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Revista de Saúde Pública

On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.51  supl.2 São Paulo  2017  Epub Nov 13, 2017

http://dx.doi.org/10.11606/s1518-8787.2017051007144 

Artigos Originais

Utilização de medicamento pelos usuários da atenção primária do Sistema Único de Saúde

Clarisse Melo Franco Neves CostaI 

Micheline Rosa SilveiraII 

Francisco de Assis AcurcioII 

Augusto Afonso Guerra JuniorII 

Ione Aquemi GuibuIII 

Karen Sarmento CostaIV  V  VI 

Margô Gomes de Oliveira KarnikowskiVII 

Orlando Mario SoeiroVIII 

Silvana Nair LeiteIX 

Ediná Alves CostaX 

Renata Cristina Rezende Macedo do NascimentoI 

Vânia Eloísa de AraújoXI 

Juliana ÁlvaresII 

IPrograma de Pós-Graduação em Medicamentos e Assistência Farmacêutica. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil

II Departamento de Farmácia Social. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil

III Faculdade de Ciências Médicas. Santa Casa de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

IVNúcleo de Estudos de Políticas Públicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

V Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Departamento de Saúde Coletiva. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil

VIPrograma de Pós-Graduação em Epidemiologia. Faculdade de Medicina. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil

VIIFaculdade de Ceilândia. Universidade de Brasília. Brasília, DF, Brasil

VIIIFaculdade de Ciências Farmacêuticas. Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, SP, Brasil

IXDepartamento de Ciências Farmacêuticas. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

XInstituto de Saúde Coletiva. Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil

XIInstituto de Ciências Biológicas da Saúde. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil

RESUMO

OBJETIVO

Caracterizar o perfil de utilização de medicamentos pelos usuários da Atenção Primária do Sistema Único de Saúde no Brasil.

MÉTODOS

Estudo transversal, exploratório, de natureza descritiva, integrante da Pesquisa Nacional Sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. Foram realizadas entrevistas com usuários presentes nos serviços por meio de questionários semiestruturados. Foram avaliadas as variáveis sociodemográficas, clínicas e relacionadas ao uso de medicamentos e verificado o uso de medicamentos nos 30 dias anteriores à entrevista. A população foi estratificada em três faixas etárias: 18 a 44, 45 a 64 e 65 anos ou mais. As diferenças entre as faixas etárias foram verificadas por meio do teste t de Student para variáveis contínuas e teste qui-quadrado para categóricas. Utilizou-se o plano de análises de amostras complexas. Os medicamentos foram classificados conforme Anatomical Therapeutical Chemical Classification System.

RESULTADOS

De 8.803 usuários entrevistados, 6.511 (76,2%) relataram uso de medicamentos nos 30 dias anteriores à entrevista. Em média, cada usuário utilizou 2,32 medicamentos, sem diferença entre os sexos. Dentre os usuários de medicamentos, 18,2% tinham 65 anos de idade ou mais. Em comparação com as demais faixas etárias os idosos apresentaram mais comorbidades, usaram mais medicamentos e autorrelataram pior condição de saúde; eram menos escolarizados, relataram pior situação econômica e viviam sozinhos. Os medicamentos mais utilizados foram “outros analgésicos e antipiréticos” (3º nível ATC) e losartana (5º nível ATC).

CONCLUSÕES

A maioria dos usuários de medicamentos possuía baixa escolaridade e comorbidades. Os medicamentos mais utilizados foram os anti-hipertensivos. A automedicação foi maior entre os jovens. A maioria dos usuários relatou utilização de medicamentos genéricos. O número médio de medicamentos e a prevalência de uso aumentaram com a idade. Devido às características observadas e as dificuldades no uso de medicamentos, os idosos estão em situação de maior vulnerabilidade.

Palavras-Chave: Uso de Medicamentos; Farmacoepidemiologia; Assistência Farmacêutica; Atenção Primária à Saúde; Pesquisa sobre Serviços de Saúde; Sistema Único de Saúde

INTRODUÇÃO

Os medicamentos têm assumido um papel importante na redução do sofrimento humano. Produzem curas, prolongando a vida e retardando o surgimento de complicações associadas às doenças, facilitando o convívio entre o indivíduo e sua enfermidade. Ademais, os medicamentos são considerados tecnologias altamente custo-efetivas e seu uso apropriado pode influenciar o processo de cuidado em saúde20.

A utilização de medicamentos é influenciada pela estrutura demográfica, fatores socioeconômicos, comportamentais e culturais, perfil de morbidade, características do mercado farmacêutico e pelas políticas governamentais dirigidas ao setor16. A grande oferta de produtos, o marketing da indústria farmacêutica e o número de medicamentos prescritos são fatores que podem comprometer a qualidade do uso de medicamentos18.

O aumento da prevalência de doenças crônicas no país, especialmente a hipertensão arterial, diabetes, artrite/artrose e depressão é resultado do rápido e crescente processo de envelhecimento da população brasileira nos últimos anos. Paralelamente a esse processo, há o crescimento da utilização de medicamentos, necessários para o controle e prevenção de problemas relacionados à saúde dos indivíduos19.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mais de 50% dos medicamentos são prescritos ou dispensados de forma inadequada em todo o mundo e cerca de 50% dos pacientes usam medicamentos incorretamente, levando a alto índice de morbimortalidade. Acrescenta-se que o uso inadequado de medicamentos se relaciona ao uso de múltiplos fármacos, ao uso inapropriado de antibióticos e de medicamentos injetáveis, à automedicação e à prescrição em desacordo com diretrizes clínicasa.

A Atenção Primária em Saúde (APS) como parte e como coordenadora de uma rede de atenção à saúde deve estar preparada para solucionar a quase totalidade dos problemas mais frequentes que se apresentam no âmbito dos cuidados primários. A integralidade significa a prestação, pela equipe de saúde, de um conjunto de serviços que atendam às necessidades da população adstrita nos campos da promoção, da prevenção, da cura, do cuidado e da reabilitação. O acesso a medicamentos de qualidade e a promoção do seu uso correto e oportuno contribuem para uma APS resolutiva14.

A importância dos medicamentos na atenção à saúde é crescente, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista sanitário. A ampliação do acesso da população à assistência à saúde, pelo SUS, exigiu que ao longo dos últimos anos houvesse mudanças na organização da Assistência Farmacêutica (AF) pública, de modo que se aumentasse a cobertura da distribuição gratuita de medicamentos, além da construção de um arcabouço legal para sustentar o processo de descentralização da gestão das ações de AF15.

A partir da análise do consumo de medicamentos e da AF, é possível qualificar o uso de medicamentos, melhorando as condições de saúde individual e coletiva, bem como implantar ações preventivas ou curativas9.

A Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Uso Racional de Medicamentos (PNAUM) – Serviços visou caracterizar a organização dos serviços de AF na APS do SUS, com vistas ao acesso e à promoção do uso racional de medicamentos, bem como identificar e discutir os fatores que interferem na sua consolidação no âmbito municipal. Neste contexto, objetivou-se com o presente estudo caracterizar o perfil de utilização de medicamentos pelos usuários da APS do SUS.

MÉTODOS

A PNAUM é um estudo transversal, exploratório, de natureza avaliativa, composto por um levantamento de informações numa amostra representativa de serviços de APS, em municípios das regiões do Brasil. Foram realizadas entrevistas presenciais com usuários, médicos e responsáveis pela entrega dos medicamentos nos serviços de APS do SUS. O estudo foi composto de várias populações, com amostras estratificadas por região. Adotou-se a amostragem em múltiplos estágios de seleção e, em cada estágio, as populações foram amostradas e as estimativas referentes a elas foram feitas de forma independente. Foram sorteadas três amostras: de municípios, de serviços e de usuários. Na primeira, os municípios constituíram-se elementos da amostra. Na segunda, esses municípios passaram a ser unidades primárias de amostragem, nas quais foram sorteados os serviços que compuseram a amostra. Na terceira, os serviços tornaram-se unidades secundárias de amostragem, nas quais foram sorteados os usuários, que constituem o foco deste trabalho. A metodologia da PNAUM – Serviços, bem como o processo amostral estão descritos detalhadamente em Alvares et al (2016)1.

Para a caracterização do perfil de utilização de medicamentos foram utilizados os dados das entrevistas realizadas com usuários presentes nos serviços de APS. Foi verificado o uso de medicamentos nos 30 dias anteriores à entrevista. Foram avaliadas as variáveis sociodemográficas, clínicas e relacionadas ao uso de medicamentos (uso de medicamentos genéricos, automedicação, necessidade de ajuda para utilizar os medicamentos, medicamentos mais utilizados e uso de farmácia popular).

Os medicamentos foram classificados em categorias terapêuticas, conforme seu princípio ativo, de acordo com o Anatomical Therapeutic Chemical Classification System (ATC). Nesse sistema, a substância é classificada, de acordo com o órgão ou sistema no qual atua e conforme suas propriedades químicas, farmacológicas e terapêuticas. Os fármacos são divididos em 14 grupos principais (1º nível), com subgrupos farmacológicos/terapêuticos (2º nível). Os 3º e 4º níveis correspondem a subgrupos químicos/farmacológicos/terapêuticos, e o 5º nível, à substância química26.

Foram classificados como anti-hipertensivos os medicamentos das classes: anti-hipertensivos (C02), diuréticos (C03), agentes betabloqueadores (C07), bloqueadores dos canais de cálcio (C08) e agentes que atuam no sistema renina-angiotensina (C09). Como antidiabéticos utilizaram-se drogas usadas na diabetes (A10) e como antidepressivos os psicolépticos (N05) e psicoanalépticos (N06). Consideraram-se medicamentos para dislipidemia os agentes modificadores de lipídeos (C10) e as preparações antiobesidade, excluindo produtos dietéticos (A08). Como não há protocolo específico para artrite, artrose e reumatismo, para essas doenças foram considerados os medicamentos corticosteróides para uso sistêmico simples (A07E), produtos anti-inflamatórios não esteroidais e antirreumáticos (C01E), corticosteroides simples (D07A), corticosteroides para uso sistêmico simples (H02A), imunossupressores (L04A), produtos anti-inflamatórios não esteroidais e antirreumáticos (M01A), outros analgésicos e antipiréticos (N02B) e antimaláricos (P01B).

Foi avaliada também, a relação entre o relato de diagnóstico médico das doenças mais prevalentes e o uso de medicamentos indicados para o tratamento dessas doenças. A população foi estratificada em três faixas etárias: de 18 a 44 anos; de 45 a 64 e 65 anos ou mais. As diferenças entre essas faixas foram verificadas por meio do teste t de Student, para variáveis contínuas e teste qui-quadrado de Pearson, para variáveis categóricas.

A análise dos dados foi realizada utilizando-se o plano de análises de amostras complexas, no software SPSS® versão 22.

A PNAUM foi aprovada pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde, mediante Parecer nº 398.131/2013. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

RESULTADOS

Foram entrevistados 8.803 pacientes em 1.305 serviços de APS, localizados em 272 municípios distribuídos nas cinco regiões do Brasil. Destes, 6.511 pacientes (76,2%) relataram ter utilizado algum medicamento nos 30 dias anteriores à entrevista.

O número médio de medicamentos utilizados foi de 2,32 (IC95%: 2,186–2,554) por usuário. A média para cada faixa etária variou significantemente, sendo de 1,75 (IC95%: 1,65–1,85) para a faixa etária de 18 a 44 anos, 2,63 (IC95%: 2,45–2,81) para a de 45 a 64 anos e 3,00 (IC95%: 2,74–3,25) para idosos (65 anos ou mais). A prevalência do uso de medicamentos aumentou de acordo com a faixa etária, sendo de 92,1% em pessoas com idade igual ou superior a 65 anos.

Houve predominância do sexo feminino na população usuária de medicamentos, mas a proporção de homens aumentou com o aumento da idade, sendo de 36,1% na faixa etária de 65 anos ou mais. Não foram observadas diferenças no uso de medicamentos entre os sexos. A maioria dos usuários de medicamentos possuía ensino fundamental incompleto (43,2%) e apenas 3% declararam ter ensino superior completo. Observou-se entre os idosos os menores níveis de escolaridade, com proporção de 26,5% de analfabetos. A maioria dos entrevistados usuários de medicamentos declarou estado civil casado. Entre os idosos, 33,5% eram viúvos ou divorciados, com diferenças estatisticamente significantes em comparação com as outras faixas etárias. Com relação à classificação econômica, a maioria era da classe econômica C, e entre os idosos D ou E (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas e de condições de saúde dos usuários da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. 

Variável Faixa etária (anos) p

18 a 44 45 a 64 65 ou mais
n = 2871 n = 2499 n = 1087



n* % (IC95%) n* % (IC95%) n* % (IC95%)
Sexo < 0,001
Feminino 2369 82,1 (79,8–84,2) 1890 75,8 (73,3–78,1) 719 63,9 (60,3–67,3)
Masculino 502 17,9 (15,8–20,2) 609 24,2 (21,9–26,7) 368 36,1 (32,7–39,7)
Estado civil < 0,001
Casado/união estável 1813 65,7 (63,1–68,3) 1596 68,2 (65,4–70,8) 590 59,6 (55,1–63,9)
Solteiro 950 30,2 (28,0–32,6) 400 12,5 (10,8–14,3) 89 7,0 (5,3–9,0)
Outros 108 4,0 (3,2–5,1) 503 19,3 (17,1–21,8) 408 33,5 (29,6–37,6)
Escolaridade < 0,001
Analfabeto 71 3,2 (2,2–4,6) 293 12,9 (10,1–16,6) 278 26,5 (19,9–34,2)
Fundamental incompleto 710 28,8 (26,0–31,8) 1186 50,9 (46,7–55,0) 598 59,6 (50,8–67,8)
Fundamental completo 731 24,3 (21,5–27,2) 467 17,9 (15,6–20,6) 110 8,6 (5,5–13,2)
Ensino médio 1237 39,3 (36,5–42,1) 474 16,1 (14,0–18,4) 81 3,8 (2,5–5,8)
Ensino superior 122 4,4 (3,4–5,8) 79 2,3 (1,6–3,2) 20 1,5 (0,8–2,8)
Classe econômica < 0,001
A ou B 556 18,9 (15,9–22,2) 397 14,5 (12,1–17,4) 105 7,9 (5,8–10,5)
C 1803 59,1 (56,2–61,9) 1417 53,7 (49,7–57,6) 545 45,9 (40,5–51,4)
D ou E 509 22,1 (18,3–26,4) 684 31,8 (26,5–37,6) 437 46,2 (39,6–52,9)
Número de doenças crônicas < 0,001
Nenhuma 1309 43,6 (40,4–46,9) 213 7,9 (6,7–9,4) 34 3,1 (2,0–4,9)
Uma 836 30,6 (28,1–33,2) 589 26,2 (23,1–29,5) 227 21,6 (18,2–25,3)
Duas ou mais 646 25,8 (22,9–28,9) 1546 65,9 (62,1–69,4) 775 75,3 (71,0–79,2)
Principais doenças crônicas
Hipertensão 551 22,0 (19,4–24,9) 1513 62,3 (58,9–65,5) 872 81,7 (77,7–85,2) < 0,001
Dislipidemia 329 11,0 (9,5–12,8) 966 39,8 (36,6–43,1) 443 40,9 (36,9–45,1)
Artrite, artrose ou reumatismo 234 8,2 (6,7–10,1) 800 32,4 (28,7–36,3) 457 40,6 (35,4–46,2)
Depressão 456 19,0 (16,7–21,4) 665 26,7 (22,8–31,0) 216 19,9 (15,5–25,2)
Diabetes mellitus 129 4,1 (3,1–5,4) 618 24,8 (22,3–27,6) 329 31,3 (27,2–35,8)
Doença pulmonar crônica 325 11,5 (9,8–13,6) 282 9,9 (8,2–11,8) 120 10,0 (7,4–13,4) 0,321
Doenças do coração 103 3,6 (2,7–4,8) 269 11,1 (8,9–13,8) 224 20,8 (16,6–25,8) < 0,001
Acidente Vascular Cerebral 26 1,0 (0,6–1,6) 100 3,8 (2,8–5,2) 74 6,5 (4,5–9,4)
Regiões < 0,001
Norte 608 6,8 (5,2–8,7) 344 4,1 (3,0–5,7) 126 3,0 (2,0–4,6)
Nordeste 552 31,9 (24,4–40,5) 443 25,7 (18,4–34,7) 207 28,8 (19,6–40,2)
Centro-Oeste 500 6,3 (4,4–8,9) 408 5,0 (3,4–7,3) 180 4,8 (3,1–7,4)
Sudeste 564 29,4 (22,8–37,0) 597 36,4 (27,9–45,9) 249 36,9 (25,0–50,8)
Sul 647 25,7 (19,3–33,3) 707 28,8 (21,4–37,6) 325 26,4 (17,9–37,3)

Fonte: PNAUM – Serviços, 2015.

* Valor de n não ponderado

A maioria dos usuários de medicamentos relatou possuir uma ou mais doenças crônicas (77,6%), com diferença significante entre as faixas etárias (p < 0,001), sendo que entre os idosos a prevalência foi de 96,9%. Entre as principais doenças crônicas relatadas, a hipertensão arterial foi a mais prevalente (48,9%). Hipertensão, dislipidemia, artrite/artrose ou reumatismo, diabetes mellitus, doenças do coração e acidente vascular cerebral foram mais prevalentes entre os idosos e a diferença foi significante entre as faixas etárias (p < 0,001).

Com relação à necessidade de ajuda de outra pessoa para usar os medicamentos, foram observadas maiores proporções entre os idosos, sendo que 10% sempre precisam e 4,4% às vezes.

A automedicação foi maior entre os usuários mais jovens (45,7%) com diferença significante (p < 0,001) por faixa etária. Dentre os motivos para a automedicação, os mais relatados foram “uso anterior do medicamento” e “possuí-lo em casa”.

Quando foi investigada a não utilização de medicamentos receitados pelo médico, maiores proporções foram observadas em usuários na faixa etária de 18–44 anos (16,7%). Dentre os motivos para essa não utilização, destacam-se a experiência negativa anterior com o uso do mesmo produto (50,7%), acreditar que está curado (49,3%) e considerar que não precisa utilizar o medicamento (46,1%). Para a faixa etária de 65 anos ou mais, os principais motivos de não utilização do medicamento foram acreditar que o medicamento não está correto ou não funciona (49,4%) e experiência anterior negativa (ter utilizado o medicamento e passado mal) (49,2%).

Mais da metade (57,8%) dos usuários relatou utilizar medicamentos genéricos, mas não houve diferença significante entre as faixas etárias (Tabela 2). Com relação à Farmácia Popular, a utilização foi maior na faixa etária de 65 anos ou mais (67,8%), seguida por 45–64 anos (63,8%) e 18–44 anos (49,0%).

Tabela 2 Características do uso de medicamentos pelos usuários da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. 

Variável Faixa etária (anos) p

18 a 44 45 a 64 65 ou mais
n = 2.871 n = 2.499 n = 1.087



n* % (IC95%) n* % (IC95%) n* % (IC95%)
Utiliza medicamento genérico? 0,375
Sim 1.606 55,8 (49,1–62,3) 1.518 58,1 (50,9–65,0) 714 62,0 (49,9–72,8)
Não 891 30,3 (23,9–37,5) 652 29,6 (22,3–38,2) 240 27,2 (16,2–41,9)
Não sabe 373 13,9 (10,3–18,5) 329 12,2 (9,3–16,0) 133 10,8 (7,5–15,2)
Precisa de ajuda para usar os medicamentos? < 0,001
Sempre 90 4,2 (2,7–6,6) 94 4,7 (3,2–6,7) 94 10,0 (7,4–13,5)
Às vezes 59 2,1 (1,4–3,2) 86 3,6 (2,5–5,1) 50 4,4 (3,0–6,6)
Não 2.721 93,6 (91,2–95,4) 2.318 91,8 (88,9–94,0) 943 85,5 (81,5–88,8)
Utiliza medicamentos sem receita (sim) 1.392 45,7 (41,6–49,8) 930 36,5 (32,1–41,1) 283 27,8 (22,9–33,3) < 0,001
Situações em que utiliza medicamentos sem receita
Usou anteriormente 1.250 88,3 (84,2–91,5) 781 83,3 (76,8–88,3) 236 85,9 (79,1–90,8) 0,193
Quando tem o medicamento em casa 1.150 82,4 (73,7–88,7) 741 81,7 (72,1–88,5) 208 77,0 (62,4–87,1) 0,242
Indicação na farmácia 1.037 71,4 (66,8–75,7) 577 60,8 (53,7–67,5) 156 51,8 (44,8–58,8) < 0,001
Conhece alguém que já usou 831 56,9 (51,2–62,4) 473 48,9 (42,5–55,5) 136 42,8 (34,9–51,0) 0,002
Quando consegue o medicamento de maneira fácil 763 55,4 (47,7–62,9) 434 46,6 (38,6–54,8) 129 46,1 (33,8–58,9) 0,032
Leu a bula ou outra informação 685 47,1 (42,3–52,0) 326 34,5 (28,7–40,7) 58 18,1 (12,5–25,4) < 0,001
Deixa de utilizar medicamento receitado pelo médico (sim) 539 16,7 (14,3–19,4) 389 14,1 (11,6–17,0) 110 9,1 (6,2–13,1) 0,001
Casos em que deixa de utilizar o medicamento prescrito
Usou antes e passou mal 326 50,7 (42,1–59,2) 224 47,9 (38,1–57,9) 62 49,2 (34,7–63,9) 0,741
Considera que não é o certo ou não funciona 284 46,2 (38,2–54,4) 201 45,5 (36,7–54,6) 57 49,4 (37,7–61,2) 0,844
Acha que é muito forte ou fraco 276 44,3 (38,0–50,8) 164 39,0 (30,4–48,3) 40 32,0 (22,4–43,4) 0,396
Acredita estar curado 282 49,3 (42,4–56,3) 152 40,2 (32,5–48,4) 39 34,9 (25,5–45,6) 0,046
Avalia que não precisa 267 46,1 (39,4–53,1) 160 40,7 (32,9–48,9) 39 32,4 (21,0–46,3) 0,043
Quando lê alguma coisa que considere ruim na bula 175 26,4 (20,9–32,7) 96 21,4 (16,2–27,7) 17 9,2 (4,2–19,1) 0,002
Usa o programa Farmácia Popular (sim) 891 49,0 (42,2–55,8) 1.202 63,8 (58,9–68,4) 561 67,8 (59,4–75,1) < 0,001

Fonte: PNAUM – Serviços, 2015.

* Valor de n não ponderado

Dos 15.061 medicamentos relatados pelos usuários, foi possível identificar adequadamente 13.515 itens, que foram classificados considerando o 5° nível da ATC. Dentre os produtos autorreferidos, 1.546 (9,3%) foram descritos de forma inadequada, tais como “não lembro o nome”, “maleato”, “bactéria do câncer”, “ácido sulfúrico”.

Na Tabela 3 estão apresentados os grupos de medicamentos mais utilizados, considerando-se o 3º nível da ATC. Do total de medicamentos, 1.249 (8,1%) foram classificados como “outros analgésicos e antipiréticos”, 819 (5,6%) eram “medicamentos hipoglicemiantes, excluindo insulinas”, e 765 (5,5%) produtos anti-inflamatórios não esteroidais e antirreumáticos.

Tabela 3 Medicamentos mais utilizados pelos usuários da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde considerando-se o 3°nível da Anatomical Therapeutic Chemical. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. 

Subgrupo farmacológico (ATC nível 3) Código ATC n* %(IC95%)
Outros analgésicos e antipiréticos N02B 1.249 8,1 (6,8–9,7)
Medicamentos hipoglicemiantes, excluindo insulinas A10B 819 5,6 (5,1–6,3)
Produtos anti-inflamatórios não esteroidais e antirreumáticos M01A 765 5,5 (4,9–6,3)
Inibidores da enzima conversora de angiotensina C09A 824 5,2 (4,5–6,1)
Antagonistas da angiotensina II C09C 756 4,9(3,9–6,2)
Antidepressivos N06A 645 4,8 (4,3–5,5)
Hipolipemiantes C10A 658 4,7 (4,1–5,3)
Medicamentos para úlcera péptica e doença do refluxo gastroesofágico A02B 640 4,4 (3,9–4,9)
Agentes beta bloqueadores C07A 615 4,2 (3,6–5,0)
Diuréticos de baixa potência C03A 619 3,8 (3,2–4,6)
Antiepilépticos N03A 427 3,0 (2,6–3,5)
Inibidores da enzima conversora de angiotensina, associações C09B 321 2,5 (1,9–3,3)
Relaxantes musculares de ação central M03B 378 2,5 (2,0–3,0)
Contraceptivos hormonais para uso sistêmico G03A 338 2,2 (1,7–2,9)
Agentes Antitrombóticos B01A 262 1,9 (1,5–2,3)
Preparações para tireoide H03A 256 1,8 (1,5–2,2)
Ansiolíticos N05B 224 1,8 (1,4–2,3)
Preparações com ferro B03A 337 1,8 (1,4–2,1)
Bloqueador seletivo de canal de cálcio C08C 223 1,3 (1,0–1,7)
Antibacterianos betalactâmicos, penicilinas J01C 215 1,3 (1,1–1,6)

Fonte: PNAUM – Serviços, 2015.

* Valor de n não ponderado

Em relação à classificação no 5º nível da ATC, os medicamentos mais utilizados foram: losartana (4,8%), sinvastatina (4,1%), omeprazol (3,9%), hidroclorotiazida (3,4%) e metformina (3,2%) (Tabela 4).

Tabela 4 Medicamentos mais utilizados pelos usuários da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde considerando-se o 5º nível da Anatomical Therapeutic Chemical. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. 

Nome do medicamento Código ATC na %(IC95%)
Não sabe NAb 1.544 9,3 (7,6–11,3)
Losartana C09CA01 739 4,8 (3,8–6,1)
Sinvastatina C10AA01 576 4,1 (3,5–4,7)
Omeprazol A02BC01 556 3,9 (3,5–4,4)
Hidroclorotiazida C03AA03 552 3,4 (2,8–4,3)
Metformina A10BA02 494 3,2 (2,7–3,8)
Captopril C09AA01 424 2,8 (2,2–3,6)
Paracetamol N02BE01 439 2,8 (2,3–3,3)
Dipirona N02BB02 378 2,4 (1,7–3,3)
Captopril+diurético C09BA01 309 2,4 (1,8–3,2)
Enalapril C09AA02 391 2,3 (1,9–2,8)
Atenolol C07AB03 321 2,1 (1,7–2,8)
Ibuprofeno M01AE01 284 2,0 (1,5–2,8)
Fluoxetina N06AB03 244 1,9 (1,5–2,4)
Levotiroxina H03AA01 256 1,8 (1,5–2,2)
Clonazepam N03AE01 217 1,7 (1,4–2,1)
Sulfato ferroso B03AA07 321 1,7 (1,4–2,1)
Diclofenaco M01AB05 229 1,7 (1,4–2,0)
Glibenclamida A10BB01 206 1,5 (1,2–1,9)
Ácido acetilsalicílico N02BA01 246 1,4 (1,0–2,0)
Ácido acetilsalicílico (agente antitrombótico) B01AC06 198 1,4 (1,0–1,9)

Fonte: PNAUM – Serviços, 2015.

a Valor de n não ponderado; b Não se aplica

Dentre os entrevistados que relataram possuir doenças crônicas, 77,7% dos hipertensos e 62,1% dos diabéticos usavam medicamentos específicos para a doença referida. Entre os portadores de dislipidemia, artrite, artrose ou reumatismo e depressão, a maioria não relatou o uso de medicamentos específicos para essas doenças (Tabela 5).

Tabela 5 Porcentagem de usuários da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde que relataram possuir a doença versus uso de medicamento específico para a doença referida. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. 

Doença Relato de uso de medicamento específico para a doença

Sim % (IC95%) Não % (IC95%)
Hipertensão 77,7 (74,3–80,8) 22,3 (19,2–25,7)
Diabetes 62,1 (58,1–65,8) 37,9 (34,2–41,9)
Artrite, artrose, reumatismo 33,1 (28,2–38,5) 66,9 (61,5–71,8)
Depressão 32,9 (29,4–36,7) 67,1 (63,3–70,6)
Dislipidemia 28,7 (24,3–33,5) 71,3 (66,5–75,7)

Fonte: PNAUM – Serviços, 2015.

DISCUSSÃO

Estudos de utilização de medicamentos possibilitam o melhor conhecimento sobre as características dos usuários de medicamentos e a identificação de fatores associados ao consumo, contribuindo para qualificar o uso e racionalizar os recursos em saúde19. Estudos com dados representativos de abrangência nacional são escassos2,5, sendo a maioria restrita a pesquisas locais4,13,19.

Este estudo foi realizado em todo o Brasil, com amostra representativa de usuários da APS, que buscaram o serviço para atendimento médico. Essa característica pode ter influenciado alguns dos resultados encontrados neste trabalho.

A prevalência do uso de medicamentos neste estudo (76,1%) foi superior à de outros estudos realizados na APS4,9 e com base populacional5,7,10.

A prevalência do uso de medicamentos em indivíduos na faixa etária de 65 anos ou mais (92,1%) foi superior àquela encontrada nos estudos realizados exclusivamente com idosos tanto na APS11 quanto em estudos de base populacional20,23.

O número de medicamentos utilizados pelos usuários da APS variou de um a 16, resultado semelhante ao verificado em outros estudos nacionais na APS4,25 e de base populacional3. A média de medicamentos utilizados por indivíduo (2,32) foi semelhante à verificada pela Organização Pan-Americana de Saúde (2005)17 e superior à de outros estudos brasileiros realizados em adultos4,7,10,16, cujas médias variaram de 1,81 a 2,1 e também foi menor do que a média encontrada em estudo feito na Atenção Primária em um distrito na Índia (2,76)6.

A média de medicamentos utilizados aumenta de acordo com a faixa etária, elevando-se para 3,0 no grupo acima de 65 anos. Estes resultados corroboram outros estudos nacionais e internacionais3,7,19,21 e são inferiores à média encontrada por Silva et al (2012)23 em amostra nacional de idosos (3,8) e aos 3,7 identificados por Rozenfeld et al (2008)20 em aposentados do Rio de Janeiro. Esses estudos também associam maior utilização de medicamentos à maior nível de renda das populações. Neste estudo, a maior parte da população concentra-se nas classes C, D e E. A menor participação de pessoas das classes A e B pode ter contribuído para o menor número de medicamentos em uso.

O número médio de medicamentos é um importante indicador, que possibilita medir o grau de polimedicação do paciente, fator preditor de interações medicamentosas e eventos adversos8. O uso de múltiplos medicamentos é comum na população idosa devido à maior prevalência de doenças crônicas e às manifestações clínicas decorrentes do envelhecimento. O consumo de medicamentos nessa faixa etária requer um cuidado maior, pois os idosos apresentam alterações fisiológicas que afetam a farmacocinética clínica, podendo gerar efeitos tóxicos e eventos adversos22. As mulheres normalmente possuem maior preocupação com a saúde, procuram mais os serviços de saúde, além da existência de vários programas de saúde desenvolvidos para elas19. Neste estudo as mulheres representaram a maior parte dos entrevistados. Entretanto, não foram observadas diferenças significantes na prevalência de uso de medicamentos entre homens (74,5%) e mulheres (76,0%), contrastando com achados de outros estudos onde as mulheres apresentaram prevalência de utilização de medicamentos superior à dos homens3,5,7,25.

Foi observada baixa escolaridade dentre os usuários de medicamentos, resultado semelhante ao observado em outro estudo nacional na APS19 e diferente daquele observado em outros estudos nacionais de base populacional3,7,20. Esta correlação é preocupante pois a baixa escolaridade pode comprometer o grau de compreensão do esquema prescrito e a adesão ao tratamento. Tais diferenças podem ser explicadas pelas características diversas das populações avaliadas.

Dentre os usuários de medicamentos, 77,6% apresentavam uma doença crônica, resultado semelhante aos 77% encontrados por Carvalho (2005)5. Pessoas com doenças crônicas buscam mais os serviços e o medicamento é uma das intervenções terapêuticas mais utilizadas7. O alto índice de doenças crônicas verificado na população idosa e o maior uso de medicamentos neste grupo etário reforçam esses achados.

O autorrelato de utilização de medicamentos genéricos foi registrado por 57,8% dos usuários de medicamentos. Este dado pode ser decorrente da alteração na legislação que regulamenta as compras públicas no Brasil. De acordo com a Política Nacional de Medicamentos, a promoção do uso de medicamentos genéricos é uma diretriz prioritária. Porém, apesar da obrigatoriedade da adoção da denominação genérica nas compras e licitações públicas de medicamentos realizadas pela Administração Pública, conforme a lei 8.666/93, as instâncias de gestão do SUS devem adquirir os medicamentos pelo menor preço, após cumpridas as exigências técnicas do edital. Desta forma, os medicamentos fornecidos pelo SUS podem ou não ser genéricos.

Quando avaliados os grupos farmacológicos mais utilizados, os analgésicos e antipiréticos destacam-se como o principal, condizente com outros estudos nacionais e internacionais3,5,21. Porém, quando se avaliam de forma isolada, observa-se que os medicamentos que atuam no aparelho cardiovascular, em especial os antihipertensivos, são o grupo mais utilizado. Esses dados são coerentes com o processo de transição demográfica vivenciado pelo país, onde o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis está associado à ocorrência de condições agudas ainda relevantes para a atenção à saúde14.

Ao serem avaliados os 20 medicamentos mais utilizados, sete pertencem ao grupo C (medicamentos para o sistema cardiovascular) e dois são antidiabéticos (grupo A10). Há coerência entre o perfil de utilização e as doenças crônicas autorreferidas pelos usuários da APS do SUS. À semelhança de outros estudos nacionais7,10,20,23, a hipertensão foi a doença mais relatada. Esse resultado está de acordo com o perfil epidemiológico brasileiro, onde as doenças cardiovasculares possuem alta prevalência, entre elas a hipertensão arterial, em especial na população acima de 65 anos5,13.

O fármaco mais utilizado pela população do estudo foi a losartana (4,8%), bloqueador do receptor AT1 da angiotensina II. Em outros estudos nacionais7,16 os antihipertensivos também foram os medicamentos mais utilizados, com destaque para o diurético hidroclorotiazida. Conforme as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão24 em vigor, o tratamento farmacológico da hipertensão inicia-se por monoterapia, sendo os bloqueadores do receptor AT1 da angiotensina II um dos preferencialmente prescritos. No tratamento da hipertensão arterial, especialmente em populações de alto risco cardiovascular ou com comorbidades, bloqueadores do receptor AT1 da angiotensina II proporcionam redução da morbimortalidade cardiovascular e possuem efeito protetor cerebrovascular superior aos demais antihipertensivos, justificando a crescente prescrição desta classe farmacológica.

Destaca-se que todos os 20 medicamentos mais utilizados pelos usuários da APS pertencem à Relação Nacional de Medicamentos vigente, sendo financiados pelo Componente Básico da Assistência Farmacêutica ou fornecidos pelo Programa Farmácia Populara. Este resultado sugere que os prescritores têm utilizado as relações de medicamentos públicas como norteadoras da prescrição no âmbito do SUS, favorecendo o acesso gratuito aos medicamentos essenciais.

Dentre os usuários de medicamentos, uma significativa parcela (9,3%) não sabe qual o medicamento está utilizando, nem para qual doença ele foi indicado. Apesar de alguns usuários informarem o motivo para o qual estavam utilizando o medicamento, como por exemplo “para pressão alta” ou “anti-inflamatório”, grande número de pessoas responderam “não sei”, “não lembro”. A baixa escolaridade identificada especialmente em idosos (26,5%), faixa etária que mais utiliza medicamentos neste estudo, pode justificar os resultados encontrados. Este desconhecimento é um relevante achado, indicando a necessidade do desenvolvimento de estratégias de educação em saúde contínuas, pelas equipes multiprofissionais, a fim de contribuir para a correta utilização dos medicamentos.

A prevalência de automedicação referida (38,8%) foi superior a outros estudos nacionais2,12, sendo maior na faixa etária de 18 a 44 anos. Fatores econômicos, políticos e culturais têm contribuído para o crescimento e a difusão da automedicação no mundo, tornando-a um problema de saúde pública. De acordo com Arrais (1997)2, o fornecimento inadequado de medicamentos e a não-execução de apresentação obrigatória de receitas médicas, juntamente com a baixa escolaridade geral, são os motivos mais citados para a alta frequência de automedicação no Brasil. No presente estudo, a experiência satisfatória anterior com o medicamento, a disponibilidade do produto em casa e a indicação de profissionais da farmácia foram as principais justificativas para o uso de medicamentos sem receita.

Com relação ao Programa Farmácia Popular, observou-se que a obtenção de medicamentos pelo programa eleva-se com o aumento das faixas etárias. Estes dados são coerentes com o perfil de medicamentos fornecidos gratuitamenteb por meio das drogarias e farmácias credenciadas pelo “Aqui Tem Farmácia Popular”, que englobam medicamentos para o tratamento de doenças crônicas não transmissíveis. Hipertensão e diabetes, doenças cujo tratamento é contemplado pelo elenco de fornecimento gratuito pelo programa, foram as mais referidas pela população acima de 65 anos.

Neste estudo, apenas 10% dos idosos afirmaram necessitar de ajuda para usar os medicamentos, e em geral também se observou que a maioria dos entrevistados não precisava de ajuda para usar os medicamentos, o que também foi observado em outro estudo com idosos20.

O presente estudo mostrou que 78% dos hipertensos entrevistados usaram medicamentos indicados para hipertensão, e cerca de 62% dos diabéticos utilizaram medicamentos indicados para diabetes. O percentual de indivíduos que não utilizaram medicamentos para essas doenças pode ser explicado pelas desejáveis intervenções não farmacológicas para tratamento dessas doenças.

Entretanto, para dislipidemia, artrite, artrose e reumatismo e depressão, 28,7%, 33,1% e 32,9% respectivamente, dos entrevistados que relataram possuir essas comorbidades utilizaram medicamentos específicos para tal.

Uma das limitações deste trabalho é que, por ser um estudo transversal, não permite a identificação da relação causa e efeito. Além disso, foi utilizado um período recordatório de 30 dias para avaliar a utilização de medicamentos. Esse critério pode ter resultado em algum viés de memória, que se torna mais acentuado quanto maior o período a ser lembrado, a idade e o número de medicamentos utilizados no período. Os usuários com problemas de acesso às unidades públicas de saúde não estão representados, pois os dados de utilização foram obtidos a partir de entrevistas com os usuários das UBS.

Em conclusão, o perfil dos usuários de medicamentos verificado neste estudo foi composto, predominantemente, por pessoas com baixa escolaridade e com comorbidades, associado à identificação de um percentual importante de pessoas que não sabiam o nome dos medicamentos utilizados. Os medicamentos mais utilizados foram os anti-hipertensivos. A automedicação foi maior entre os jovens. A maioria dos usuários relatou utilização de medicamentos genéricos. O número médio de medicamentos e a prevalência de uso aumentaram com a idade. Usuários idosos necessitam de especial atenção e ações específicas, pois apresentaram baixa escolaridade, tiveram menos acesso a bens de consumo, relataram a presença de mais comorbidade e, quando comparados aos demais grupos, relataram dificuldades no uso de medicamentos, o que pode colocá-los em situação de maior vulnerabilidade.

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Financiamento: Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos e Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (SCTIE/MS – Processo 25000.111834/2, Descentralização de Recursos do FNS).

Recebido: 04 de Julho de 2016; Aceito: 17 de Janeiro de 2017

Correspondência: Micheline Rosa Silveira, Faculdade de Farmácia, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Presidente Antônio Carlos, 6627 – sala 3012, Campus Pampulha 31270-901, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: michelinerosa@gmail.com

Contribuição dos Autores: Contribuíram substancialmente na concepção e planejamento do estudo: JA, MRS, AAGJ, EAC, FAA, IAG, KSC, MGOK, OMS, SNL. Análise e interpretação dos dados: CMFNC, MRS, JA, RCRMN, VEA. Elaboraram ou revisaram o manuscrito: CMFNC, MRS, JA, RCRMN, VEA. Aprovaram a versão final a ser publicada: MRS, JA, RCRMN, VEA, AAGJ, FAA. Todos os autores declaram ser responsáveis por todos os aspectos do trabalho, garantindo sua precisão e integridade.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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