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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.47 no.5 São Paulo Oct. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047004674 

Artigos Originais

Tabagismo e estressores ocupacionais em bombeiros, 2011

Tabaquismo y estresores ocupacionales en bomberos, 2011

Eduardo de Paula Lima

Ada Ávila Assunção

Sandhi Maria Barreto

1 Departamento de Medicina Preventiva e Social . Faculdade de Medicina . Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil


RESUMO

OBJETIVO

Analisar a prevalência de hábito tabagista em bombeiros e os fatores associados.

MÉTODOS

Estudo transversal com 711 bombeiros de Belo Horizonte, MG, em 2011. As informações foram obtidas por meio de questionário estruturado autoaplicado, incluindo características sociodemográficas, estressores de origem ocupacional, situação de saúde e eventos adversos na vida. O tabagismo foi analisado como variável dicotômica (regressão logística múltipla).

RESULTADOS

A prevalência de tabagismo entre bombeiros foi de 7,6%. O hábito atual de fumar foi positivamente associado à baixa escolaridade, faixa intermediária de renda mensal, presença de problemas psiquiátricos no passado, alta exposição a eventos traumáticos na vida, discriminação social, estressores operacionais e baixa demanda de trabalho.

CONCLUSÕES

A baixa prevalência de tabagismo indica a relevância das condições de emprego na explicação de hábitos nocivos e saúde. Estressores organizacionais e operacionais contribuem independentemente para explicar o hábito de fumar na população estudada.

Palavras-Chave: Bombeiros; Hábito de Fumar; Condições de Trabalho; Satisfação no Emprego; Estudos Transversais

RESUMEN

OBJETIVO

Analizar la prevalencia de hábito de fumar en bomberos y los factores asociados.

MÉTODOS

Estudio transversal con 711 bomberos de Belo Horizonte, MG, Brasil, 2011. Las informaciones fueron obtenidas utilizando cuestionario estructurado auto aplicado, incluyendo características sociodemográficas, estresores de origen ocupacional, situación de salud y eventos adversos en la vida. El tabaquismo fue analizado como variable dicotómica (regresión logística múltiple).

RESULTADOS

La prevalencia de tabaquismo entre bomberos fue de 7,6%. El hábito actual de fumar estuvo positivamente asociado a la baja escolaridad, grupo intermedio de renta mensual, presencia de problemas psiquiátricos en el pasado, alta exposición a eventos traumáticos en la vida, discriminación social, estresores operativos y baja demanda de trabajo.

CONCLUSIONES

La baja prevalencia de tabaquismo indica la relevancia de las condiciones de empleo en la explicación de hábitos nocivos y salud. Estresores organizativos y operativos contribuyen independientemente en la explicación del hábito de fumar en la población estudiada.

Palabras-clave: Bomberos; Hábito de Fumar; Condiciones de Trabajo; Satisfacción en el Trabajo; Estudios Transversales

ABSTRACT

OBJECTIVE

To analyze the prevalence of smoking in firefighters and associated factors.

METHODS

Cross sectional study of 711 firefighters in Belo Horizonte, MG, Southeastern Brazil, in 2011. The data were obtained using a self-applied structured questionnaire, which included sociodemographic characteristics, occupational stressors, health status and adverse life events. Smoking was analyzed as a dichotomous variable (multiple logistic regression).

RESULTS

The prevalence of smoking among firefighters was 7.6%. Currently smoking status was associated with low levels of schooling, a monthly income in the middle band, the existence of psychiatric problems in the past, high exposure to traumatic events in life, social discrimination, occupational stressors and low demand at work.

CONCLUSIONS

The low prevalence of smoking indicates the relevance of employment conditions in explaining harmful habits and health. Organizational and operational stressors contribute independently to explaining current smoking status in the population studied.

Key words: Firefighters; Smoking; Working Conditions; Job Satisfaction; Cross-Sectional Studies

INTRODUÇÃO

Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são as principais causas de morbimortalidade e comprometimento funcional no Brasil e no mundo. 3,17 Houve diminuição da mortalidade atribuível às DNCT no País, nos últimos anos, mas com variações de acordo com as características socioeconômicas e étnicas dos grupos estudados. 9 Esses resultados indicam o êxito das políticas de saúde, mas também são claras as desigualdades de acesso aos serviços e às informações. 17

O tabagismo é um fator de risco importante para DCNT cujas taxas de mortalidade são as mais elevadas, incluindo cânceres, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares. 7 As medidas de prevenção antifumo ocorrem em diferentes níveis, 21,22 entre as quais são reconhecidas as vantagens das ações desenvolvidas no lócus do trabalho. 10

Há evidências de associação entre estressores de origem ocupacional e tabagismo. 1,2,8,11 No caso do setor de emergências, está registrada dupla exposição: 22 fatores psicossociais negativos (alta demanda, baixo controle, tarefas conflitantes, entre outros) e estressores operacionais (natureza das tarefas). A exposição a esses estressores no ambiente de trabalho tem consequências negativas para a saúde 6 e provavelmente contribui para o hábito tabagista, pois são conhecidas as relações entre estresse ocupacional e consumo de substâncias. 5

O objetivo do presente artigo foi analisar a prevalência de hábito tabagista em bombeiros e os fatores associados.

MÉTODOS

Estudo de corte transversal (de fevereiro a agosto de 2011), com todos os 794 bombeiros militares da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, que estavam em atividade nos três batalhões da cidade, e com pelo menos um ano de serviço na instituição. Foram considerados inelegíveis os bombeiros do sexo feminino e aqueles ausentes por motivo de deslocamento para outras unidades, em férias ou licença médica, e os participantes do estudo piloto. Taxa de resposta de pelo menos 80% para cada batalhão (Primeiro e Terceiro Batalhões e Batalhão de Operações Aéreas) e subunidades de vários bairros (Barreiro, Caiçara, Carlos Prates, Centro, Ipiranga, Pampulha, Sabará, Santa Lúcia, Saudade, Venda Nova e Vespasiano) foi estabelecido como critério para cálculo amostral.

A variável dependente fumante foi elaborada com a combinação das respostas às seguintes questões: “Você é ou já foi fumante de cigarros, ou seja, já fumou, ao longo da vida, pelo menos 100 cigarros (cinco maços)?” e “Você fuma cigarros atualmente?”. Participantes que responderam afirmativamente as duas perguntas foram classificados como “fumantes”; os que responderam não a uma das duas foram classificados como “não fumantes”.

Dois tipos de estressores foram abordados: estressores operacionais (dizem respeito à natureza da tarefa) e estressores organizacionais, originados das demandas psicossociais (derivadas do modelo e funcionamento da organização do trabalho) 20 e das condições ambientais sob as quais os bombeiros realizam as suas atividades.

A exposição a estressores operacionais foi avaliada pela Posttraumatic Diagnostic Scale (PDS), adaptada para profissionais de emergências em hospitais, 15 que consta de uma lista de 15 eventos potencialmente traumáticos típicos em serviços de emergências. O respondente é indagado sobre a frequência de tais episódios nos últimos 12 meses e indica o mais perturbador segundo a sua percepção. a A PDS foi incluída nas análises como variável dicotômica. O valor 1 (alta exposição a estressores operacionais) foi atribuído aos participantes com escores acima do quarto quintil na escala.

Os resultados obtidos da escala Job Content Questionnaire (JCQ) 4 foram utilizados para categorizar os estressores organizacionais. O JCQ foi construído para operacionalizar o modelo Demanda-Controle-Suporte (DCS) e inclui as dimensões demanda física, demanda psicológica, controle sobre o trabalho e suporte social. Foram analisados apenas os efeitos principais do modelo DCS (efeitos aditivos). As três dimensões foram analisadas como variáveis dicotômicas. O valor 1 foi atribuído para os participantes com escores acima do quarto quintil na dimensão demanda (alta demanda física/psicológica). Nas dimensões controle e suporte social, o valor 1 foi atribuído aos respondentes com escores abaixo do primeiro quintil (baixo controle sobre o trabalho e suporte social escasso, respectivamente). Essa estratégia buscou contornar resultados controversos em estudos prévios que utilizaram os quadrantes originais propostos por Karasek. 14

A variável condição de trabalho englobou quatro perguntas relacionadas a disponibilidade de equipamentos de proteção individual, ruído no local de trabalho, ruído originado fora do local de trabalho e disponibilidade de recursos materiais suficientes para executar as tarefas. As respostas foram somadas para a construção de um escore composto e analisadas como variável ordinal.

Foram solicitadas respostas aos itens: gênero, idade, escolaridade, estado civil, número de filhos, raça/cor da pele autodeclarada, renda mensal, atividades sociais e tempo de serviço na instituição. Situação de saúde mental foi explorada indagando-se sobre a ocorrência, nos últimos 12 meses, de tratamento psicológico e/ou psiquiátrico, uso de medicação psiquiátrica e diagnóstico médico de depressão e transtorno de ansiedade. A variável transtornos mentais foi construída de acordo com a confirmação de pelo menos um dos eventos interrogados. Sobre a situação de saúde geral, foram explorados: absenteísmo-doença, acidente de trabalho, doenças crônicas (hipertensão, diabetes, asma/bronquite, infarto do miocárdio, enfisema e distúrbios musculoesqueléticos) e uso problemático de álcool (aferido por meio da escala CAGE 16Cut Down, Annoyed, Guilty, and Eye-opener ).

Os eventos adversos na vida focalizados nos últimos 12 meses foram eventos estressantes (problemas gerais de saúde, problemas financeiros graves, abandono involuntário de residência e rompimento de relacionamento amoroso ou falecimento de familiares próximos), traumáticos (internação hospitalar por problema grave de saúde ou acidente, assalto e agressão física) e discriminação social (gênero, orientação sexual, religião, deficiência física, idade e condição socioeconômica na elaboração da categoria discriminação social). As três dimensões foram analisadas como variáveis ordinais, calculadas como o número de eventos vividos.

As análises foram realizadas no programa Stata, versão 11.0, em quatro etapas: 1) descritiva, que incluiu o cálculo de médias, desvios-padrões para variáveis contínuas e discretas, e percentagens para variáveis ordinais e nominais; 2) regressão logística univariável; 3) regressão logística multivariável por blocos (sociodemográficas, ocupacionais, saúde e eventos de vida) incluindo as variáveis associadas ao desfecho (p ≤ 0,20) nas análises univariáveis; e 4) regressão logística multivariável incluindo as variáveis associadas ao tabagismo nas análises multivariáveis por blocos (p ≤ 0,05).

O projeto foi aprovado pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (ETIC nº 0387.0.203.000-10). Os participantes leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após serem informados quanto aos objetivos e ao caráter confidencial e voluntário da pesquisa.

RESULTADOS

Foram considerados elegíveis 794 sujeitos de um universo de 954 bombeiros. Obteve-se 89,5% (n = 711) de taxa de resposta, satisfazendo os critérios estabelecidos de quotas por batalhão e subunidade (80,0% a 96,9%). A comparação entre respondentes e não respondentes indicou similaridades quanto a idade (p = 0,106), escolaridade (p = 309), estado civil (p = 0,677), posto hierárquico (p = 0,113), unidade de trabalho (p = 0,218) e tempo de serviço no Corpo de Bombeiros (p = 0,117).

A maior parte tinha menos de 30 anos de idade (72,1%), nível médio de escolaridade (66,0%), era casada ou em um relacionamento estável (55,4%), com filhos (53,1%), cor da pele parda (51,8%) e renda familiar entre R$ 2.501,00 e R$ 4.000,00 (41,6%); 5,4% dos participantes não relataram práticas sociais. O tempo de serviço da maioria na Instituição foi três anos (64,7%) e quase metade dos entrevistados ocupavam o posto de soldado (45,3%).

Relataram exposição a dois ou mais tipos de situações precárias 50,5% dos bombeiros. A análise descritiva dos estressores ocupacionais indicou: alta demanda (n = 135), baixo controle (n = 148), baixo suporte social (n = 184) e alta exposição a estressores operacionais (n = 161).

Um quarto dos bombeiros relatou diagnóstico clínico de pelo menos uma doença crônica, 16,0%, problemas psiquiátricos no passado e 9,6% indicaram uso problemático de álcool. A taxa de absenteísmo nos últimos 12 meses foi 44,1%. A maioria relatou praticar atividades físicas uma ou duas vezes por semana (50,2%); 59,5%, 14,4% e 24,8% dos bombeiros foram expostos, respectivamente, a pelo menos um evento estressante, um evento traumático e uma situação de discriminação social.

A prevalência de tabagismo foi de 7,6% e 9,8% declararam-se ex-fumantes. Os mais velhos, menos escolarizados e com filhos apresentaram taxas mais altas de tabagismo atual. Observou-se relação não linear entre renda e o desfecho: associação negativa entre R$ 4.001,00 e R$ 5.000,00 e positiva entre R$ 5.501,00 e R$ 7.000,00 (Tabela 1).

Tabela 1 . Características sociodemográficas e hábitos de vida de bombeiros de Belo Horizonte, MG, 2011. 

Variáveis Fumantes Não fumantes OR IC95%

n % n %

Idade (anos)            
  18 a 29 32 6,3 479 93,7
  30 a 50 22 11,1 176 89,9 1,87 1,06;3,31 b
Escolaridade            
  Ensino fundamental 10 18,5 44 81,5
  Ensino médio 28 6,0 440 94,0 0,28 0,13;0,61 b
  Ensino superior/pós-graduação 15 8,0 172 92,0 0,38 0,16;0,91 b
Estado civil            
  Casado/relação estável 33 8,4 361 91,6
  Solteiro 20 7,0 264 93,0 0,83 0,47;1,48
  Separado/divorciado 1 3,0 32 97,0 0,34 0,45;2,58
Filhos            
  Não 19 5,7 314 94,3
  Sim 35 9,3 342 90,7 1,69 0,95;3,02 a
Etnia/cor da pele            
  Branca 18 8,3 198 91,7
  Parda 25 6,8 342 93,2 0,80 0,43;1,51
  Preta 9 9,3 88 90,7 1,13 0,49;2,60
  Asiático/índio 2 7,1 26 92,9 0,85 0,19;3,86
Renda (R$)            
  ≤ 2.500 15 8,8 155 91,2
  2.501 a 4.000 22 7,4 274 92,6 0,83 0,42;1,64
  4.001 a 5.500 4 3,0 128 97,0 0,32 0,10;0,90 b
  5.501 a 7.000 11 17,7 51 82,3 2,23 0,96;5,16 a
  > 7.000 2 3,9 49 96,1 0,42 0,09;1,91
Atividades sociais            
  Sim 51 7,9 597 92,1
  Não 2 5,3 36 94,7 0,65 0,15;2,78

A análise univariável indicou associações positivas entre tabagismo e exposição mais frequente a estressores operacionais e maior tempo de serviço na Instituição. A demanda de trabalho foi associada ao desfecho entre os fatores psicossociais, indicando relação negativa com tabagismo (Tabela 2).

Tabela 2 . Informações sobre o emprego, estressores ocupacionais em bombeiros de Belo Horizonte, MG, 2011. 

Variável Fumantes Não fumantes OR IC95%

n % n %

Job Content Questionnaire            
  Baixa demanda 48 8,5 519 91,5
  Alta demanda 6 4,4 129 95,6 0,88 0,43;1,79 a
  Alto controle 42 7,6 509 92,4
  Baixo controle 10 6,8 138 93,2 0,88 0,43;1,79
  Alto suporte social 43 8,2 479 91,8
  Baixo suporte social 11 6,0 173 94,0 0,71 0,36;1,40
Estressores operacionais            
  Baixa exposição 32 6,1 493 93,9
  Alta exposição 20 12,4 141 87,6 2,18 1,21;3,94 b
Tempo de serviço (anos)            
  1 a 2 13 5,2 238 94,8
  3 a 15 15 7,8 178 92,2 1,54 0,72;3,32
  16 a 30 26 9,7 241 90,3 1,98 0,99;3,94 a
Condições precárias do ambiente de trabalho            
  0 8 9,9 73 90,1
  1 20 7,4 249 92,6 0,73 0,31;1,73
  2 18 6,6 256 93,4 0,64 0,27;1,54
  3 ou mais 8 9,8 74 90,2 0,99 0,35;2,77

O uso problemático de álcool no último ano, a presença de problemas psiquiátricos no passado, absenteísmo e pouca ou nenhuma prática de atividade física foram positivamente associados ao tabagismo. A exposição a um ou mais eventos estressantes, dois ou mais eventos traumáticos e uma ou mais situações de discriminação social foi positivamente associada ao tabagismo em bombeiros (Tabela 3).

Tabela 3 . Situação de saúde e exposição a eventos adversos na vida em bombeiros de Belo Horizonte, MG, 2011. 

Variável Fumante Não fumante OR IC95%

n % n %

Uso problemático de álcool (CAGE) a            
  Não 43 6,7 597 93,3
  Sim 11 16,2 57 83,8 1,94 1,50;2,50 c
Doenças crônicas (número)            
  0 40 7,2 515 92,8
  1 ou mais 14 9,7 131 90,3 1,38 0,73;2,60
Transtornos mentais no passado            
  Não 34 5,8 552 94,2
  Sim 30 17,2 96 82,8 3,38 1,87;6,12 c
Absenteísmo            
  Não 23 5,9 367 94,1
  Sim 31 10,1 276 89,9 1,79 1,02;3,14 c
Atividade física (vezes/semana)            
  ≥ 3 15 4,7 303 95,3
  1 ou 2 35 9,9 319 90,1 2,22 1,19;4,14 c
  Nunca 4 12,1 29 87,9 2,79 0,87;8,95 b
Eventos adversos na vida            
  0 12 4,2 273 95,8
  1 18 7,4 227 92,7 1,80 0,85;3,82 b
  2 ou mais 23 13,2 151 87,8 3,46 1,68;7,16 c
Eventos traumáticos na vida            
  0 39 6,4 567 93,6
v1 7 9,6 66 90,4 1,54 0,66;3,59
  2 ou mais 8 27,6 21 72,4 5,54 2,31;13,31 c
Discriminação social            
  0 31 5,9 496 94,1
  1 17 14,2 103 85,8 2,64 1,41;4,95 c
  2 ou mais 6 11,1 48 88,9 2,00 0,79;5,03 b

Quanto aos modelos intermediários, a escolaridade formal foi negativamente associada ao desfecho; a relação entre renda mensal (de R$ 5.501,00 a R$ 7.000,00) e tabagismo foi positiva. Encontrou-se associação positiva com exposição mais frequente a estressores operacionais; porém, houve associação inversa significativa com alta demanda de trabalho. Nula ou baixa frequência de atividades físicas e problemas psiquiátricos no passado foram associados positivamente ao tabagismo atual. Eventos adversos na vida foram positivamente associados ao tabagismo em bombeiros (exposição a um ou mais eventos estressantes, dois ou mais eventos traumáticos e um ou mais situações de discriminação social).

O modelo final multivariável incluiu variáveis sociodemográficas, ocupacionais, situação de saúde e exposição a eventos adversos na vida. A escolaridade foi mantida no modelo final, indicando que maior nível de escolarização está negativamente associado ao hábito de fumar. Em relação ao salário mensal, apenas a faixa entre R$ 5.500,00 e R$ 7.000,00 (equivalente a US$ 2,558.00 e US$ 3,256.00) foi positivamente associada ao desfecho. Duas variáveis ocupacionais permaneceram no modelo: associação positiva com estressores operacionais e associação inversa com demanda de trabalho. A presença de problemas psiquiátricos no passado e a exposição a dois ou mais eventos traumáticos na vida no último ano foram positivamente associados ao tabagismo. A exposição a situações de discriminação social obteve relação não linear com o desfecho: a faixa intermediária (exposição a uma situação no último ano) esteve associada positiva e significativamente com tabagismo (Tabela 4).

Tabela 4 . Regressão logística múltipla para tabagismo como variável dependente. Bombeiros de Belo Horizonte, MG, 2011. 

Variável OR IC95%

Sociodemográfico    
  Escolaridade    
    Ensino fundamental
    Ensino médio 0,30 0,12;0,72 b
    Ensino superior/Pós-graduação 0,36 0,13;0,99 a
  Renda (R$)    
    ≤ 2.500
  2.501 a 4.000 0,69 0,32;1,52
  4.001 a 5.500 0,34 0,10;1,14
  5.501 a 7.000 2,94 1,15;7,50 a
    > 7.000 0,62 0,12;3,09
Estressores ocupacionais    
  Estressores operacionais (PDS)    
    Baixa exposição
    Alta exposição 2,04 1,05;3,96 a
  Fatores psicossociais (JCQ)    
    Baixa demanda
    Alta demanda 0,33 0,12;0,88 a
Saúde    
  Transtornos mentais no passado    
    Não
    Sim 3,90 1,47;5,72 b
Eventos adversos na vida    
  Eventos traumáticos    
    0
    1 1,16 0,46;2,97
    2 ou mais 4,74 1,70;13,25 b
  Discriminação social    
    0
    1 2,87 1,42;5,81 b
    2 ou mais 1,33 0,41;4,34

DISCUSSÃO

A prevalência de tabagismo (7,6%) entre bombeiros foi inferior à da população geral de homens empregados sem proteção social no Brasil em 2008 (26,4%) 9 e à obtida no inquérito de Belo Horizonte em 2010 (15%). b O desemprego e condições precárias de emprego estão fortemente associados a taxas mais altas de morbidades. 12,13 Baixos salários, insegurança no emprego e fracos vínculos interpessoais são características presentes em empregos informais e temporários 19 e associadas a maior vulnerabilidade a comportamentos nocivos como o tabagismo. 10 É provável que as características ocupacionais do grupo analisado (entrada por concurso público, estabilidade no emprego, garantia de assistência à saúde e previdência, regulação interna de consumo de tabaco e prática de atividades físicas) expliquem a menor prevalência de tabagismo encontrada, quando comparada aos inquéritos populacionais.

Se, de um lado, o ambiente militar impõe regras de comportamentos saudáveis e a natureza da atividade profissional exige disposição e desempenho físico (quase atlético), os bombeiros estão expostos, de outro lado, a situações extremas. Estudos identificaram o peso dos estressores organizacionais e operacionais na adesão aos hábitos nocivos. 2,5 A demanda por serviços de emergência em grandes centros urbanos é crescente e o atendimento oferecido às vítimas deve ser imediato, o que gera ritmo intenso e sobrecarga de trabalho.

Aspectos físicos e psicossociais do trabalho podem influenciar o hábito e a intensidade de fumar, com destaque para os fatores psicossociais abordados pelo modelo DCS. 11,23 Alta demanda psicossocial foi inversamente associada ao tabagismo. É provável que a forma de mensuração da variável estudada tenha influenciado os resultados. A relação entre demanda psicossocial e tabagismo é paradoxal. 1 O número de cigarros consumidos e as recaídas após tentativas de abandono do hábito, por um lado, são positivamente associados à alta demanda; as tentativas de interromper, por outro lado, também são associadas na mesma direção. Segundo Albertsen et al 1 (2006), a relação entre fumar e demanda de trabalho pode não ser linear. Indivíduos expostos a uma moderada demanda de trabalho podem estar mais animados a abandonar o tabaco; mas, se expostos aos constrangimentos de tarefas árduas, teriam como válvula de escape o recurso ao uso de substâncias. Bombeiros submetidos a demandas irrisórias estariam mais vulneráveis porque menos motivados ou engajados. Porém, existem bombeiros submetidos a altas demandas. Tal reflexão não é permitida se considerado o delineamento deste estudo epidemiológico ocupacional.

Os estressores operacionais predizem diferentes desfechos em saúde mental, incluindo sintomas de estresse pós-traumático, 15 depressão 6 e uso de álcool. 5 Entretanto, não há sustentação na literatura para analisar as relações com o tabagismo em profissionais do setor de emergências. A exposição a eventos traumáticos (vítimas de desastres, acidentes automobilísticos, combate, e outros) em contextos não ocupacionais está associada ao tabagismo, 8 incluindo hábito atual, quantidade de tabaco consumido e dependência de nicotina. Tal relação é direta; contudo, também mediada pela presença de sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). 8 Entre adultos expostos a eventos traumáticos, a prevalência de tabagismo chega a 36,0%, taxa consideravelmente superior à encontrada na população geral, incluindo o Brasil. 9,17 Os mecanismos que ligam o hábito de fumar ao trauma não são bem compreendidos, mas duas hipóteses são discutidas: 1) o comportamento tabagista seria uma forma de lidar com afetos negativos decorrentes da exposição aos eventos traumáticos, e 2) a lembrança do trauma seria um incentivador do hábito porque funcionaria como uma estratégia de enfrentamento para sintomas de TEPT 8 ou outros transtornos mentais ligados aos traumas. As hipóteses não são excludentes e carecem de elucidações.

Fumar pode ser uma estratégia de enfrentamento para lidar com afetos negativos da discriminação social e eventos traumáticos na vida. O hábito de fumar pode ser consequência da exposição a estressores não relacionados ao trabalho. 11 Transtornos mentais no passado foram associados ao desfecho em foco. Esse resultado está de acordo com a literatura 8 e sugere que a relação entre saúde mental e tabagismo pode ser independente da exposição a eventos adversos (ocupacionais e não ocupacionais). Transtornos de humor e ansiedade, ambos abordados no presente inquérito, compartilham sintomas de afeto negativo 18 que são agravados diante de eventos traumáticos ou estressantes na vida e poderiam sustentar a manutenção do hábito de fumar em bombeiros.

A escolaridade permaneceu no modelo final multivariável de maneira consistente, 19 indicando que níveis mais altos de educação formal estão associados a menor taxa de tabagismo no presente. A relação com a renda mensal apresentou padrão não linear, com resultados significativos e positivos para uma faixa intermediária da variável. Esse resultado é semelhante ao encontrado na população brasileira 9 e indica que as relações entre escolaridade, renda e mercado de trabalho envolvem mecanismos complexos de interpretação.

A frequência da atividade física não permaneceu no modelo final, possivelmente devido à regulamentação da prática de atividade física no grupo alvo e consequente diminuição do sedentarismo na população estudada.

A ausência de associação com doenças crônicas pode ser explicada pelo desenho do estudo. Essas morbidades foram mais prevalentes em fumantes, mas os resultados não foram significativos, possivelmente devido à falta de poder estatístico (Tabela 4). O efeito da causalidade reversa é plausível: bombeiros para os quais os diagnósticos citados foram confirmados pararam de fumar para evitar complicações e agravos à saúde. Também concorre para tal ausência de associação estatística o viés do trabalhador sadio, já que aqueles mais doentes possivelmente se aposentaram ou estão em licença para tratamento.

Entre as limitações do presente estudo, está o uso exclusivo de instrumentos de autorrelato e a ausência de informações complementares sobre o comportamento de fumar, incluindo idade do início do hábito, duração (em anos) do hábito, quantidade de cigarros consumidos e tentativas de abandono. Estudos futuros devem buscar compreender as relações entre estressores ocupacionais e tabagismo em bombeiros.

Em conclusão, a baixa prevalência de tabagismo em bombeiros de Belo Horizonte, comparada às taxas de estudos populacionais, indica a relevância do vínculo de emprego com proteção social na explicação de hábitos nocivos e saúde. Estressores organizacionais e operacionais contribuíram independentemente para explicar o hábito de fumar na amostra estudada. Variáveis sociodemográficas e eventos adversos na vida mostraram-se relevantes. Outros estudos poderão considerar intensidade do consumo e tentativas de interromper o hábito tabagista.

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b Lima-Costa MF, Turci M, Macinko J. Saúde dos adultos em Belo Horizonte. Belo Horizonte: Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento da Fiocruz, Universidade Federal de Minas Gerais; 2012.

Estudo baseado na tese de doutorado de Lima E.P., intitulada: “Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em bombeiros de Belo Horizonte”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2013.

Recebido: 4 de Dezembro de 2012; Aceito: 28 de Maio de 2013

Correspondência | Correspondence : Eduardo de Paula Lima - Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - Av. Alfredo Balena, 190 sala 705 - 30310-100 Belo Horizonte, MG, Brasil - E-mail: edpl@hotmail.com

Estudo subvencionado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bolsa de doutorado sanduíche (Processo nº 202176/2011-8) para Lima E.P.

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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