obstructive pulmonary disease and chronic heart failure: underlying mechanisms and therapy perspectives. Am J Clin Nutr. 2000;71(5):1033-47.         [ Links ]

9. Hallberg J, Dominicus A, Eriksson UK, Gerhardsoon de Verdier M, Pedersen NL, Dahlbäck M, et al. Interaction between smoking and genetic factors in the development of chronic bronchitis. Am J Respir Crit Care Med. 2008;177(5):486-90. DOI:10.1164/rccm.200704-565OC        [ Links ]

10. Halbert RJ, Isonaka S, George D, Iqbal A. Interpreting COPD prevalence estimates: what is the true burden of disease? Chest. 2003;123(5):1684-92. DOI:10.1378/chest.123.5.1684        [ Links ]

11. Halbert RJ, Natoli JL, Gano A, Badamgarav E, Buist AS, Mannino DM. Global burden of COPD: systematic review and meta-analysis. Eur Respir J. 2006;28(3):523-32. DOI:10.1183/09031936.06.00124605        [ Links ]

12. Haskell WL, Lee IM, Pate RR, Powell KE, Blair SN, Franklin BA, et al. Physical activity and public health: updated recommendation for adults from the American College of Sports Medicine and the American Heart Association. Circulation. 2007;116(9):1081-93. DOI:10.1161/CIRCULATIONAHA.107.185649        [ Links ]

13. Hirayama F, Lee AH, Hiramatsu T. Life-long physical activity involvement reduces the risk of chronic obstructive pulmonary disease: a case-control study in Japan. J Phys Act Health. 2010;7(5):622-6.         [ Links ]

14. Joos L, Paré PD, Sandford AJ. Genetic risk factors of chronic obstructive pulmonary disease. Swiss Med Wkly. 2002;132(3-4):27-37. DOI:2002/03/smw-09752        [ Links ]

15. Laurell CC, Eriksson S. The electrophoretic alpha-1-globulin pattern of serum in alpha-1-antitrypsin deficiency. Scand J Clin Lab Invest. 1963;15(2):132-40. DOI:10.1080/00365516309051324        [ Links ]

16. Lokke A, Lange P, Scharling H, Fabricius P, Vestbo J. Developing COPD: a 25 year follow up study of the general population. Thorax. 2006;61(11):935-9. DOI:10.1136/thx.2006.062802        [ Links ]

17. Menezes AM, Victora CG, Rigatto M. Prevalence and risk factors for chronic bronchitis in Pelotas, RS, Brazil: a population-based study. Thorax. 1994;49(12):1217-21.DOI:10.1136/thx.49.12.1217        [ Links ]

18. Menezes AMB, Jardim JR, Perez-Padilla R, Camelier A, Rosa F, Nascimento O, et al. Prevalence of chronic obstructive pulmonary disease and associated factors: the PLATINO Study in São Paulo, Brazil. Cad Saude Publica. 2005;21(5):1565-73. DOI:10.1590/S0102-311X2005000500030        [ Links ]

19. Menezes AMB, Perez-Padilla R, Jardim JR, Muiño A, Lopez MV, Valdivia G, et al. Chronic obstructive pulmonary disease in five Latin American cities (the PLATINO study): a prevalence study. Lancet. 2005;366(9500):1875-81. DOI:10.1016/S0140-6736(05)67632-5        [ Links ]

20. Miravitlles M, Murio C, Guerrero T, Gisbert R. Costs of chronic bronchitis and COPD: a 1-year follow-up study. Chest. 2003;123(3):784-91. DOI:10.1378/chest.123.3.784        [ Links ]

21. Müllerová H, Wedzicha J, Soriano JB, Vestbo J. Validation of a chronic obstructive pulmonary disease screening questionnaire for population surveys. Respir Med. 2004;98(1):78-83. DOI:10.1016/j.rmed.2003.08.009        [ Links ]

22. O'Donnell DE, Laveneziana P. Dyspnea and activity limitation in COPD: mechanical factors. COPD. 2007;4(3):225-36. DOI:10.1080/15412550701480455        [ Links ]

23. Passowicz-Muszyńska E, Gostkowska-Malec A, Jankowska R, Piesiak P. Chronic obstructive pulmonary disease and cardiovascular diseases. Pneumonol Alergol Pol. 2010;78(1):28-32.         [ Links ]

24. Sousa MH, Silva NN. Estimativas obtidas de um levantamento complexo. Rev Saude Publica. 2003;37(5):622-70. DOI:10.1590/S0034-89102003000500018        [ Links ]

 

 

Correspondência:
Clóvis Arlindo de Sousa
Departamento de Epidemiologia
Universidade de São Paulo
Av. Dr. Arnaldo, 715 - Cerqueira Cesar
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: clovissousa@usp.br

Recebido: 11/11/2010
Aprovado: 4/5/2011

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Sousa CA, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, em 2011.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Ministério da Saúde do Brasil. Departamento de Informática do SUS - DATASUS. Informações de saúde: estatísticas vitais - mortalidade [citado 20 set 2010]. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205
b Alves MCGP, Escuder MML. Plano de amostragem do ISA - Capital 2008. São Paulo; 2009 [citado 2010 nov 2]. Disponível em: http://www.fsp.usp.br/isa-sp/pdf/planoamostral2008.pdf
c Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública. Inquérito de Saúde no Município de São Paulo - ISA Capital 2008: questionário completo. São Paulo; 2008 [citado 2010 nov 2]. Disponível em: http://www.fsp.usp.br/isa-sp/pdf/questionarioisa2008.pdf

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License