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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.34 n.4 Uberaba jul./ago. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822001000400001 

ARTIGO

Estudo clínico durante 13 anos de 190 chagásicos crônicos de Mambaí, Goiás, Brasil

A folow-up period of 13 years prospective study in 190 chagasic patients of Mambaí, Goiás, State, Brazil

 

Cleudson Castro1, Aluizio Prata2 e Vanize Macêdo1

 

 

Resumo Foram estudados prospectivamente 190 chagásicos, do ponto de vista clínico, eletrocardiográfico e abreugráfico do esôfago, no período médio de 13 anos, sendo encontrados 108 (56,8%) com a forma clínica inalterada, 72 (37,9%) com doença progressiva e 10 (5,3%) nos quais houve normalização do eletrocardiograma. Nos 72, em que a doença progrediu, 39 desenvolveram cardiopatia ou agravaram a já existente, 32 evoluíram para, ou pioraram o megaesôfago prévio e, 12 evoluíram para colopatia ou agravaram a já existente. Dentre os 72, 11 tinham formas clínicas associadas. A evolução da cardiopatia foi maior no sexo masculino 29,6% (21/71) que no feminino 15,1% (18/119), p = 0,015. Houve 19 casos novos de cardiopatia e 20 agravaram a cardiopatia prévia. A incidência de megaesôfago foi 14,9% (23/154) e nove agravaram o megaesôfago já existente. A evolução da colopatia foi maior no sexo feminino 9,2% (11/119), que no masculino 1,4% (1/71), p =0,026.
Palavras-chaves
: Evolução da cardiopatia chagásica e do megaesôfago. Estudo prospectivo.

Abstract A prospective study was performed on the clinical, electrocardiographic (ECG) and radiologic aspects of the esophagus in 190 chagasic patients, for on average follow-up period of 13 years. We found 108 (56.8%) patients who remained in the same clinical state, 72 (37.9%) patients with progressive illness and 10 (5.3%) patients whose previous ECG abnormalities subsided. Thirty nine out of 72 patients with progressive disease developed cardiopathy or aggravation of previous illness, 32 developed into megaesophagus or an existing picture deteriorated and 12 developed or showed worsening of the colopathy. Of 72 patients, 11 presented with associated forms. The development of cardiopathy was greater in males 29.6% (21/71) than in females 15.1% (18/119), p =0.015. There were 19 new cases of cardiopathy, and 20 of aggravated previous disease. The incidence of megaesophagus was 14.9% (23/154), with nine patients whose previous disease worsened. The progression of colopathy was greater in females 9.2% (11/119) than in males 1.4% (1/71), p = 0.026.
Key-words: Evolution of chagasic cardiopathy. Progression of megaesophagus. Prospective study.

 

 

A doença de Chagas foi descoberta em Lassance, MG10, tendo Carlos Chagas descrito nos primórdios, a maioria dos aspectos clínicos11. Os trabalhos de campo iniciados com Carlos Chagas continuaram na década de quarenta, em Bambuí, MG e contribuíram para o conhecimento clínico-epidemiológico17 e de profilaxia15. A partir da década de 60, foram iniciados os trabalhos em São Felipe, BA com revisões periódicas dos aspectos clínicos e epidemiológicos18. Nos meados da década de setenta, o governo brasileiro fomentou investigações de campo sobre doença de Chagas, realizadas em Minas Gerais14, Goiás6 e no Nordeste3, o que permitiu obter conhecimento de vários aspectos da doença em diferentes regiões do Brasil. Em Mambaí, GO, a investigação da infecção chagásica começou em janeiro de 1975 quando, na população recenseada, foram realizados exame clínico, eletrocardiograma, abreugrafia do tórax, abreugrafia contrastada do esôfago e coletado sangue para exames sorológicos, conforme normas pré-estabelecidas12. Durante 15 meses, foram examinadas 3.150 pessoas. Em 1980/82 e 1986/91, foram reexaminados, respectivamente, 1.400 e 1.600 indivíduos. O objetivo deste trabalho é apresentar os dados clínicos do estudo longitudinal de chagásicos crônicos que têm parasitemia conhecida.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Em trabalho anterior foram analisados os exames clínico, eletrocardiográfico e radiológico feitos em 1975/76, em 292 chagásicos com parasitemia conhecida6 no município de Mambaí. Decorridos em média 13 anos, do estudo inicial repetiu-se, entre 1986/91, o exame clínico, o eletrocardiograma e o esofagograma de 190 pacientes estudados7. A maioria desses pacientes foi examinada também em 1980/82, ocasião em que fizeram também a radiografia do tórax.

Estudo clínico longitudinal: O exame clínico dos 190 chagásicos realizado em 1975/76, incluiu um interrogatório detalhado, dirigido principalmente para o sistema cardiovascular, aparelho digestivo e sistema nervoso. Em relação ao aparelho digestivo, anotaram-se as informações sobre obstipação, duração e freqüência desse sintoma, esforço para evacuar, uso de laxantes ou lavagens intestinais. Ao exame físico, foram registrados o pulso radial, a tensão arterial, a posição do ictus cordis, ritmo cardíaco, características das bulhas, sopros, frêmito e sinais de descompensação ou má formação cardíaca sendo feita também a palpação abdominal à procura de fecaloma. Em 1980/82 e 1986/91, foram reexaminados, respectivamente, 175 e 190 indivíduos, com a metodologia usada em 1975/76.

Estudo eletrocardiográfico longitudinal: Os traçados eletrocardiográficos obtidos em 1975/76, 1980/82 e 1986/91, constaram das 12 derivações clássicas, com quatro complexos em cada uma e com D2 de 20 centímetros. Os traçados de cada indivíduo, feitos nos diversos períodos, foram interpretados por um dos autores (VM) e os critérios utilizados para a leitura foram os da American Heart Associaction21, adaptando-se o código de Minnesota26 para alterações de Q, ST e T.

Estudo abreugráfico longitudinal do esôfago: Foi realizado utilizando aparelho de abreugrafia munido com filme de 70 milímetros. Os pacientes foram posicionados em oblíqua anterior direita, sendo tomada uma abreugrafia após a ingestão de 75ml de solução baritada (celobar geléia, Laboratório Beecham) e, outra após 60 segundos. Foi utilizada a mesma metodologia nas abreugrafias feitas nos três períodos. A interpretação dos esofagogramas foi feita nas três oportunidades, pelo Professor Joffre Rezende. Os esofagogramas interpretados como duvidosos foram considerados normais quando se calculou o percentual de prevalência e incidência.

Classificação das formas clínicas: Para classificação da cardiopatia na fase crônica, foram usados os critérios de Macêdo18 que considerou a forma indeterminada e a forma cardíaca subdividida em quatro estádios: C-I, C-II, C-III, C-IV.

A disperistálse do esôfago foi classificada segundo Rezende et al25 como megaesôfago subdividido em: Grupo I, Grupo II, Grupo III, Grupo IV. Em alguns casos a abreugrafia do esôfago de boa qualidade, foi interpretada como duvidosa.

Considerou-se como tendo colopatia o indivíduo com história de obstipação de seis ou mais dias, mesmo sem comprovação radiológica. A intensidade do sintoma foi expressa em número de dias de obstipação.

Cada chagásico foi classificado em uma forma clínica nos diversos períodos o que permitiu avaliar se o indivíduo permaneceu com a forma clínica inalterada ou se houve progressão ou regressão da doença.

Critérios de evolução da doença de Chagas: Para avaliar em cada indivíduo, a evolução da doença foram analisados os exames clínico, eletrocardiográfico e radiológico realizados em cada um dos três períodos e adotados os seguintes critérios: a) evolução inalterada ¾ quando não houve mudança da forma clínica ou do grau de comprometimento cardíaco e/ou digestivo; b) evolução progressiva: quando houve mudança ou acréscimo da forma clínica, para maior nível de gravidade ou mudança no comprometimento cardíaco e/ou digestivo, para um grau superior; c) evolução regressiva: quando as alterações eletrocardiográficas desapareceram ou tornaram-se menos graves.

Aspectos éticos: Para realização dos exames, cada paciente deu seu consentimento verbal após ser informado. Para os menores o consentimento foi solicitado aos pais ou responsáveis. Os pacientes recebem desde 1974, assistência médica dessa equipe no próprio município. Os casos que necessitam de cirurgia de megaesôfago, megacolon e implante de marcapasso cardíaco são atendidos no hospital da Universidade de Brasília. Aproximadamente, uns 50 pacientes receberam tratamento específico. Durante todos estes anos sempre existiu um relacionamento continuo da equipe com a população do município.

Análise estatística: Os dados foram analisados através do software (True Epistat Tracy L. Gustafson MD, copyright 1987 Epistat Services). Foram utilizados os testes do qui-quadrado e de Fisher para a maioria das análises estatísticas. Os resultados foram considerados significativos quando a probabilidade de erro foi menor que 5%.

 

RESULTADOS

Dos 190 indivíduos estudados, 71 eram do sexo masculino e 119 do sexo feminino. Predominaram os indivíduos na faixa etária de 40-49 anos. A idade mínima e máxima foram respectivamente 15 e 84 anos, sendo 41,5 anos a mediana.

Estudo clínico e abreugrafia do torax: Considerando exclusivamente o exame clínico houve cinco, dois e onze indivíduos com cardiopatia chagásica evidente, respectivamente, em 1975/76, 1980/82 e 1986/91. As alterações encontradas foram pulso radial menor que 50 em três pacientes, extra-sístoles freqüentes em nove, fibrilação atrial em um, extra-sístoles raras em três, hipofonese universal em um e desdobramento da segunda bulha em 12 pacientes. Mais de uma alteração foi encontrada no mesmo indivíduo e uma alteração encontrada em um período as vezes não se repetia no seguinte. Em relação a abreugrafia do tórax, foi realizada em 136 pacientes em 1975/76 e apenas um apresentou discreto aumento da área cardíaca. Em 1980/82, 95 indivíduos realizaram abreugrafia do tórax e apenas dois mostraram discreto aumento da área cardíaca. Não foi realizada abreugrafia do tórax no período 1986/91.

Estudo eletrocardiográfico longitudinal: Foram realizados 190 eletrocardiogramas em 1975/76, 168 em 1980/82 e, 190 em 1986/91 (Tabela 1). O período médio do estudo eletrocardiográfico foi 12,5 anos. Dos 190 indivíduos estudados de 1975/76 a 1986/91, 110 (57,9%), permaneceram com o eletrocardiograma normal, 23 (12,1%) apresentaram alterações eletrocardiográficas, 13 (6,8%) que tinham eletrocardiogramas alterados normalizaram, ou melhoraram o exame, e 44 (23,2%) permaneceram com o exame alterado ou desenvolveram alterações mais graves.

 

 

As alterações eletrocardiográficas consideradas sugestivas da cardiomiopatia chagásica encontradas em 1975/76 e 1986/91 tiveram, respectivamente, os seguintes percentuais: o bloqueio átrio ventricular (AV) do 10 grau 10,5% e 4,2%; bloqueio AV de 20 grau e bloqueio AV completo, ausentes no primeiro exame, surgiram em 1986/91 nos percentuais respectivos de 1,5% e 0,5%; bloqueio completo do ramo direito e hemibloqueio anterior esquerdo, que no primeiro exame estavam presentes em 5,2% e 4,2%, aumentaram sua freqüência, em 1986/91, para 10,5% e 7,8%, respectivamente; bradicardia sinusal permaneceu com frequência inalterada no período, e as extra-sístoles ventriculares aumentaram de 3,6% para 6,3%.

Estudo abreugráfico longitudinal do esôfago: Foram realizadas 168 abreugrafias do esôfago em 1975/76; 68 em 1980/82 e, 187 em 1988/91. Sete pessoas fizeram esofagograma em 1980/82 e em 1988/91 e, uma delas, evoluiu para megaesôfago do grupo I. Em 1975/76, existiam 12 chagásicos com megaesôfago, enquanto em 1988/91 houve 36 chagásicos acumulados com megaesôfago. Entretanto, somente 166 pacientes fizeram o estudo radiológico de 1975/76 a 1988/91. O tempo de estudo variou de 12 a 15 anos com média de 13,3 anos. No esofagograma inicial, em 1975/76, 142 tiveram exame normal, 12 apresentaram esofagogramas duvidosos e 12 tiveram megaesôfago. E no último esofagograma em 1988/91, 119 chagásicos apresentaram resultados normais, 12 mostraram esofagogramas duvidosos, havendo 35 indivíduos acumulados com megaesôfago (Tabela 2). Em 1975/76 a prevalência do megaesôfago no sexo masculino foi 16,1% (10/62) e no sexo feminino 1,9% (2/104). No período de 1975/76 a 1988/91, a incidência de megaesôfago foi 19,2% (10/52) no sexo masculino e 12,7% (13/102) no sexo feminino (Tabela 2). Na Figura 1 pode ser vista a distribuição, segundo o grupo, dos 23 indivíduos que evoluíram para megaesôfago no período médio de 13 anos.

 

 

 

Estudo clínico longitudinal da obstipação: Em 1975/76, houve seis chagásicos com obstipação de seis ou mais dias. Em 1980/82, surgiram três outros pacientes e, outros nove em 1986/91. Dentre os 18, apenas 12 tiveram aumento dos dias de obstipação nos exames subseqüentes, (Tabela 3). Os pacientes referiram ter apresentado o sintoma em várias ocasiões. Nove deles tomavam medicamentos laxantes e cinco usavam ocasionalmente lavagens intestinais. Em nenhum foi palpado fecaloma mas, dois foram operados de megacolon. A obstipação não foi um sintoma constante, dois indivíduos apresentaram melhora posterior e passaram a ter evacuações normais.

 

 

Evolução da doença de Chagas: O estudo evolutivo, como um todo, considerando os exames clínico, eletrocardiográfico e radiológico realizados de 1975/76 a 1986/91, mostrou que 72 (37,9%) evoluíram de forma progressiva, 108 (56,8%) permaneceram com a forma clínica inalterada e 10 (5,3%) regrediram as alterações eletrocardiográficas (Figura 2). A média de idade de cada grupo foi respectivamente 46,3; 39,7 e 32,6 anos. Dos 72 que tiveram evolução progressiva, 39 desenvolveram cardiopatia ou agravaram a já existente, 32 evoluíram para ou agravaram o megaesôfago anterior e 12 evoluíram com colopatia. Dentre os 72, 11 indivíduos tinham formas clínicas associadas. A evolução progressiva aumentou com a idade. Na faixa de 15 a 19 anos apenas 14,3% tiveram evolução progressiva, que subiu para 53,3% aos 60 anos ou mais. Observou-se maior tendência à evolução progressiva nas faixas etárias de 20 a 29 e 50 a 59 anos. A evolução foi maior no sexo masculino 43,7% (31/71) que no feminino 34,5% (41/119) mas sem significância estatística p = 0,266. A Tabela 6 mostra os 72 chagásicos que apresentaram evolução progressiva. Dos 108 com a forma clínica inalterada, 81 continuaram na forma indeterminada.

 

 

 

Evolução para cardiopatia chagásica: Dentre os 72 pacientes que evoluíram progressivamente, 39 desenvolveram ou agravaram a cardiopatia, sendo que 19 foram casos novos e 20 foram indivíduos previamente cardiopatas. Houve evolução em todas as faixas etárias, especialmente após os 40 anos. Dos 39 que evoluíram com cardiopatia, nove foram para o estádio C-I, 27 para o estádio C-II e três para os estádios C-III e C-IV. Os 27 que evoluíram para o estádio C-II foram distribuidos em todas as faixas etárias, 20 deles ficaram na faixa de 15 a 59 anos e sete tinham 60 anos ou mais. A faixa etária com maior número de indivíduos do estádio C-II foi a de 50 a 59 anos, com oito individuos. Em relação ao sexo, (Tabela 5) dos 39 que evoluíram com cardiopatia, 18 eram do sexo feminino sendo 14 do estádio C-II e 21 do sexo masculino sendo 13 do estádio C-II. Os três que evoluíram para os estádios C-III e C-IV um era do sexo feminino com 35 anos e dois do masculino com 41 e 72 anos respectivamente. Dentre os 72 que evoluíram progressivamente, 12 tinham hipertensão arterial, dos quais cinco desde 1975, dois desde 1982, e cinco a partir de 1986. Nestes pacientes poderia haver concomitância da cardiopatia chagásica e hipertensiva.

Evolução para megaesôfago: Dentre os 72 pacientes que evoluíram progressivamente 32 (44,4%) desenvolveram ou agravaram o megaesôfago, sendo 16 do sexo masculino e 16 do sexo feminino (Tabela 5). Vinte e três foram casos novos e nove indivíduos agravaram o megaesôfago prévio. Houve evolução do megaesôfago em todas as faixas etárias, exceto na de 15 a 19 anos, do sexo masculino. Dentre os que evoluíram com megaesôfago 16 foram classificados no grupo I, oito no grupo II, cinco no grupo III e três no grupo IV. Houve evolução para megaesôfago dos grupos I e II em todas as faixas etárias. Os grupos III e IV só ocorreram a partir dos 40 anos e houve nove casos de evolução de megaesôfago a partir dos 60 anos.

Evolução para colopatia: Dentre os 72 pacientes, 12 (16,6%) apresentaram clínica de colopatia progressiva (Tabela 5), sendo que 10 começaram sua doença com colopatia e dois já tinham forma clínica anterior definida. Dos 11 indivíduos do sexo feminino que evoluíram com colopatia, dez tinham em 1975/76 a forma indeterminada e um tinha cardiopatia do estádio C-III. A evolução ocorreu em todas as faixas etárias, exceto na de 50 a 59 anos. Seis deles tiveram entre seis e dez dias de obstipação, quatro entre 11 e 20 dias e, um, mais de 20 dias. Apenas um paciente do sexo masculino evoluiu com colopatia progressiva.

Evolução de formas clínicas associadas: Onze indivíduos evoluíram com associação de formas clínicas. Entre os do sexo masculino, seis evoluíram com cardiopatia e megaesôfago e, um com megaesôfago e colopatia. Entre os do sexo feminino, dois evoluíram com cardiopatia e megaesôfago, um com cardiopatia e colopatia, e um com megaesôfago e colopatia (Tabela 4).

Distribuição das formas de evolução progressiva: Na Tabela 4 e Figura 3, observa-se que 39 (20,5%) pessoas evoluíram com cardiopatia isolada ou associada a outra forma clínica, 32 (19,3%) evoluíram com megaesôfago puro ou aliado a outra forma da doença e, 12 (6,3%) evoluíram com colopatia, isolada ou associada. Houve maior evolução da cardiopatia no sexo masculino, sendo estatisticamente significante, p = 0,015. Ocorreu o contrário com a colopatia, p = 0,026. A Tabela 5 mostra a evolução das formas clínicas e a intensidade do comprometimento orgânico em ambos os sexos. Dentre os 39 que evoluíram com cardiopatia, 27 foram para o estádio C-II e, dentre os 32 que evoluíram com megaesôfago, 16 foram classificados no grupo I, e 8 no grupo II.

 

 

Chagásicos da forma indeterminada que tiveram evolução progressiva: Dos 190 chagásicos estudados em 1975/76, 120 estavam na forma indeterminada e 39 (32,5%) deles tiveram evolução progressiva em 1986/91.

Regressão das alterações eletrocardiográficas: Dez indivíduos que tinham sido classificados no estádio C-I, apresentaram involução das alterações eletrocardiográficas. Nove tinham bloqueio AV de 10 grau. Em três deles, o bloqueio permaneceu de 1975 a 1982 desaparecendo no último exame. Nenhum desses indivíduos apresentou alterações digestivas.

 

DISCUSSÃO

Estudos evolutivos sobre a doença de Chagas no Brasil, têm sido realizados principalmente nos estados da Bahia18 19 20, Minas Gerais2 4 13 16 23, Paraiba3 , Rio Grande do Sul1 e Goiás8 9. Atualmente, existem no Brasil aproximadamente dez estudos prospectivos de campo sobre a doença de Chagas. A maioria dá ênfase à cardiopatia e alguns focalizam exclusivamente esse aspecto da doença3. Em relação ao megaesôfago, existem cinco estudos prospectivos realizados em seis áreas de campo e, sobre o megacolon, só existem dois. O estudo evolutivo da doença em seus diversos aspectos clínicos tem sido feito por poucos pesquisadores, principalmente devido à limitação da investigação do cólon em áreas rurais. No estudo aqui apresentado, houve também limitação devido à falta de investigação radiológica do cólon. Mesmo ciente dessa limitação, o acompanhamento dos 190 pacientes, permitiu concluir que 108 (56,8%) permaneceram com a mesma forma clínica e dentre estes, 81 continuaram na forma indeterminada. Decorridos 13 anos de seguimento, 67,5% dos pacientes que tinham a forma indeterminada, continuam com a mesma forma clínica.

A evolução progressiva da doença de Chagas nesses 13 anos, foi verificada em 37,9% dos pacientes. Estudos que guardam semelhança com o aqui apresentado mas com diferentes períodos de acompanhamento, mostram que a evolução da doença tornou-se maior e mais intensa na dependência do tempo da investigação e provavelmente da cepa do parasito, na região estudada. A evolução progressiva da doença de Chagas tem variado de 10,4% a 66,1%2 3 4 8 13 16 18 20 23 e a maioria dos estudos contempla um período de observação de até dez anos.

É sabido que a cardiopatia chagásica apresenta grande mutabilidade eletrocardiográfica, o que dificulta a interpretação das alterações encontradas, especialmente quando são discretas e incaracterísticas. É difícil caracterizar o início da cardiopatia chagásica crônica devido ao caráter insidioso, lento e à mutabilidade eletrocardiográfica. Observou-se que os dez pacientes cujas alterações eletrocardiográficas regrediram foram os mais jovens, com média de idade de 32,6 anos, nove deles tinham exclusivamente bloqueio AV de 10 grau em 1975/76. Ressalta-se também que a maioria dos cardiopatas evoluiu para ou permaneceu com a forma leve a moderada, cardiopatia do estádio C-II. Vinte deles apresentaram bloqueio completo de ramo direito, 15 mostraram hemibloqueio anterior esquerdo, 12 apresentaram extra-sístoles ventriculares e sete tiveram alteração da repolarização ventricular. Apenas três pacientes evoluíram para estádios mais avançados, apresentando ao eletrocardiograma bloqueio AV de 20 grau e bloqueio AV total. Como já sabido o eletrocardiograma é muito mais sensível que o exame clínico e a abreugrafia de tórax para detectar o início e acompanhar as alterações da cardiopatia chagásica.

O mesmo fenômeno foi constatado em relação ao megaesôfago, 75% dos pacientes que desenvolveram ou agravaram o megaesôfago tiveram formas anectásicas caracterizadas como grupo I ou ectásicas leves grupo II, caracterizando uma evolução protraída. Ressalta-se também que 50% dos pacientes com esofagogramas duvidosos em 1975/76, desenvolveram megaesôfago durante o estudo. Esse achado permite afirmar, com grande probabilidade que o indivíduo com esofagograma duvidoso que tem sorologia positiva está iniciando a esofagopatia chagásica. Entre os que já tinham megaesôfago, 72,7% agravaram a esofagopatia. A incidência de megaesôfago no período foi 14,9% (23/154) que é alta se comparada a outros estudos4 14 18 23. É similar aos 13,6% registrados em Virgem da Lapa2 em 17 anos de estudo, porém é inferior aos 18,3% encontrados em estudo de pacientes que tiveram fase aguda detectada há 27 anos em Bambuí16.

A prevalência de colopatia nas áreas endêmicas de doença de Chagas continua um desafio e tem sido um dos aspectos mal investigados, devido à falta de instrumental adequado para estudo radiológico do cólon em trabalho de campo. Esta alteração patológica da doença de Chagas, segundo alguns autores, parece bastante frequente5 24 27 embora exista um trabalho mostrando o contrário23. Até o momento, o exame mais apropriado para investigação do megacolon chagásico continua sendo o enema opaco e só existem dois estudos longitudinais da colopatia chagásica, feitos com esse exame16 23. Um revelou incidência de 28,7% em pacientes estudados 27 anos após a fase aguda 16 e, o outro, 3,4% em nove anos de observação23. O enema opaco simplificado idealizado por Ximenes et al27, poderia ser indicado para o estudo da prevalência do megacolon chagásico em condições de campo, porém até o momento só tem sido realizado no ambiente hospitalar.

Os instrumentos de estudo da colopatia chagásica neste trabalho foram o interrogatório e o exame físico, feito nos três períodos, sendo encontrados 9,5% (18/190) dos indivíduos com colopatia, embora somente 12 tenham apresentado evolução progressiva. Dois deles foram operados e, cinco outros têm sido internados em conseqüência desta patologia. É evidente que o exame clínico faz apenas um diagnóstico presuntivo mas, foi baseado na queixa de obstipação, que Padgett-Moncada22 realizou em Mambaí, estudo radiológico intestinal com duração de cinco horas após ingestão de um marcador de bário, em 78 chagásicos e em 46 controles, observando trânsito intestinal lento nos pacientes com suspeita de megacolon. O marcador alcançou a região ileo-cecal em cinco horas somente em 14% dos pacientes com suspeita de megacolon contra 45% daqueles que tinham a forma indeterminada.

Entre os 72 pacientes com evolução progressiva houve nove que evoluíram para a forma mista (associação da forma cardíaca mais digestiva). Oito tiveram cardiopatia e megaesôfago e um cardiopatia e colopatia. A Associação de megaesôfago e colopatia foi encontrada em dois pacientes, Tabela 4.

Este estudo mostra que a história natural de uma doença crônica, como a de Chagas, demanda tempo e, apesar dos vários estudos longitudinais já realizados, a prevalência da colopatia continua mal conhecida e pouco investigada nas áreas endêmicas e será motivo de investigação por parte de nossa equipe.

 

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1. Núcleo de Medicina Tropical e Nutrição da Universidade de Brasília, Brasília DF, Brasil. 2. Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG.
Endereço para correspondência: Prof. Cleudson Castro. Núcleo de Medicina Tropical e Nutrição/UnB. Caixa Postal 04671, 70919-970, Brasília DF, Brasil.
Fax: 55 61 273 2811
e-mail: tropical@unb.br
Recebido para publicação em 7/6/1999.