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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.30 n.5 Uberaba Sept./Oct. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86821997000500006 

PREVALÊNCIA DE AEROMONAS SPP EM FEZES DIARRÉICAS DE CRIANÇAS MENORES DE 5 ANOS DE IDADE NA CIDADE DE GOIÂNIA, GOIÁS, NO BIÊNIO 1995 - 1996

Idalina Thiomi Inumaru Nojimoto, Cícera Simone Catão Bezana, Cíntia do Carmo, Leda Maria Valadão e Kalinka de Melo Carrijo

 

 

Foram analisadas 163 amostras de fezes de crianças com idade abaixo de 5 anos no período de 1995 a 1996, sendo 91 de fezes diarréicas e 72 de fezes não diarréicas. O material foi coletado em meio para transporte e submetido ao processo de enriquecimento a 4oC por 7 dias. Para o isolamento primário foi utilizado ágar amido ampicilina e incubado a 35oC por 18 a 24 horas. Foram isoladas 20 (21,9%) das seguintes espécies: Aeromonas A. caviae (7,7%), A. salmonicida salmonicida (6,6%), A. sobria (4,3%), A. hydrophila (2,2%) e Salmonicida achromogenes (1,1%). Nenhuma Aeromonas spp foi isolada dos 72 pacientes-controles. A susceptibilidade das amostras de Aeromonas spp aos antimicrobianos foi maior com a ciprofloxacina, diminuindo gradativamente com cloranfenicol, gentamicina, ampicilina e eritromicina.
Palavras-chaves: Aeromonas sp. Patógeno intestinal. Diarréia.

 

 

Os membros do gênero Aeromonas vêm sendo reconhecidos como importantes patógenos intestinais e extraintestinais de humanos e em variedade de outros vertebrados e invertebrados incluídos peixes, anfíbios e aves7.

O gênero Aeromonas pertence à família Vibrionaceae e é constituído de bacilos gram-negativos móveis (com flagelação predominantemente polar), anaeróbios facultativos, psicrofílicos e ubíquos13.

Atualmente existem descritas 8 espécies de Aeromonas fenotipicamente distintas, a saber: A. hydrophila, A. caviae, A. sobria, A. media, A. veronii, A. eucrenophila, A. schubertii e A. salmonicida; esta última com 4 subespécies: salmonicida, masoucida; achromogenes e smithia.

A presença de Aeromonas spp como patógeno presente no Brasil está escassamente documentada, entretanto a literatura estrangeira mostra a sua incidência em muitos países, responsabilizando-a por gastroenterites.

A investigação epidemiológica de Aeromonas spp associada à diarréia na América do Norte, Europa e Sudeste da Ásia tem demonstrado substancial variação geográfica quanto à freqüência do isolamento e a intensidade da doença associada a este microrganismo17.

A A. hydrophila e A. sobria foram encontradas mais freqüentemente em pacientes com diarréia na Austrália, Tailândia e Bangladesh, enquanto A. caviae tem predominado na Europa e nos EUA13 17.

Os estudos que apontam Aeromonas spp como sendo responsáveis por gastroenterites se concentram na suspeita de transmissão através da água9 6. Alternativamente, Buchaman4, sugeriu a hipótese de transmissão através de alimentos, predominantemente durante períodos quentes.

O significado clínico de Aeromonas spp e seu potencial em causar diarréia tem sido alvo de investigações. Resultados destes estudos sugerem que Aeromonas spp causam gastroenterites variando de diarréias agudas em crianças a diarréias crônicas em adultos e que podem persistir por 4 a 6 semanas em pacientes não tratados15. Em idosos pode-se observar enterocolite, vômito, febre e leucócitos nas fezes13.

Têm sido estudados fatores extracelulares como proteases, amilases e elastases e ainda enterotoxinas, citotoxinas e hemolisinas para se elucidar o mecanismo pelo qual espécies de Aeromonas produzem diarréias6 7. Michael e cols14 identificaram um grupo de A. hydrophila e A. sobria que dividiam um fenotipo comum associado a infecções sistêmicas humanas.

Burke e cols5 avaliando os microorganismos responsáveis pela diarréia infantil demonstraram que as espécies de Aeromonas produtoras de enterotoxinas apresentam biotipos similares. Foram verificados que testes para detecção de hemolisina discriminaram amostras enterotóxicas das não-enterotóxicas com 97% de precisão nestes estudos. Em um estudo da associação de A. sobria com infecção humana Daily e cols6 demonstraram que as linhagens citotóxicas isoladas apresentavam atividade hemolítica.

Gracey e cols10 analisando a importância de Aeromonas spp como patógeno entérico e avaliando métodos para a sua detecção, sugeriram que estes microrganismos precisam ser avaliados rotineiramente nos laboratórios de diagnóstico e nos estudos epidemiológicos da gastroenterite infantil.

O presente trabalho tem como objetivo fornecer subsídios para o conhecimento da epidemiologia de Aeromona spp em Goiânia, uma vez que não dispomos de dados a respeito deste agente nesta cidade. Assim, propomos: proceder o isolamento de Aeromonas spp em amostras fecais diarréicas de crianças menores de 5 anos de idade na cidade de Goiânia; determinar o perfil de sensibilidade aos antimicrobianos; indicar seu potencial de patogenicidade através da análise da atividade hemolítica.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram coletadas em caldo de soja tripticaseína tamponado amostras de fezes de crianças menores de 5 anos de idade sem antibioticoterapia de fezes diarréicas e de não diarréicas. As fezes foram coletadas no ambulátorio do Centro Materno Infantil, Laboratório Rômulo Rocha da UFG, Hospital das Clínicas da UFG, e Creche Obra do Berço. As amostras foram analisadas por dois procedimentos: cultivo primário e método de enriquecimento a frio16.

Métodos bacteriológicos. Cultivo primário: foi feito o plaqueamento direto das fezes no meio ágar amido ampicilina, preparado no nosso laboratório pela adição das seguintes substâncias: vermelho de fenol (0,025g/l), ampicilina (10mg/l); ágar (12g/l), amido (10g/l) e extrato de carne (5,0g/l). Em seguida foram incubadas a 37oC/24 horas.

Método de enriquecimento a frio: as amostras de fezes foram semeadas no caldo de soja tripticaseína tamponado (Biobrás) e foram incubadas a 4oC por sete dias e plaqueadas em ágar amido ampicilina e reincubadas a 37oC/24horas.

Isolamento e identificação: as colônias típicas, e aquelas que hidrolisaram o amido, foram semeadas em ágar tríplice açúcar ferro (Biobrás) e incubadas a 37oC/24h. Foram feitos os testes de oxidase e catalase e a identificação confirmada pelos seguintes testes bioquímicos: motilidade, indol, H2S, arginina, esculina, glicose/gás, sacarose, manitol, arabinose16.

Teste de sensibilidade aos antimicrobianos: as amostras isoladas foram submetidas a teste de sensibilidade aos seguintes antimicrobianos (Biolab): tetraciclina (30µg), ciprofloxacina (5µg), cefalotina (30µg); sulfadiazina-trimetoprim (25µg), ampicilina (10µg), eritromicina (15µg), gentamicina (10µg), cloranfenicol (30µg) e ácido nalidíxico (30µg). Foi utilizado método de difusão em discos, seguindo as normas do National Comitte for Clinical Laboratory Standards.

Ensaio de hemolisina: as amostras foram testadas para a atividade hemolítica, em placas de ágar sangue, contendo 5% de sangue de coelho desfibrinado e incubadas a 37oC/24h12.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram analisadas 163 amostras sendo 91 de fezes diarréicas e 72 de fezes não diarréicas. Nas 91 amostras de fezes diarréicas foram isoladas 20 (21,9%) Aeromonas spp, sendo caracterizadas cinco espécies (Tabela 1). Tais dados mostram a associação entre Aeromonas sp e diarréia em crianças (Tabela 1). Em 72 amostras de fezes não diarréicas não foi detectada a presença de Aeromonas.

 

 

As espécies de Aeromonas envolvidas com diarréia infantil foram semelhantes porém a freqüência foi maior do que a pesquisada por Moyer15, que detectou uma incidência de 10,5% e responsabilizou principalmente a A. sobria e A. hydrofila como causadores de diarréia aguda e a A. caviae como causadora de diarréia crônica.

Os resultados obtidos mostram que o isolamento de Aeromonas spp, utilizando-se ágar amido ampicilina foi altamente específico. Esses dados são similares aos citados por Alabi e Odugbemi2 sobre as características bioquímicas no esquema para identificação de espécies de Aeromonas spp. Os nossos estudos também confirmaram o valor da utilização do manitol na diferenciação com a Pseudomonas shigelloides.

O teste de sensibilidade aos antimicrobianos revelou que todas as amostras foram sensíveis à ciprofloxacina a maioria foi resistente à ampicilina e à eritromicina (Tabela 2). O espectro e a diferença de suscepbilidade aos agentes antimicrobianos de espécies de Aeromonas foram similares com os relatados por Michael e cols14 e por Mamizuka e cols13.

 

 

A atividade hemolítica foi verificada em 65% das amostras revelando-se ß-hemolíticas. Nos estudos de Burke e cols5 os ensaios para hemolisina discriminaram as amostras enterotóxicas das não-enterotóxicas. Através da análise da atividade hemolítica dentro das espécies foi detectado que todas as A. hydrophila e A. caviae mostraram-se produtoras de hemolisinas. Algumas cepas contudo não demonstraram atividade hemolítica sugerindo que outros determinantes possam estar envolvidos na regulação de patogenicidade.

 

 

SUMMARY

From 1995 through 1996, 163 fecal specimens of children aged under 5 years were analysed, 91 being from diarrhea feces and 72 without diarrhea. The material was collected in transport medium and submitted to the enrichment procedure at 4oC for 7 days. For the primary isolation starch ampicillin agar was used and incubated at 35oC for 18 to 24 hours. Twenty (20.9%) from the following specimens were isolated: Aeromonas A. caviae (7.7%), A. salmonicida salmonicida (6.6%), A. sobria (4.3%), A. hydrophila (2.2%) e Salmonicida achromogenes (1.1%). No Aeromonas spp was isolated from the 72 control subjects. The Aeromonas spp susceptibility to antimicrobian was greater with ciprofloxacin, being this susceptibility gradually diminished with chloranphenicol, gentamicin, ampicillin and erythromycin.
Key-words: Aeromonas spp. Intestinal pathogens. Diarrhea.

 

 

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Departamento de Microbiologia do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO.
Endereço para correspondência: Profª Idalina Thiomi Inumaru Nojimoto. R. Delenda de Rezende s/nº, Setor Universitário, 74065-050 Goiânia, GO.
Recebido para publicação em 12/11/96.

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