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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 no.2 São Paulo abr. 2012 Epub 24-Fev-2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012005000020 

Concepções de agricultores ecológicos do Paraná sobre alimentação saudável

 

Concepciones de agricultores ecológicos de Paraná (Sur de Brasil) sobre alimentación saludable

 

 

Erica EllI, II; Denise Oliveira e SilvaIII; Eleusis Ronconi de NazarenoI, IV; Alfio BrandenburgI

IPrograma de Pós-Graduação em Meio Ambiente & Desenvolvimento. Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba, PR, Brasil
IIDepartamento de Ciência e Tecnologia. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Ministério da Saúde. Brasília, DF, Brasil
IIISetor de Nutrição. Escola Nacional de Saúde Pública. Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IVDepartamento de Saúde Comunitária. Setor de Ciências da Saúde. UFPR. Curitiba, PR, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as concepções de agricultores ecológicos sobre alimentação saudável.
MÉTODOS: Estudo com abordagem qualitativa. Entre janeiro e fevereiro de 2007, foram realizadas entrevistas em profundidade com o apoio de um roteiro com 11 mulheres e um homem residentes em comunidade agrícola de Rio Branco do Sul, PR, selecionados aleatoriamente dentre as 20 famílias de agricultores ecológicos desse município.
RESULTADOS: Três categorias de análise foram identificadas: "tomada de consciência da alimentação saudável", "capacidade de compra" e "terra saudável". O significado da alimentação saudável para as mulheres agricultoras envolve a ideia de que os alimentos devem ser naturais, sem agrotóxicos nem produtos químicos industrializados. Cotidianamente o consumo de frutas, verduras e legumes somado ao básico feijão, arroz e carne deve ser abundante e a composição do prato deve visar à prevenção de obesidade e doenças crônico-degenerativas. O cuidado com os recursos naturais para garantir a produção de alimentos saudáveis, a segurança alimentar, a sustentabilidade do meio ambiente e a vida futura do planeta integram o conceito de alimentação saudável.
CONCLUSÕES: O conhecimento, a autocrítica e o discernimento acompanharam as concepções em relação à alimentação saudável.

Descritores: Mulheres. Agricultura Orgânica. Alimentação. Educação Alimentar e Nutricional. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde. Pesquisa Qualitativa.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir las concepciones de agricultores ecológicos sobre alimentación saludable.
MÉTODOS: Estudio con abordaje cualitativo. Entre enero y febrero de 2007, se realizaron entrevistas en profundidad con el apoyo de un itinerario con 11 mujeres y un hombre residentes en comunidad agrícola de Rio Branco do Sul, Sur de Brasil, seleccionados aleatoriamente entre las 20 familias de agricultores ecológicos de este municipio.
RESULTADOS: Tres categorías de análisis fueron identificadas: "tomada de consciencia de la alimentación saludable", "capacidad de compra" y "tierra saludable". El significado de la alimentación saludable para las mujeres agricultoras incluye la idea de que los alimentos deben ser naturales, sin pesticidas y productos químicos industrializados. Cotidianamente el consumo de frutas, verduras y legumbres sumado al básico grano, arroz y carne debe ser abundante y la composición del plato debe buscar la prevención de obesidad y enfermedades crónico-degenerativas. El cuidado con los recursos naturales para garantizar la producción de alimentos saludables, la seguridad alimentaria, la sustentabilidad del medio ambiente y la vida futura del planeta integran el concepto de alimentación saludable.
CONCLUSIONES: El conocimiento, la autocrítica y el discernimiento acompañaron las concepciones con relación a la alimentación saludable.

Descriptores: Mujeres. Agricultura Orgánica. Alimentación. Educación Alimentaria y Nutricional. Conocimientos, Actitudes y Práctica en Salud. Investigación Cualitativa.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudos sobre alimentação e nutrição humana têm sido decisivos para orientar programas e políticas públicas para a promoção da saúde. A carga de doença referente aos agravos não transmissíveis impulsiona tais estudos, uma vez que práticas inadequadas de ingestão de alimentos relacionam-se ao aumento da incidência e da prevalência de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e certos tipos de câncer.20

A Organização Mundial da Saúde, a Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas e a Organização Pan-americana da Saúde têm desenvolvido estratégias para a promoção da alimentação saudável. No Brasil e em outros países, conceitos em torno da alimentação saudável têm sido delineados para contemplar o significado social e cultural da alimentação e as necessidades nutricionais dos diferentes grupos populacionais, de modo a dar suporte às ações que fomentam mudanças socioambientais em prol de escolhas alimentares mais saudáveis, tanto individual como coletivamente.ª

Nesse contexto, por um lado, as informações sobre alimentação e nutrição devem estar disponíveis para que a população compreenda sua relação com a saúde. Por outro lado, as instituições precisam conhecer as práticas alimentares da população para promover ações que considerem os fatores sociais, culturais e econômicos envolvidos.

Nesse sentido, este artigo teve por objetivo descrever as concepções de agricultores ecológicos sobre alimentação saudável.

 

MÉTODOS

O estudo foi realizado numa comunidade agrícola localizada no município de Rio Branco do Sul, situado na Região Metropolitana de Curitiba, PR.

A comunidade foi abordada por estudantes do Programa de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná, em 2005. Naquela ocasião, foi realizado um estudo exploratório que identificou 20 famílias de agricultores ecológicos.b, c

A comunidade estudada é composta de imigrantes italianos e caboclos que praticam a agricultura ecológica desde 1990, numa área economicamente estagnada, de baixo desenvolvimento social, com decréscimo gradativo de sua população a partir de 1970.d

A produção agrícola das famílias estudadas é determinada pela demanda das associações às quais estão filiadas. Essas instituições oferecem assistência técnica, definem os produtos que devem ser plantados para atender o mercado e compram a produção. Algumas famílias mantêm suas hortas domésticas para aumentar a variedade de produtos para o consumo próprio.

As mulheres que integram essas famílias de agricultores exerciam um papel participativo e ativo nas atividades agrícolas. Além dos afazeres domésticos que desenvolviam, auxiliavam em todo processo de produção, colheita e transporte dos produtos que comercializam.

A idade das mulheres variou entre 22 e 68 anos e, em geral, apresentavam baixa escolaridade. Duas desenvolviam apenas as atividades domésticas, duas mulheres, além de realizarem o trabalho do lar e auxiliarem na lavoura como as demais, eram também professoras da rede básica do município.

Entre janeiro e fevereiro de 2007, foram realizadas entrevistas em profundidade com auxílio de roteiro com as seguintes questões: "O que entende sobre as palavras 'alimentação saudável'?"; "Considera que sua família tem uma alimentação saudável? Por quê?"; "Tem sido possível ter uma alimentação saudável? Por quê?"; "Acredita que é possível ter uma alimentação saudável?"; e "Como deve ser a terra para produzir uma alimentação mais saudável?".

A seleção dos participantes foi feita por meio de sorteio entre as 20 famílias de agricultores ecológicos, realizado a cada nova entrevista, excluindo-se os que já haviam sido entrevistados.

As entrevistas foram previamente marcadas conforme a disponibilidade dos entrevistados e foram conduzidas pela autora principal do presente artigo, de forma individualizada. Todas as entrevistas ocorreram na residência dos entrevistados. As entrevistas duraram de duas a três horas. As mulheres foram escolhidas para entrevista porque nas famílias estudadas são elas que ocupam o espaço culinário.

Um diário de campo foi usado para assinalar gestos, expressões e reações. Todas as entrevistas foram gravadas com permissão prévia dos participantes e transcritas pela autora principal. A transcrição dos depoimentos gravados foi iniciada no mesmo dia da entrevista, de forma literal. Apenas depois de concluída a transcrição, novo participante era contatado pessoalmente para agendar a entrevista seguinte. Ao final, 11 mulheres e um homem foram entrevistados. Este prontificou-se para a entrevista após o falecimento da sua mãe, que participara da pesquisa sobre meio ambiente mencionada anteriormente.c O número de entrevistas atingido foi considerado adequado para a globalidade do fenômeno estudado pela pesquisa, considerando o critério de saturação.13

O referencial teórico adotado foi o das representações sociais. Conforme Moscovici, a representação social compreende um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: primeiro, de estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social.14

Em seguida, os dados foram consolidados por meio da técnica do discurso do sujeito coletivo (Lefèvre & Lefèvre)10 para a construção das categorias de análise.

Todos os procedimentos da pesquisa seguiram os princípios éticos contidos nas Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde, Resolução n° 196/96.

 

RESULTADOS

Três categorias foram identificadas nas narrativas das agricultoras: "tomada de consciência da alimentação saudável", a "capacidade de compra" e "a terra saudável".

Tomada de consciência da alimentação saudável

Para as pessoas entrevistadas, a alimentação saudável compreende comer alimentos naturais, ou seja, sem "veneno", sem química, bem como consumir frutas e verduras em abundância, ingerir feijão e arroz, com pouco sal, e evitar gorduras, frituras e massas.

A preocupação com o veneno nos alimentos foi muito presente nas narrativas, de modo que o alimento produzido com algum produto químico é tido como produto de risco para a saúde.

A compreensão dos entrevistados sobre veneno envolve duas dimensões: o veneno que a planta recebe e que fica no alimento quando este é produzido na forma convencional e o veneno introduzido no alimento no processamento industrial, sejam conservantes, sejam temperos químicos: "Eu acho que quanto menos coisa artificial melhor, sem veneno, sem conservante" (M. 12).

Segundo os entrevistados, geralmente o alimento atrai por sua aparência, sem que o consumidor saiba que pode conter muitas substâncias impróprias para a saúde: "evitar o veneno... porque esse faz mal... agora... muitas pessoas comem e nem sabem o que tão comendo, pensam tá bonito, a aparência, e daí se prejudicam e nem sabem" (H. 4).

O perigo atribuído ao veneno está relacionado à experiência dos familiares dos entrevistados. Quando ainda praticavam a agricultura convencional e utilizavam agrotóxicos, muitos apresentaram problemas de saúde. No âmbito da afetividade e do cuidado, o olhar feminino volta-se para o bem estar da família e das crianças. "aqui é só sem veneno... meu marido... porque daí deu aquele problema... também de pâncreas... deu problema de câncer nele... por causa de lidar com esses venenera aí... agora tem uma saúde... que a gente nem acredita... porque não usa nada... não coloca a bomba nas costas... meu filho também... também deu problema de intestino por causa do veneno" (M. 9).

Para as pessoas entrevistadas, o veneno também está presente nos alimentos industrializados, devido aos produtos químicos adicionados no processamento. No entanto, observa-se que a dose do produto perigoso contida no alimento não é um aspecto levado em conta por elas para considerá-lo de risco para a saúde. O risco é relacionado à presença do produto perigoso: "não muito um produto assim... enlatado, essas coisas assim. Eu acho que é isso... porque tem muito conservante(...) Eu acho que a gente evitando esses produtos, é mais saudável" (M. 15).

Duas entrevistadas reforçaram a ideia de que a alimentação deve ser leve e frugal para se ter mais saúde: "Ah... eu acho que é comer bastante verduras e frutas... tomar suco natural...e comer a comida básica... arroz, feijão... carne, né, mas não todo dia a mesma" (M. 3). "As pessoas que se alimentam mais de frutas não se queixam muito das coisas, sabe. Dói aqui, dói ali, dor de cabeça, dor de estômago, e quando a gente se alimenta mal... eu vejo até pelo meu esposo... quando ele se alimenta com muita gordura ele já não fica bem... quando ele se alimenta mais... de verdura, feijão, arroz, essas coisas simples, é difícil ele se queixar... assim a gente vive mais" (M. 5).

A disponibilidade de alimentos variados, a observação da composição do prato e a combinação dos alimentos, a preocupação com a obesidade e as doenças crônico-degenerativas são aspectos que fortalecem as concepções sobre alimentação saudável para os entrevistados: "Seria não uma quantidade de alimentos... Mas uma variedade... Assim... Frutas, verduras... Mesmo... Veja o amido... não tá colocando dois, três tipos... tentar dar uma controlada nisso... pra dar uma variada... até mesmo por causa da obesidade, que acho que é um problema gravíssimo, que tá aumentando... Evitar as gorduras também, por causa do colesterol" (M. 6).

O fato de as famílias adotarem a agricultura ecológica confere maior segurança e tranquilidade no consumo dos produtos que produzem. Os entrevistados também se mostram atentos à qualidade dos alimentos que compram e mais críticos sobre o que é saudável: "A gente consome mais verdura do que antes. A gente sente nos alimentos que o orgânico é mais saudável... a gente não sente o cheiro, o gosto dos agrotóxicos" (M. 19). "Ah... antes a gente plantava convencional e comia, não se importava com o que comprava no mercado, nem conhecia o que é o convencional... agora a gente sabe que faz só mal... agora quando a gente vai fazer compra no mercado, nossa... passou perto das verduras já sente o cheiro" (M. 10).

Capacidade de compra

A capacidade de compra envolve a necessidade de comprar o que não se produz, a falta de dinheiro para comprar o que é saudável e o saber comprar.

Para as pessoas entrevistadas, a compra de alimentos influencia negativamente na alimentação das famílias. O que produzem não atende a todas as suas necessidades e os alimentos que adquirem no mercado têm agrotóxicos e substâncias químicas: "A gente procura... comer mais as coisas da gente. A gente só compra as coisas que não tem... que não consegue produzir... se obriga... mas se pudesse produzir tudo... a gente produziria... porque a gente sabe... que as coisas que não são produzidas, tudo... tem química... veneno" (M. 13).

De acordo com os entrevistados, nem sempre é possível plantar para o consumo próprio e, ao mesmo tempo, para vender e assim obter recursos financeiros para comprar aquilo que falta: "A gente gostaria de ter uma renda maior... dinheiro melhor... pra gente ter... fruta bastante... que a gente quase não compra porque às vezes é muito caro... não compramos porque não é orgânica, e a orgânica é mais cara" (M. 5). "Dinheiro nem sempre a gente tem pra comprar... a gente come o básico... feijão, arroz, ovo bastante, carne quando tem... verdura" (M. 3).

Nem sempre é possível resistir ao desejo de comprar alimentos que os próprios entrevistados não consideram saudáveis, como doces, hambúrgueres, temperos prontos, refrigerantes e outros: "se as pessoas ficam atentas dá sim, dá sim... só que pra quem compra tudo já fica mais difícil, né... de saber o que tá comprando... esses produtos prontos. Hoje tem que saber comprar pra não se prejudicar... Se a gente não compra, não come"(M. 9).

Terra saudável

A terra saudável agrega aspectos que mostram a contribuição da agricultura ecológica para a promoção da autoestima e para a conscientização sobre a necessidade do cuidado com os recursos naturais, visando à sustentabilidade do meio ambiente e à vida do planeta para além do seu tempo.

Na visão dos entrevistados, a preservação da natureza é fundamental para a alimentação saudável. Isso envolve o cuidado contínuo com a terra para produzir plantas saudáveis. "O solo tem que estar conforme a natureza é... sem nada de química... porque tudo vai pras plantas... o que é bom e o que é ruim... Então se o solo tá limpo as plantas vão ser saudáveis... assim!" (M. 1). "Cuidar da natureza... porque a gente tá vendo que tá ficando difícil pra produzir. Pra nós aqui já tá ficando difícil pra produzir alface... por causa do calor... cada vez vai ficar mais difícil... pra se ter uma alimentação saudável, porque vai faltar as coisas também... se a turma cuidasse mais do mato, da natureza, ainda é possível... se cada um fizer a sua parte... Eles pensam neles hoje, ah... tendo água pra mim hoje até o dia que eu vou... o resto que se dane. (...) a gente quer ter uma vida boa... mas quer que os outros também tenham" (M. 5).

A agricultura ecológica conferiu um status de privilégio na percepção sobre a condição de ser agricultor, viver no meio rural e usufruir a natureza. "Pra pessoa que não vive como a gente já é mais difícil de escapar dos agrotóxico, dos conservante... tudo tem essas coisa hoje... esses produto químico né... então a gente, pode-se dizer que somos privilegiados" (H. 4). "Eu acho que se não for saudável isso que a gente come... o que vai ser saudável né... porque não come enlatado, não come... essas coisarada comprada, come pouca carne" (M. 11). "A vida que a gente tem acho que poucos têm... tem tudo natural, você vê, a gente tem uma água boa... comida, tudo natural" (M. 11).

 

DISCUSSÃO

Para as pessoas entrevistadas, a alimentação saudável envolve a ideia de que os alimentos devem ser naturais, sem agrotóxicos e sem produtos químicos industrializados. Deve contemplar cotidianamente o consumo abundante de frutas, verduras e legumes, bem como feijão, arroz e carne. O cuidado com os recursos naturais, a segurança alimentar, a sustentabilidade do meio ambiente e a vida futura do planeta também integram as concepções sobre alimentação saudável apresentadas pelos entrevistados.

Beck2 destaca que a industrialização e modernização fizeram emergir uma "sociedade de risco", na qual as consequências de tais processos, que antes eram abstraídas, passam a ser evidenciadas e questionadas. A "modernização reflexiva" emerge gradativamente, assim como a sociedade autocrítica, preocupada com as ameaças para o futuro. Para Giddens,5 na reflexividade da vida social moderna, as práticas sociais passam a ser examinadas de forma constante e reformadas à luz de descobertas sucessivas e informações sobre essas próprias práticas.

A atenção para os riscos é adquirida pelos indivíduos a partir de experiências, crenças e práticas que tiveram e que os levaram a estabelecer seus próprios significados aos fenômenos e ao que reconhecem como risco. Nesse sentido, o leigo assume um papel fundamental na desconstrução e reconstrução de paradigmas e modelos que não se baseiam apenas nos medos sociais ou nas ameaças tecnicocientíficas.7

Muitos riscos, como as contaminações químicas, substâncias nocivas nos alimentos, enfermidades da civilização ainda fogem por completo à percepção humana imediata. Os perigos, que muitas vezes não são visíveis nem perceptíveis para os afetados, perigos que em certos casos não se ativam durante a vida dos afetados, mas têm consequências nas de seus descendentes, requerem a atenção e o empenho das instituições científicas para a elaboração de teorias, experimentos e instrumentos de medição que as tornem visíveis e interpretáveis como perigos.19

As concepções de agricultores ecológicos sobre alimentação saudável inserem os entrevistados em contexto diferenciado daquele de transição nutricional, que por sua vez caracteriza-se pela substituição de alimentos tradicionais por alimentos altamente processados, de alta densidade energética e pobres em nutrientes.18

Lifschitz,11 ao tratar sobre o natural e as diversas concepções e discursos sociais em torno da alimentação natural, apresenta quatro saberes que correspondem a três sujeitos de enunciação: os microgrupos naturalistas; os profissionais de saúde; a indústria alimentar e a mídia. Para os microgrupos naturalistas, macrobióticos e vegetarianos, os alimentos reconhecidos como naturais remetem à própria natureza, nascem da terra e se originam de misturas manuais, do contato da matéria-prima com as mãos e consideram o produto natural-industrial como simulacro, oriundo de uma segunda natureza. Para os profissionais de saúde, o natural está inserido no discurso sobre a "boa alimentação", caracterizada pela adequação entre as propriedades físico-químicas dos alimentos e as normas que obedecem a um padrão fisiológico e anatômico. Para a indústria, os produtos naturais respondem à fórmula "sem aditivos químicos", conceito ambíguo, tendo em vista que a produção em massa do "natural" pode envolver processos químicos. A mídia como aliada da indústria, por intermédio da publicidade, fornece a propaganda da consistência virtual do natural, buscando anular oposições entre produção industrial e artesanal, insumos químicos e terra.

O discurso dos agricultores ecológicos do presente estudo apresenta convergências tanto com o dos microgrupos naturalistas como com o dos profissionais da saúde, identificados por Lifschitz,11 pela sua atenção sobre os saberes do campo da saúde, e diverge das concepções da mídia.

Ao intervir sobre a produção, a conservação, a distribuição e a transformação dos gêneros alimentícios, a industrialização ocupa um lugar entre o alimento e a natureza. No imaginário sobre os alimentos industrializados há a ideia do impuro e do artifício. A indústria tornou o alimento um artefato misterioso, uma substância comestível não identificada, sem vida, que pode ser perigosa para a saúde.19

Notou-se um dilema na vivência dos agricultores ecológicos, pois ao mesmo tempo em que eles produzem alimentos sem qualquer tipo de "veneno", não conseguem se alimentar exclusivamente de produtos livres de "veneno", pelo baixo poder de compra.

Segundo os entrevistados, os agrotóxicos seriam sedutores, pois seu emprego aumentaria a produção e a oferta de alimentos, além de ampliar a probabilidade de uma colheita bem sucedida. Os agrotóxicos também dariam aos produtos uma aparência saudável. Já os alimentos industrializados atrairiam pela praticidade, sabor, aparência e aroma. Esses alimentos são enganosos e prejudiciais na ótica dos agricultores.

Sob o ponto de vista da toxicologia, o termo veneno é usado para designar a substância química que, ao ser introduzida no organismo, mesmo em doses relativamente pequenas, produz alterações graves e até a morte. O aspecto mais importante a considerar na definição de uma substância como veneno é relacionar a quantidade ou a dosagem a partir da qual o produto se torna perigoso.15,16 Para os agricultores, o veneno instaura um conflito entre a sobrevivência econômico-financeira, o risco para a saúde e a sustentabilidade para a vida neste planeta, conforme propõe Hubert.9 Segundo o autor, a indústria agroalimentar trouxe novas representações do que é alimento, como também a angústia de envenenamento insidioso. O temor da sociedade atual de absorver venenos pela alimentação é real e tem determinado conflitos e dúvidas para a escolha de alimentos.

Para Tierney-Ohnuki,22 as preocupações de ingestão de alimentos que contêm elementos químicos nocivos à saúde são um fenômeno atual na sociedade.

A atenção dos entrevistados para a questão do veneno revela que para eles esses alimentos com agrotóxicos não seriam comestíveis. Comestível é aquilo que serve para comer, que não é tóxico, oferece prazer individual e coletivo, que não gera medo, insegurança e não confere risco para a saúde.

Hernández & Arnaiz,8 ao tratar sobre representações do que é comestível e não comestível na sociedade atual, destacam que esses conceitos se operam a partir da compreensão sobre a cultura alimentar, em que o alimento que é nutritivo e não tóxico é considerado comestível. Os autores propõem o questionamento do motivo de não comermos certas substâncias que estão em nosso alcance e não consumirmos tudo o que é biologicamente comestível.

A ingestão de alimentos com resíduos de agrotóxicos e seu risco à saúde ainda são objeto de estudos e pesquisas, e não há segurança em relação aos limites de uso de agrotóxicos e de seu consumo. Os problemas identificados normalmente ainda são mais relacionados a acidentes na agricultura com trabalhadores rurais.1,21,24

Para Giddens,6 no contexto dos riscos globalizados, no qual o desenvolvimento global e as ações individuais se tornaram estreitamente ligados, o self e o corpo se colocam em um patamar de importância semelhante ao da "natureza" que se esmorece. Segundo o autor, possuir um self significa possuir autoconsciência, ter noção de identidade individualizada, destacada do coletivo, isto é, singularizada, estabilizada e que se define de forma reflexiva. O pensamento reflexivo dos agricultores sobre o veneno mostra a busca pela adoção de uma postura ética diante da natureza, do produto do seu trabalho e de sua saúde, a partir da autoconsciência adquirida pela vivência prática.

Para Pierret (apud Xavier)23 a saúde e o corpo são capital fundamental individual e coletivo, e é preciso lutar contra a sua destruição. No final do século XX, o discurso sobre a saúde substituiu o discurso sobre a doença e se apresentou como fenômeno inovador que abrange o conjunto da sociedade.23

Os indivíduos devem estar preparados para fazer escolhas conscientes, pois, quando o gerenciamento dos riscos ambientais não é feito, experts o deslocam para a esfera privada, da responsabilidade dos indivíduos no momento das escolhas comportamentais. Assim também o fazem as propostas educacionais no campo da orientação nutricional, ao enfatizarem a necessidade de mudanças na dimensão individual para promover escolhas alimentares saudáveis.3

No Brasil, a Política Nacional de Alimentação e Nutrição compartilha com a Estratégia Global para a Promoção da Alimentação Saudável o propósito de fomentar a responsabilidade de sociedade, setor produtivo e setor público para efetuar mudanças necessárias no âmbito socioambiental que favoreçam escolhas alimentares saudáveis.17

A concepção de que a alimentação deve ser leve, na sociedade atual, é muito valorizada, principalmente nas áreas urbanas e na população feminina.4 Isso se relaciona ao tipo de gasto energético das populações urbanas que, segundo Serra,e está baseado em atividades laborais terciárias, que exigem mais a dedicação intelectual e requerem menor gasto energético do que atividades braçais. O discurso sobre a alimentação leve é assumido amplamente pelos meios de comunicação de massa e também permeia a concepção dos agricultores participantes desta pesquisa.

Os significados atribuídos pelos entrevistados à alimentação saudável incluem recomendações preconizadas pelos discursos científicos, difundidos pela mídia e pelos profissionais de saúde.ª A necessidade de se considerar e de se manter a "qualidade da natureza" também é enfatizada, em especial da água e da terra, para produzir o saudável de maneira sustentável. Os entrevistados mostram clareza sobre as limitações pessoais, inclusive econômicas, que impedem a operacionalização da alimentação que idealizam. Tais limitações estão relacionadas, entre outros fatores, aos seus gostos e desejos, de modo que suas falas durante as entrevistas expressam sentimento de culpa e de vergonha.

Lipovetsky12 destaca que a sociedade do objeto em que vivemos apresenta-se como civilização do desejo, que cultua os prazeres imediatos. No âmbito do consumo nessa sociedade, a ambição é desprender o homem de seu passado de carência, de inibição e de ascetismo. A ambivalência do prazer-aversão contida no alimento pode tanto ser fonte de sensualidade, plenitude, intenso prazer sensorial, como também pode provocar de simples desconforto até aversão repulsiva capaz de gerar doenças.12 Ao mesmo tempo em que o alimento é fonte de energia, vitalidade, saúde, ele também pode ser vetor de intoxicação ou envenenamento.19

As pessoas entrevistadas vivem na área rural há muitos anos, mas, pelo fato de se inserirem na Região Metropolitana de Curitiba, compartilham de todos os elementos e dilemas do contexto urbano quando o assunto é a aquisição de alimentos, ou seja, a disponibilidade variada de alimentos, a conveniência, a comodidade, a observação do custo, das preferências e das necessidades.

Concluindo, os dados do presente estudo revelam a necessidade de estabelecer com os agricultores ecológicos mecanismos de apoio para o planejamento da produção e incentivos que garantam o autoconsumo da produção, não apenas o atendimento aos anseios das entidades de comercialização.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Erica Ell
SQN 316, Bloco D, Aptº 113
Asa Norte
70775-040 Brasília, DF, Brasil
E-mail: erica.ell@saude.gov.br

Recebido: 23/12/2010
Aprovado: 15/9/2011

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Ell E apresentada à Universidade Federal do Paraná em 2007.
Os autores declaram não haver conflitos de interesses.

a Organização Mundial da Saúde. Estratégia Global para a Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde: 57ª Assembleia Mundial de Saúde: 8ª sessão plenária de 22 de maio de 2004. [citado 2011 nov 28]. (WHA 57.17). Versão em português, tradução não oficial realizadas pela CGPAN. Disponível em: http://www.prosaude.org/publicacoes/diversos/Estrategia_Global_portugues.pdf
b O termo "agricultura ecológica" neste artigo envolve as diferentes correntes, bem como os agricultores com práticas agrícolas dentro de uma dessas linhas e que se encontram em diferentes estágios de conversão, mas que se consideram alternativos ao padrão agroindustrial de produção.
c Ell E, Crispim JQ, Ruszczyk JC, Floriani N, Zonin WJ, et al. A agricultura de base ecológica na região metropolitana de Curitiba e o desenvolvimento socioambiental. In: 3. Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade; 2006 maio 23-26; Brasília (DF). v.1, p.1.
d Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social. Caderno estatístico Município de Rio Branco do Sul. Curitiba: IPARDES; 2005.
e Serra GMA. Saúde e nutrição na adolescência: o discurso sobre dietas na revista Capricho [dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001.