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Revista de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.47 no.4 São Paulo ago. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047004374 

Artigos Originais

Adaptação e validação do WHODAS 2.0 em utentes com dor musculoesquelética

Adaptación y validación del WHODAS 2.0 en usuarios con dolor musculoesquelético

Carla SilvaII 

Inês ColetaII 

Anabela G SilvaI 

António AmaroI 

Joaquim AlvarelhãoI 

Alexandra QueirósI 

Nelson RochaII 

IEscola Superior de Saúde. Universidade de Aveiro. Aveiro, Portugal

IISecção Autónoma de Ciências da Saúde. Universidade de Aveiro. Aveiro, Portugal

RESUMO

OBJETIVO

Validar a versão em português do World Health Organization Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0).

MÉTODOS

A versão original de 36 itens do WHODAS 2.0, administrada por entrevista, foi traduzida para o português de acordo com orientações internacionais e testada em nove participantes da população em geral. A versão em português foi administrada em 204 pacientes com patologia musculoesquelética. Foram coletados os dados sociodemográficos e de saúde dos pacientes, assim como o número de locais onde apresentavam dor e sua intensidade. O WHODAS 2.0 foi novamente administrado por um segundo entrevistador, um a três dias após a primeira entrevista, para avaliar a confiabilidade interavaliadores. A validade de constructo foi avaliada quanto a: capacidade do WHODAS 2.0 para diferenciar participantes com diferentes locais com dor e associação entre o WHODAS 2.0 e a intensidade da dor. A consistência interna também foi avaliada.

RESULTADOS

A versão portuguesa do WHODAS 2.0 teve fácil compreensão, apresentou boa consistência interna (α = 0,84) e confiabilidade interavaliadores (CCI = 0,95). Mostrou ser capaz de detectar diferenças estatisticamente significativas entre indivíduos com diferente número de locais com dor (p < 0,01) e indicar que maior incapacidade está associada à maior intensidade da dor (r = 0,44, p < 0,01), indicando validade de constructo.

CONCLUSÕES

A versão portuguesa do WHODAS 2.0 mostrou-se confiável e válida quando utilizada em pacientes com dor associada à patologia musculoesquelética.

Palavras-Chave: Medição da Dor; Dor Musculoesquelética, classificação; Questionários, utilização; Traduções; Reprodutibilidade dos Testes; Estudos de Validação

RESUMEN

OBJETIVO

Validar la versión en portugués del World Health Organisation Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0).

MÉTODOS

La versión original con 36 ítems del WHODAS 2.0, administrada por entrevista, fue traducida al portugués de acuerdo con orientaciones internacionales, y evaluada en nueve participantes de la población en general. La versión en portugués fue aplicada en 204 pacientes con patología musculoesquelética. Se colectaron los datos sociodemográficos y de salud de los pacientes, así como el número de lugares donde presentaban dolor y su intensidad. El WHODAS 2.0 fue nuevamente aplicado por un segundo entrevistador, uno a tres días posteriores a la primera entrevista para evaluar la confiabilidad inter-evaluadores. La validez del constructo fue evaluado con relación a: capacidad del WHODAS 2.0 para diferenciar participantes con diferentes lugares con dolor y asociación entre el WHODAS 2.0 y la intensidad del dolor. La consistencia interna también fue evaluada.

RESULTADOS

La versión en portugués del WHODAS 2.0 fue de fácil comprensión, presentó buena consistencia interna (α= 0,84) y confiabilidad inter evaluadores (CCI=0,95). Mostró ser capaz de detectar diferencias estadísticamente significativas entre individuos con diferente número de lugares con dolor (p˂0,01) e indicar que mayor incapacidad está asociada con la mayor intensidad del dolor (r=0,44, p˂0,01), indicando validez del constructo.

CONCLUSIONES

la versión en portugués del WHODAS 2.0 se mostró confiable y valida al ser utilizada en pacientes con dolor asociado a la patología musculo esquelética.

Palabras-clave: Medición del Dolor; Dolor Musculoesquelético, clasificación; Cuestionarios, utilización; Traducciones; Reproducibilidad de Resultados; Estudios de Validación

INTRODUÇÃO

A avaliação de incapacidade permite um retrato detalhado das implicações que uma condição de saúde tem no dia a dia de um indivíduo. Isso é particularmente relevante porque perfis de incapacidade distintos podem estar associados a patologias e diagnósticos semelhantes. 1 Dessa forma, é necessária uma avaliação que verifique de que forma as condições de saúde afetam as atividades do indivíduo no dia a dia.

A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) a define incapacidade como a dificuldade na função do corpo, da pessoa ou da sociedade, num ou mais domínios de vida, tal como vivenciado pelo indivíduo com determinada condição de saúde em interação com os fatores contextuais. Incapacidade pode ser avaliada com vários instrumentos, específicos ou não para determinada condição de saúde, como a Medida de Independência Funcional ou o Índice de Barthel, entre outros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu o World Health Organization Disability Assessment Schedule (WHODAS 2.0), que avalia incapacidade percebida associada à condição de saúde nos 30 dias que antecedem sua aplicação. Esse instrumento está dividido em seis domínios: i) cognição; ii) mobilidade; iii) autocuidado; iv) relações interpessoais; v) atividade da vida diária; e vi) participação. Permite a caracterização da percepção que o indivíduo tem de sua própria incapacidade. 14 O WHODAS 2.0 é um instrumento genérico que não se destina a populações ou condições de saúde específicas. Já foi traduzido e validado para ser utilizado em diferentes línguas e culturas e em diferentes condições de saúde, apresentando robustez psicométrica na versão original e nas adaptações. 8 , 13 , 15 Foram desenvolvidas três versões do WHODAS 2.0, que diferem no tamanho e no modo de administração: versão com 36 itens, com 12 itens e com 12+24 itens. As duas primeiras podem ser autoadministradas, administradas em forma de entrevista ou administradas a um respondente substituto. A versão de 12+24 itens possui uma versão para ser administrada em forma de entrevista ou por computador. 1

O objetivo deste estudo foi validar a versão em português do WHODAS 2.0.

MÉTODOS

O processo de tradução da versão original do WHODAS 2.0 foi realizado de acordo com as orientações estabelecidas internacionalmente 3 e envolveu os seguintes passos:

  • Passo 1 (tradução): A versão original do WHODAS 2.0 em inglês foi traduzida para o português europeu por dois tradutores independentes da área da saúde, cuja língua materna é o português.

  • Passo 2 (versão de reconciliação): Três investigadores compararam as duas traduções mencionadas e construíram uma versão de conciliação entre elas e a versão original do WHODAS 2.0.

  • Passo 3 (retroversão): A versão de conciliação foi traduzida do português para o inglês por um tradutor cuja língua materna é o inglês, sem formação na área da saúde e sem conhecimento da versão original do WHODAS 2.0.

  • Passo 4 (versão pré-final): Uma comissão de três investigadores desenvolveu a versão pré-final do WHODAS 2.0 com base na retrotradução e no instrumento original.

  • Passo 5 (teste piloto): A versão pré-final do instrumento foi submetida a um teste piloto com nove indivíduos da população em geral para avaliar a facilidade/dificuldade de compreensão das perguntas do instrumento, de acordo com a metodologia proposta por Foddy. b A informação coletada foi utilizada para aperfeiçoar o instrumento e construir a versão final. A versão em português foi considerada de fácil compreensão.

  • Passo 6: A retrotradução e a descrição da metodologia utilizada no processo de tradução foram enviadas para apreciação dos autores da versão original do WHODAS 2.0.

A validação da versão em português foi realizada pela avaliação de sua confiabilidade (consistência interna e confiabilidade interavaliadores) e validade de constructo.

Os participantes, admitidos consecutivamente em duas Clínicas de Reabilitação da Região de Aveiro, entre janeiro e abril de 2011, devido a problemas associados a patologia musculoesquelética, foram convidados para participar do estudo para validação do WHODAS 2.0. Os critérios de inclusão foram: idade ≥ 50 anos e dor associada a patologia musculoesquelética. Foram excluídos aqueles que apresentaram patologia neurológica do sistema nervoso central (como acidente vascular cerebral e traumatismo cranioencefálico) e/ou amputações, além de patologia musculoesquelética. Aceitaram participar 204 participantes, com uma média de idade de 65,9 anos (DP = 9,1); as idades variaram entre 50 e 90 anos. Dos 204 participantes, 44,6% tinham entre 50 e 64 anos e 55,4% tinham 65 anos ou mais. Os indivíduos do sexo feminino representaram 71,6% da amostra (146 participantes) ( Tabela 1 ). As patologias mais referidas foram artrose (67,2%), hipertensão arterial (52,9%) e espondilartrose (46,6%). Grande parte dos indivíduos apresentava excesso de peso (47,5%) ou obesidade (33,3%). Presença de dor generalizada foi relatada por grande parte da amostra (29,9%) ( Tabela 1 ). Os domínios do WHODAS 2.0 em que os participantes referiram maior incapacidade foram atividades da vida diária, mobilidade e participação ( Tabela 2 ).

Tabela 1 Caracterização da amostra estudada para validação do WHODAS 2.0, 2011. 

Características n %
Grupo etário    
50 a 64 anos 91 44,6
≥ 65 anos 113 55,4
Sexo    
Feminino 146 71,6
Masculino 58 28,4
Estado civil    
Solteiro 7 3,4
Casado 146 71,6
Separado 2 1,0
Divorciado 13 6,4
Viúvo 36 17,6
Educação    
Não sabe ler nem escrever 3 1,5
Sabe ler e escrever 52 25,5
4º ano 103 50,5
6º ano 17 8,3
9º ano 18 8,8
12º ano 5 2,5
Bacharelado ou Licenciatura 6 2,9
Ocupação    
Emprego assalariado 29 14,2
Trabalho por conta própria 11 5,4
Doméstica 21 10,3
Aposentado 130 63,7
Desempregado (devido a doença) 1 0,5
Desempregado (outra razão) 11 5,4
Outro 1 0,5
Patologias a    
Hipertensão arterial 108 52,9
Diabetes 41 20,1
Artrose 137 67,2
Espondilartrose 95 46,6
Patologia cardiovascular 34 16,7
Patologia respiratória 17 8,3
Câncer 2 1,0
Depressão 3 1,5
Outra 94 46,1
IMC b    
Baixo peso 1 0,5
Peso saudável 38 18,6
Excesso de peso 97 47,5
Obesidade 68 33,3
Número de locais com dor    
1 local 37 18,1
2 a 3 locais 54 26,5
4 ou mais locais 52 25,5
Dor generalizada 61 29,9

Tabela 2 Pontuação média e desvio padrão da amostra para cada um dos domínios do WHODAS 2.0 e escore médio total, 2011. 

Domínio (D) n Pontuação (média) Desvio padrão
D1 – Cognição 204 11,7 17,4
D2 – Mobilidade 204 41,6 28,6
D3 – Autocuidado 204 17,5 17,9
D4 – Relações interpessoais 204 6,6 14,2
D5.1 – Atividades diárias (domésticas) 179 a 52,0 31,5
D5.2 – Atividades diárias (trabalho) 75 a 42,0 30,3
D6 – Participação 204 37,4 16,2
Total b 204 28,1 19,9

Os participantes foram entrevistados nas clínicas de reabilitação onde tinham sido admitidos em dois momentos distintos. No primeiro momento, coletamos informação relativa aos dados demográficos e de saúde, número de locais com dor, intensidade da dor e administramos a versão de 36 itens do WHODAS 2.0 por meio de entrevista. Apenas o WHODAS 2.0 foi administrado no segundo momento.

Foram coletadas informações demográficas (idade, sexo, estado civil, número de anos de educação formal, ocupação, peso e altura). Os valores de peso e altura foram autorreferidos, método válido para caracterizar a prevalência de excesso de peso e obesidade. 4 Os participantes foram questionados sobre a presença de diagnóstico de alguma das seguintes patologias: hipertensão arterial; diabetes; artrose; patologia cardiovascular; patologia respiratória; câncer; depressão ou outro problema de saúde.

Foi solicitado aos participantes que indicassem num body chart,representando todo o corpo, onde tinham sentido dor na semana anterior. O número de locais com dor foi contabilizado e categorizado de acordo com Picavet et al 11 em: dor em um local; dor em dois a três locais; dor em quatro ou mais locais; dor generalizada (dor acima e abaixo da cintura, dor nos lados esquerdo e direito do corpo e dor axial).

A intensidade da dor foi avaliada por meio de uma escala visual numérica de 10 cm apresentada na vertical classificada de zero (“sem dor”) a dez (“pior dor imaginável”). Aos participantes que apresentavam dor em mais do que um local, foi pedido que avaliassem a intensidade média da dor para os vários locais na última semana (intensidade global). A avaliação da dor foi realizada de acordo com as diretrizes internacionais para avaliação da dor em idosos. c

A versão de 36 itens do WHODAS 2.0 traduzida e adaptada para português europeu, seguindo a metodologia anteriormente descrita, foi administrada em entrevista em dois momentos por duas entrevistadoras diferentes, com intervalo mínimo de um e máximo de três dias. A repetição do WHODAS 2.0 visou à avaliação da confiabilidade interavaliadores. A delimitação do intervalo entre as duas aplicações pretendeu minimizar a probabilidade de modificações no perfil de incapacidade entre as avaliações, o que comprometeria a avaliação da confiabilidade.

A análise de dados foi realizada por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). A caracterização da amostra foi realizada por estatística descritiva (média, desvio padrão e frequências). A pontuação do WHODAS 2.0 foi calculada por domínio pela soma da pontuação em cada um dos itens desse domínio e o escore total foi transformado num valor entre 0 e 100, conforme indicado no manual do WHODAS 2.0. Quanto maior a pontuação, maior a incapacidade. A pontuação total foi calculada considerando os 36 itens ou considerando todos os itens menos os referentes ao domínio 5.2 “atividades diárias” – trabalho/escola (total = 32 itens), no caso de os participantes não trabalharem ou não estudarem. 15

A consistência interna foi avaliada pelo alfa de Cronbach (α), que varia entre 0 e 1, considerada: “inadmissível” (α < 0,6); “fraca” (0,6 ≤ α < 0,7); “razoável” (0,7 ≤ α < 0,8); “boa” (0,8 ≤ α < 0,9); e “muito boa” (α ≥ 0,9). 10 A confiabilidade interavaliadores foi avaliada pelo coeficiente de correlação intraclasse (CCI), que varia entre 0 e 1, considerada: “fraca” (CCI < 0,4); “satisfatória” (0,4 ≤ CCI < 0,75); e “muito boa” (CCI ≥ 0,75). 12 Diferenças no escore do WHODAS 2.0 entre os grupos com diferentes números de locais com dor foram avaliadas utilizando a ANOVA e o teste de Bonferroni. A correlação entre o WHODAS 2.0 e a intensidade da dor foi avaliada pelo coeficiente de correlação de Pearson. O nível de significância estabelecido foi p < 0,05.

Este estudo foi aprovado pelo Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Portugal, 2011. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

O valor global do alfa de Cronbach para a versão de 36 itens do WHODAS 2.0 foi 0,84, indicando boa consistência interna. Sessenta e cinco participantes foram considerados nesta análise devido a respostas não aplicáveis no domínio 5 “atividades diárias”, apresentadas pelo restante dos participantes. O valor do alfa de Cronbach total diminuiria com a remoção da maior parte dos itens, indicando a importância de todos os itens na avaliação da incapacidade. A Tabela 3 apresenta os resultados do teste do alfa de Cronbach para todos os domínios do WHODAS 2.0 e o valor obtido caso cada um dos domínios fossem retirados.

Tabela 3 Resultados para o alfa de Cronbach por domínio WHODAS 2.0 e para o escore total, 2011. 

Domínios (D) n Alfa de Cronbach
D1 – Compreensão 65 0,83
D2 – Mobilidade 65 0,79
D3 – Autocuidado 65 0,84
D4 – Relações 65 0,85
D5.1 – Atividades domésticas 65 0,79
D5.2 – Trabalho ou escola 65 0,76
D6 – Participação 65 0,80
Total 65 0,84

O CCI foi > 0,80 para todos os domínios do WHODAS 2.0, indicando boa confiabilidade interavaliadores. O CCI foi 0,95, considerando a pontuação total do WHODAS 2.0, também indicando boa confiabilidade interavaliadores (Tabela 4).

Tabela 4 Resultados da confiabilidade interavaliadores e correlação entre o WHODAS 2.0 e a intensidade da dor por domínio e para o escore total, 2011. 

Domínio n Confiabilidade interavaliadores WHODAS – Intensidade da dor
CCI IC95%
1. Compreensão 204 0,88 0,84;0,91 0,29 b
2. Mobilidade 204 0,93 0,91;0,95 0,46 b
3. Autocuidado 204 0,90 0,87;0,92 0,37 b
4. Relações 204 0,80 0,73;0,85 0,19 b
5.1. Atividades domésticas 179 a 0,89 0,85;0,92 0,45 b
5.2. Trabalho ou escola 75 a 0,94 0,91;0,96 0,59 b
6. Participação 204 0,90 0,87;0,93 0,47 b
Total 204 0,95 0,94;0,96 0,44 b

A validade de constructo foi avaliada pela comparação do nível de incapacidade nos participantes com diferente número de locais com dor e pela avaliação da associação entre a incapacidade e a intensidade da dor, uma vez que a literatura indica que a incapacidade cresce com o aumento do número de locais com dor e da intensidade da dor. 5 , 9 , 14 Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas na pontuação total do WHODAS 2.0 entre os participantes com dor generalizada (média = 35,7; DP = 13,3) e aqueles com dor em apenas um local (média = 24,1; DP = 28,4, p = 0,009) e em dois ou três locais (média = 29,0; DP = 14,1; p = 0,003), indicando maior incapacidade em participantes com dor generalizada.

A intensidade média da dor na última semana foi 5,9 (DP = 2,0), tendo-se verificado uma correlação estatisticamente significativa entre a intensidade da dor e o WHODAS 2.0 (escore total e domínios) indicando maior incapacidade nos participantes com dor mais intensa (Tabela 4).

DISCUSSÃO

A versão portuguesa de 36 itens do WHODAS 2.0, administrada por entrevista, foi considerada equivalente à versão original e de fácil compreensão. Os resultados da avaliação das propriedades psicométricas indicam boa consistência interna do instrumento (α = 0,84). Contudo, nos estudos de Baron et al, 2 Garin et al 7 e Ustun et al, 15 o valor de alfa foi superior a 0,95. Essa diferença pode ser explicada pelo reduzido número de participantes considerado nesta análise (n = 65), devido à não aplicabilidade de respostas no domínio 5 “atividades diárias: domésticas e trabalho ou escola” para o restante dos participantes. Elevado número de participantes referiu não estar trabalhando ou frequentando escola e elevado número de participantes do sexo masculino referiu não realizar atividades domésticas. O CCI para a confiabilidade interavaliadores foi de 0,95, o que indica boa confiabilidade interavaliadores. Esse valor é mais elevado do que o obtido por Schlote et al, 13 que referiu CCI de 0,67. Contudo, os resultados de Schlote et al 13 podem ser explicados pelo longo período de tempo entre as duas aplicações do WHODAS 2.0, que foi de seis meses. O WHODAS 2.0 mostrou ser capaz de encontrar relações lógicas apoiadas pela literatura. Neste estudo, indivíduos com dor generalizada mostraram menor funcionalidade do que aqueles com dor em apenas um local e com dor em dois ou três locais. Dor mais intensa também parece estar associada a menor funcionalidade. Ambos os achados estão de acordo com os resultados de estudos anteriores 5 , 6 , 9 , 14 e sugerem que o instrumento apresenta validade de constructo. Os resultados indicam que a versão em português de 36 itens do WHODAS 2.0, administrada por entrevista, é válida e confiável. Esses resultados concordam com os apresentados por diversos estudos realizados com a versão original em pacientes com artrite inflamatória, osteoartrose do joelho, doença crónica, osteoartrose e acidente vascular cerebra l. 2 , 7 , 8 , 13

A não utilização de uma medida de incapacidade já validada para a língua portuguesa, que permitisse comparar os resultados desta com os obtidos pela aplicação do WHODAS 2.0, é uma das limitações deste estudo. Um dos instrumentos utilizados no processo de validação do WHODAS 2.0 em outros países é o questionário de estado de saúde (SF 36). Embora o SF 36 e o WHODAS 2.0 avaliem diferentes aspectos de conceitos relacionados, uma vez que o primeiro avalia qualidade de vida relacionada a saúde e o segundo avalia limitações nas atividades da vida diária e restrições na participação, estudos mostram que existe uma associação moderada entre as pontuações dos dois instrumentos. Assim, a utilização desse instrumento teria permitido avaliar a validade de critério, conferindo maior robustez à validação desse instrumento. A não utilização de pacientes com diversas patologias limita a possibilidade de generalizar resultados. Assim, é necessário avaliar, no futuro, a validade de critério da versão portuguesa do WHODAS 2.0, assim como validar esse instrumento para ser utilizado em pacientes com outro tipo de condições de saúde.

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Recebido: 21 de Maio de 2012; Aceito: 21 de Fevereiro de 2013

Correspondência | Correspondence : Anabela G. Silva. Escola Superior de Saúde,. Universidade de Aveiro - Edifício 30. Agras do Crasto. Campus Universitário de Santiago. 3810-193 Aveiro, Portugall. E-mail: asilva@ua.pt

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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