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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.15 no.1 Uberaba Jan./Dec. 1982

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86821982000100009 

Epidemia de hepatite veiculada por gamaglobulina contaminada *

 

 

Anastácio Ferreira MorgadoI; Joir Gonçalves da FonteII; Maria Guiomar Pereira da SilvaIII; José Rodrigues CouraIV; Hermann Gonçalves SchatzmayrV; Léa Camillo CouraVI

IProf. Assistente de Epidemiologia da Escola Nacional de Saúde Publica — Fundação Oswaldo Cruz. Caixa Postal no 8016
IIProf. Titular de Epidemiologia, Chefe do Depto de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública — Fundação Oswaldo Cruz
IIIEpidemiologista da Secretaria de Saúde do Município do Rio de Janeiro
IVProf. Titular de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da U.F.R.J. Chefe do Depto de Medicina Preventiva da U.F.R.J.
VPesquisador Titular e Chefe do Laboratório de Vírus do Instituto Oswaldo Cruz. Fundação Oswaldo Cruz
VIProfessor Adjunto do Departamento de Medicina Preventiva da UFRJ. Orientadora da tese

 

 


RESUMO

Os autores estudaram uma epidemia de Hepatite B em uma instituição localizada no bairro de São Cristovão na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Ocorreu um total de 35 casos: 30 entre os funcionários da instituição e cinco entre familiares de funcionários. Todos os casos foram considerados de hepatite aguda benigna; apenas dois não tiveram icterícia. Clinicamente, chamou-lhes a atenção um importante envolvimento articular: artralgias intensas, com grande restrição dos movimentos, durante o período de incubação e que regrediram completamente logo que a icterícia tornou-se evidente. A distribuição cronológica foi típica de infecção simultânea em fonte única. A investigação epidemiológica revelou que essa fonte foi um produto terapêutico derivado do sangue humano: gamaglobulina. As injeções foram feitas com seringas descartáveis e, ironicamente, com o objetivo de prevenir hepatite. Em dois dias de aplicação, cerca de 120 funcionários receberam a injeção de gamaglobulina, entre os quais 27 desenvolveram hepatite. O período de incubação médio foi de 116 dias. 0 Ag HB, testado em 26 pacientes, foi positivo em 12 (46,2%); oito pacientes com tempo de doença inferior a duas semanas, foram todos positivos. O surto epidêmico ocorreu em condições que caracterizaram um estudo experimental, não planejado, em seres humanos.
Os autores estudaram, além do surto epidêmico de São Cristovão, oito casos vinculados ao serviço hospitalar onde trabalhavam. Esses casos apresentaram características que os distinguiram dos casos de hepatite comumente all tratados. Todos os pacientes eram de elevada classe social, com o antecedente de terem tomado injeção de gamaglobulina, da mesma procedência daquela que originou o surto epidêmico de São Cristovão. Nesses casos o período de incubação médio foi de 106 dias. Seis dos oito pacientes foram testados para o Ag HB, que foi positivo em cinco.
Onze partidas da gamaglobulina foram testadas, em laboratórios de referência da Organização Mundial de Saúde, encontrando-se o Ag HB em seis (54,5%J.
Os autores concluem que houve alguma falha grave no processo de preparo da gamaglobulina em apreço. E por isto deve-se ter reservas quanto á noção difundida de que esse medicamento está isento do risco de transmitir o vírus hepatite.


ABSTRACT

The authors studied an epidemic of hepatítis B occurring in an institution located in the São Cristovão section of the city of Rio de Janeiro, Brasil. Of a total of 35 cases detected, 30 ocurred in employees of the institution and 5 in family members of the employees. All the cases were considered as benign acute hepatitis; all but two were iteric. Clinically, a marked articular involvement was noted, with intense arthralgia and pronounced restriction of movement, which regressed completely as soon as jaundice became evident. The chronological distribution was typical of simultaneous infection from a single source. Epidemiological investigation indicated that the source was commercially prepared pooled human gamma globulin. Ironically, injections were given, as prophylaxis against hepatitis with disposable syringes. During two days of application, approximately 120 employees received gamma globulin injections, among whom 27 developed hepatitis with a mean incubation period of 116 days. Twenty six patients were tested for HBAg, with positive results in 12 (46.2%); 8 patients tested during the first two weeks of overdisease were all positive. The epidemic outbreak occurred in conditions, though not premeditated, approximating to those of an experimental study.
In addition to the São Cristovão epidemic, the authors studied 8 cases seen at the hospital Service where they worked. These cases presented characteristics distinguishing them from the the type of hepatitis case commonly treated in that hospital. All these 8 patients were of elevated socioeconomic conditions, and all had a history of having received injections of gamma globulin from the same commercial source as that which gave rise to the São Cristovão epidemic. In these cases the mean incubation period was 106 days, and 5 of 6 patients tested were positive for HB Ag.
Eleven lots of gamma globulin were tested in reference laboratories of the World Health Organization, six of these (53,5%) were positive for HB Ag.
The authors conclude that there was a serious lapse in the process of preparation of the gamma globulin in question. It is recommended that the widespread assumption that this product is free of risks of transmitting hepatitis virus should be accepted with reservation.


 

 

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* Trabalho já apresentado sob forma de tese por Morgado (13)

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