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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.52  supl.2 São Paulo  2018  Epub Oct 25, 2018

http://dx.doi.org/10.11606/s1518-8787.2018052000635 

Suplemento ELSI-Brasil

Artigo Original

Quedas entre idosos brasileiros residentes em áreas urbanas: ELSI-Brasil

Wendel Rodrigo Teixeira PimentelI  IV 

Valéria PagottoII 

Sheila Rizzato StopaIII 

Maria Cristina Corrêa Lopes HoffmannIV 

Fabíola Bof de AndradeV  VI 

Paulo Roberto Borges de Souza JuniorVII 

Maria Fernanda Lima-CostaV  VI 

Ruth Losada de MenezesI 

IUniversidade de Brasília. Faculdade de Ceilândia. Programa de Pós-graduação em Ciências e Tecnologias em Saúde. Brasília, DF, Brasil

IIUniversidade Federal de Goiás. Faculdade de Enfermagem. Goiânia, GO, Brasil

III Universidade de São Paulo. Faculdade de Saúde Pública. Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública. São Paulo, SP, Brasil

IV Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Coordenação de Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, DF, Brasil

V Fundação Oswaldo Cruz. Instituto René Rachou. Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento. Belo Horizonte, MG, Brasil

VI Fundação Oswaldo Cruz. Instituto René Rachou. Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Belo Horizonte, MG, Brasil

VII Fundação Oswaldo Cruz. Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

RESUMO

OBJETIVO

Determinar a prevalência e os fatores associados a quedas em amostra nacional representativa da população idosa residente em áreas urbanas.

MÉTODOS

Foram utilizados dados de 4.174 participantes (60 anos ou mais) da linha de base do ELSI-Brasil, conduzida entre 2015 e 2016. A variável de desfecho foi o relato de uma ou mais quedas nos últimos 12 meses. As variáveis exploratórias foram características sociodemográficas, fatores relacionados ao ambiente urbano e condições de saúde. A análise estatística foi realizada por meio da regressão de Poisson.

RESULTADOS

A prevalência de quedas foi de 25,1%. Destas, 1,8% resultaram em fratura de quadril ou fêmur e, entre elas, 31,8% necessitaram de cirurgia com colocação de prótese. Após ajustes pertinentes, associações estatisticamente significantes (p < 0,05) com a ocorrência de quedas foram observadas para o sexo feminino [razão de prevalência (RP) = 1,26], faixa etária igual ou superior a 75 anos (RP = 1,21), medo de cair devido a defeitos nos passeios (RP = 1,47), medo de atravessar a rua (RP = 1,22), diabetes (RP = 1,17), artrite ou reumatismo (RP = 1,29) e depressão (RP = 1,53). Não foram observadas associações significativas para o nível de escolaridade, a situação conjugal, a hipertensão e a percepção da violência na região de vizinhança.

CONCLUSÕES

Os fatores associados às quedas entre idosos são multidimensionais, incluindo características individuais e o ambiente urbano, o que indica a necessidade de ações intra e intersetoriais para a prevenção de quedas nessa população.

Palavras-Chave: Idoso; Acidentes por Quedas; Fatores Socioeconômicos; Inquéritos Epidemiológicos; Fatores Associados

INTRODUÇÃO

As quedas são consideradas um problema de saúde pública, dada a sua prevalência e repercussões para a saúde da população idosa mundial. Pessoas de todas as idades apresentam risco de cair. Porém, para a pessoa idosa, a queda representa um evento particularmente relevante, uma vez que esse evento pode ter como desfechos restrição de atividades da vida diária, medo de cair novamente, fraturas e hospitalizações, levando ao aumento do risco para incapacidades e mortalidade1.

A proporção de pessoas idosas que caem difere entre os países. Na região das Américas, a prevalência de quedas em idosos que vivem em comunidade varia entre 20% no Canadá2 e 35% no Chile3. Entre os idosos europeus, 28,4% dos ingleses4 relataram ter caído nos dois últimos anos e 19,4% dos irlandeses5 tiveram quedas no último ano. No Brasil, a prevalência de quedas no ano anterior varia entre 10% e 35%, conforme a população estudada6–10. Diferentes fatores de risco para ocorrência de quedas em idosos podem atuar de modo isolado ou estar associados entre si. Estudos mostram a associação de quedas a sexo feminino2,4,6,7, idade avançada4–6,10, estado conjugal (divorciado), viver sozinho2,11, medo de quedas12,13, avaliação da própria saúde como ruim10,14, depressão15, consumo de medicamentos de uso contínuo10, doenças crônicas4, diminuição da visão ou audição16,17, entre outros problemas de saúde, e a fatores ambientais inadequados8.

A prevenção desse agravo representa um grande desafio para a pessoa idosa, a família, a comunidade, os profissionais e os sistemas de saúde1, dentre estes o Sistema Único de Saúde (SUS). Informações sobre essa temática são essenciais para subsidiar as decisões sobre os tratamentos e ações preventivas, assim como o planejamento de políticas públicas para essa população. Apesar de existirem vários estudos sobre quedas6–11, somente um deles9 foi conduzido em amostra representativa da população idosa brasileira. Esse estudo foi conduzido em 2009 e mostrou prevalência de quedas que variava entre 18% na região Norte e 20% na região Sudeste. Recente revisão da literatura aponta para a necessidade de realização de novos estudos de abrangência nacional sobre o tema18.

O presente estudo teve por objetivo determinar a prevalência de quedas entre idosos brasileiros residentes em áreas urbanas e examinar a sua associação com características sociodemográficas, fatores relacionados ao ambiente urbano e condições de saúde.

MÉTODOS

Foram utilizados dados da linha de base do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzida entre 2015 e 2016. A amostra foi delineada para representar a população brasileira não institucionalizada com 50 anos ou mais de idade. Trata-se de amostra complexa, baseada em diferentes estágios de seleção, incluindo município, setor censitário e domicílio. A pesquisa foi conduzida em 70 municípios situados nas diferentes regiões do país. A linha de base do estudo foi constituída por todos os residentes nos domicílios amostrados, na faixa etária mencionada. O tamanho da amostra foi estimado em 10.000 indivíduos (9.412 participaram). Entre os participantes, 85% residiam em áreas urbanas, conforme classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de forma semelhante ao observado para a população brasileira na idade correspondente19. Para a presente análise, foram elegíveis todos os participantes da pesquisa, com 60 anos ou mais, residentes em área urbana (n = 4.533). Mais detalhes sobre o ELSI-Brasil podem ser vistos na homepage da pesquisaa e em publicação anterior19.

A variável dependente do estudo foi a ocorrência de uma ou mais quedas, cuja informação foi obtida a partir da pergunta: “Nos últimos 12 meses, o(a) senhor(a) teve alguma queda?”. Queda foi definida como “um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, determinado por circunstâncias multifatoriais que comprometem a estabilidade”20. Dentre as variáveis descritivas, foram também consideradas as fraturas de quadril ou fêmur e a necessidade de cirurgia com colocação de prótese.

As variáveis independentes compreenderam características sociodemográficas, fatores relacionados ao ambiente urbano e condições de saúde. As características sociodemográficas consideradas foram: sexo; faixa etária (60–64, 65–74 e 75 anos ou mais); estado civil (casado; solteiro ou divorciado ou separado; e viúvo); grau de instrução (sem instrução, 1–4, 5–8 e nove anos ou mais de escolaridade formal). Entre os fatores do ambiente urbano, foram considerados: medo de cair por defeitos nos passeios; medo de atravessar a rua; e percepção da segurança da vizinhança com relação à violência. Os indicadores das condições de saúde considerados foram: hipertensão arterial, diabetes, artrite ou reumatismo e depressão, diagnosticados por um médico.

As análises estatísticas das associações entre as variáveis independentes e a ocorrência de quedas foram baseadas em estimativas de razões de prevalência calculadas por meio da regressão de Poisson. Inicialmente, foram examinadas as associações de cada variável independente com o desfecho por meio de ajustes por idade e sexo. Posteriormente, foi feita a análise multivariada final, com ajustes mútuos por todas as covariáveis já descritas. Essas variáveis entraram simultaneamente no modelo multivariado final, uma vez que elas não mostraram evidências de colinearidade (variance inflation factor < 5.0). As análises foram realizadas utilizando-se o pacote estatístico Stata versão 14.0, por meio do módulo survey (svy), que considera os efeitos da amostra complexa.

O ELSI-Brasil foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, Minas Gerais (CAAE 34649814.3.0000.5091). Todos os participantes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

RESULTADOS

Entre os 4.533 elegíveis para o estudo, 4.174 possuíam informações completas para todas as variáveis e foram incluídos na análise. Entre estes, a média da idade foi igual a 70,2 anos (IC95% 69,6–70,7), com predominância do sexo feminino (56,6%). Outras características dos participantes da amostra podem ser vistas na Tabela 1.

Tabela 1 Característica dos 4.174 participantes da amostra. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 2015–2016. 

Característica %* IC95%
Uma ou mais quedas nos últimos 12 meses 25,1 23,6–26,7
Sexo feminino 56,6 53,6–59,5
Faixa etária (anos)
60–64 35,5 33,1–38,1
65–74 38,3 36,4–40,2
75 ou mais 26,2 23,8–28,7
Estado civil
Casado/União consensual 15,2 12,4–18,5
Solteiro/Separado 19,0 17,2–21,0
Viúvo 23,3 21,2–25,7
Escolaridade (anos)
Nunca estudou 15,2 12,4–18,5
1–4 42,3 39,3–45,3
5–8 18,8 17,3–20,4
9 ou mais 23,8 21,0–26,8
Tem medo de cair por defeitos nos passeios 56,1 53,8–58,5
Tem medo de atravessar a rua 48,9 46,2–51,6
Percebe sua vizinhança como muito insegura 35,5 32,3–38,9
Hipertensão diagnosticada por médico 61,3 58,8–63,8
Diabetes diagnosticada por médico 20,2 18,7–21,8
Artrite ou reumatismo diagnosticado por médico 25,0 23,2–26,9
Depressão diagnosticada por médico 17,6 15,7–19,6

* Ponderada pelos pesos dos indivíduos e parâmetros amostrais.

A ocorrência de pelo menos uma queda nos últimos 12 meses foi informada por 25,1% (IC95% 23,6–26,7) dos participantes. Essa prevalência foi maior entre as mulheres (30,2%; IC95% 28,3–32,2) em comparação aos homens (18,4%; IC95% 16,2–20,8). Na ocasião dessas quedas, 1,8% (IC95% 1,1–2,9) dos participantes fraturaram o quadril ou o fêmur, dos quais 31,8% (IC95% 13,4–58,4) necessitaram de cirurgia com colocação de prótese. Para ambos os sexos, a ocorrência de quedas foi maior na faixa etária de 75 anos ou mais (Figura).

a Teste qui-quadrado de Pearson

b Valor de p para diferenças entre as faixas etárias (teste do qui-quadrado de Pearson)

Figura Prevalênciaa de uma ou mais quedas nos últimos 12 meses, segundo o sexo e a faixa etáriab. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 2015–2016. 

Na Tabela 2 estão apresentados os resultados da análise, ajustada por sexo e idade, da associação entre quedas e características sociodemográficas. Associações estatisticamente significativas foram observadas somente para o sexo feminino e a idade igual ou superior a 75 anos.

Tabela 2 Prevalência de uma ou mais quedas nos últimos 12 meses e sua associação com características sociodemográficas. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 2015–2016. 

Característica Prevalênciaa Razão de prevalênciab IC95%
Sexo
Masculino 18,4 1
Feminino 30,2 1,62c 1,42–2,85
Faixa etária (anos)
60–64 23,6 1
65–74 22,1 0,93c 0,80–1,07
75 ou mais 31,4 1,29c 1,09–1,52
Estado civil
Casado/União consensual 22,0 1
Solteiro/Separado 27,0 11,10 0,93–1,33
Viúvo 31,1 1,11 0,95–1,29
Escolaridade (anos)
Nunca estudou 27,4 1
1–4 24,8 0,96 0,83–1,07
5–8 26,7 1,10 0,93–1,32
9 ou mais 22,8 0,94 0,78–1,14

a Estimadas em relação ao total da coluna e ponderadas pelos pesos dos indivíduos e parâmetros amostrais.

b Ajustada por sexo e faixa etária e estimada por meio da regressão de Poisson.

c Ajustada por faixa etária e vice-versa.

Como mostrado na Tabela 3, nas análises ajustadas por sexo e idade, associações estatisticamente significativas com a ocorrência de quedas foram observadas para: medo de cair devido a defeitos nos passeios, medo de atravessar a rua e diabetes, artrite ou reumatismo e depressão autorreferidos.

Tabela 3 Prevalência de uma ou mais quedas nos últimos 12 meses e sua associação com características do ambiente urbano e condições de saúde. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 2015–2016. 

Características Prevalênciaa Razão de prevalênciab IC95%
Tem medo de cair por defeitos nos passeios
Não 17,1 1
Sim 31,4 1,66 1,41–1,95
Tem medo de atravessar a rua
Não 19,3 1
Sim 31,1 1,46 1,26–1,69
Percebe sua vizinhança como muito insegura
Não 24,3 1
Sim 26,6 1,11 0,99–1,24
Hipertensão diagnosticada por médico
Não 22,2 1
Sim 26,9 1,15 1,00–1,32
Diabetes diagnosticada por médico
Não 24,0 1
Sim 29,5 1,21 1,07–1,38
Artrite ou reumatismo diagnosticado por médico
Não 22,1 1
Sim 34,2 1,39 1,23–1,57
Depressão diagnosticada por médico
Não 21,9 1
Sim 40,0 1,69 1,47–1,95

a Estimadas em relação ao total da coluna e ponderadas pelos pesos dos indivíduos e parâmetros amostrais.

b Ajustada por sexo e faixa etária e estimada por meio da regressão de Poisson.

Os resultados finais da análise multivariada estão mostrados na Tabela 4. No modelo final, observa-se que as quedas se mantiveram significativamente associadas com o sexo feminino (RP = 1,26), faixa etária igual ou superior a 75 anos (RP = 1,21), medo de cair devido a defeitos nos passeios (RP = 1,47), medo de atravessar a rua (RP = 1,22), diabetes (RP = 1,17), artrite ou reumatismo (RP = 1,20) e depressão (RP = 1,53).

Tabela 4 Resultados estatisticamente significantes da análise multivariada das associações entre uma ou mais quedas nos últimos 12 meses e características sociodemográficas, ambiente urbano e condições de saúde. Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), 2015–2016. 

Característica Razão de prevalência* IC 95%
Sexo feminino (vs. masculino) 1,26 1,08–1,48
Faixa etária em anos (vs. 60-64)
65–74 0,94 0,82–1,08
75 ou mais 1,21 1,01–1,45
Tem medo de cair por defeitos nos passeios (versus não) 1,47 1,26–1,73
Tem medo de atravessar a rua (versus não) 1,22 1,07–1,40
Diabetes diagnosticada por médico (versus não) 1,17 1,03–1,32
Artrite ou reumatismo diagnosticado por médico (versus não) 1,20 1,06–1,36
Depressão diagnosticada por médico (versus não) 1,53 1,32–1,77

* Simultaneamente ajustadas por todas as variáveis consideradas no estudo, por meio da regressão de Poisson.

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo mostram que, entre os idosos residentes em áreas urbanas, os fatores associados à ocorrência de quedas são multidimensionais. Em relação às características sociodemográficas, sexo e idade apresentaram associações independentes com o desfecho. Entretanto, mesmo diante das grandes disparidades sociais observadas nas condições de saúde dos idosos brasileiros21, a propensão à ocorrência de quedas não variou pelo nível de escolaridade. O ambiente urbano apresentou associação com a ocorrência de quedas, com maior propensão ao evento entre aqueles que têm medo de cair devido a defeitos nos passeios e medo de atravessar a rua. Em contraste, a percepção da segurança na vizinhança não foi associada ao evento. Dentre as condições de saúde, diabetes, artrite ou reumatismo e depressão apresentaram associações independentes com a ocorrência de quedas. Dentre essas, a associação mais forte foi observada para a depressão.

A metodologia adotada nas pesquisas sobre queda considera a sua ocorrência nos 12 a 24 meses precedentes à entrevista, com predomínio de estudos que cobrem o período de 12 meses. A prevalência encontrada nos idosos participantes do ELSI-Brasil está dentro da variação internacional e daquela observada em diferentes estudos nacionais2–10. Em relação àqueles que informaram ter tido queda, 1,8% teve fratura de quadril ou fêmur e, destes, cerca de um terço necessitaram de cirurgia com colocação de prótese. Esses achados corroboram outros estudos que identificaram esse tipo de fratura como uma das consequências mais graves das quedas9,10. As quedas têm repercussões para o indivíduo e suas famílias, mas também para o sistema de saúde. De fato, o SUS gastou mais de um bilhão de reais com internação de idosos por fratura de fêmur entre 2002 e 201622.

A associação entre idade mais velha e sexo feminino com a ocorrência de quedas é coerente com a maioria dos estudos nacionais e internacionais sobre o tema2,4–6,9,16. No que se refere ao sexo, a maior longevidade das mulheres pode explicar essa associação, uma vez que maior proporção de idosas fica exposta ao agravo23. Além disso, as mulheres mais idosas usualmente apresentam condições de saúde e funcionais mais desfavoráveis, com presença de maior fragilidade, obesidade e limitações na execução de atividades cotidianas, condições essas que podem favorecer a maior probabilidade de quedas2,4. Quanto à faixa etária, é consenso na literatura que, em idosos com idades mais avançadas, a ocorrência de quedas é maior2,4,5, uma vez que o avanço da idade aumenta a predisposição à perda de massa muscular e densidade óssea, com consequente instabilidade postural e alterações na marcha e no equilíbrio, condições essas associadas à ocorrência de quedas4.

Uma novidade deste estudo refere-se à análise da associação entre fatores relacionados ao ambiente urbano e quedas em âmbito nacional. Na última década, a Organização Mundial de Saúde lançou o documento intitulado Global Age-Friendly Cities Project24, com recomendações para adequar o ambiente urbano às necessidades dos mais velhos. Os objetivos expressos nesse documento contemplam a segurança para a locomoção nas ruas e edificações, a acessibilidade, a ausência de barreiras e o incentivo à participação em atividades civis e culturais e ao trabalho voluntário. Nossos resultados são preocupantes. Cerca de metade dos idosos residentes em áreas urbanas informou ter medo de cair devido a defeitos nos passeios e medo de atravessar as ruas, enquanto um terço considerou sua vizinhança muito insegura em decorrência da violência. Nesta análise, o medo de cair por defeitos nos passeios e o medo de atravessar as ruas emergiram como fatores independentemente associados à ocorrência de quedas. O rápido envelhecimento da população brasileira residente em áreas urbanas faz com que a adequação do ambiente urbano a esse novo contexto demográfico seja uma das prioridades das políticas públicas. A recente iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Social, a Estratégia Brasil Amigo da Pessoa Idosa, desenvolvida com diversos parceiros25 para apoio às cidades amigas do idoso, é consonante com essa preocupação.

Os resultados desta análise mostram que idosos com diabetes e com artrite ou reumatismo são, respectivamente, 17% e 20% mais propensos terem tido uma ou mais quedas no ano anterior. A associação entre quedas e condições de saúde é consonante com o mostrado na literatura2,10,11,14,16. Essa associação pode ser explicada pelas complicações dessas doenças. No caso do diabetes, as complicações – como diminuição da acuidade visual e neuropatia – podem levar os idosos a diminuir suas atividades e essa restrição aumenta as chances de cair2. Além disso, estudo recente26 mostrou que a hiperglicemia sustentada está relacionada à perda de massa e força muscular, o que pode também justificar a associação observada. Em relação à artrite e reumatismo, a maior prevalência de quedas pode ser explicada por aumento da rigidez e por dor nas articulações, que levam à instabilidade no caminhar e a alterações no equilíbrio2,11. Quanto à depressão, condição de saúde que apresentou associação mais forte com a ocorrência de quedas, nossos resultados são consonantes com o observado na Irlanda15 e em homens ingleses4, assim como o observado em uma meta-análise que mostrou que idosos com sintomas depressivos têm 50% mais chances de cair27. Nesta análise, a propensão à ocorrência de queda foi 53% maior entre aqueles que haviam tido diagnóstico médico de depressão.

As quedas são eventos sentinelas da saúde da pessoa idosa. A ocorrência de uma queda deve sinalizar para a equipe de saúde a necessidade de uma atenção diferenciada. Nossos resultados mostram a relevância das condições de saúde para a ocorrência das quedas, ressaltando a importância do setor saúde para a prevenção e reabilitação consequente a esse agravo. Como ação estratégica desse setor, apontamos o uso de instrumentos que auxiliem os profissionais da atenção básica e de outros níveis de atenção a identificar tanto a ocorrência das quedas quanto os fatores que podem estar atrelados a elas. No Brasil, a quarta edição da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa28, lançada pelo Ministério da Saúde em 2017, aborda a temática das quedas, tanto a partir da identificação de sua ocorrência, quanto por meio de orientações ilustradas para a sua prevenção. A Caderneta traz questões sobre o local da queda e possíveis consequências físicas e emocionais. Em um contexto de avaliação multidimensional, essas informações podem ser trabalhadas juntamente com a avaliação ambiental do entorno do usuário e alguns aspectos da saúde dos idosos. Outros instrumentos que possibilitem a identificação e a prevenção de fatores de risco para quedas também podem ser usados como uma estratégia de atenção à saúde dos idosos. Além de identificar a ocorrência de quedas, é importante implementar ações preventivas envolvendo as equipes multidisciplinares1. Profissionais que atuam em diferentes cenários da Atenção Primária (como no Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (Nasf-AB) e no Programa Academia da Saúde) devem planejar ações preventivas como dança sênior, Tai Chi Chuan, exercícios de fortalecimento muscular, exercícios de equilíbrio e coordenação motora29, além de outras atividades que possam trazer benefícios às diferentes dimensões da saúde dos idosos.

A principal vantagem deste estudo é a sua grande base populacional e a inclusão de aspectos ambientais que ainda não haviam sido considerados em estudos sobre queda. Dentre as limitações do estudo, pode-se mencionar a obtenção das informações sobre quedas por meio de autorrelato, o que, apesar de usual em estudos sobre o tema2,4–7,10, pode subestimar sua ocorrência, uma vez que os idosos podem não se lembrar das quedas que eles consideraram como de menor gravidade. Outra limitação refere-se à dificuldade de estabelecer relações temporais em função do delineamento seccional. Por exemplo, as associações com o medo de cair e de atravessar a rua podem ser consequências de quedas prévias, fenômeno conhecido como causalidade reversa. Isso, entretanto, não diminui a importância dos nossos resultados, que podem subsidiar políticas para melhorias no ambiente urbano voltadas à prevenção de novas quedas.

Em resumo, nossos resultados mostram elevada prevalência de quedas entre idosos residentes em áreas urbanas. Aplicando a prevalência de 25% ao número absoluto da população idosa residente em áreas urbanas no Brasil (25 milhões)30, estimamos que aproximadamente 6,2 milhões de idosos teriam caído no último ano. Os achados também mostram que os fatores associados às quedas entre idosos são multidimensionais, apontando para a necessidade de ações intra e intersetoriais que considerem a integralidade do cuidado para a sua prevenção.

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Financiamento: A linha de base do ELSI-Brasil foi financiada pelo Ministério da Saúde (DECIT/SCTIE – Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (Processo 404965/2012-1); COSAPI/DAPES/SAS – Coordenação da Saúde da Pessoa Idosa, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Secretaria de Atenção à Saúde (Processos 20836, 22566 e 23700); e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação.

Recebido: 19 de Dezembro de 2017; Aceito: 18 de Abril de 2018

Correspondência: Wendel Rodrigo Teixeira Pimentel. Campus Universitário - Centro Metropolitano 01, conjunto A, Ceilândia Sul, Unidade de Ensino e Docência 1º andar 72220-900 Brasília, DF, Brasil E-mail: wendelrtpimentel@gmail.com

Contribuição dos autores: Concepção, análise e interpretação dos resultados, preparação e redação do manuscrito e revisão crítica do conteúdo: WRTP, VP, SRS, MCCLH, FBA, PRBSJ, MFLC, RLM. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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