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Revista de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.47  supl.3 São Paulo dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047004226 

Artigos Originais

Perdas dentárias no Brasil: análise da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal 2010

Pérdidas dentarias en Brasil: análisis de la Investigación Nacional de Salud Bucal 2010

Marco Aurélio PeresI 

Paulo Roberto BarbatoII 

Sandra Cristina Guimarães Bahia ReisIII 

Cláudia Helena Soares de Morais FreitasIV 

José Leopoldo Ferreira AntunesV 

IAustralian Research Centre for Population Oral Health. School of Dentistry. University of Adelaide. Adelaide, Australia

IIPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil

IIISecretaria de Estado da Saúde de Goiás. Goiânia, GO, Brasil

IVCentro de Ciências da Saúde. Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, PB, Brasil

VDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

RESUMO

OBJETIVO:

Analisar a perda dentária com base em estimativas do número médio de dentes perdidos, prevalência de ausência de dentição funcional e edentulismo em adolescentes, adultos e idosos brasileiros, comparando-a com resultados de 2003.

MÉTODOS:

Os dados referem-se à Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SBBrasil 2010): adolescentes de 15 a 19 anos (n = 5.445), adultos entre 35 e 44 anos (n = 9.779) e idosos entre 65 e 74 anos (n = 7.619). O número de dentes perdidos, a prevalência de indivíduos sem dentição funcional (< 21 dentes naturais) e de edentulismo (perda total dos dentes) foram estimados para cada grupo etário, capitais e macrorregiões brasileiras. Foram realizadas análises de regressão logística (perdas dentárias) e de Poisson (ausência de dentição funcional e edentulismo) multivariáveis para identificar fatores socioeconômicos e demográficos associados a cada desfecho.

RESULTADOS:

A prevalência de perdas dentárias entre adolescentes foi de 17,4% (38,9% em 2002-3), variando de 8,1% entre os estratos de maior renda a quase 30% entre os menos escolarizados. Entre adolescentes, as mulheres, pardos e pretos, os de menor renda e escolaridade apresentaram maiores prevalências de perdas. Ausência de dentição funcional ocorreu em aproximadamente ¼ dos adultos, sendo superior nas mulheres, nos pretos e pardos, nos de menor renda e escolaridade. A média de dentes perdidos em adultos declinou de 13,5 em 2002-3 para 7,4 em 2010. Mais da metade da população idosa é edêntula (similar em 2002-3); maiores prevalências de edentulismo em idosos foram observadas em mulheres, nos de menores renda e escolaridade. A média de dentes perdidos em adolescentes variou de 0,1 (Curitiba e Vitória) a 1,2 (interior da região Norte). Entre adultos, a menor média encontrada foi 4,2 (Vitória) e a maior 13,6 (Rio Branco).

CONCLUSÕES:

Houve importante redução nas perdas dentárias em adolescentes e adultos em comparação com dados de 2003, mas não entre os idosos. As perdas dentárias apresentam marcadas desigualdades sociais e regionais.

Palavras-Chave: Perda de Dente, epidemiologia; Fatores Socioeconômicos; Desigualdades em Saúde; Inquéritos de Saúde Bucal; Saúde Bucal

RESUMEN

OBJETIVO:

Analizar la pérdida dentaria con base en estimaciones del número promedio de dientes perdidos, prevalencia de ausencia de dentición funcional y edentulismo en adolescentes, adultos y ancianos brasileños, comparándola con resultados de 2003.

MÉTODOS:

Los datos se refieren a la Investigación Nacional de Salud Bucal (SBBrasil): adolescentes de 15 a 19 años (n=5.445), adultos entre 35 y 44 años (n=9.779) y ancianos entre 65 y 74 años (n=7.619). El número de dientes perdidos, la prevalencia de individuos sin dentición funcional (< 21 dientes naturales) y de edentulismo (pérdida total de los dientes), fueron estimados para cada grupo etario, capitales y macro regiones brasileñas. Se realizaron análisis de regresión logística (pérdidas dentarias) y de Poisson (ausencia de dentición funcional y edentulismo) multivariables para identificar factores socioeconómicos y demográficos asociados a cada aspecto.

RESULTADOS:

La prevalencia de pérdidas dentarias entre adolescentes fue de 17,4% (38,9% en 2002-3) variando de 8,1% entre los estratos de mayor renta a casi 30% entre los menos escolarizados. Entre adolescentes, las mujeres, pardos y negros, los de menor renta y escolaridad presentaron mayores prevalencias de pérdidas. La ausencia de dentición funcional ocurrió en aproximadamente ¼ de los adultos, siendo superior en las mujeres, en los negros y pardos, en los de menor renta y escolaridad. El promedio de dientes perdidos en adultos declinó de 13,5 en 2002-3 a 7,4 en 2010. Más de la mitad de la población anciana es edéntula (similar en 2002-3); mayores prevalencias de edentulismo en ancianos fueron observadas en mujeres, en los de menor renta y escolaridad. El promedio de dientes perdidos en adolescentes varió de 0,1 (Curitiba y Vitória) a 1,2 (interior de la región Norte). Entre adultos, el menor promedio encontrado fue 4,2 (Vitória) y el mayor 13,6 (Rio Branco).

CONCLUSIONES:

Hubo importante reducción en las pérdidas dentarias en adolescentes y adultos en comparación con datos del 2003, sin embargo, no se evidenció entre los ancianos. Las pérdidas dentarias presentan marcadas desigualdades sociales y regionales.

Palabras-clave: Pérdida de Diente, epidemiología; Factores Socioeconómicos; Desigualdades en la Salud; Encuestas de Salud Bucal; Salud Bucal

INTRODUÇÃO

A perda dentária é considerada um dos principais agravos à saúde bucal devido à sua alta prevalência, aos danos estéticos, funcionais, psicológicos e sociais que acarreta. 3 , 9 , 26 Contudo, grande parte da perda dentária é evitável. Reflete o acúmulo da carga de doenças bucais ao longo da vida, aspectos culturais e a decisão de extrair o dente como opção de tratamento odontológico. 15 , 18 Estudos epidemiológicos revelam que as perdas dentárias constituem-se em uma marca da desigualdade social em diversas sociedades; grupos populacionais situados na base da hierarquia socioeconômica apresentam maior número de perdas dentárias do que os situados no topo da escala. 3 , 6 , 7 , 15 , 16

No Brasil, o inquérito nacional de saúde bucal de 1986 revelou que, para os adolescentes (15-19 anos), a média de dentes perdidos foi de 1,9, representando 15,2% do índice CPOD (dentes cariados, perdidos e obturados), para os adultos de 35-44 anos foi de 14,9 (66,5%) e de 23,4 para os indivíduos entre 50 e 59 anos (86% do índice). As disparidades regionais apareceram em todas as faixas de idade, com os menores percentuais de perdas na região Sul e os maiores na região Norte. a Na pesquisa nacional de saúde bucal de 2002-2003, a média de dentes perdidos recuou para 0,9 e 13,2 em adolescentes e adultos, respectivamente, e atingiu 25,8 entre idosos de 65 a 74 anos. A proporção do componente perdido manteve-se estável entre os dois estudos: cerca de 15% em adolescentes e 65% em adultos (35-44 anos) e mais de 90% entre os idosos. Essas observações mostram a magnitude e a importância das perdas dentárias como problema de saúde pública no País. b

A forma de mensuração e apresentação de estudos sobre perdas dentárias varia conforme a faixa etária estudada. Em adolescentes, é preferível aferir a prevalência de perdas em vez do número de dentes afetados, uma vez que o agravo nesse grupo etário tem se tornado relativamente pouco frequente, inclusive no Brasil. 4 Em adultos e idosos, a ausência de dentição funcional e o edentulismo têm sido propostos como formas de medidas das perdas dentárias a serem investigadas. Dentição funcional é conceituada como o número mínimo de dentes naturais que uma pessoa necessita para exercer função adequada sem auxílio do uso de próteses. 17 Pessoas com menos de 21 dentes naturais podem sofrer problemas relevantes de mastigação, restrição de alimentos e ingestão de nutrientes. 11 , 27 O edentulismo é a perda completa dos dentes naturais. 7

O objetivo deste estudo foi analisar a perda dentária com base em estimativas do número médio de dentes perdidos, prevalência de ausência de dentição funcional e edentulismo em brasileiros, e compará-la com os resultados de 2003. Adicionalmente investigou-se a associação desses agravos com condições econômicas e características demográficas dos participantes.

MÉTODOS

Foi utilizado o banco de dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal – SBBrasil 2010. O plano amostral constou de domínios relativos às capitais e municípios do interior. Cada capital de unidade da federação (estados e Distrito Federal) compôs um domínio e todos os municípios do interior de cada uma das regiões naturais do País (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), outro. Ao todo, foram definidos 27 domínios geográficos (capitais e Distrito Federal) e cinco do interior, um para cada região, totalizando 32. Trinta municípios do interior de cada uma das regiões foram sorteados. As unidades primárias de amostragem foram: (a) município, para o interior das regiões e (b) setor censitário para as capitais. Indivíduos nas idades de cinco anos e de 12 anos e os pertencentes aos grupos etários de 15 a 19 anos, 35 a 44 anos e 65 a 74 anos foram entrevistados e examinados em seus domicílios. c Informações detalhadas sobre o procedimento amostral podem ser obtidas em outra publicação. 25 Para o presente estudo utilizaram-se os dados de adolescentes de 15 a 19 anos (n = 5.888), adultos entre 35 e 44 anos (n = 10.199) e idosos entre 65 e 74 anos (n = 8.000).

A coleta de dados incluiu exames odontológicos e entrevistas. Perda dentária em adolescentes foi considerada como decorrente de cárie dentária, enquanto em adultos e idosos foi definida como todo dente natural ausente devido à extração, por qualquer motivo (códigos 4 e 5 do índice CPOD). 30

O número de dentes perdidos (componente P do índice CPOD ≥ 1), a prevalência de indivíduos sem dentição funcional (presença de < 21 dentes naturais) e de edentulismo (perda total dos dentes naturais) foram estimados para adolescentes, adultos e idosos em cada macrorregião e capital.

Foram aplicadas entrevistas domiciliares por meio de um questionário estruturado contendo questões referentes ao sexo, idade, cor da pele autorreferida, escolaridade e renda familiar, que foram consideradas como variáveis independentes. Idade foi coletada e analisada em anos completos; cor da pele seguiu a classificação proposta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (brancos, pardos, pretos, amarelos e indígenas). Renda familiar foi coletada em reais, considerando o total de rendimentos de todos os membros da família no último mês anterior à entrevista e categorizada em grupos (até R$ 500,00; R$ 501,00 a R$ 1.500,00; R$ 1.500,00 a R$ 4.500,00; maior que R$ 4.500,00). A escolaridade dos participantes foi investigada segundo o número de anos completados com sucesso na escola e categorizada em até quatro anos de estudo, entre cinco e oito anos, entre nove e 11 anos e 12 anos ou mais.

Todos os exames bucais foram realizados nos domicílios dos participantes. As equipes de campo, formadas por um examinador (cirurgião-dentista) e um anotador, foram devidamente treinadas em oficinas regionais com duração de 32 horas. As capitais contaram com dez equipes de campo e os municípios do interior com duas a seis equipes, dependendo do porte populacional. Em cada oficina de treinamento participaram até dez equipes ao mesmo tempo; entretanto, nos turnos planejados para realização dos exames, as equipes foram divididas em dois grupos – cada um com um instrutor de calibração. Os procedimentos de calibração foram planejados de modo a antecipar (simular) as condições que os examinadores encontrariam, sobretudo em relação às condições estudadas e aos diferentes grupos populacionais. A técnica de calibração adotada foi a do consenso, 14 calculando-se a concordância entre cada examinador e os resultados obtidos pelo consenso da equipe. Tomou-se como referência o modelo proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) 29 e foi calculado o coeficiente kappa ponderado para cada examinador, grupo etário e agravo estudado, tendo como limite mínimo aceitável o valor de 0,65.

Foram estimadas as médias das perdas dentárias e respectivos intervalos de 95% de confiança (IC95%) para cada domínio (capitais e interior das cinco macrorregiões) em cada faixa etária. Posteriormente foram estimadas as prevalências de cada desfecho e intervalos de confiança – pelo menos uma perda (não/sim), ausência de dentição funcional (não/sim) e edentulismo (não/sim) – para adolescentes, adultos e idosos, respectivamente. Ao final foram realizadas análises de regressão logística (perdas dentárias) e de Poisson (ausência de dentição funcional e edentulismo) multivariáveis para identificar fatores socioeconômicos e demográficos associados a cada desfecho. Regressão logística foi utilizada para perda dentária em adolescentes, desfecho com prevalência menor que 20%, e regressão de Poisson para dentição funcional e edentulismo, desfechos com prevalências maiores que 20%. Inicialmente, para cada desfecho, foi realizada a análise bruta, tendo como critério para a inclusão nos modelos mutivariáveis um valor de p ≤ 0,20. A inclusão das variáveis exploratórias nos modelos ajustados foi ordenada em dois grupos, primeiro as variáveis demográficas (sexo e cor da pele), seguidas das variáveis socioeconômicas (renda familiar e número de anos de estudo).

Todas as análises foram realizadas no programa Stata 11.0 2009, considerando-se o plano complexo de amostragem e pesos amostrais.

O Projeto SBBrasil 2010 foi conduzido dentro dos padrões exigidos pela Declaração de Helsinque e aprovado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, sob o registro nº 15.498, em 7 de janeiro de 2010.

RESULTADOS

Foram investigados 5.445 adolescentes entre 15 e 19 anos, 9.779 adultos entre 35 e 44 anos e 7.619 idosos entre 65 e 74 anos de idade, indicando perdas amostrais de 7,6%, 4,2% e 4,8%, respectivamente. A prevalência global de perdas dentárias entre adolescentes foi 17,4%, variando de 8,1% entre os estratos de maior renda a quase 30% entre os com até quatro anos de estudo. Entre adolescentes, mulheres, pardos e pretos, os de menor renda e escolaridade apresentaram maiores prevalências de perdas. A proporção de adolescentes aos 18 anos sem dentes perdidos foi de 81,2% (IC95% 75,1;86,1). Ausência de dentição funcional ocorreu em aproximadamente ¼ dos adultos, sendo superior nas mulheres, nos pretos e pardos, nos de menor renda e escolaridade. Maior prevalência de ausência de dentição funcional em adultos ocorreu entre aqueles com até quatro anos de estudo (40,2%) e a menor entre os participantes com renda familiar maior que R$ 4.500,00 mensais (7%). Edentulismo foi frequente na maioria da população idosa (53,7%); maior nas mulheres, nos de renda e escolaridade mais baixa e não variou segundo a cor da pele. Quase 60% dos idosos nos estratos de escolaridade e renda mais baixos eram edêntulos, enquanto apenas 10% dos idosos cujas famílias têm renda acima de R$ 4.500,00 encontravam-se nessa situação ( Tabela 1 ).

Tabela 1 . Descrição da amostra e prevalência de perdas dentárias segundo variáveis sociodemográficas para os grupos etários de 15 a 19 anos, 35 a 44 anos e 65 a 74 anos. SBBrasil 2010. 

Variável Amostra Perdas dentárias Sem dentição funcional Edêntulos

15 a 19 anos 35 a 44 anos 65 a 74 anos 15 a 19 anos 35 a 44 anos 65 a 74 anos

n % n % n % % (IC95%) p % (IC95%) p % (IC95%) p

Sexo (n = 22.843) 5.445 100,0 9.779 100,0 7.619 100,0 17,4 (14,7;20,4) 0,017 22,4 (19,9;25,2) < 0,001 53,7 (49,8;57,6) 0,043
  Masculino 2.497 45,9 3.374 34,5 2.903 38,1 13,8 (10,4;18,1)   18,1 (15,1;21,4)   49,64 (45,10;54,19)  
  Feminino 2.948 54,1 6.405 65,5 4.716 61,9 20,7 (17,0;25,0)   21,4 (22,0;28,1)   56,16 (50,93;61,26)  
Cor da pele (n = 22.843) 5.445 100,0 9.779 100,0 7.619 100,0 17,4 (14,7;20,4) 0,039 22,4 (19,9;25,2) 0,019 53,7 (49,8;57,6) 0,662
  Branca 2.203 40,5 4.137 42,3 3.577 46,9 14,5 (10,9;19,0)   20,0 (17,1;23,4)   52,5 (47,5;57,4)  
  Parda 2.491 45,7 4.386 44,9 2.970 39,0 20,3 (16,9;24,1)   24,4 (20,6;28,6)   54,2 (48,0;60,3)  
  Preta 598 11,0 1.020 10,4 879 11,5 20,1 (14,8;26,6)   27,4 (22,0;33,6)   55,8 (46,4;64,9)  
  Amarela 104 1,9 164 1,7 121 1,6 9,6 (4,1;21,1)   13,8 (8,5;21,6)   61,6 (43,8;76,7)  
  Indígena 49 0,9 72 0,7 72 1,0 18,0 (4,8;48,6)   20,0 (9,5;37,3)   72,4 (40,8;90,9)  
Renda familiar (n = 21.998) 5.125 100,0 9.535 100,0 7.338 100,0 17,3 (14,6;20,4) 0,018 22,5 (20,0;25,3) < 0,001 53,7 (49,6;57,7) < 0,001
  Maior que R$ 4.500,00 246 4,8 519 5,4 461 6,3 8,1 (2,5;23,7)   7,0 (3,2;14,5)   10,2 (5,6;17,9)  
  R$ 4.500,00-R$ 1.501,00 1.363 26,6 2.813 29,5 1.999 27,2 11,9 (7,2;19,2)   15,1 (11,9;19,0)   49,8 (43,4;56,1)  
  R$ 1.500,00-R$ 501,00 2.650 51,7 4.783 50,2 4.029 54,9 18,9 (15,7;22,6)   25,3 (22,0;28,8)   57,4 (52,7;62,0)  
  Até R$ 500,00 866 16,9 1.420 14,9 849 11,6 24,3 (19,0;30,4)   33,0 (28,1;38,3)   58,1 (46,2;69,1)  
Anos de estudo (n = 22.543) 5.429 100,0 9.693 100,0 7.421 100,0 17,3 (14,6;20,4) < 0,001 22,4 (19,9;25,1) < 0,001 53,6 (49,7;57,4) < 0,001
  12 ou mais 761 14,0 2.297 23,7 738 9,9 13,3 (8,3;20,7)   7,7 (5,2;11,1)   21,8 (13,0;34,2)  
  9 a 11 2.643 48,7 3.025 31,2 870 11,7 13,8 (10,6;17,6)   16,9 (13,2;21,2)   37,0 (28,2;46,7)  
  5 a 8 1.821 33,5 2.718 28,0 1.568 21,2 23,8 (19,6;28,5)   26,1 (22,2;30,5)   54,1 (47,1;60,8)  
  4 ou menos 204 3,8 1.653 17,1 4.245 57,2 29,6 (19,0;43,0)   40,2 (35,3;45,3)   59,4 (54,1;64,4)  

A Tabela 2 mostra que a média de dentes perdidos em adolescentes foi de menos de meio dente para o País como um todo, variando de 0,1 em Curitiba e Vitória até 1,2 no interior da região Norte. Entre adultos a média do País atingiu 7,4 dentes perdidos com a menor média em Vitória (4,2) e a maior em Rio Branco (13,6). A média de dentes perdidos entre idosos é de quase 26, sendo a menor em Porto Alegre (18,7) e a maior no interior da região Nordeste (27,3).

Tabela 2 . Médias (IC95%) e medianas do número de dentes perdidos para os grupos etários de 15 a 19 anos, 35 a 44 anos e 65 a 74 anos, segundo domínios (capitais e interior). SBBrasil 2010. 

Domínio Dentes perdidos
15-19 anos 35-44 anos 65-74 anos

Média (IC95%) Mediana Média (IC95%) Mediana Média (IC95%) Mediana

Porto Velho 0,8 (0,6;1,0) 0 10,7 (9,4;12,0) 10 26,8 (25,3;28,2) 32
Rio Branco 0,5 (0,4;0,7) 0 13,6 (11,8;15,4) 12 27,2 (25,5;29,0) 32
Manaus 0,6 (0,2;1,1) 0 11,0 (9,9;12,2) 9 26,2 (25,0;27,3) 28
Boa Vista 0,8 (0,5;1,0) 0 9,7 (8,4;11,1) 8 26,3 (24,6;27,9) 32
Belém 0,6 (0,4;0,8) 0 9,0 (8,0;10,1) 7 25,5 (24,1;26,9) 26
Macapá 0,6 (0,2;1,0) 0 7,0 (5,6;8,4) 6 24,2 (22,3;26,0) 27
Palmas 0,5 (0,2;0,8) 0 8,8 (7,8;9,8) 7 26,5 (25,3;27,7) 32
São Luís 0,2 (0,1;0,4) 0 6,0 (4,4;7,7) 3 24,1 (22,1;26,2) 30
Teresina 0,3 (0,1;0,5) 0 7,5 (6,7;8,6) 5 25,8 (24,4;27,2) 32
Fortaleza 0,2 (0,1;0,3) 0 7,9 (6,6;9,1) 6 24,9 (22,8;26,9) 29
Natal 0,7 (0,0;1,5) 0 9,4 (7,7;11,0) 7 24,3 (22,7;25,9) 27
João Pessoa 0,6 (0,2;1,0) 0 8,5 (7,3;9,7) 7 24,3 (22,3;26,4) 29
Recife 0,7 (0,3;1,1) 0 9,1 (7,2;10,9) 6 22,9 (20,7;25,2) 26
Maceió 0,3 (0,2;0,4) 0 8,0 (6,8;9,2) 7 22,2 (19,6;24,8) 24
Aracaju 0,3 (0,1;0,4) 0 9,0 (8,1;9,9) 8 21,2 (19,3;23,2) 23
Salvador 0,2 (0,1;0,3) 0 6,4 (5,3;7,6) 5 23,4 (22,0;24,7) 26
Belo Horizonte 0,2 (0,1;0,3) 0 5,0 (4,2;5,9) 3 24,1 (21,9;26,2) 30
Vitória 0,1 (0,0;0,2) 0 4,2 (2,7;5,8) 2 19,9 (17,1;22,8) 23
Rio de Janeiro 0,3 (0,1;0,5) 0 7,7 (6,5;8,9) 5 26,0 (24,2;27,9) 32
São Paulo 0,4 (0,2;0,6) 0 7,0 (5,8;8,1) 5 22,8 (21,4;24,3) 26
Curitiba 0,1 (0,0;0,2) 0 6,1 (4,9;7,4) 4 23,0 (20,8;25,1) 26
Florianópolis 0,2 (0,1;0,3) 0 5,1 (3,6;6,6) 2 22,2 (20,5;23,9) 26
Porto Alegre 0,3 (0,2;0,4) 0 4,3 (3,4;5,1) 3 18,7 (16,1;21,3) 20
Campo Grande 0,2 (0,1;0,3) 0 7,4 (6,5;8,3) 4 23,1 (21,2;25,0) 27
Cuiabá 0,3 (0,1;0,5) 0 7,5 (6,1;8,9) 5 25,6 (23,6;27,6) 32
Goiânia 0,2 (0,1;0,3) 0 7,1 (5,8;8,4) 5 26,6 (24,9;28,3) 32
Distrito Federal 0,2 (0,1;0,3) 0 7,0 (5,7;8,3) 5 23,2 (20,6;25,8) 27
Interior - Norte 1,2 (0,9;1,4) 0 11,3 (10,0;12,6) 10 27,4 (26,5;28,3) 32
Interior - Nordeste 0,8 (0,4;1,2) 0 11,3 (9,4;13,1) 9 27,3 (26,3;28,3) 32
Interior - Sudeste 0,3 (0,1;0,5) 0 6,5 (5,4;7,6) 5 25,8 (24,2;27,4) 32
Interior - Sul 0,2 (0,1;0,3) 0 8,5 (6,9;10,1) 5 25,7 (23,7;27,7) 32
Interior - Centro-Oeste 0,4 (0,3;0,6) 0 9,0 (7,1;10,8) 6 26,2 (24,5;27,9) 32
Brasil 0,4 (0,3;0,5) 0 7,4 (6,9;8,0) 6 25,4 (24,6;26,1) 29

Alguma perda dentária acomete 17,4% dos adolescentes brasileiros, com proporções estatisticamente maiores em Rio Branco, Recife, Boa Vista, Porto Velho e interior da região Norte e menor em Vitória ( Figura 1 ). Entre os adultos, 22,4% não possui pelo menos 21 dentes naturais. Vitória, Porto Alegre, Florianópolis e Belo Horizonte apresentam prevalências menores de adultos sem dentição funcional, enquanto o interior do Nordeste, Manaus, Porto Velho, interior da região Norte e Rio Branco apresentam prevalências maiores que a média nacional ( Figura 2 ). Mais da metade dos idosos brasileiros são edêntulos (53,7%). Porto Alegre, Aracaju, Salvador, Vitória, Belém, Florianópolis e Macapá apresentam valores inferiores à média nacional, enquanto o interior da região Nordeste e Rio Branco apresentam valores mais elevados ( Figura 3 ).

Figura 1 . Prevalência de perdas dentárias em indivíduos de 15 a 19 anos, segundo domínios (capitais e interior). SBBrasil 2010. 

Figura 2 . Prevalência de pessoas sem dentição funcional (< 21 dentes presentes) em indivíduos de 35 a 44 anos, segundo domínios (capitais e interior). SBBrasil 2010. 

Figura 3 . Proporção de indivíduos de 65 a 74 anos edêntulos, segundo domínios (capitais e interior). SBBrasil 2010. 

Em adolescentes, as mulheres, os menos escolarizados e os mais pobres tiveram, respectivamente, 59%, 124% e 184% maiores chances de apresentar perdas dentárias do que os homens, os com escolaridade de até quatro anos e os com renda familiar maior do que R$ 4.500,00 ( Tabela 3 ). Os fatores sociodemográficos associados à ausência de dentição funcional em adultos foram os mesmos dos encontrados entre os adolescentes, com magnitudes semelhantes, embora a prevalência de ausência de dentição funcional entre aqueles com até quatro anos de escolaridade tenha sido quase cinco vezes maior do que os com 12 ou mais anos de estudo ( Tabela 4 ). Entre os idosos, apenas renda e escolaridade foram associados ao edentulismo. Conforme diminui a renda e escolaridade, aumentam as prevalências de edentulismo, configurando um gradiente. Idosos do grupo de menor renda apresentam prevalência de edentulismo quase quatro vezes maior do que os de maior renda, enquanto o edentulismo é duas vezes mais prevalente entre os menos escolarizados quando comparados aos mais escolarizados ( Tabela 5 ).

Tabela 3 . Regressão logística multivariável da associação de perdas dentárias em adolescentes (15 a 19 anos) e variáveis sociodemográficas. SBBrasil 2010. 

Variável   Ajustada
Bruta   Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3

OR (IC95%) p OR (IC95%) p OR (IC95%) p OR (IC95%) p

Sexo   0,018   0,018   0,055   0,037
  Masculino 1   1   1   1  
  Feminino 1,63 (1,09;2,45)   1,63 (1,08;2,44)   1,51 (0,99;2,30)   1,59 (1,03;2,43)  
Cor da pele   0,103   0,125        
  Branca 1   1          
  Parda 1,50 (1,07;2,12)   1,49 (1,07;2,07)          
  Preta 1,48 (0,94;2,33)   1,47 (0,94;2,31)          
  Amarela 0,63 (0,25;1,58)   0,60 (0,23;1,57)          
  Indígena 1,29 (0,27;6,22)   1,21 (0,23;6,40)          
Renda familiar   0,004       0,007   0,033
  Maior que R$ 4.500,00 1       1   1  
  R$ 4.500,00 -R$ 1.501,00 1,53 (0,44;5,35)       1,48 (0,43;5,07)   1,61 (0,45;5,76)  
  R$ 1.500,00 -R$ 501,00 2,63 (0,76;9,11)       2,42 (0,72;8,19)   2,42 (0,68;8,56)  
  Até R$ 500,00 3,62 (1,01;13,01)       3,33 (0,94;11,79)   2,84 (0,78;10,41)  
Anos de estudo   < 0,001           < 0,001
  12 ou mais 1           1  
  9 a 11 1,04 (0,58;1,86)           1,00 (0,53;1,86)  
  5 a 8 2,03 (1,15;3,57)           1,84 (1,01;3,34)  
  4 ou menos 2,74 (1,33;5,64)           2,24 (1,05;4,80)  

Modelo 1: Sexo e cor da pele; Modelo 2: Renda familiar ajustada pelo sexo (cor da pele saiu do modelo – p > 0,20);

Modelo 3: Anos de estudo ajustados pela renda e sexo.

Tabela 4 . Regressão de Poisson multivariável da associação de dentição funcional em adultos (35 a 44 anos) e variáveis sociodemográficas. SBBrasil 2010. 

Variável   Ajustada
Bruta   Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3

RP (IC95%) p RP (IC95%) p RP (IC95%) p RP (IC95%) p

Sexo   < 0,001   < 0,001   < 0,001   < 0,001
  Masculino 1   1   1   1  
  Feminino 1,38 (1,17;1,62)   1,39 (1,18;1,63)   1,38 (1,16;1,63)   1,53 (1,30;1,80)  
Cor da pele   0,023   0,018   0,487    
  Branca 1   1   1      
  Parda 1,22 (1,01;1,46)   1,22 (1,02;1,46)   1,07 (0,90;1,27)      
  Preta 1,37 (1,07;1,76)   1,38 (1,08;1,78)   1,16 (0,90;1,50)      
  Amarela 0,69 (0,41;1,14)   0,68 (0,42;1,11)   0,61 (0,35;1,06)      
  Indígena 1,00 (0,50;2,01)   1,02 (0,50;2,08)   0,86 (0,42;1,78)      
Renda familiar   < 0,001       < 0,001   0,016
  Maior que R$ 4.500,00 1       1   1  
  R$ 4.500,00 -R$ 1.501,00 2,17 (1,04;4,52)       2,12 (1,03;4,35)   1,53 (0,80;2,97)  
  R$ 1.500,00 -R$ 501,00 3,63 (1,69;7,80)       3,52 (1,67;7,40)   1,83 (0,93;3,62)  
  Até R$ 500,00 4,74 (2,20;10,17)       4,50 (2,14;9,49)   1,99 (1,01;3,93)  
Anos de estudo   < 0,001           < 0,001
  12 ou mais 1           1  
  9 a 11 2,20 (1,40;3,45)           2,00 (1,25;3,20)  
  5 a 8 3,40 (2,33;4,95)           3,17 (2,12;4,73)  
  4 ou menos 5,23 (3,66; 7,47)           4,71 (3,17;7,00)  

Modelo 1: Sexo e cor da pele; Modelo 2: Renda familiar ajustada pelo sexo e cor da pele; Modelo 3: Anos de estudo ajustados pela renda e sexo (cor da pele saiu do modelo – p > 0,20)

Tabela 5 . Regressão de Poisson multivariável da associação de edentulismo em idosos (65 a 74 anos) e variáveis sociodemográficas. SBBrasil 2010. 

Variável   Ajustada
Bruta Modelo 1 Modelo 2

RP (IC95%) p RP (IC95%) p RP (IC95%) p

Sexo   0,041   0,067    
  Masculino 1   1      
  Feminino 1,13 (1,00;1,27)   1,10 (0,97;1,25)      
Cor da pele   0,273        
  Branca 1          
  Parda 1,03 (0,90;1,18)          
  Preta 1,06 (0,88;1,29)          
  Amarela 1,17 (0,88;1,55)          
  Indígena 1,38 (0,91;2,08)          
Renda familiar   < 0,001   < 0,001   0,036
  Maior que R$ 4.500,00 1   1   1  
  R$ 4.500,00-R$ 1.501,00 4,86 (2,72;8,68)   4,76 (2,66;8,52)   3,66 (1,99;6,76)  
  R$ 1.500,00-R$ 501,00 5,60 (3,13;10,02)   5,50 (3,07;9,85)   3,90 (2,09;7,27)  
  Até R$ 500,00 5,67 (3,10;10,39)   5,60 (3,06;10,24)   3,92 (2,05;7,51)  
Anos de estudo   < 0,001       < 0,001
  12 ou mais 1       1  
  9 a 11 1,70 (0,99;2,91)       1,35 (0,79;2,29)  
  5 a 8 2,48 (1,53;4,02)       1,85 (1,15;2,98)  
  4 ou menos 2,73 (1,65;4,50)       2,02 (1,24;3,29)  

DISCUSSÃO

Registram-se marcante redução nas perdas dentárias em adolescentes e adultos e estabilidade do edentulismo em idosos, quando são comparados os estudos conduzidos pelo Ministério da Saúde em 2010 com os de 2003 para o País como um todo. Este é o primeiro estudo de abrangência nacional que revela a redução das perdas dentárias em adultos. Em adolescentes, a média de dentes perdidos reduziu-se em mais da metade, de 0,96 para 0,40; a prevalência de pelo menos um dente perdido reduziu de 38,9% para 17,4% e a proporção de jovens de 18 anos de idade sem qualquer perda superou 80%, valor próximo dos 85% propostos como meta para o ano 2000 pela OMS. 12 A média de dentes perdidos em adultos diminuiu de 13,5 para 7,4. O edentulismo entre idosos permaneceu próximo de 54% nos dois estudos. b , c

Apesar desses avanços, há persistentes desigualdades regionais e entre os grupos sociais. Entre adolescentes, a magnitude da associação das perdas para o sexo feminino em relação ao masculino e entre os grupos de menor renda comparados aos de maior renda aumentaram no período 2003 para 2010 (razão de prevalência de 1,15 para 1,59 e de 1,37 para 3,62, respectivamente). Para adultos, o comportamento foi similar, sugerindo que a redução das perdas tem sido acompanhada de aumento da desigualdade. Antunes et al 2 identificaram padrão semelhante para a cárie dentária em escolares do estado de São Paulo utilizando o índice de Gini como medida da desigualdade. Peres et al 22 , 23 identificaram desigualdade na distribuição da fluoretação de águas nos municípios de Santa Catarina e do Brasil apontando a “lei da equidade inversa” 28 como uma hipótese explicativa para esses achados. Segundo essa “lei”, populações de melhores condições sociais, vivendo em municípios de regiões mais afluentes, tendem a se beneficiar primeiro de programa e ações preventivas e assistenciais de saúde, inclusive aquelas conduzidas quase exclusivamente pelo Estado, como o programa nacional de imunização e a fluoretação de águas.

A redução das perdas em adolescentes e adultos observada na última década indica, possivelmente, uma combinação de efeito de coorte, da melhoria das condições socioeconômicas, em especial da educação, 16 e do sistema de saúde como a exposição à fluoretação de águas e massificação do uso de dentifrícios fluoretados. Essas duas medidas atingiram grande cobertura populacional nas décadas de 1980 e 1990 e explicam, em grande parte, a redução na prevalência e extensão da cárie dentária no Brasil, a principal causa de perda dentária. Durante os anos 1980 e 1990, adolescentes e adultos examinados em 2010 foram expostos a essas medidas; os idosos investigados em 2010 não se beneficiaram de seus efeitos durante a infância e adolescência. Espera-se, como efeito de coorte, que uma redução do edentulismo em idosos de 65-74 anos seja somente reconhecida nos estudos epidemiológicos da década de 2050.

Entre os idosos acima de 65 anos, o Brasil ainda apresenta prevalência de edentulismo dentre as mais altas do mundo, sendo superada apenas pela Turquia com 67% (2007) e por Portugal com 70% (2000). No outro extremo, EUA com 24% (1999-2002), Austrália, 20% (2004-6), Noruega (2008) e França (2000), ambas com 16%, apresentam as menores prevalências de perdas, considerando-se apenas estudos de abrangência nacional realizados a partir do ano 2000. 5

As desigualdades regionais das perdas dentárias são marcantes, principalmente entre jovens e adultos. De maneira geral, residentes nas capitais e interiores das regiões Norte e Nordeste apresentam maiores perdas do que os residentes nas regiões Sul e Sudeste. Esse quadro reflete a diferença da cobertura de reconhecidas medidas preventivas de perdas dentárias de caráter populacional, como a fluoretação de águas, concentrada nas regiões Sul e Sudeste do País. 22 Além disso, o uso e acesso aos serviços de saúde bucal são menores nas regiões mais pobres. Segundo dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2009, a prevalência da falta de acesso ao serviço odontológico (precisou, mas não conseguiu atendimento) variou bastante entre as capitais. Em Manaus, Macapá, Belém e Rio Branco aproximadamente uma em cada quatro pessoas não conseguiu atendimento quando necessitou. Esse valor é cerca de cinco vezes superior ao relatado pelos residentes de Curitiba. 24 Dados do SBBrasil 2010 revelaram que mais de 80% da população em todas as faixas etárias passou por consulta com dentista com predomínio de utilização de serviços particulares nas regiões Sudeste e Sul entre adultos e idosos. c

Características sociais, econômicas e demográficas individuais são associadas às perdas dentárias de maneira consistente. A maior prevalência de perdas no sexo feminino, tanto em adolescentes como em adultos, já foi observada nos estudos anteriores à década de 2000. Porém, os resultados de 2010 apresentam maiores magnitudes da razão das perdas entre sexos, indicando aumento da desigualdade entre homens e mulheres. Esse achado, apesar de consistente com outras investigações, 3 , 4 , 21 não é facilmente interpretável. Maior utilização de serviços odontológicos pelas mulheres pode, a depender do tipo de prática profissional, resultar em sobretratamento. Modalidades de serviços odontológicos baseadas no pagamento por procedimentos odontológicos realizados, normalmente invasivos, podem resultar em perdas de tecido dentário a cada consulta, o que, de maneira acumulada, pode acelerar as perdas. 10 Dados do Vigitel 2009 indicam que mais de 60% da população de capitais realizou consulta odontológica em consultórios particulares cuja forma de remuneração favorece a intervenção. 24 Estudo de Caldas Jr et al 8 reforça essa hipótese, ao mostrar forte associação entre número de dentes extraídos em decorrência da cárie e a frequência com que foram restaurados. Como ainda existem restrições no acesso e uso de serviços odontológicos especializados no âmbito do Sistema Único de Saúde, em especial para a realização de tratamentos endodônticos, muito provavelmente a extração é o tratamento inevitável quando a cárie encontra-se em estágio avançado de destruição tecidual, mormente para os grupos de menor renda.

Renda e escolaridade, mas não cor da pele, apresentaram-se associadas às perdas dentárias em adolescentes, adultos e idosos, após o ajuste por variáveis socioeconômicas e demográficas. Existe um gradiente social das perdas dentárias: quanto menor renda e escolaridade, maiores as perdas dentárias. Indivíduos mais pobres e menos escolarizados residem em localidades com menores coberturas de fluoretação de águas 22 e de serviços odontológicos, 13 consomem mais açúcar 17 e escovam menos frequentemente seus dentes. 1 Todos esses fatores contribuem para aumento da prevalência e extensão da cárie dentária e, consequentemente, das perdas dela resultantes. Neste estudo, cor da pele perdeu associação com perdas dentárias após o ajuste por variáveis sociais e econômicas, indicando, nesse caso, o maior peso das condições sociais e econômicas do que das raciais.

Este estudo é originário do terceiro levantamento epidemiológico sobre condições de saúde bucal realizado com adolescentes, adultos e idosos no Brasil. O primeiro, em 1986, foi realizado em 16 capitais e o grupo de idosos foi representado por indivíduos entre 50 e 59 anos de idade. b O segundo ocorreu em 2003 em 250 municípios de todas as unidades da federação. b O estudo de 2010 apresentou metodologia aprimorada em relação aos anteriores, considerou 32 domínios (26 capitais, Distrito Federal e cinco interiores de regiões) e o banco de dados disponibilizou os pesos amostrais de forma a contornar limitações dos estudos anteriores. 22 Como diferentes metodologias foram adotadas nesses três estudos, recomenda-se cautela na interpretação das comparações dos resultados. Entretanto, as diferenças nas perdas dentárias entre os dois últimos estudos (2003 e 2010) são expressivas; portanto, é pouco provável que apenas reflitam diferenças de procedimentos metodológicos.

Observa-se uma importante redução nas perdas dentárias em adolescentes e em adultos quando comparada à primeira década de 2000. Em idosos, o quadro de cerca de metade dos indivíduos edêntula permanece. Apesar dos avanços obtidos, persistem as desigualdades sociais e regionais, sugerindo que, ao lado de medidas universais, populações mais vulneráveis devam receber cuidados prioritários ( proportionate universalism ).

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bMinistério da Saúde (BR). Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Projeto SB Brasil 2003: condições de saúde bucal da população brasileira 2002-2003. Resultados principais. Brasília (DF); 2004.

cMinistério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Nacional de Saúde Bucal. SB2010. Pesquisa Nacional de Saúde Bucal. Resultados principais. Brasília (DF); 2011.

A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal – SBBrasil 2010 foi financiada pela Coordenação de Saúde Bucal do Ministério da Saúde (COSAB/MS), por meio do Centro Colaborador do Ministério da Saúde em Vigilância da Saúde Bucal, Faculdade de Saúde Pública da USP (CECOL/USP), processo nº 750398/2010.

Artigo submetido ao processo de julgamento por pares adotado para qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, com anonimato garantido entre autores e revisores.

Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudesse afetar o processo de julgamento do artigo.

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

Artigo disponível em português e inglês em: www.scielo.br/rsp

Recebido: 25 de Fevereiro de 2012; Aceito: 12 de Novembro de 2012

Correspondência | Correspondence: Marco A Peres - Australian Research Centre for Population Oral Health (ARCPOH) -  School of Dentistry - The University of Adelaide - 122 Frome Street - Adelaide SA 5000 - Australia -Email: marco.peres@adelaide.edu.au

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