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Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo

Print version ISSN 0036-4665

Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo vol.41 n.2 São Paulo Mar./Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0036-46651999000200001 

EDITORIAL

REVISTA DO INSTITUTO DE MEDICINA TROPICAL DE SÃO PAULO: QUARENTA ANOS DEPOIS

 

Luís REY*

 

 

Assim que foi criado o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, em 1959, tive ensejo de discutir com seu fundador e primeiro diretor, o Prof. Carlos da Silva Lacaz, sobre a possibilidade e interesse de editarmos uma revista científica do Instituto, que abrisse maiores oportunidades aos médicos e pesquisadores para a difusão de informações científicas no campo das doenças prevalentes nos países tropicais e, particularmente, em nosso país. O Prof. Lacaz, que pensava do mesmo modo, autorizou-me a iniciar essa aventurosa e arriscada tarefa, visto que uma revista que não tenha assegurada sua regularidade e continuidade está condenada a ser um cemitério de informações científicas.

Alguns colegas mais cépticos, tentaram dissuadir-me do projeto, dizendo que já havia muitas e boas revistas de âmbito internacional, onde mais convinha publicar os trabalhos de certo mérito, pois, um periódico nacional correria o risco de só publicar artigos de segunda classe ou recusados pelos grandes editores. Não me impressionaram tais argumentos por duas razões:

Primeiro, porque nem sempre as revistas internacionais constituem o melhor veículo para informar o público alvo (que no caso eram os médicos e a gente brasileira), nem sempre com acesso fácil a publicações estrangeiras e nem sempre com disposição para informar-se em uma língua que não é a sua. Sempre fui de opinião que um artigo científico ou de divulgação deve ser escrito na língua do público a que se destina: se a um auditório internacional, em idioma de uso internacional, sobretudo em inglês. Mas, se quizermos ajudar nossos patrícios com informações e experiências técnicas para dotá-los de maiores recursos para a luta pela saúde de nosso povo, há que escrever em português, e pronto. Publicar artigos de interesse regional em inglês ou outro idioma é preparar-se para dupla frustração, porque será muito pouco lido aqui e despertará pouco interesse alhures. Mesmo quando o trabalho a publicar for de interesse geral, mas estamos empenhados em que sirva à solução de nossos problemas ou à elevação da cultura de nossos médicos, manda o bom senso que se escreva em português.

A segunda razão é que pensávamos então, e a experiência de tantos anos confirmou nossa convicção, que devemos abandonar a mentalidade colonial e deixar de pensar que ciência é patente dos povos mais ricos ou com maior tradição cultural, cabendo-nos, quando muito, contribuir com nosso esforço para maior brilho das publicações internacionais. Um país que se preza deve trabalhar por seu desenvolvimento em todas as áreas, e particularmente no âmbito cultural, de que depende o futuro das nações. Todo esforço no sentido de difundir conhecimentos e de estimular as novas gerações para que assumam suas responsabilidades no campo da pesquisa e do progresso tecnológico é da mais alta importância. Assimilar todo o acervo científico produzido por outros povos é essencial; mas caminhar no sentido da auto-suficiência em questões básicas e de valorização de nosso trabalho científico, mobilizando mais gente para ele, criando massa crítica de cientistas e tornando o conhecimento acessível aos mais amplos setores da população, é fundamental. Um exemplo: a descoberta da doença de Chagas, o estudo de sua patologia e de sua epidemiologia, bem como o encontro de uma metodologia capaz de controlar a endemia e assegurar, para um futuro próximo, sua erradicação, é um produto quase exclusivamente brasileiro (no máximo, latino-americano). Porque, então, andar com complexos de inferioridade?

A Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo atravessou quatro décadas, dirigida firmemente, depois de 1964, pelo Prof. Lacaz e nos últimos anos pelo Prof. Thales de Brito, tornando-se um dos mais importantes e abalizados repositórios de informação sobre medicina tropical a nível internacional.

Vivemos uma época de grandes mudanças no mundo. Vemos nações e povos deixando o terceiro mundo para disputar lugar entre os grandes, que já não nos parecem tão grandes, tais os sinais de declínio que exibem. A história ensina que a cultura já foi sumeriana (há 4.000 anos), egípcia, grega, romana, árabe etc. e habitou muitos países da Europa, onde se tornou científica e deixou profundas raízes. Tendo ela forte afinidade por países ricos, migrou depois para a América do Norte. Quanto tempo permanecerá por lá?

O Brasil cresce a olhos vistos, sua cultura científica também, em que pese o desprezo de seus governantes pela educação e a saúde. Os governantes passam, mas o povo fica. Trabalhar no sentido do crescimento cultural e sua difusão no país é dever moral de todo profissional responsável. As publicações científicas, como as universidades, são recursos da maior importância para avançarmos no bom caminho.

Aos 81 anos, orgulho-me da contribuição, ainda que modesta, que me foi possível fazer em prol da literatura médica no Brasil e em países irmãos, como organizador da "Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo" (1959-1964), reanimador da "Revista Latinoamericana de Microbiologia" (México, 1966-1967) e fundador da "Revista Médica de Moçambique" (l982-l983). Também trouxe-me imensa satisfação poder dotar nossos estudantes de medicina com dois livros de "Parasitologia", em português, voltados para os problemas do Brasil e dos trópicos ocidentais. Finalmente, pois que meu entusiasmo pela medicina com cores brasileiras não se esgota, saiu em janeiro de 1999 um novo "Dicionário de Termos Técnicos de Medicina e Saúde" (825 páginas), que organizei com o apoio de uma centena de profissionais competentes desta terra.

Não tenho dúvidas sobre os êxitos do Brasil de amanhã. E viva a "Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo".

 

Rio de Janeiro, março de 1999
Prof. Dr. Luís Rey

 

 

* Por solicitação do Prof. Luis Rey, primeiro editor da Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, este Editorial Comemorativo foi excepcionalmente mantido em português.