SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.46 suppl.1Innovation in pharmaceutical and health biotechnology industries: challenges for a virtuous agendaCommunication management of collaborative networks of science, technology and innovation in health author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46  supl.1 São Paulo Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012000700007 

ARTIGO

 

Competências científico- tecnológicas e cooperação universidade-empresa na saúde

 

Health-related scientific and technological capabilities and university-industry research collaboration

 

Competencias científico-tecnológicas y cooperación Universidad-Empresa en la salud

 

 

Jorge BrittoI; Marco Antônio VargasI, II; Carlos Augusto Grabois GadelhaII, III, IV; Laís Silveira CostaII

IDepartamento de Economia. Faculdade de Economia. Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ, Brasil
IIGrupo de Pesquisa de Inovação em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP). Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIISecretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Ministério da Saúde. Brasília, DF, Brasil
IVMestrado Profissional em Política e Gestão de CT&I em Saúde. ENSP-Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a evolução recente das competências científicas na área de saúde, o efeito das linhas de fomento na redução dos desequilíbrios científicos regionais e a interação universidade-empresas entre os grupos de pesquisa em saúde no Brasil.
MÉTODOS: As informações utilizadas foram provenientes das bases de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, referentes aos anos de 2000 a 2010. Foram calculados indicadores relativos à mobilização de recursos, à estruturação de grupos de pesquisa e à realização de esforços para transferência de conhecimentos entre a esfera científica e o setor empresarial.
RESULTADOS: Com base no mapa da distribuição regional das competências técnico-científicas na área de saúde, foram identificados possíveis padrões de especialização científica e os padrões de interação entre a comunidade científica e o setor empresarial. Houve relativa desconcentração espacial dos grupos de pesquisa em saúde e seis áreas de conhecimento eram responsáveis por mais de 6% dos grupos de pesquisa em saúde, pela ordem: Medicina, Saúde Coletiva, Odontologia, Medicina Veterinária, Ecologia e Educação Física. Os incentivos representados pelas linhas de fomento no período 2000-2009 contribuíram para reduzir os desequilíbrios científicos regionais, induzindo o aprofundamento de competências pré-existentes ou, alternativamente, estimulando a descentralização espacial dessas competências.
CONCLUSÕES: Ainda persiste uma concentração espacial elevada das competências técnico-científicas em saúde e os incentivos de política têm contribuído apenas parcialmente para reduzir esses desequilíbrios.

Descritores: Pesquisa Científica e Desenvolvimento Tecnológico. Apoio à Pesquisa como Assunto. Pesquisadores, tendências. Transferência de Tecnologia.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To examine recent developments in health-related scientific capabilities, the impact of lines of incentives on reducing regional scientific imbalances, and university-industry research collaboration in Brazil.
METHODS: Data were obtained from the Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Brazilian National Council for Scientific and Technological Development) databases for the years 2000 to 2010. There were assessed indicators of resource mobilization, research network structuring, and knowledge transfer between science and industry initiatives.
RESULTS: Based on the regional distribution map of health-related scientific and technological capabilities there were identified patterns of scientific capabilities and science-industry collaboration. There was relative spatial deconcentration of health research groups and more than 6% of them worked in six areas of knowledge areas: medicine, collective health, dentistry, veterinary medicine, ecology and physical education. Lines of incentives that were adopted from 2000 to 2009 contributed to reducing regional scientific imbalances and improving preexisting capabilities or, alternatively, encouraging spatial decentralization of these capabilities.
CONCLUSIONS: Health-related scientific and technological capabilities remain highly spatially concentrated in Brazil and incentive policies have contributed to reduce to some extent these imbalances.

Descriptors: Scientific Research and Technological Development. Research Support as Topic. Research Personnel, trends. Technology Transfer.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la evolución reciente de las competencias científicas en el área de la salud, el efecto de las líneas de fomento en la reducción de los desequilibrios científicos regionales y la interacción universidad-empresas entre los grupos de investigación en salud en Brasil.
MÉTODOS: Las informaciones utilizadas fueron tomadas de las bases de datos del Consejo Nacional de Desarrollo Científico y Tecnológico de Brasil, referentes a los años 2000 y 2010. Se calcularon indicadores relativos a la movilización de recursos, a la estructuración de grupos de investigación y a la realización de esfuerzos para transferencia de conocimientos entre la esfera científica y el sector empresarial.
RESULTADOS: Con base en el mapa de la distribución regional de las competencias técnico-científicas en el área de salud, se identificaron posibles patrones de especialización científica y los patrones de interacción entre la comunidad científica y el sector empresarial. Hubo relativa desconcentración espacial de los grupos de investigación en salud y seis áreas de conocimiento eran responsables por más de 6% de los grupos de investigación en salud, por el orden: Medicina, Salud Colectiva, Odontología, Medicina Veterinaria, Ecología y Educación Física. Los incentivos representados por las líneas de fomento en el período 2000-2009 contribuyeron para reducir los desequilibrios científicos regionales, induciendo la profundización en competencias pre-existentes o, alternativamente, estimulando la descentralización espacial de tales competencias.
CONCLUSIONES: Aún persiste una concentración espacial elevada de las competencias técnico-científicas en salud y los incentivos de política han contribuido sólo parcialmente en la reducción de estos desequilibrios.

Descriptores: Investigación Científica y Desarrollo Tecnológico. Apoyo a la Investigación como Asunto. Investigadores, tendencias. Transferencia de Tecnología.


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar do crescimento da base total de pesquisadores no País,ª as diferenças inter-regionais constituem um traço marcante da constituição da infraestrutura científico-tecnológica do sistema nacional de inovação no Brasil.2 A persistência da concentração regional da infraestrutura de ciência e tecnologia (C&T) resulta em dois tipos de problemas. Por um lado, dificulta-se a exploração do potencial que as instituições de pesquisas podem representar para responder a problemas e demandas locais, melhorando a qualidade de vida da população e reforçando o desenvolvimento local e regional. Por outro lado, o desequilíbrio muito grande na captação de recursos transforma algumas regiões em "fornecedoras" de talentos, reforçando sua migração para os centros mais desenvolvidos e a endogenia das atividades de formação e pesquisa.b

Não obstante a persistência de uma concentração regional dos investimentos em C&T, observa-se uma preocupação crescente das políticas públicas em reverter esse processo por meio da destinação de maior volume de recursos e da criação de incentivos à descentralização das atividades de pesquisa. Busca-se, desse modo, articular a política de C&T com a política nacional de desenvolvimento regional, sobretudo no tocante à distribuição mais equânime, seletiva e direcionada das atividades de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico das regiões com menor dinamismo econômico.

É possível articular essa dinâmica mais geral à problemática específica da área de saúde. Estudo sobre a C&T em Saúde, elaborado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde,c discute as evidências de concentração espacial dos estudos e pesquisas em saúde no Brasil. Observa-se que, apesar da relevância da área de saúde no conjunto da produção científica e tecnológica nacional, do ponto de vista da sua distribuição territorial, essa produção está fortemente concentrada na região Sudeste. Quanto à distribuição de recursos humanos, algumas áreas apresentam-se mais concentradas que a média, como a pesquisa médica e odontológica em São Paulo, enquanto outros encontram-se menos concentrados, como a saúde coletiva.

Diversos autores têm ressaltado a importância do esforço brasileiro na pesquisa em saúde, o qual estaria fortemente ancorado no apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de outras agências. Contudo, o fomento em saúde não se sustenta em uma política pública explícita de pesquisa em saúde, cuja formulação é relativamente recente no âmbito do Ministério da Saúde. Como reflexo desse processo, observa-se um crescimento significativo do número de grupos de pesquisa e de pesquisadores envolvidos com a pesquisa em saúde,1,8,9 o que pôde ser contatado pela análise de Queiroz et al,d que mostra um perfil dos grupos de pesquisa do setor saúde no Brasil quanto à composição, área de conhecimento, tempo de existência, produção científica e tecnológica, qualificação e formação de estudantes, além do exame das diferenças entre os grupos apoiados e os não apoiados pelo CNPq.

A articulação existente entre o fortalecimento das capacitações científicas na área de saúde e a dinamização do sistema de inovação em saúde é outro aspecto particularmente relevante. Como reflexo desse processo, observa-se um crescimento bastante acelerado no número de artigos científicos internacionais do Brasil em relação ao resto do mundo na área de saúde no período. Informações levantadas no estudo elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (2010) indicam que foram formados 27.387 doutores na área de saúde entre 1996-2008, equivalentes a 31,5% do número total de doutores formados no País. Ainda de acordo com aquele estudo, as principais áreas de Ciências da Saúde formadoras de doutores no País eram Medicina (10,6%); Odontologia (3,2%); Saúde Coletiva (2,0%); e Enfermagem (1,4%). Já na grande área de Ciências Biológicas, destacam-se Bioquímica (2,2%); Genética (1,4%); Zoologia (1,3%); Ecologia (1,2%); e Botânica (1,1%).

Por outro lado, o crescimento dos grupos de pesquisa e da produção científica em saúde ocorreu à revelia de maior articulação com o setor produtivo responsável pelo desenvolvimento de inovações a serem introduzidas no mercado. Nesse sentido, Guimarães7,8,10 e Albuquerque & Cassiolatoe apontam, como evidência importante do caráter imaturo do Sistema Nacional de Inovação em Saúde brasileiro, o predomínio do avanço do conhecimento no ambiente acadêmico e a participação relativamente pequena do setor industrial privado. Destaca-se, desse modo, a importância do conhecimento desenvolvido em instituições de pesquisa para a dinamização do complexo produtivo da saúde,3-6 sobretudo em seus componentes de caráter biotecnológico, como medicamentos, vacinas e dispositivos diagnósticos.

A transferência de conhecimentos entre a esfera científica e o setor produtivo assume particular relevância na área de saúde por uma série de razões. Em primeiro lugar, essa transferência viabiliza o desenvolvimento de produtos e serviços que possibilitem enfrentar diversos problemas relacionados a especificidades do quadro fitossanitário brasileiro. Em segundo lugar, o fortalecimento dessas articulações constitui um mecanismo importante para a dinamização de diversas atividades que se integram ao Complexo Industrial da Saúde, possibilitando o desenvolvimento de competências técnico-produtivas em áreas estratégicas. Em terceiro lugar, o acúmulo de capacitações com nível de excelência, em determinadas áreas científicas em saúde no Brasil, pode operar como fator de fortalecimento de capacitações inovativas, desde que se articulem com o setor produtivo para o desenvolvimento de novos produtos e processos.

O objetivo do presente artigo foi analisar a evolução recente de competências científicas na área de saúde no Brasil e o efeito das linhas de fomento na redução dos desequilíbrios científicos regionais.

 

MÉTODOS

Os dados utilizados provêm do CNPq, sobretudo do Diretório do Grupo de Pesquisas referentes aos anos de 2000, 2004, 2008 e 2010. As informações desse diretório permitem distinguir diferentes áreas do conhecimento em saúde - envolvendo tanto disciplinas do campo mais estritamente médico como do campo das ciências biológicas - a partir das quais é possível discutir a evolução da distribuição espacial das competências científicas pelas diferentes regiões do País. Foram considerados os campos científicos vinculados às "grandes áreas" de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde, incluindo-se a Medicina Veterinária (que originariamente faz parte da Grande Área de Ciências Agrárias), em razão da similitude da base científica e de pesquisa. Desse modo, foi definido um conjunto de 23 campos científicos vinculados à área de saúde. A partir da diferenciação desses campos científicos, procurou-se identificar a presença de grupos de pesquisa vinculados a essas áreas nos diferentes Estados da federação.

Duas outras fontes de informação foram utilizadas. A primeira delas refere-se ao apoio do CNPq para a área de saúde, contemplando informações sobre a distribuição das linhas de fomento - incluindo a concessão de bolsas no País e no exterior e outras formas de apoio a pesquisadores - por região e área de conhecimento em saúde para o período 2001-2009. A outra fonte, também extraída da base de dados do Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq, refere-se aos números de relacionamentos estabelecidos e ao número de empresas envolvidas com grupos de pesquisa em saúde.

 

RESULTADOS

Distribuição regional e por área de grupos de pesquisa em saúde

A Tabela 1 mostra que a presença de grupos de pesquisa em saúde encontrava-se bastante dispersa pelos diversos Estados da federação em 2010. De fato, 16 Estados apresentam grupos de pesquisa em 20 ou mais áreas de pesquisa em saúde, enquanto em apenas cinco deles o número de áreas de pesquisa com grupos atuantes em saúde é igual ou inferior a 15. Entre 2000 e 2010, o número de grupos de pesquisa em saúde elevou-se de 3.790 para 8.179, perfazendo um crescimento de 115,8%, o qual foi ligeiramente inferior ao crescimento geral de todos os grupos de pesquisa no mesmo período (134,0%). Desse modo, apesar de permanecer num patamar expressivo, a participação das duas grandes áreas - Ciências Biológicas e Ciências da Saúde - no total de grupos de pesquisa levantados pelo CNPq diminuiu no período 2000-2010: de 32,2% para 29,7%. Em termos da distribuição espacial dos grupos de pesquisa, verifica-se que, em 2010, cinco Estados concentravam mais de 2/3 dos grupos nas áreas de saúde: São Paulo (28,8%), Rio de Janeiro (12,3%), Rio Grande do Sul (10,1%), Minas Gerais (9,4%) e Paraná (7,6%). Apesar dessa concentração, houve uma desconcentração espacial desses grupos ao longo do período considerado. Para avaliar esse processo, considerou-se um índice de concentração espacial da distribuição desses grupos, denominado Índice Herfindahl-Hirschman (HH), calculado por meio da fórmula

onde Sj2 corresponde ao quadrado da participação relativa do Estado i no total dos grupos de pesquisa em saúde j. Desse modo, quanto mais elevado e próximo de 1 o índice, mais elevada a concentração regional da distribuição dos grupos. Esse índice reduziu-se de 0,1976 em 2000 para 0,1307 em 2010. Tal tendência reflete-se também na identificação dos Estados com um maior crescimento do número de grupos de pesquisa em saúde, a saber: Mato Grosso, Alagoas, Amapá, Rio Grande do Norte, Tocantins e Santa Catarina.

Considerando o número de Estados com grupos de pesquisa ativos em saúde, é possível identificar três conjuntos de áreas (Tabela 2). O primeiro deles inclui oito áreas com grupos de pesquisa em 25 ou mais Estados da federação em 2010 e pode ser associado, a princípio, a maior dispersão espacial dos grupos. O segundo conjunto compreende nove áreas de pesquisa presentes entre 20-23 Estados da federação em 2010. Por fim, um terceiro grupo de áreas de pesquisa em saúde, presentes em menos de 20 Estados da federação, a saber: Morfologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Imunologia, Biologia Geral, Fonoaudiologia e Biofísica. As áreas de pesquisa cujo número de Estados com grupos de pesquisa mais cresceu entre 2000 e 2010 foram, pela ordem: Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Parasitologia, Farmacologia e Bioquímica. Em contraste, a única área de pesquisa cujo número de Estados com grupos de pesquisa decresceu entre 2000 e 2010 foi a de Biologia Geral, o que pode ser explicado pela tendência à maior especialização daqueles grupos.

Em 2010, seis áreas se destacavam por serem responsáveis por mais de 6% dos grupos de pesquisa em saúde atuantes no País, pela ordem: Medicina (17,6%), Saúde Coletiva (8,9%), Odontologia (6,8%), Medicina Veterinária (6,1%), Ecologia (6,0%) e Educação Física (6,0%). Em contraste, nove áreas eram responsáveis por menos de 2,5% dos grupos, cada uma, o que indicava menos esforços de pesquisa: Fisiologia (2,4%), Morfologia (2,4%), Farmacologia (2,2%), Nutrição (2,1%), Parasitologia (2,1%), Imunologia (2,0%), Fonoaudiologia (1,1%), Biofísica (0,9%) e Biologia Geral (0,4%). Essas diferenças podem ser explicadas pelas particularidades das áreas, em função de sua tendência de crescimento. O HH permaneceu praticamente constante, evoluindo de 0,0751 para 0,0720. Apesar dessa estabilidade, observa-se um crescimento mais expressivo dos grupos de pesquisa em determinadas áreas, como: Educação Física (404,1%), Fisioterapia e Terapia Ocupacional (391,3%), Farmácia (273,8%), Fonoaudiologia (240,7%), Saúde Coletiva (153,3%) e Ecologia (152,6%). Em contraste, as áreas que mostraram menor crescimento no número de grupos de pesquisa foram: Imunologia (61,4%), Biofísica (60,9%) e Parasitologia (48,7%). A área de Biologia Geral foi a única que teve um decréscimo (de -32,7%) no número de grupos de pesquisa ao longo do período considerado.

Distribuição regional dos recursos do CNPq para o apoio à pesquisa em saúde

As informações relativas à distribuição dessas linhas de fomento por região e área de conhecimento foram analisadas no período 2001-2009. Foi criado também um indicador dividindo-se o total de recursos alocados pelo CNPq pelo número de grupos informado pelo Diretório de Grupos de Pesquisa (Tabela 3).

A área de saúde (incluindo Medicina Veterinária) recebeu do CNPq recursos da ordem de R$ 2,2 bilhões, equivalentes a aproximadamente 29% dos recursos para financiamento à pesquisa da instituição. Ao longo do período 2001-2009, os recursos direcionados pelo CNPq para a área de saúde cresceram 181,6%, mais do que o total das áreas de pesquisa (143,6%). Desse modo, observa-se um crescimento da área de saúde dentro dos recursos totais liberados pelo CNPq, de 26,2% em 2001 para 28,9% em 2009. Dentre os diversos Estados da federação, cinco deles concentram quase 74% dos recursos do CNPq: São Paulo (que apropria 32,6% dos recursos); Rio de Janeiro (17,3%); Rio Grande do Sul (9,9%); Minas Gerais (9,3%) e Paraná (4,6%). Observa-se uma leve tendência à elevação do HH entre 2001-2005 - sinalizando na direção de maior concentração da distribuição de recursos - e uma tendência de decréscimo entre 2006-2009, com certa estabilidade para o período como um todo. Ao longo do período (2001-2009), os Estados que tiveram um crescimento mais expressivo dos recursos aportados pelo CNPq foram os Estados de Tocantins, Amapá, Roraima, Goiás, Ceará, Rio Grande do Norte e Rondônia; Alagoas, Acre, Espírito Santo e Amazonas obtiveram menor crescimento.

Análise do indicador obtido pela divisão do total de recursos alocados pelo CNPq pelo número de grupos informado pelo Diretório de Grupos de Pesquisa indica contrastes bastante significativos entre os diferentes Estados da federação em 2010. Os Estados que receberam acima de R$ 50 mil por grupo foram Rondônia, Ceará, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Pará e São Paulo. Os Estados menos beneficiados foram Maranhão, Amapá, Piauí, Espírito Santo, Tocantins e Alagoas, todos com menos de R$ 17 mil alocados para cada grupo naquele ano. Ao longo do período 2002-2010 os Estados de Tocantins, Ceará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo apresentaram crescimento de mais de 100% no valor do indicador. Em contraste, alguns Estados tiveram queda de mais de 30% no valor do indicador ao longo do período, como Acre, Espírito Santo, Amapá, Mato Grosso e Alagoas.

Grupos de pesquisa em saúde com relacionamentos com o setor empresarial: uma análise da distribuição geográfica

É possível avançar na discussão da interação entre a infraestrutura de C&T e o setor empresarial, com foco direcionado para a realidade da área de saúde. Entre 2002 e 2010, o número de grupos de pesquisa em saúde que informaram a existência de relacionamentos com o setor produtivo cresceu de 274 para 879 grupos, correspondendo a um crescimento de 221%, superior ao observado para o conjunto de grupos do Diretório do CNPq (174%) (Tabela 4). Desse modo, a participação da área de saúde no total de grupos interativos daquele diretório cresceu de 21,4% em 2002 para 25,1% em 2010. Em 2010, cinco Estados concentravam mais de 66% dos grupos de pesquisa em saúde com relacionamentos com o setor produtivo: São Paulo (24,3%), Rio Grande do Sul (13,1%), Minas Gerais (11,1%), Rio de Janeiro (9,9%) e Paraná (7,7%). O crescimento mais expressivo observado entre 2002-2010 foi nos Estados da Paraíba, Pará, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e Minas Gerais. Já o percentual de grupos de pesquisa com relacionamentos em relação ao total de grupos na área de saúde cresceu de 5,6% em 2002 para 10,7% em 2010, mas permanecia abaixo do observado para o conjunto de grupos de pesquisa. Dentre os diversos Estados da federação, esse percentual apresentava-se mais elevado para os Estados de Goiás (23,5%), Tocantins (17,1%), Pará (14,8%) e Santa Catarina (14,7%).

 

DISCUSSÃO

Procurou-se identificar os padrões de especialização regional das atividades científicas em saúde no caso brasileiro, tomando como referência um conjunto de indicadores relacionados à distribuição de Grupos de Pesquisa e dos recursos das linhas de fomento do CNPq. Em termos da distribuição espacial dos grupos de pesquisa, apesar de cinco Estados concentrarem mais de 2/3 dos grupos de pesquisa em saúde em 2010, ocorreu uma relativa desconcentração espacial desses grupos ao longo do período 2000-2010. Isso se reflete na identificação dos Estados com um maior crescimento do número de grupos de pesquisa em saúde. Em termos de áreas de conhecimento, em 2010, seis áreas se destacavam por serem responsáveis por mais de 6% dos grupos de pesquisa em saúde atuantes no País, pela ordem: Medicina, Saúde Coletiva, Odontologia, Medicina Veterinária, Ecologia e Educação Física. Por outro lado, entre 2000 e 2010, observou-se um crescimento mais expressivo dos grupos de pesquisa nas áreas de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Farmácia, Fonoaudiologia, Saúde Coletiva e Ecologia. Nesse sentido, um desdobramento importante da análise envolveria a articulação entre os recortes espacial e por área de pesquisa em saúde, para identificar padrões de especialização relativa dos diversos Estados da federação nesses campos. A partir dessa análise, seria possível identificar áreas de pesquisa com maior concentração espacial de competências científicas e aquelas que apresentam uma tendência de decréscimo ou elevação.

Ainda persiste uma concentração espacial elevada das competências técnico-científicas em saúde e os incentivos de política têm contribuído apenas parcialmente para reduzir esses desequilíbrios. A área de saúde recebeu um terço dos recursos para financiamento à pesquisa do CNPq; porém, em geral, os Estados com infraestrutura de pesquisa em saúde mais consolidada, localizados na região Centro-Sul do País, têm sido mais beneficiados pela distribuição de recursos. Nos demais Estados, identificam-se assimetrias bastante relevantes na distribuição de recursos. Assim, as assimetrias regionais relacionadas à distribuição de competências nas áreas de pesquisa em saúde tendem a se reproduzir, ou até mesmo a se agravar. Para verificar se a distribuição de recursos no apoio à pesquisa tem ou não sido capaz de reduzir tais assimetrias, seria importante articular a evolução dos padrões regionais de especialização nas diversas áreas de pesquisa em saúde com informações sobre a evolução da intensidade do apoio aos grupos de pesquisa atuantes naqueles campos.

Outro aspecto relevante abordado refere-se à articulação entre o fortalecimento das capacitações científicas na área de saúde e a dinamização do sistema de inovação em saúde, por meio de relacionamentos entre grupos de pesquisa e o setor produtivo. Nesse sentido, a análise sugere que o crescimento recente dos grupos de pesquisa e da produção científica em saúde ocorreu à revelia de uma maior articulação com o setor produtivo responsável pelo desenvolvimento de inovações a serem introduzidas no mercado. Destaca-se, desse modo, a importância da construção de pontes permanentes entre empresas, instituições de pesquisa e sistema de saúde, articulando-se o conhecimento desenvolvido em instituições de pesquisa à dinamização do complexo produtivo da saúde. Há também evidências de que os relacionamentos dos grupos de pesquisa em saúde privilegiam três tipos de agentes principais: 1) órgãos da administração pública, com ênfase naqueles prestadores de serviços de saúde, como hospitais; 2) relacionamentos entre instituições de ensino e instituições especializadas em pesquisa e desenvolvimento, envolvendo, na prática, relacionamentos "internos" ao ambiente acadêmico; 3) relacionamentos com setores especializados na produção de insumos em saúde, como medicamentos, insumos farmoquímicos e materiais médicos e odontológicos. Uma análise mais detalhada da evolução desses relacionamentos - contemplando uma combinação dos recortes regional e por campo de especialização - pode apontar especificidades, potencialidades e constrangimentos com implicações importantes na formulação de políticas indutoras de processos inovativos no interior do CEIS.

 

REFERÊNCIAS

1. Albuquerque EM, Souza SGA, Baessa AR. Pesquisa e inovação em saúde: uma discussão a partir da literatura sobre economia da tecnologia. Cienc Saude Coletiva. 2004;9(2):277-94. DOI:10.1590/S1413-81232004000200007        [ Links ]

2. Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Doutores 2010: estudos da demografia da base técnico-científica brasileira. Brasília, DF; 2010.         [ Links ]

3. Diniz CC, Gonçalves E. Economia do conhecimento e desenvolvimento regional no Brasil. In: Diniz CC, Lemos MB, organizadores. Economia e território. Belo Horizonte: Editora da UFMG; 2005. p.131-70.         [ Links ]

4. Gadelha CAG. O complexo industrial da saúde e a necessidade de um enfoque dinâmico na economia da saúde. Cienc Saude Coletiva. 2003;8(2):521-35. DOI:10.1590/S1413-81232003000200015        [ Links ]

5. Gadelha CAG, Quental C, Fialho BC. Saúde e inovação: uma abordagem sistêmica das indústrias da saúde. Cad Saude Publica. 2003;19(1):47-59. DOI:10.1590/S0102-311X2003000100006        [ Links ]

6. Gadelha CAG. Desenvolvimento, complexo industrial da saúde e política industrial. Rev Saude Publica. 2006;40(Esp):11-23. DOI:10.1590/S0034-89102006000400003        [ Links ]

7. Gadelha CAG, Maldonado JMSV, Vargas MA, Barbosa P, Costa LS. Projeto PIB Perspectiva do Investimento no Brasil: Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Rio de Janeiro: Instituto de Economia da UFRJ/Editora Fiocruz/Campinas: Instituto de Economia da Unicamp; 2012. No prelo.         [ Links ]

8. Guimarães JA. A pesquisa médica e biomédica no Brasil: comparações com o desempenho científico brasileiro e mundial. Cienc Saude Coletiva. 2004;9(2):303-27. DOI:10.1590/S1413-81232004000200009        [ Links ]

9. Guimarães R. Pesquisa em saúde no Brasil: contexto e desafios. Rev Saude Publica. 2006;40(Esp):3-10. DOI:10.1590/S0034-89102006000400002        [ Links ]

10. Guimarães R. Desafios da pós-graduação em saúde humana no Brasil. Rev Saude Publica. 2011;45(1):1-13. DOI:10.1590/S0034-89102011000100001        [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
Jorge Britto
R. Tiradentes, 17 - Ingá
24210-510 Niterói, RJ, Brasil
E-mail: jbrit@terra.com.br

Recebido: 16/2/2012
Aprovado: 29/10/2012

 

 

O Grupo de Inovação em Saúde conta com apoio sistemático da Organização Pan Americana de Saúde (Contrato nº ENSP-043-CAC-12). Artigo submetido ao processo de julgamento por pares adotado para qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, com anonimato garantido entre autores e revisores. Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudesse afetar o processo de julgamento do artigo. Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Guimarães R, Lourenço R, Cosac S. Os pesquisadores: perfil dos doutores em pesquisa no Brasil. Brasília, DF: Parcerias Estratégicas; 2001. p.122-50.
b Galvão ACF, supervisor, Viotti EB, Baessa AR, consultores. Características do emprego dos doutores brasileiros: características do emprego formal no ano de 2004 das pessoas que obtiveram título de doutorado no Brasil no período 1996-2003. Brasília, DF: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos; 2008.
c Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Ciência e tecnologia em saúde. Brasília, DF; 2011. (Coleção Para Entender a Gestão do SUS, 11).
d Queiroz SRR, Bonacelli MBM, Mello DL, Jôlo FS. O CNPq e o Sistema de Inovação em Saúde no Brasil: uma análise a partir dos Grupos de Pesquisa do Setor Saúde. In: 22. Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica; 2002 nov 6-8; Salvador, Brasil [citado 2012 nov 3]. Disponível em: http://www.ige.unicamp.br/geopi/documentos/23073462.pdf
e Albuquerque EM, Cassiolato JE. As especificidades do Sistema de Inovação do Setor Saúde: uma resenha da literatura como introdução a uma discussão sobre o caso brasileiro. São Paulo: Federação de Sociedades de Biologia Experimental; 2000. (Estudos FeSBE, 1).

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License