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Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo

Print version ISSN 0036-4665

Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo vol.48 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0036-46652006000600014 

BOOK REVIEW*

 

 

MARCONDES, Carlos Brisola - Terapia larval de lesões de pele causadas por diabetes e outras doenças. Florianópolis, Editora da UFSC, 2006. 88p. ilus. ISBN 853280352-0

As lesões cutâneas são bastante comuns, e é frequente a ocorrência de dificuldades de cura, em geral naquelas ligadas a diabetes. A permanência prolongada em leitos, especialmente em idosos, e certas infecções, particularmente com bactérias resistentes a antibióticos de vários tipos, dificultam a recuperação desses ferimentos, levando a riscos de amputação e mesmo ao óbito. Com mais de dez milhões de diabéticos no Brasil, a quantidade de casos de feridas com dificuldades para cura é muito grande.

Várias técnicas têm sido utilizadas para auxiliar na cura de lesões cutâneas, associadas a géis e antibióticos modernos, mas os tratamentos são demorados, caros e nem sempre eficazes.

A observação de que as larvas de certas moscas podem ajudar a limpar ferimentos e apressar a cura levou à chamada terapia larval, que teve seu apogeu entre as guerras mundiais. Após 1945, com o desenvolvimento de vários antibióticos, desenvolveram-se certa euforia e arrogância, deixando-se de lado o uso desta técnica para o tratamento de feridas.

Em pouco tempo, percebeu-se que os antibióticos levavam à resistência, e que os tratamentos eram caros e resolviam somente parte dos casos, não conseguindo impedir consequências graves, como as amputações. Essas dificuldades proporcionaram o ressurgimento do interesse pela terapia larval, a partir da década de 1980. Com base em trabalhos realizados nos Estados Unidos (Califórnia - Dr. R. A. Sherman) e no Reino Unido (Drs. S. Thomas e J. Church), numa feliz associação entre médicos e biólogos, a terapia larval passou a ser utilizada, com grande sucesso. Atualmente, dezenas de milhares de pacientes com feridas de várias origens (diabetes e/ou escaras de leito, queimaduras, fasciite necrotizante etc.) já foram tratados nos Estados Unidos e em vários países da Europa, principalmente no Reino Unido, Alemanha, Holanda e Suécia. Já há produção de moscas em vários países, com empresas e institutos obtendo bom rendimento com esta técnica de biotecnologia.

As moscas são consideradas pela maioria das pessoas como seres nocivos ou, no mínimo, repulsivos. Este grupo realmente inclui várias espécies prejudiciais à saúde de humanos e de animais domésticos, como Musca domestica (mosca doméstica), Cochliomyia hominivorax (mosca da bicheira) e Dermatobia hominis (berne).

Algumas moscas, por se alimentarem de tecidos animais em decomposição, podem destruir material necrosado e, por uma série de mecanismos, auxiliar na cura de lesões cutâneas. Fazem parte do que foi chamado, de forma brilhante, de "grande farmácia da natureza", Die Grösse Apotheke der Natur (Fleischmann; Grassberger, 2002). De fato, muitos animais desenvolveram substâncias e ações potencialmente úteis para o homem.

A terapia larval pode ser muito útil, especialmente em países e regiões de nível socioeconômico precário, por seu baixo custo e grande eficiência. Envolve tecnologia simples que pode ser desenvolvida em pequenos laboratórios, com pouco pessoal e praticamente sem depender de material sofisticado e/ou importado para a sua aplicação.

Com o aumento da proporção de idosos na população, da incidência de diabetes e de internações por várias patologias, tem aumentado a quantidade de casos de lesões de difícil cura, como as escaras de leito e as feridas ligadas a diabetes. A resistência a vários antibióticos, mesmo os mais modernos, como a meticilina, aumenta o interesse por esta terapia, já que as larvas não são influenciadas por esta resistência, destruindo bactérias de forma bastante eficiente.

A presente obra expõe as informações básicas sobre a terapia larval para uso de profissionais da área médica, especialmente aqueles envolvidos diretamente com o tratamento de feridas cutâneas, como clínicos gerais, cirurgiões, enfermeiros e auxiliares de enfermagem. Pelos detalhes sobre a criação e o fornecimento das moscas, pretende incentivar e auxiliar entomologistas interessados em se iniciar neste campo tão útil e potencialmente lucrativo. Adicionalmente, fornece informações básicas sobre a identificação das moscas mais utilizadas para a terapia, indicando, quando necessário, a consulta à bibliografia especializada e a especialistas na área, citados no texto. Pretende contribuir para a disseminação dessa interessante técnica e para a melhoria da qualidade no tratamento das feridas cutâneas, além de incentivar as pesquisas nessa área, no Brasil e em outros países da América Latina.

(Cópia da Introdução)

 

Editora da UFSC
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* This book is available at the Library of the Instituto de Medicina Tropical de São Paulo