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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 no.2 São Paulo abr. 2012  Epub 24-Fev-2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012005000018 

Abordagem multifatorial do absenteísmo por doença em trabalhadores de enfermagem

 

Abordaje multifactorial del ausentismo por enfermedad en trabajadores de enfermería

 

 

Roberta Carolina FerreiraI; Rosane Härter GriepII; Maria de Jesus Mendes da FonsecaIII; Lúcia RotenbergII

IPrograma de Pós-Graduação em Enfermagem. Escola de Enfermagem Anna Nery. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IILaboratório de Educação em Ambiente e Saúde. Instituto Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIIDepartamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública. Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar fatores associados ao absenteísmo por doença autorreferido em trabalhadores de enfermagem.
MÉTODOS: Estudo transversal com 1.509 trabalhadores de três hospitais públicos no município do Rio de Janeiro, RJ, em 2006. O absenteísmo foi classificado em três níveis: nenhum dia, poucos dias (um a nove dias) e muitos dias (> 10 dias), a partir da resposta a uma pergunta do questionário de avaliação do índice de capacidade para o trabalho. As análises de regressão logística levaram em conta um modelo conceitual com base em determinantes distais (condições socioeconômicas), de níveis intermediários I (características ocupacionais) e II (características do estilo de vida), e proximais (doenças e condições de saúde).
RESULTADOS: As frequências de absenteísmo por doença foram de 20,3% e 16,6% para poucos e muitos dias, respectivamente. Aqueles que referiram mais de um emprego, doenças osteomusculares e avaliaram sua saúde como ruim ou regular apresentaram chances mais elevadas de absenteísmo. Comparados aos enfermeiros, os auxiliares tiveram menor chance de referir poucos dias e os técnicos, maiores chances de apresentar muitos dias de ausência. Chances mais elevadas de referir muitos dias de ausência foram observadas entre os servidores públicos em relação aos contratados (OR = 3,12; IC95% 1,86;5,22) e entre os casados (OR = 1,73; IC95% 1,14;2,63) e separados, divorciados e viúvos (OR = 2,06; IC95% 1,27;3,35), comparados aos solteiros.
CONCLUSÕES: Diferentes variáveis foram associadas às duas modalidades de absenteísmo, o que sugere sua determinação múltipla e complexa, relacionada a fatores de diversos níveis que não podem ser explicados apenas por problemas de saúde.

Descritores: Absenteísmo. Equipe de Enfermagem. Doenças Profissionais. Condições de Trabalho. Fatores Socioeconômicos. Estudos Transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar factores asociados al ausentismo por enfermedad auto referida en trabajadores de enfermería.
MÉTODOS: Estudio transversal con 1.509 trabajadores de tres hospitales públicos en Rio de Janeiro, Sureste de Brasil, en 2006. El ausentismo fue clasificado en tres niveles: ningún día, pocos días (uno a nueve días) y muchos días (>10 días), a partir de la respuesta a una pregunta de cuestionario de evaluación del índice de capacidad para el trabajo. Los análisis de regresión logística tomaron en cuenta un modelo conceptual con base en determinantes distales (condiciones socioeconómicas), de nivel intermedio I (características ocupacionales) y II (características de estilo de vida) y, proximales (enfermedades y condiciones de salud).
RESULTADOS: Las frecuencias de ausentismo por enfermedad fueron de 20,3% y 16,6% para pocos y muchos días, respectivamente. Aquellos que mencionaron más de un empleo, enfermedades osteomusculares y evaluaron su salud como mala o regular presentaron chances más elevados de ausentismo. En comparación con los enfermeros, los auxiliares tuvieron menor chance de relatar pocos días y los técnicos, mayores chances de presentar muchos días de ausencia. Chances mas elevados de mencionar muchos días de ausencia fueron observados entre los servidores públicos con relación a los contratados (OR=3,12; IC95% 1,86;5,22) y entre los casados (OR= 1,73; IC95% 1,14;2,63) y separados, divorciados y viudos (OR= 2,06; IC95% 1,27;3,35), en comparación con los solteros.
CONCLUSIONES: Diferentes variables fueron asociadas con las dos modalidades de ausentismo, lo que sugiere su determinación múltiple y compleja, relacionada con factores de diversos niveles que no pueden ser explicados sólo por problemas de salud.

Descriptores: Absentismo. Grupo de Enfermería. Enfermedades Profesionales. Condiciones de Trabajo. Factores Socioeconómicos. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

O absenteísmo por doença reflete o estado de saúde dos trabalhadores, tem impactos econômicos importantes e gera custos elevados às empresas e à seguridade social.7,10 Além de aspectos relacionados diretamente à saúde, diversos fatores determinam ausências ao trabalho, como a cultura organizacional, a ausência de estratégias de valorização do trabalhador, burnout e estresse, o ambiente psicossocial desfavorável, a insatisfação com o trabalho, a condição socioeconômica dos trabalhadores, a ausência de controle sobre trabalho e o baixo apoio social no trabalho.3,5,7,11

O absenteísmo é um fenômeno complexo cujos preditores variam com a frequência - relacionada às tarefas do trabalhador, aos aspectos de liderança e de turno de trabalho, à organização da empresa e à ausência de medidas de controle das faltas - e duração dos períodos de ausências1,11,18,24 (influenciada pela idade, condições de trabalho, benefícios e acesso ao atendimento médico).1 Poucos dias de ausência estão associados principalmente à cultura organizacional, que permite faltas, ou à (in)satisfação dos trabalhadores com seu trabalho,11 i.e., relacionada mais à estrutura e ao processo laboral do que aos problemas de saúde. O absenteísmo de longa duração é considerado reflexo das condições de saúde e de problemas familiares.1 Os afastamentos por doença poderiam ser mais bem explicados pela influência de mecanismos complexos de inter-relação entre fatores do indivíduo e do ambiente físico e social.13

No contexto hospitalar, a enfermagem representa a maior força de trabalho; a ausência desses trabalhadores afeta a organização do serviço, gera insatisfação e sobrecarga entre os presentes e compromete a qualidade da assistência prestada ao paciente.3,15 A maioria dos estudos nacionais sobre o absenteísmo em profissionais de enfermagem descreve a frequência e as principais doenças envolvidas, sem considerar a complexidade de fatores que envolvem as faltas ao trabalho.15,21

O presente artigo teve como objetivo analisar fatores associados ao absenteísmo por doença autorreferido entre trabalhadores de enfermagem.

 

MÉTODOS

Estudo seccional com 1.509 profissionais de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem) de três hospitais públicos (um hospital geral de grande porte, um de pesquisa, ensino e assistência às doenças infecciosas, e um centro de referência para a saúde materno-infantil) do Rio de Janeiro, RJ, de junho de 2005 a fevereiro de 2006. De 1.687 participantes elegíveis, 89,4% aderiram ao estudo. As perdas referiram-se a recusas e licenças médicas.

Entrevistadores treinados aplicaram questionário multidimensional com base em três etapas de pré-testes (n = 50) para melhorar a clareza dos itens. O estudo piloto (n = 110) e o estudo teste-reteste (n = 80) foram realizados em instituição pública federal semelhante às do estudo principal.

O absenteísmo por doença foi mensurado pela pergunta: "Quantos dias inteiros você esteve fora do trabalho devido a problemas de saúde, consulta médica ou para fazer exames durante os últimos 12 meses?". A pergunta faz parte do instrumento "Índice de Capacidade para Trabalho" (ICT)23 validado para o português,16 com confiabilidade substancial para o presente estudo (kappa ponderado = 0,61; IC95% 0,32;0,84). Essa variável foi classificada em três categorias de ausências no trabalho: "nenhum dia" (categoria de referência), "poucos dias" (< 9 dias) e "muitos dias" (> 10 dias).

Incluíram-se as seguintes variáveis: (i) sociodemográficas: idade (contínua), sexo, situação conjugal, escolaridade, filhos menores de 18 anos, raça/cor autorreferida e renda per capita, segundo o valor do salário mínimo (R$ 350,00) à época (< 1 salário, 1 < 2 salários, 2 < 3 salários, > 3 salários), (ii) ocupacionais: categoria profissional (enfermeiros, técnicos e auxiliares), vínculo empregatício (servidores/contratados), número de horas de trabalho doméstico (contínua), trabalho noturno (nunca trabalharam à noite, ex-noturnos e noturnos atuais), número de empregos na enfermagem, (iii) comportamentos relacionados à saúde e estilo de vida: tabagismo, prática de atividade física (variável categórica número médio de horas de atividade física), índice de massa corporal (IMC), obtido pelo peso e altura autorreferidos (baixo/normal < 25; sobrepeso: 25 a 29 e obeso: > 30) e padrão de consumo de bebidas alcoólicas (baixo: até 20 g de álcool/dia; médio: de 20 a 40 g/dia; e alto > 40 g/dia) e (iv) doenças e sintomas: doenças osteomusculares (número de doenças autodiagnosticadas da listagem de doenças do questionário de avaliação do ICT),23 situação de saúde e hipertensão autorreferidas. Distúrbios psíquicos menores (DPM) foram classificados segundo versão brasileira do Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20)14 (respostas afirmativas a sete ou mais perguntas foram consideradas como positivas). A insônia, considerada importante preditor do adoecimento,19 foi mensurada por escala de três itens (i: teve dificuldade de pegar no sono, ii: acordou durante o sono e teve dificuldade para dormir de novo e iii: acordou antes da hora desejada e não conseguiu adormecer de novo) e confirmada a partir de respostas afirmativas a qualquer dos itens.

As análises basearam-se em modelo hierárquico, que descreve as relações entre as variáveis na determinação do desfecho. As variáveis independentes foram hierarquizadas em quatro níveis de determinação: 1) distal (Fatores sociodemográficos: sexo, idade, escolaridade, situação conjugal, filhos < 18 anos, renda per capita e raça/cor autorreferida); 2) intermediário I (Fatores ocupacionais: categoria profissional, vínculo empregatício, número de empregos, trabalho noturno e horas dedicadas ao trabalho doméstico); 3) intermediário II (Comportamentos relacionados à saúde: tabagismo, IMC categórico, atividade física semanal e consumo de bebida alcoólica); e 4) proximal (Condições/Hábitos de saúde: doenças osteomusculares, hipertensão arterial, situação de saúde autorreferida, distúrbio psíquico menor e insônia).

As variáveis sociodemográficas (nível distal) foram incluídas no modelo e as ocupacionais (nível intermediário I) e de comportamentos relacionados à saúde (nível intermediário II), ajustadas para o confundimento. O mesmo processo foi aplicado às variáveis ligadas à saúde e hábitos de vida (nível proximal). A agregação de níveis das variáveis foi feita considerando aspectos conceituais (epidemiológicos e clínicos).

Análise de regressão logística bivariada foi realizada entre as variáveis independentes de cada nível de determinação e o absenteísmo por doença. Foram apresentados os odds ratio (OR) ajustados e seus respectivos intervalos de 95% de confiança no modelo múltiplo. Definiu-se como categoria de referência aquela com menor risco esperado para o absenteísmo-doença.

Abordagem hierarquizada de entrada das variáveis foi adotada para ajuste dos OR, conforme os quatro níveis de determinação definidos previamente pelo modelo teórico, utilizando-se o método "enter". As variáveis que apresentaram significância estatística com p < 0,20 nas análises bivariadas foram previamente selecionadas para a análise de regressão logística múltipla.

Variáveis do nível distal foram incluídas em modelo de regressão para serem ajustadas entre si; as que apresentaram p < 0,05 foram mantidas no modelo, mesmo que perdessem a significância estatística com a inclusão das variáveis dos outros níveis. Essa mesma estratégia foi mantida com a introdução das variáveis dos níveis intermediário I e II e do nível proximal, ajustadas entre si e pelas variáveis dos níveis distal e intermediário I e II.

As análises estatísticas foram realizadas com o pacote estatístico SPSS (versão 18).

A pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética dos Hospitais e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Processo nº 10.228/2004), por envolver parte do financiamento de instituição estrangeira.

 

RESULTADOS

As prevalências de absenteísmo por doença nos últimos 12 meses foram de 20,3% e 16,6% considerando poucos e muitos dias de ausência, respectivamente.

Faltar poucos dias ao trabalho esteve associado ao sexo (maior entre as mulheres), à idade mais jovem e à escolaridade (menor entre os de nível médio). Sexo feminino, idade, situação conjugal (maior entre os casados e entre os separados e divorciados, comparados aos solteiros) e raça/cor autorreferida (maior entre os que se declararam negros) associaram-se a muitos dias de absenteísmo (Tabela 1).

Poucos dias de ausência associou-se à categoria profissional (menor entre os auxiliares de enfermagem) e ao número de empregos na enfermagem (maior entre os com mais de um emprego). Categoria profissional (maior entre os técnicos de enfermagem), tipo de vínculo (maior entre os servidores públicos) e número de empregos na enfermagem (maior entre os que têm mais de um emprego) apresentaram associação com muitos dias de ausência. Prática de atividade física (uma a três horas por semana) esteve associada a poucos dias de absenteísmo; o IMC (obeso) associou-se a muitos dias de ausência. O tipo de vínculo esteve fortemente associado a muitos dias de ausência e a chance de faltar ao trabalho quase três vezes mais elevada entre os servidores públicos (Tabela 2).

Doenças osteomusculares, autopercepção da saúde e distúrbios psíquicos menores apresentaram significância estatística com poucos dias de ausência. Todas as variáveis do nível proximal apresentaram significância estatística com muitos dias de ausência (Tabela 3). Houve forte associação de doenças osteomusculares e situação de saúde autorreferida com o absenteísmo. Os sujeitos que referiram mais de duas doenças osteomusculares apresentaram chances quase cinco vezes mais elevadas comparados aos que referiram nenhuma doença. Entre os que referiram autopercepção da saúde regular/ruim as chances foram 3,41 vezes mais elevadas, quando comparados aos que referiram boa/muito boa condição de saúde (Tabela 3).

Idade, categoria profissional, número de empregos, doenças osteomusculares e situação de saúde autorreferida apresentaram significância para poucos e para muitos dias de ausência no modelo hierarquizado. No modelo final, idade apresentou associação limítrofe nos dois níveis de absenteísmo. Identificaram-se menores chances de poucas ausências entre os auxiliares de enfermagem e maiores chances de muitas ausências entre os técnicos. Maiores chances de poucas e muitas ausências foram identificadas entre aqueles que referiam dois ou mais empregos na enfermagem. Entre aqueles que referiram mais de duas doenças osteomusculares, as chances de referir poucos dias de ausência foram cerca de duas vezes mais elevadas e de referir muitos dias de ausência foram cerca de três vezes mais elevadas. Além disso, as chances foram 94% mais elevadas (OR = 1,94; IC95% 1,28;2,95) para os que referiram "de uma a duas" doenças osteomusculares, e também maiores entre os que referiram percepção da saúde "regular/ruim".

Tipo de vínculo, distúrbios psíquicos menores e situação conjugal permaneceram associados exclusivamente a muitos dias de ausência. Chances mais elevadas foram identificadas entre os separados, divorciados e viúvos (OR = 2,06), seguidos dos casados (OR = 1,73). Observaram-se chances três vezes (OR = 3,12) mais elevadas entre os servidores públicos. Houve associação limítrofe no modelo final com os classificados com distúrbios psíquicos menores (Tabelas 4 e 5).

 

DISCUSSÃO

Variáveis de diferentes níveis de predição estiveram associadas às duas modalidades de absenteísmo, mostrando a complexidade da determinação desse evento entre os trabalhadores de enfermagem. A ausência por doença se insere em um contexto de aspectos diferentes e superpostos que incluem a saúde, o ambiente de trabalho, características individuais e aspectos socioeconômicos. Chances mais elevadas de poucos e muitos dias de ausência foram observadas entre aqueles que referiram mais de um emprego, doenças osteomusculares e situação de saúde autorreferida ruim/regular. Comparados aos enfermeiros, os auxiliares tiveram menores chances de poucos dias de absenteísmo e os técnicos tiveram maiores chances de muitos dias de ausência. A idade, embora limítrofe, associou-se negativamente com poucos dias de ausência; os servidores públicos, os casados e separados, divorciados e viúvos apresentaram chances elevadas de muitos dias de ausência.

Estudos mostram relação positiva entre a faixa etária e o número de ausências no trabalho,12,20,21,24 explicada pelos autores como uma variável relacionada aos maiores riscos de doenças crônicas e, portanto, maior possibilidade de faltas. A situação conjugal é fator de grande influência nos níveis de absenteísmo, principalmente quando o trabalhador possui filhos e maiores responsabilidades domésticas.20 No presente estudo, o número de horas dedicadas ao trabalho doméstico não manteve significância estatística no modelo múltiplo após ajuste pelas variáveis sociodemográficas, que incluiu a situação conjugal. Sugere-se que estudos futuros aprofundem a avaliação da influência da sobrecarga de trabalho doméstico na investigação de fatores associados ao absenteísmo e o adoecimento de profissionais, principalmente naqueles em que predomina o sexo feminino, como na enfermagem.

As maiores chances de muitos dias de ausência entre os técnicos de enfermagem comparados aos enfermeiros assemelham-se aos resultados de outros estudos21 que atribuem esses achados ao número reduzido de enfermeiros, o que poderia determinar obrigação maior de permanência no trabalho. Além disso, enfermeiros tendem a assumir papéis de liderança na equipe, que exigem maior assiduidade, além de apresentarem menor risco de contaminação e de doenças por assumirem tarefas mais administrativas no contexto hospitalar.

A associação direta entre número de empregos e ambas as modalidades de absenteísmo pode ser explicada pelas consequências da elevada demanda de trabalho, como o desgaste físico e psíquico, a ansiedade, o estresse e a tensão pelas atividades de complexidades variadas realizadas em hospitais e o aumento da insatisfação do trabalhador que atua em duas ou mais jornadas de trabalho.15

Mesmo ajustado por variáveis de diferentes níveis, o tipo de vínculo constituiu uma das variáveis mais fortemente associadas aos muitos dias de ausência, com chances quase três vezes mais elevadas entre os servidores públicos quando comparados aos contratados. Esses achados confirmam os de outros estudos12,20,21 e são explicados pela maior segurança na manutenção do emprego, acoplada à maior facilidade ou direito de obter licenças médicas a cada ano, maior insatisfação com o trabalho e menor pressão competitiva.20 Autores discutem que condições de trabalho adversas também contribuem para as ausências, principalmente quando há interação com salários inadequados e percepção de desvalorização do trabalhador no ambiente de trabalho.2 Entretanto, deve-se considerar o possível viés de sobrevivência, uma vez que os contratados têm maior probabilidade de serem demitidos após longas ausências. O tempo de atividade na função do contrato, possivelmente uma variável de nível intermediário na hierarquia, pode exercer influência nesse processo. Essa variável não foi incluída no questionário multidimensional, o que impossibilitou a análise de sua influência no desfecho avaliado. Esses aspectos merecem estudos mais aprofundados para esclarecer os fatores envolvidos no absenteísmo entre os servidores públicos.

Como esperado, preditores proximais apresentaram forte associação com o absenteísmo em relação a poucos e muitos dias de falta ao trabalho. As doenças osteomusculares e os distúrbios psíquicos menores foram as razões mais frequentes para os afastamentos do trabalho em servidores públicos suecos,9 também relevante entre profissionais da enfermagem no Brasil.15 As atividades das equipes de enfermagem em hospitais provocam demasiado desgaste físico com consequentes queixas osteomusculares. O transporte e a movimentação de pacientes e equipamentos e a longa permanência em pé durante a assistência, associados à má postura corporal e inadequação do espaço físico e mobiliário são apontados como fatores de risco ergonômico responsáveis por danos à saúde, com aumento das taxas de absenteísmo.17 Nossos resultados concordam com estudo prospectivo com profissionais da saúde do Reino Unido, em que distúrbios psíquicos menores mostraram-se fortes preditores do absenteísmo, particularmente em relação a muitos dias de falta.8 Essa relação pode ser atribuída à ligação do sofrimento psíquico com a noção de adoecimento, o que daria legitimidade para a ausência do trabalho. A associação entre distúrbios psíquicos e o absenteísmo foi observada em estudos com trabalhadores universitários6 e motoristas e cobradores brasileiros.22

A identificação de chances mais elevadas de poucos e muitos dias de ausência entre indivíduos com a situação de saúde autorreferida regular/ruim confirma resultados de outros estudos.7,10 Embora essa variável não substitua o exame médico, seu uso pode contribuir para a primeira análise dos trabalhadores quanto a sua saúde e afastamento do trabalho.

O delineamento seccional do estudo não permite estabelecer relações causais entre as associações observadas. Além disso, o inquérito abrangeu trabalhadores no ambiente do trabalho e, portanto, relativamente saudáveis, o que pode levar à subestimativa das associações identificadas. O absenteísmo por doença foi obtido por informação autorreferida, portanto, sujeito ao viés de memória ou de informação, que implicaria superestimação ou subestimação da informação. No entanto, a forte correlação entre dados autorreferidos de absenteísmo por doença e medidas baseadas em registros fazem desta uma medida considerada válida para a obtenção de dados sobre o tema.4,25 A maior vantagem dessa forma de obtenção dos dados refere-se à captura de poucos dias de ausência, que constitui a maioria das faltas ao trabalho, que não é notificada para a Seguridade Social. A não mensuração da duração de cada episódio de falta por doença impede análise mais aprofundada do absenteísmo no contexto desses trabalhadores, como propõem alguns autores.1,11,18,24

Apesar dessas limitações, os resultados reafirmam a multifatoriedade e a complexidade do absenteísmo por doença em hospitais públicos. Trata-se de fenômeno a ser analisado sob a perspectiva do processo de trabalho, da cultura organizacional e de aspectos diretamente relacionados à saúde de trabalhadores de enfermagem. A abordagem multifatorial do absenteísmo e de sua redução em hospitais é essencial para reduzir gastos econômicos, aumentar a satisfação com o trabalho e melhorar a qualidade da assistência de enfermagem.

 

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Correspondência | Correspondence:
Roberta Carolina Ferreira
R. Mirataia, 350
Bloco 2 Apto 402 - Pechincha
22770-190 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: rocarolf@yahoo.com.br

Recebido: 24/3/2011
Aprovado: 25/9/2011

 

 

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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