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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.30 n.3 Uberaba May/June 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86821997000300004 

AUSÊNCIA DE YERSINIA ENTEROCOLITICA EM ALIMENTOS, E RESERVATÓRIOS ANIMAIS, EM ÁREAS DO ESTADO DE PERNAMBUCO, BRASIL

Tereza Cristina Arcanjo Leal, Nilma Cintra Leal e Alzira Maria Paiva de Almeida

 

 

Através das análises efetuadas, em 96 amostras de hortaliças cruas, coletadas em 5 restaurantes da cidade do Recife, que servem almoço no peso, não foram encontradas Yersinia enterocolitica nem outras enterobactérias patogênicas. As análises realizadas a partir dos "swabs" orais e retais, obtidos em 15 suínos aparentemente sadios do município de Bonito, no Estado de Pernambuco, também não evidenciaram a presença de Y. enterocolitica. Foram obtidas amostras para análises em 22 roedores e um espécimen de marsupial, entre os quais também não foram encontrados nem Y. enterocolitica nem outros enteropatógenos.
Palavras-chaves: Yersinia enterocolitica. Alimentos refrigerados. Reservatórios animais.

 

 

Yersinia enterocolitica, bactéria Gram-negativa, da família Enterobacteriaceae, é um patógeno emergente, que está se disseminando ultimamente em todo o mundo. Sua incidência em alguns países, como agente de diarréia, é equivalente a de Salmonella e Campylobacter1. A espécie é muito heterogênea do ponto de vista bioquímico, sorológico, níveis de patogenicidade e repartição geográfica. As cepas de Y. enterocolitica estão distribuídas em mais de 60 sorotipos; entretanto, apenas alguns são patogênicos3. Anteriormente, alguns sorotipos patogênicos (O:8; O:13; O:18; O:20; O:21), só eram encontrados nos USA e ficaram conhecidos como sorotipos "Americanos" enquanto os demais foram designados, "Não Americanos"17. Nos últimos anos, a prevalência de Y. enterocolitica tem aumentado e sua repartição geográfica está se modificando. Atualmente, a incidência do sorotipo O:3 está aumentando nos USA e o sorotipo O:8 vem gradualmente se dispersando pelo mundo11 12 17. Os suínos são considerados reservatórios de Y. enterocolitica porque os sorotipos patogênicos para o homem são freqüentemente encontrados na orofaringe e fezes desses animais. Também existem portadores humanos, sãos ou doentes4 19.

Y. enterocolitica tem a propriedade de se desenvolver a 4oC, o que permite sua multiplicação nos alimentos refrigerados (vegetais crus, leite e derivados, carne e derivados) provocando surtos de diarréia18. Também pode se multiplicar em bolsas coletoras de sangue, a partir de doadores portadores-assintomáticos e acarretar acidentes sépticos pós-transfusionais19.

Na cidade do Recife, o número de restaurantes que serve refeições "no peso" está aumentando. Nesses estabelecimentos pode-se encontrar grande variedade de saladas frias, cruas, preparadas com antecedência e refrigeradas, para uso posterior. Considerando a possibilidade de multiplicação de Y. enterocolitica nesses alimentos, que passariam a constituir um meio de proliferação e conseqüentemente de transmissão da bactéria, realizamos uma investigação sobre a ocorrência de Y. enterocolitica em alimentos vegetais crus e nos possíveis reservatórios, no meio ambiente.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Pesquisa de Yersinia enterocolitica nos alimentos. Obtenção das amostras. As amostras (± 20g) foram coletadas em 5 restaurantes da cidade do Recife, que servem almoço no peso e transportadas para o laboratório, em copos descartáveis, envolvidos em filme de PVC. As amostras foram processadas com base nos métodos descritos mais recentemente7 8 13 16.

Cultivo das amostras. As amostras foram trituradas com bastão de vidro estéril e suspensas em 20ml de água peptonada pH 7,6. Após agitação em vortex e decantação, 1 alça do sobrenadante foi plaqueada nos meios agar MacConkey e/ou agar Salmonella-Shigella (SSA) ou Cefsulodin-Irgasan-Novobiocin agar (CIN), para isolamento direto. As placas foram incubadas a 28oC durante 24h. Os sobrenadantes de cada amostra foram conservados a +4oC para enriquecimento seletivo e submetidos a plaqueamentos sucessivos durante 3 semanas, ou mais, da maneira descrita.

Identificação das bactérias. De cada placa, 3 colônias com morfologia compatível foram submetidas à triagem preliminar pelo teste da oxidase e reações nos meios agar tríplice açúcar ferro (TSI) com Uréia e Indol (TSI/uréia/indol) e agar lisina ferro (LIA). Esta identificação presuntiva era complementada pela reação no meio agar citrato de Simmons e pela prova de triptofano desaminase (TDA). A identificação final foi realizada em galerias API 20E (bioMérieux).

Pesquisa de Yersinia e Salmonella em suínos e pequenos mamíferos. Obtenção e cultivo das amostras. As amostras para análise, dos suínos, foram coletadas imediatamente após o abate dos animais, no matadouro do município de Bonito no Estado de Pernambuco. De cada animal, foram realizados 2 "swabs": um oral para pesquisa de Y. enterocolitica e outro retal para pesquisa de Y. enterocolitica e Salmonella. Os "swabs" foram inoculados no meio Cary & Blair para serem transportados ao laboratório onde foram imediatamente plaqueados em SSA, incubados a 28oC, para isolamento direto. Paralelamente, os "swabs" orais foram inoculados em água peptonada, para enriquecimento seletivo em Y. enterocolitica a +4oC, seguindo-se do plaqueamento sucessivo durante 3 semanas, da maneira já descrita, enquanto os "swabs" retais foram inoculados diretamente em caldo tetrationato, para pesquisa de Salmonella. Após incubação a 37oC por 24h, os caldos foram plaqueados em SSA, incubados a 37oC por 24h.

Nos pequenos mamíferos, as análises foram realizadas em material de vinte e dois animais capturados no município de Amaraji/PE e transportados ao laboratório onde foram sacrificados e necropsiados. De cada animal, foi retirado um fragmento intestinal na região da junção íleo-cecal. Os fragmentos de intestino foram colocados em água peptonada e caldo tetrationato e processados como descrito, anteriormente.

Identificação das bactérias. A identificação das bactérias foi realizada como descrito acima. As culturas que apresentaram reações bioquímicas compatíveis de Salmonella, foram submetidas à prova de aglutinação com soro polivalente OH e analisadas em galeria API 20E. Para confirmação, as culturas foram enviadas ao Laboratório de Referência em Salmonella no IOC/FIOCRUZ (Rio de Janeiro/RJ).

 

RESULTADOS

Pesquisa de Yersinia enterocolitica em alimentos. No período de janeiro a agosto de 1995, foram coletadas 96 amostras de alimentos apresentados nos balcões, no horário do almoço, em 5 restaurantes da cidade do Recife, que servem refeições no peso. Foram obtidas amostras de alface, beterraba, cebola, cenoura, pepino, pimentão, repolho e tomate (cortados em tiras, fatias ou triturados) e em vários tipos de saladas cruas. Não foi encontrada Y. enterocolitica nem outra enterobactéria patogênica nas amostras analisadas.

Pesquisa de Yersinia e Salmonella em suínos e pequenos mamíferos. As análises realizadas a partir dos "swabs" orais e retais, obtidos em 15 suínos, não evidenciaram a presença de yersínias. Entretanto, foi encontrada, Salmonella spp no "swab" de garganta de um animal e nos "swabs" retais de outros dois animais.

Foram obtidas amostras para análises em roedores silvestres (8 Bolomys lasiurus e 3 Nectomys squamipes), roedores comensais (9 Rattus rattus alexandrinus e 1 Rattus rattus frugivorus), e em um marsupial (1 Didelphis albiventris) perfazendo um total de vinte e dois animais examinados. Não foi encontrada nenhuma yersínia ou outro enteropatógeno nas amostras examinadas.

 

DISCUSSÃO

Foi observada a ausência de Yersinia enterocolitica e outras enterobactérias patogênicas, em alimentos vegetais crus, servidos nos restaurantes que oferecem refeições no peso, na cidade do Recife.

Recentemente, nesta mesma cidade, Padilha e Fernandez22 também constataram a ausência de Y. enterocolitica em amostras de leite pasteurizado. Todavia, Padilha21 efetuou um isolamento de Yersinia intermedia, um de Yersinia frederiksenii e dois de Salmonella spp, nas mesmas amostras de leite. A identificação de Y. enterocolitica, em material de origem clínica, nos laboratórios de análise locais, é muito rara9 14. Considerando que a metodologia empregada na rotina desses laboratórios não visa o isolamento de Y. enterocolitica, sua ocorrência poderia estar sendo subestimada. Entretanto, no sul do Brasil, Y. enterocolitica e espécies ambientais têm sido encontradas fortuitamente ou sempre que são pesquisadas9 10. Numerosos isolamentos de Y. enterocolitica têm sido realizados em amostras clínicas na cidade de São Paulo sem emprego de nenhuma metodologia especial6. No Estado do Rio de Janeiro, esta bactéria também foi encontrada em suínos, no homem e em cães sadios15 20, em diversos alimentos comercializados (leite, carnes e derivados, vegetais crus) e na água23 24. No Rio Grande do Sul, Y. enterocolitica foi isolada de suínos diarréicos5.

Embora esporádicos, os registros do encontro de Y. enterocolitica na cidade do Recife9 14 sugerem a existência de uma fonte de infecção, a partir da qual, a bactéria poderia se disseminar em condições adequadas. Entretanto, apesar da expansão mundial da Y. enterocolitica, que vem ocorrendo nos últimos anos, das modificações da repartição geográfica de alguns sorotipos11 12 17, e mesmo do que se observa no sul do Brasil onde espécies enteropatogênicas e ambientais de yersínia são freqüentemente encontradas; no Estado de Pernambuco sua incidência ainda é discreta.

Pode-se atribuir esta desigualdade da distribuição geográfica da Y. enterocolitica no nordeste e sul do País às diferenças ecológicas existentes entre as duas regiões. No plano mundial, os maiores índices de isolamento de Y. enterocolitica têm sido registrados durante a estação invernosa nos países de clima temperado, especialmente na Escandinávia e América do Norte18. Além disso, parece existir uma divisão territorial entre Yersinia pestis (agente da peste) e as yersínias enteropatogênicas18. Como as condições ecológicas no nordeste favorecem a permanência da Y. pestis nas populações de roedores em vários focos naturais2, pode-se supor que essas mesmas condições atuem como uma barreira na disseminação das outras yersínias.

Este levantamento preliminar que demonstra a ausência de Y. enterocolitica em alimentos e animais poderá servir de referência para detectar modificações ao longo do tempo, tais como, um eventual aumento da prevalência de Y. enterocolitica entre a população humana ou sua instalação em reservatórios animais.

 

 

SUMMARY

A search for the presence of enteropathogenic bacteria in fresh vegetables obtained in 5 restaurants from the city of Recife, revealed neither Yersinia enterocolitica nor other pathogenic bacteria in 96 samples analyzed. Furthermore, Y. enterocolitica was not found in the oral and rectal swabs taken from 15 apparently healthy pigs at an abattoir in the municipality of Bonito in the Pernambuco State. Another search in which twenty one rodents from four species and one marsupial specimen were examined did not detect the presence of Yersinia and other enteropathogenic bacteria.
Key-words: Yersinia enterocolitica. Fresh vegetables. Animal reservoirs.

 

 

AGRADECIMENTOS

Ao veterinário Rodolfo Amaral pela colaboração na coleta dos "swabs" nos suínos; ao Dr. Ernesto Hofer, pela confirmação sorológica dos isolados de Salmonella; à Sra. Yara Nakasawa, Técnica de Laboratório, pela assistência técnica.

 

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Departamento de Microbiologia, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fundação Oswaldo Cruz/MS, Recife, PE.
Trabalho financiado pela FACEPE, Processo: APQ.0237-2.12/94.
Endereço para correspondência: Drª Alzira de Almeida.
CPqAM/FIOCRUZ/MS. Campus da UFPE. Caixa Postal 7472, Cidade Universitária, 50670-420, Recife, PE, Brasil.
Fax: (081) 453 1911.

Recebido para publicação em 23/09/96.

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