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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.54  São Paulo  2020  Epub Dec 16, 2020

http://dx.doi.org/10.11606/s1518-8787.2020054001920 

Artigo Original

Qualidade de vida em indivíduos iniciando a terapia antirretroviral: um estudo de coorte

Gabriela Sales PimentelI 
http://orcid.org/0000-0001-9396-1617

Maria das Graças Braga CeccatoII 
http://orcid.org/0000-0002-4340-0659

Juliana de Oliveira CostaIII  IV 
http://orcid.org/0000-0002-8355-023X

Jullye Campos MendesI 
http://orcid.org/0000-0003-3505-4626

Palmira de Fátima BonoloV 
http://orcid.org/0000-0003-2744-7139

Micheline Rosa SilveiraII 
http://orcid.org/0000-0001-7002-4428

IUniversidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Farmácia. Programa de Pós-Graduação em Medicamentos e Assistência Farmacêutica. Belo Horizonte, MG, Brasil

IIUniversidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Farmácia. Departamento de Farmácia Social. Belo Horizonte, MG, Brasil

IIIUniversity of New South Wales. Centre for Big Data Research in Health. Faculty of Medicine. Sydney, Australia

IVUniversidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Medicina. Pós-Graduação em Saúde Pública. Belo Horizonte, MG, Brasil

VUniversidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Medicina. Departamento de Medicina Preventiva e Social. Belo Horizonte, MG, Brasil


RESUMO

OBJETIVO

Avaliar longitudinalmente a alteração da qualidade de vida em pessoas que vivem com HIV iniciando a terapia antirretroviral, atendidas em três serviços públicos de referência na assistência especializada ao HIV em Belo Horizonte.

MÉTODOS

Estudo de coorte prospectivo, com o acompanhamento de pessoas que vivem com HIV, com 18 anos de idade ou mais, e iniciando terapia antirretroviral. Dados sociodemográficos, comportamentais, clínicos, relacionados ao tratamento farmacológico e ao serviço foram obtidos por entrevistas, complementados com informações dos prontuários clínicos e dos sistemas de informação do Programa Brasileiro de HIV/AIDS. A qualidade de vida foi avaliada utilizando o instrumento WHOQOLHIV-bref, por meio de entrevista face a face, com intervalo mínimo de seis meses entre as entrevistas. A alteração média na qualidade de vida entre as duas entrevistas foi avaliada utilizando o teste t pareado. Os fatores associados foram avaliados por meio de regressão linear múltipla.

RESULTADOS

A qualidade de vida global, assim como a qualidade de vida nos domínios físico, psicológico, nível de independência, ambiente e espiritual foram estatisticamente melhores em pessoas que vivem com HIV usando terapia antirretroviral no final do tempo de acompanhamento. Fatores independentemente associados ao incremento na qualidade de vida foram possuir crença religiosa e morar com outras pessoas. Enquanto ter sinais ou sintomas de ansiedade e depressão e o número de reações adversas a medicamentos reportadas foram preditores associados à piora da qualidade de vida.

CONCLUSÕES

Os resultados evidenciam melhora na qualidade de vida em pessoas vivendo com HIV iniciando a terapia antirretroviral ao longo do tempo. Evidenciam ainda a necessidade de se acompanhar e prover cuidados de saúde, em especial para indivíduos com sinais e sintomas de ansiedade e depressão e que relatam reações adversas a medicamentos no início do tratamento.

Palavras-Chave: Fármacos Anti-HIV; Terapia Antirretroviral de Alta Atividade; Qualidade de vida; WHOQOLHIV-bref; Estudos de Coortes

ABSTRACT

OBJECTIVE

To assess longitudinally the change in quality of life in people living with HIV initiating antiretroviral therapy in three public reference services specialized in HIV care in Belo Horizonte, Brazil.

METHODS

Prospective cohort study among people living with HIV, aged 18 years or older, and initiating antiretroviral therapy. We obtained sociodemographic, behavioral, clinical data related to pharmacological treatment and to the service by face-to-face interviews, and supplemented these data with information from clinical records and Information Systems of the Brazilian HIV/AIDS Program. We measured the quality of life using the WHOQOL-HIV bref instrument, with a minimum interval of six months between the baseline and the follow-up interviews. We used paired t-test to assess the mean change in quality of life between the two interviewsand evaluated factors associated with this outcome using multiple linear regression.

RESULTS

The overall quality of life, as well as the physical, psychological, level of independence, environment and spiritual quality of life domains were statistically higher in people living with HIV using antiretroviral therapy at the end of the follow-up. Factors independently associated with the increase in quality of life were having religious belief and living with other people. Having signs or symptoms of anxiety and depression and the number of adverse drug reactions reported were predictors associated with worsening quality of life.

CONCLUSIONS

These results show an improvement in the quality of life over time in people living with HIV on antiretroviral therapy. They also highlight the need to monitor and provide health care support, especially for individuals with signs and symptoms of anxiety and depression and that report adverse reactions to medicines at the beginning of treatment.

Key words: Anti-HIV Agents; Antiretroviral Therapy, Highly Active; Quality of Life; WHOQOLHIV-bref; Cohort Studies

INTRODUÇÃO

No Brasil, nos últimos anos, os esquemas antirretrovirais (ARV) de primeira linha foram modificados, seguindo a tendência mundial e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)1 . Em 2015, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para o manejo do HIV passou a recomendar como esquema de primeira linha um medicamento em dose fixa combinada (DFC) contendo os fármacos tenofovir (TDF), lamivudina (3TC) e efavirenz (EFV). Em 2017, o dolutegravir (DTG), fármaco inibidor da integrase, foi inserido no esquema de primeira linha, em substituição ao EFV, juntamente com um comprimido da associação de TDF e 3TC2 .

Em países em desenvolvimento, como o Brasil, existem evidências limitadas, em estudos longitudinais, sobre os fatores determinantes da qualidade de vida (QV) em pessoas que vivem com HIV (PVHIV). Em uma revisão de literatura, os fatores sexo, idade, situação familiar, escolaridade, emprego, renda, carga viral, contagem de linfócitos TCD4+, tempo de diagnóstico, presença de sintomas de depressão e ansiedade, apoio social, atenção à saúde, uso de drogas lícitas e ilícitas, adesão à terapia antirretroviral (TARV), estilo de vida e comportamento sexual foram diretamente associados à QV de PVHIV3 . Portanto, a compreensão da QV é essencial para analisar o impacto físico e biopsicossocial que o HIV pode ocasionar nos indivíduos, possibilitando maior conhecimento acerca de si mesmo, de sua adaptação à condição de viver com HIV e de seu tratamento. Considera-se ainda que existem evidências limitadas sobre o impacto do início da TARV na QV em PVHIV.

O objetivo deste estudo foi avaliar longitudinalmente a QV em PVHIV iniciando a TARV atendidas em três serviços públicos de referência em Belo Horizonte, bem como avaliar os preditores de alteração na QV.

MÉTODOS

Estudo de coorte, no qual foram utilizados dados do projeto Ecoart, cujos detalhes foram previamente publicados4 , 5 .

A seleção da amostra foi não aleatória, e todos os indivíduos elegíveis e presentes em três serviços públicos de assistência especializada em HIV, que dispensam TARV para aproximadamente 80% das PVHIV no município de Belo Horizonte, foram convidados a participar do estudo. O recrutamento ocorreu entre setembro de 2015 e outubro de 2017.

Foram incluídos indivíduos com até 180 dias de TARV, em acompanhamento em um dos serviços avaliados e que foram identificados por meio do registro no Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom). Os critérios de inclusão foram assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), ter 18 anos ou mais, autonomia para responder à entrevista e ter realizado a entrevista basal e a segunda entrevista de acompanhamento.

Os dados foram obtidos em entrevistas face a face e em bases de dados secundárias, utilizando-se formulários padronizados que continham os instrumentos World Health Organization Quality of Life HIV – em sua versão resumida (WHOQOLHIV- bref ) –, Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HADS) e Escala de Adesão Terapêutica de Morisky de Oito Itens (MMAS-8), todos validados no Brasil6 , além de perguntas relativas a informações sociodemográficas, comportamentais, clínicas, laboratoriais, relacionadas ao tratamento farmacológico e ao serviço de saúde.

Para minimizar potenciais riscos de vieses, os pesquisadores foram devidamente treinados e foi realizado projeto piloto antes de iniciar a coleta de dados.

Variável Dependente

A QV foi avaliada por meio do instrumento WHOQOLHIV- bref , em dois momentos, na entrevista basal e na segunda entrevista de acompanhamento, prevista para ocorrer seis meses após a entrevista basal. A diferença média da QV entre esses dois momentos constituiu a variável dependente deste estudo, que apresenta os resultados unicamente daqueles indivíduos que terminaram o acompanhamento. Em um artigo prévio4 foram publicados os dados relativos a QV na entrevista basal.

O WHOQOLHIV- bref é um instrumento específico para avaliação da QV em PVHIV, que, por meio de 31 perguntas, avalia os domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio ambiente e espiritualidade. Cada pergunta possui opções de resposta em escala Likert de cinco pontos, onde 1 indica percepções negativas e 5, percepções positivas, exceto para sete itens em que a escala é invertida. A média dos itens dentro de cada domínio é usada para calcular a pontuação total do domínio. O resultado é multiplicado por 4, e, assim, os escores variam entre 4 e 206 .

O componente QV global e percepção geral da saúde foi construído utilizando as duas primeiras perguntas do instrumento WHOQOLHIV- bref . Fez-se a média dos itens, e o resultado foi multiplicado por 4; dessa forma, os escores também variaram de 4 a 206 .

Variáveis Independentes

Para caracterizar a população do estudo, foram analisadas variáveis sociodemográficas, comportamentais, clínicas e laboratoriais, relacionadas ao tratamento farmacológico e ao serviço.

A presença de sinais ou sintomas de ansiedade e depressão foi mensurada por meio da HADS, composta por 14 itens7 . Pessoas que tiveram 8 ou mais pontos em cada um dos agravos foram classificadas com sintomas de ansiedade e depressão. Os indivíduos foram classificados segundo a presença de sinais e sintomas de ansiedade ou depressão na entrevista basal e na entrevista de acompanhamento, sendo categorizados em: (i) nunca apresentaram sinais e sintomas de ansiedade ou depressão, (ii) apresentaram esses sintomas em alguma das duas entrevistas ou (iii) apresentaram sintomas em ambas as entrevistas.

A MMAS-8 foi utilizada para avaliar a adesão a TARV. O escore total da MMAS-8 varia de 0 a 8, sendo que, quanto maior for a pontuação, maior é a adesão8 . Foram considerados aderentes os indivíduos que obtiveram escore de 8 pontos. As reações adversas a medicamentos (RAM) foram avaliadas por meio de autorrelato. Foram considerados indivíduos com carga viral (CV) indetectável aqueles que apresentaram valor inferior a 50 cópias por ml.

A variável classe econômica ( status socioeconômico) foi avaliada de acordo com critérios brasileiros, como alta (A, B), intermediária (C) e baixa (D e E), na qual os indivíduos são classificados por meio de grupos socioeconômicos por posse de itens de conforto e nível de escolaridade do chefe familiar9 .

Para a variável comorbidade, foi considerado o autorrelato de qualquer doença diagnosticada por médico, como hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolemia, entre outras.

Análise Estatística

A análise descritiva foi realizada por distribuição de frequências para variáveis categóricas e medidas de tendência central para as variáveis quantitativas.

Para avaliar os escores do instrumento WHOQOLHIV- bref , foram apresentadas médias e desvio-padrão para cada domínio, relativos à entrevista basal e à segunda entrevista de acompanhamento. O teste t pareado foi utilizado para comparar as diferenças médias dos escores de QV entre as duas entrevistas.

A análise univariável da relação entre variáveis independentes e a alteração no escore de QV foi avaliada pelo teste t Student (comparação de médias) e o teste Mann-Whitney (comparação de medianas).

A associação foi analisada pelo ajuste de um modelo de regressão linear múltipla. Foram selecionadas para entrar no modelo multivariável as variáveis que apresentaram valor p igual ou inferior a 0,20.

O método backward stepwise foi utilizado para obtenção do modelo final. Os resultados da regressão linear múltipla foram demonstrados por meio de coeficientes da regressão, com seus respectivos intervalos de confiança a 95% (IC95%).

A adequação do modelo foi avaliada por um conjunto de estatísticas. As estatísticas R2e R2ajustado foram utilizadas para verificar a porcentagem da variância relacionada ao incremento na QV explicada pelo modelo. A estatística de Durbin- Watson foi utilizada para verificar o pressuposto de que os resíduos não estão correlacionados, com valores entre 0 e 4, sendo que 2 significa ausência de correlação entre os resíduos. Foi testado também se havia multicolinearidade no modelo final, utilizando as estatísticas de tolerância (aceitável > 0,10) e VIF (aceitável < 10)10 . Para avaliar se os resíduos tinham distribuição normal, foram realizados os seguintes gráficos: resíduos padronizados da regressão por valores previstos da regressão padronizados, histograma de frequências dos resíduos padronizados da regressão, e um gráfico percentil-percentil (P.P. plot).

Foi utilizado o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 22.0. Em todas as análises considerou-se o nível de significância de 0,05.

Aspectos Éticos

O projeto de pesquisa Ecoart foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais (protocolo CAAE 31192914.3.3001.5124, parecer CEP 769.085) e dos serviços participantes. A pesquisa foi realizada seguindo instruções da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Durante todo o período de recrutamento do projeto Ecoart, foram identificados 1.017 indivíduos atendidos nos três serviços. Desses, 468 realizaram a entrevista basal, e 323 (69,0%) realizaram a segunda entrevista de acompanhamento e foram incluídos nesse estudo ( Figura 1 ).

Figura Diagrama de inclusão dos indivíduos no estudo. 

Ao comparar o grupo que completou a segunda entrevista de acompanhamento com aqueles que não a realizaram, não houve diferenças estatisticamente significantes em relação a sexo, idade, estado civil e escolaridade. Também não houve diferenças entre os indivíduos na entrevista basal quanto à QV geral e nos domínios de QV.

A maioria dos entrevistados era do sexo masculino (83,0%), sem cônjuge (79,9%), sem filhos (66,9%), entre 20 e 34 anos (54,5%), não possuía plano privado de saúde (72,8%) e se autodeclarou como não branco (76,9%). Verificou-se que 80,8% dos indivíduos residiam com outras pessoas, 38,8% possuíam de 10 a 12 anos de escolaridade e 59,4% estavam empregados no momento da entrevista, havendo predomínio da classe econômica C (45,7%). Em relação às características comportamentais e hábitos de vida, 24,5% relataram uso atual de tabaco, 65,8%, uso de álcool recente, e 47,5% declararam já ter utilizado ou utilizar drogas ilícitas na vida. A maioria declarou ter alguma crença religiosa (79,4%). Verificou-se que 59,6% eram homens que fazem sexo com outros homens (HSH). Quanto às características clínicas, 7,8% apresentaram coinfecção (como tuberculose, sífilis, toxoplasmose e candidíase), 18,3%, uma ou mais comorbidades autorrelatadas, e 35,9%, sinais ou sintomas de ansiedade e depressão. A maioria dos indivíduos apresentou classificação clínica assintomática (67,3%) e tinha tempo de diagnóstico de infecção pelo HIV menor ou igual a seis meses (61,8 %). No que diz respeito às características laboratoriais basais, 23,5% apresentaram contagem inicial de linfócitos TCD4+inferior a 200 células/mm3, 90,1%, CV detectável, e 26,0%, CV superior a 100.000 cópias/ml. Em relação ao tratamento farmacológico, 63,2% utilizaram TDF/3TC/EFV, e 32,2%, TDF/3TC + DTG. A maioria (52,3%) estava em uso de TARV há 60 dias ou menos, eram não aderentes a TARV (52,8%), apresentaram RAM (85,9%), com três ou menos RAM (53,1%) ( Tabela 1 ).

Tabela 1 Características sociodemográficas, comportamentais, clínicas, laboratoriais, terapêuticas e relacionadas ao serviço de PVHIV em TARV inicial na entrevista basal e na segunda entrevista de acompanhamento, Belo Horizonte, Minas Gerais (n = 323). 

Entrevista basal
Características n (%)
Sociodemográficas
Sexo (masculino) 268 83
Idade (anos)
18–19 10 3,1
20–34 176 54,5
35–49 102 31,6
≥ 50 35 10,8
Idade (média (DP)), anos 34,5 (10,7)
Estado civil (solteiro/divorciado/viúvo) 258 79,9
Cor de pele (não branco) 246 76,9
Escolaridade (anos)
≤ 9 75 23,3
10–12 125 38,8
≥ 13 122 37,9
Filhos (não) 216 66,9
Reside com outras pessoas (sim) 261 80,8
Emprego (sim) 192 59,4
Plano de saúde (não) 235 72,8
Classe econômica
A, B 122 38,7
C 144 45,7
D, E 49 15,6
Comportamentais
Crença religiosa (sim) 255 79,4
Tabagismo atual (sim) 79 24,5
Consumo de álcool no último mês (sim) 212 65,8
Uso de droga ilícita na vida (sim) 153 47,5
Categoria de risco/exposição (HSH) 168 59,6
Clínicas
Classificação clínica (assintomática) 214 67,3
Sinais ou sintomas de ansiedade ou depressão (sim) 116 35,9
Comorbidades autorrelatadas (não) 264 81,7
Coinfecções autorrelatadas (não) 296 92,2
Tempo de diagnóstico de HIV (média (DP)), meses 77,1 (59,8)
Laboratoriais
Contagem de linfócitos TCD4+ (células/mm3)
< 200 76 23,5
200–500 124 38,4
> 500 96 29,7
Dados faltantes 27 8,4
CV*
Detectável 291 90,1
Indetectável 5 1,5
Dados faltantes 27 8,4
CV (cópias/mL)
≤ 100.000 212 65,6
> 100.000 84 26
Dados faltantes 27 8,4
Relacionadas à TARV
Esquema antirretroviral
TDF/3TC/EFV 204 63,2
TDF/3TC + DTG 104 32,2
Outros esquemas 15 4,6
Tempo de tratamento ART (média (DP)), dias 77,1 (59,8)
Adesão (não) 163 52,8
RAM (sim) 267 85,9
Número de RAM (média (DP)) 3,8 (3,2)
Relacionadas ao serviço
Serviço de saúde de acompanhamento
I 106 32,8
II 144 44,6
III 73 22,6
Segunda entrevista de acompanhamento
Clínicas
Sinais ou sintomas de ansiedade ou depressão
Nunca (nem na basal, nem na entrevista de acompanhamento) 41 12,7
Alguma vez (basal ou entrevista de acompanhamento) 244 75,5
Sempre (basal e entrevista de acompanhamento) 36 11.1
Laboratoriais
CV (supressão viral)
Detectável 43 13,3
Indetectável 237 73,4
Dados faltantes 43 13,3
Relacionadas à TARV
Adesão (não) 191 59,5
RAM (sim) 165 51,6
Número de RAM (média (DP)) 1,9 (2,7)

LT-CD4+: Linfócitos T-CD4+; HSH: homens que fazem sexo com homens; TDF: tenofovir; 3TC: lamivudina; EFV: efavirenz; DTG: dolutegravir; TARV: terapia antirretroviral; RAM: reação adversa a medicamento; HIV: human immunodeficiency virus; Outros riscos: hemofílicos, transfusão e ocupacional.

* CV indetectável: < 50 cópias/ml.

Na segunda entrevista de acompanhamento, em relação às características clínicas, laboratoriais e relacionadas a TARV, 34,3% dos indivíduos apresentaram sinais e sintomas de ansiedade e depressão, 73,4%, CV indetectável (supressão viral), 59,5% relataram não adesão tratamento, e 51,6% relataram alguma RAM, sendo que 79,9% relataram três ou menos RAM ( Tabela 1 ).

Os dados de QV foram obtidos na entrevista basal e na segunda entrevista de acompanhamento, que ocorreu em média 9,47 meses (mediana = 8,66; mínimo = 3,5; máximo = 23,0; intervalo interquartil = 19,5, DP = 3,67) após a entrevista basal.

Foram observadas, ao longo do tempo, melhorias estatisticamente significantes na QV global e nos domínios, físico, psicológico, nível de independência, ambiente e espiritual em indivíduos iniciando TARV. O único domínio em que a diferença média entre as entrevistas basal e de acompanhamento não foi significante foi o das relações sociais.

Os domínios de QV com maiores diferenças médias foram o físico (5,11; DP = -3,75), espiritual (3,23; DP = 6,20) e psicológico (1,32; DP = 2,82) ( Tabela 2 ).

Tabela 2 Distribuição dos escores dos domínios do WHOQOLHIV- bref na entrevista basal e após o acompanhamento em indivíduos vivendo com HIV em TARV inicial, Belo Horizonte, Minas Gerais (n = 323). 

Domínios WHOQOLHIV-brefa n Entrevista basal – média (DP) Segunda entrevista de acompanhamento – média (DP) Diferença da média da segunda entrevista e da entrevista basal (DP) p
Qualidade de vida global 323 15,37 (3,12) 16,24 (2,93) 0,86 (3,28) < 0,001b
Físico 314 10,94 (2,20) 16,04 (2,94) 5,11 (3,75) < 0,001b
Psicológico 318 14,03 (2,06) 15,35 (2,73) 1,32 (2,82) < 0,001b
Nível de independência 316 14,89 (2,26) 15,72 (2,86) 0,82 (3,08) < 0,001b
Relações sociais 295 15,28 (3,01) 15,57 (2,83) 0,29 (3,15) 0,113
Ambiente 315 14,29 (2,40) 14,71 (2,36) 0,42 (2,08) < 0,001b
Espiritual 315 11,67 (3,42) 14,89 (3,73) 3,23 (6,20) < 0,001b

DP: desvio-padrão; TARV: terapia antirretroviral.

aEscores dos domínios variam de 4 a 20 (maiores escores correspondem a melhor qualidade de vida).

bEstatisticamente significante.

Na análise univariável, indivíduos que relataram uso de drogas ilícitas durante toda a vida apresentaram diferença média na QV mais elevada (1,25; DP = 3,19). Indivíduos com ausência de sintomas de ansiedade e depressão apresentaram maior diferença média na QV (2,78; DP = 3,22). Dentre as variáveis laboratoriais e relacionadas a TARV, não foi observada associação estatisticamente significativa entre CV, esquema ARV (TDF/3TC/EFV; TDF/3TC + DTG e outros esquemas), tempo de tratamento, adesão ao tratamento, RAM, número de RAM e alteração da QV média ( Tabela 3 ).

Tabela 3 Análise univariável de fatores associados com a diferença média da qualidade de vida (QV) geral em PVHIV em TARV inicial, Belo Horizonte, Minas Gerais (n = 323). 

n Entrevista basal – média (DP) Segunda entrevista de acompanhamento – média (DP) Diferença na QV – média (DP) pb
Sociodemográficas
Sexo
Masculino 268 15,69 (2,84) 16,39 (2,82) 0,70 (3,23) 0,054
Feminino 55 13,85 (3,92) 15,49 (3,34) 1,64 (3,47)
Idade (ano adicional) 323 -0,01 (0,02) -0,02 (0,02) -0,01 (0,02) 0,629
Estado civil
Solteiro, divorciado, viúvo 258 15,23 (3,16) 16,21 (2,81) 0,98 (3,30) 0,177
Casado, união estável 65 15,94 (2,89) 16,31 (3,36) 0,37 (3,18)
Cor de pele
Branco 74 16,14 (2,57) 16,89 (2,75) 0,76 (3,05) 0,807
Não branco 246 15,17 (3,19) 16,03 (2,97) 0,86 (3,30)
Escolaridade (anos)
≤ 9 75 14,29 (3,36) 15,15 (3,71) 0,85 (4,04) 0,932
de 10 a 12 125 15,34 (3,01) 16,24 (2,60) 0,90 (2,98)
≥ 12 122 16,07 (2,91) 16,87 (2,49) 0,80 (3,08) 0,922
Filhos
Não 216 15,66 (2,99) 16,50 (2,73) 0,84 (3,18) 0,055
Sim 107 14,80 (3,31) 15,70 (3,24) 0,90 (3,49)
Reside com outras pessoas
Não 62 15,26 (3,01) 15,39 (3,02) 0,13 (3,76) 0,051
Sim 261 15,40 (3,15) 16,44 (2,87) 1,03 (3,14)
Emprego
Não 131 14,58 (3,41) 15,80 (3,19) 1,22 (3,36) 0,103
Sim 192 15,92 (2,78) 16,53 (2,70) 0,61 (3,21)
Plano de saúde
Não 235 15,23(3,08) 16,08 (2,51) 0,84 (3,43) 0,871
Sim 88 15,75 (3,22) 16,66 (2,51) 0,91 (2,86)
Classe econômica
C, D, E 193 15,10(3,19) 15,95 (3,06) 0,85 (3,43) 0,994
A, B 122 15,92 (3,94) 16,77 (2,53) 0,85 (3,03)
Comportamentais
Crença religiosa
Não 66 15,52 (3,42) 15,79 (3,24) 0,27 (3,61) 0,096
Sim 255 15,31 (3,04) 16,34 (2,84) 1,03 (3,18)
Tabagismo atual (entrevista basal)
Não 244 15,79 (2,78) 16,48 (2,65) 0,69 (3,04) 0,098
Sim 79 14,10 (3,73) 15,49 (3,56) 1,39 (3,91)
Consumo de álcool no mês anterior à entrevista basal
Não 110 15,47 (3,03) 16,16 (3,01) 0,69 (3,34) 0,514
Sim 212 15,33 (3,18) 16,27 (2,90) 0,94 (3,26)
Uso de droga ilícita na vida
Não 169 15,66 (2,95) 16,17 (2,95) 0,51 (3,34) 0,042a
Sim 153 15,11 (3,24) 16,37 (2,84) 1,25 (3,19)
Categoria de risco/exposição
Outros 114 14,84 (3,42) 15,72 (2,93) 0,88 (3,31) 0,984
HSH 168 15,73 (2,89) 16,60 (2,69) 0,87 (3,27)
Clínicas
Classificação clínica
Aids 58 15,66 (3,00) 16,28 (3,38) 0,62 (3,84) 0,539
Sintomático ou assintomático 260 15,29 (3,11) 16,21 (2,82) 0,92 (3,17)
Presença de sinais ou sintomas de ansiedade ou depressão durante o acompanhamento
Nunca 41 13,71 (3,27) 16,49 (2,27) 2,78 (3,22)
Alguma vez 244 15,55 (3,12) 16,39 (2,88) 0,84 (3,05) < 0,001a
Sempre 36 16,00 (2,29) 14,78 (3,55) -1,22 (3,71) < 0,001a
Comorbidades autorrelatadas
Não 264 15,62 (2,99) 16,45 (2,61) 0,83 (3,12) 0,752
Sim 59 14,27 (3,47) 15,25 (3,93) 0,98 (3,97)
Coinfecções autorrelatadas
Não 296 15,46 (3,16) 16,35 (2,84) 0,89 (3,21) 0,284
Sim 25 14,64 (2,50) 14,80 (3,70) 0,16 (3,95)
Tempo de diagnóstico do HIV (mês adicional) 322 < 0,01 (0,01) < 0,01 (0,01) < -0,01 (0,01) 0,675
Laboratoriais
CV – entrevista basal
Detectável 291 15,43 (3,15) 16,26 (2,93) 0,83 (3,30) 0,064
Indetectável 5 12,80 (2,28) 16,40 (2,19) 3,60 (3,29)
CV – segunda entrevista de acompanhamentoc
Detectável 43 14,65 (3,14) 16,14 (2,37) 1,49 (3,03) 0,085
Indetectável 237 15,66 (2,93) 16,20 (3,00) 0,54 (3,35)
CV (cópias/mL)
Até 100 mil 212 15,31 (3,18) 16,22 (2,88) 0,91 (3,30) 0,823
Acima de 100 mil 84 15,57 (3,07) 16,38 (3,02) 0,81 (3,37)
Relacionadas à TARV
Esquema antirretroviral
TDF/3TC/EFV 204 15,27 (3,18) 16,11 (2,82) 0,83 (3,44) 0,635
TDF/3TC + DTG 104 15,75 (2,96) 16,77 (2,59) 1,02 (2,83)
Outros esquemas 15 14,13 (3,16) 14,27 (5,06) 0,13 (4,10) 0,453
Tempo de tratamento ART (dia adicional) 323 < -0,01 (< 0,01) < -0,01 (< 0,01) < -0,01 (< 0,01) 0,306
Adesão – entrevista basal
Não 163 15,10 (3,27) 15,73 (3,24) 0,63 (3,43) 0,270
Sim 146 15,71 (2,98) 16,75 (2,50) 1,04 (3,14)
Adesão – segunda entrevista de acompanhamento
Não 191 15,20 (3,38) 15,92 (3,04) 0,71 (3,44) 0,394
Sim 130 15,68 (2,67) 16,71 (2,73) 1,03 (3,04)
RAM – entrevista basal
Não 44 16,46 (3,22) 17,00 (2,42) 0,55 (3,09) 0,503
Sim 267 15,18 (3,12) 16,09 (3,02) 0,91 (3,35)
RAM – segunda entrevista de acompanhamento
Não 155 15,79 (2,63) 16,66 (2,76) 0,86 (3,13) 0,913
Sim 165 15,04 (3,48) 15,87 (3,05) 0,82 (3,44)
RAM adicional – Entrevista basal 311 -0,26 (0,06) -0,16 (0,05) 0,10 (0,97) 0,086
RAM adicional – Segunda entrevista de acompanhamento 323 -0,23 (0,06) -0,27 (0,06) -0,04 (0,07) 0,527

QV: qualidade de vida; PVHIV: pessoa vivendo com HIV; DP = desvio-padrão; LT-CD4+: linfócitos T-CD4+; HSH: homens que fazem sexo com homens; TDF: tenofovir; 3TC: lamivudina; EFV: efavirenz; DTG: dolutegravir; TARV: terapia antirretroviral; RAM: reação adversa a medicamento; HIV: human immunodeficiency virus; Outros riscos: hemofílicos, transfusão e ocupacional.

aEstatisticamente significante.

bOs valores de p se referem à comparação entre as diferenças no incremento de QV de acordo com cada variável.

cCV indetectável: < 50 cópias/ml.

No modelo final de regressão linear múltipla, apresentaram aumento na QV indivíduos que possuíam alguma crença religiosa (0,92; IC95% 0,20 a 1,64) e os que residiam com outras pessoas (1,00; IC95% 0,26 a 1,65). Enquanto indivíduos que reportaram sinais ou sintomas de ansiedade e depressão alguma vez (-0,99; IC95% -1,89 a -0,10) ou sempre (-2,91; IC95% -4,11 a -1,70) apresentaram redução na QV. A cada RAM adicional relatada na entrevista basal houve redução na QV do indivíduo (-0,09; IC95% -0,18 a 0,01). Aqueles indivíduos que apresentaram maiores escores de QV na entrevista basal obtiveram menores incrementos de QV ao final do estudo, mostrando assim uma associação inversamente proporcional (-0,60; IC95% -0,69 a -0,50) ( Tabela 4 ).

Tabela 4 Modelo multivariável final dos fatores associados com a diferença na QV geral em PVHIV em TARV inicial, Belo Horizonte, Minas Gerais (n = 307*). 

Coeficiente IC95% p
Constante 9,887 8,006 11,768 < 0,001
Crença (sim) 0,922 0,199 1,645 0,013
Reside com outras pessoas (sim) 1,00 0,26 1,65 0,008
Sinais ou sintomas de ansiedade ou depressão (alguma vez versus nunca) -0,993 -1,891 -0,096 0,0030
Sinais ou sintomas de ansiedade ou depressão (sempre versus nunca) -2,906 -4,111 -1,701 0,000
Reação adversa adicional reportada na entrevista basal -0,088 -0,184 0,007 0,070
Escore adicional na QV Global reportada na entrevista basal -0,596 -0,692 -0,500 < 0,001

QV: qualidade de vida; PVHIV: pessoa vivendo com HIV; TARV: terapia antirretroviral.

* 16 pacientes com dados faltantes em covariáveis foram excluídos do modelo final.

Com relação à adequação do modelo de regressão linear múltipla, a estatística de R2ajustado foi igual a 0,414, ou seja, o modelo explicou aproximadamente 41% da variância do incremento da QV. A estatística de Durbin-Watson foi igual a 2,02, indicando que não houve correlação entre os resíduos. Nas estatísticas de colinearidade, todos os preditores tiveram valores de tolerância acima de 0,56 e valores de VIF próximos de 1 (1,00 a 1,78). Foi verificada também a distribuição dos resíduos padronizados, sendo que se aproximaram da distribuição normal. Essa suposição foi também confirmada pelo gráfico P-P normal de regressão dos resíduos. Finalmente, o gráfico de dispersão entre os resíduos padronizados e previstos não mostrou que eles estavam aleatoriamente distribuídos; portanto, o modelo desenvolvido apresenta bom ajuste.

DISCUSSÃO

Os indivíduos em início de TARV desta coorte apresentaram incremento na QV, sendo que possuir crença e morar com outras pessoas associaram-se positivamente à QV, enquanto possuir sinais ou sintomas de ansiedade e depressão, alguma vez ou sempre, e RAM adicional reportada foram preditores associados a pior QV.

As características dessa população foram semelhantes às de outros estudos11 , 12 e boletins epidemiológicos13 , 14 , com predominância de indivíduos do sexo masculino, jovens, cor de pele autodeclarada não branca e com alta escolaridade.

O presente estudo mostrou que, ao longo do tempo, indivíduos em uso inicial de TARV apresentaram aumento no escore global de QV, consonante com pesquisas anteriores15 .

A maior diferença média de QV observada no domínio físico, no qual são avaliados aspectos como dor, desconforto, energia, sono e repouso, pode estar relacionada ao uso de TARV. Esta provoca alterações no curso da infecção, como desaceleração da progressão da imunodeficiência provocada pelo vírus HIV e restauração da resposta imunológica dos indivíduos – consequentemente, pode impactar positivamente na vida das pessoas18 .

No domínio relações sociais, em que foram avaliadas questões relacionadas a aceitação do diagnóstico, apoio familiar, relacionamento interpessoal e vida sexual, foi observada menor diferença média de QV. A relação social é um complicador para as PVHIV, uma vez que a infecção pelo vírus pode ser uma condição de saúde estigmatizante, que envolve sentimentos de discriminação e, consequentemente, falta de apoio social e sentimentos de solidão. Considerando que esses fatores dificilmente serão influenciados pelo uso da TARV, é importante ressaltar a necessidade de melhorar as relações pessoais e o suporte social para esses indivíduos15 .

Foi demonstrado aumento estatisticamente significante no componente de percepção global da QV. Os benefícios dos medicamentos na QV podem ser explicados pela redução dos sintomas clínicos da infecção. Ou seja, isso reforça a necessidade de vinculação e retenção dos indivíduos ao serviço de saúde e adesão ao tratamento.

Alguns fatores comportamentais, sociodemográficos, clínicos e relacionados a TARV mostraram relação com a alteração na QV em indivíduos no início da TARV, sendo esses achados condizentes com a literatura científica15 .

Sentimentos de culpa, solidão e receio da morte, comumente reportados por PVHIV, estão relacionados ao exercício da espiritualidade e crenças religiosas12 , 21 , o que contribui para o aumento da QV e da saúde do indivíduo. Fé e crenças religiosas são importantes estratégias de enfrentamento de condições de saúde como o HIV, quando aliadas a TARV11 , 21 .

Nossos resultados destacam a importância do envolvimento familiar para a redução do estigma e do preconceito relacionados ao HIV. Em outro estudo utilizando o mesmo instrumento, porém com delineamento transversal22 , realizado na região Sul do Brasil, foi demonstrado que os indivíduos que moravam sozinhos apresentaram 30% de propensão a pior QV no domínio relações sociais. Um menor suporte emocional durante o tratamento poderia explicar parcialmente os resultados encontrados. Outro estudo transversal, realizado com 100 PVHIV no Nepal, utilizando o instrumento WHOQOL- bref , demonstrou que um bom apoio familiar tem maior impacto no incremento de QV, sendo estatisticamente associado à QV geral23 .

Sinais ou sintomas de ansiedade e depressão são fatores que podem limitar a QV de PVHIV24 . Existem evidências de que depressão e ansiedade são mais frequentes em PVHIV do que na população em geral25 , o que pode exercer influência negativa no comportamento do indivíduo e contribuir para dificuldades em relação ao tratamento e ainda para pior adesão a TARV26 . O impacto de sintomas psiquiátricos na QV de PVHIV também acontece devido a uma deterioração do sistema imunológico e consequente aumento da progressão da doença, justificados pelo nível aumentado de estresse e sintomas depressivos27 . Apesar de a HADS não ser utilizada com fins diagnósticos, e sim para avaliar sinais e sintomas de ansiedade e depressão, foi observada associação entre esses sinais e sintomas e a redução da QV nas PVHIV nas entrevistas de acompanhamento, o que evidencia a importância do acompanhamento por um profissional de saúde (psicólogo, psiquiatra, entre outros) nos serviços onde esses indivíduos estão sendo acompanhados. Em outro estudo sobre QV do grupo Ecoart, de delineamento transversal, realizado com 366 indivíduos em Belo Horizonte, estiveram associados a menor QV indivíduos solteiros, com outras comorbidades, com menor nível educacional, tabagistas, com sinais e sintomas de ansiedade e depressão4 . Em outro estudo, com delineamento transversal com PVHIV, realizado em Camboja, onde foram avaliadas 150 pessoas, os autores sugerem forte associação entre o incremento da QV avaliado pelo escore global de QV e pelos seis domínios do WHOQOLHIV- bref e a ausência de sinais ou sintomas de ansiedade e depressão28 .

Neste estudo, observou-se que a cada RAM adicional relatada por indivíduos em tratamento houve maior redução na QV, ou seja, quanto maior é o número de RAM relatadas, maior é a redução na QV. Este resultado é similar ao de outro estudo realizado no Brasil, que descreveu o menor número de RAM a TARV como um dos fatores associados à melhora da QV29 . A ocorrência de RAM pode afetar física e psicologicamente a realização de atividades profissionais e pessoais e, consequentemente, a QV de indivíduos em tratamento5 . A monitorização do uso de antirretrovirais é importante ferramenta para avaliar a segurança desses medicamentos na prática clínica5 e garantir melhor assistência e satisfação dos indivíduos com o tratamento29 .

Ao compararmos os indivíduos em uso do esquema TDF/3TC + DTG com aqueles em uso de TDF/3TC/EFV ou outros esquemas, não foram observadas diferenças estatisticamente significantes na diferença média de QV geral, o que pode ser explicado por parte da população do estudo Ecoart ter iniciado o uso dos ARV mesmo assintomático, em função da mudança do protocolo de tratamento de HIV pelo MS. Portanto, esses indivíduos podem não ter reconhecido a melhora na QV com o uso da TARV, independentemente do esquema utilizado. Este estudo apresenta como limitação a incompletude dos dados do Sistema de Controle de Exames Laboratoriais (Siscel), como contagem de linfócitos TCD4+ e CV. Para minimizar essa limitação, consideramos os dados do período de três meses anteriores e posteriores à segunda entrevista de acompanhamento, resultando em baixo percentual de dados faltantes.

Como pontos positivos, deve-se ressaltar que o estudo é longitudinal, que a coleta de dados foi realizada com rigor metodológico e em locais representativos da PVHIV de Belo Horizonte, o número elevado da amostra e a robustez do modelo final obtido por meio de análise multivariável. Além disso, o WHOQOLHIV- bref é um instrumento que avalia a QV nas duas semanas anteriores à entrevista; assim, potenciais vieses de memória foram minimizados.

Novos estudos em PVHIV com maior tempo de seguimento, utilizando o WHOQOLHIV- bref , bem como outros instrumentos, são necessários para mensurar as alterações na QV desses indivíduos e contribuir para o direcionamento de ações e intervenções dos profissionais de saúde que podem contribuir para aumentar a QV em PVHIV.

Conclui-se que, ao longo do tempo, PVHIV iniciando a TARV apresentaram melhora na QV. Há necessidade de acompanhar e prover cuidados de saúde, em especial para indivíduos com sinais e sintomas de ansiedade e depressão e que relatam reações adversas no início do tratamento.

Este estudo pode contribuir para o planejamento e o direcionamento de ações e políticas públicas, bem como para identificar fatores modificáveis que possam aumentar a QV desses indivíduos.

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Financiamento: O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (CDS - APQ-03938-16). JOC e JMC receberam bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -Brasil (CAPES), código de financiamento 001.

Recebido: 11 de Julho de 2020; Aceito: 6 de Fevereiro de 2020

Correspondência: Gabriela Sales Pimentel Faculdade de Farmácia da UFMG Av. Presidente Antônio Carlos, 6627, sala 1023 B2 31270-901 Belo Horizonte, MG, Brasil E-mail: gabisalespimentel09@hotmail.com

Contribuição dos Autores: Concepção e planejamento do estudo: GSP, MRS, MGBC, JOC, JCM, PFB. Coleta de dados: GSP, JOC, JCM. Análise e interpretação dos dados: GSP, JOC, JCM. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito e assumem a responsabilidade pública pelo seu conteúdo.

Conflito de Interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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