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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.36 no.3 Uberaba May/June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822003000300005 

ARTIGO

 

Fauna de Culicidae em municípios da zona rural do estado do Amazonas, com incidência de febre amarela

 

Culicidae insect fauna from rural zone in Amazonas State with incidence of sylvatic yellow fever

 

 

Nelson Ferreira FéI; Maria das Graças Vale BarbosaI; Flávio Augusto Andrade FéI; Marcus Vinitius de Farias GuerraI, II; Wilson Duarte AlecrimI, II, III, IV

IFundação de Medicina Tropical do Amazonas, Manaus, AM
IIUniversidade Federal do Amazonas, Manaus, AM
IIIUniversidade do Estado do Amazonas, Manaus, AM
IVCentro Universitário Nilton Lins, Manaus, AM

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Em 1996, foi realizado um levantamento da fauna de Culicidae (coleta de adultos e imaturos) em cinco dos dez municípios onde foram registrados 14 casos de febre amarela silvestre (Rio Preto da Eva, Iranduba, Manacapuru, Manaquiri e Careiro). Os mosquitos foram coletados utilizando-se armadilhas de luz CDC, inspeções domiciliares e captura com tubos coletores para isca humana. Foram identificadas entre adultos e imaturos 36 espécies de Culicidae, entre estas, nove foram encontradas apenas na fase imatura. Dentre os adultos, coletou-se espécies de Haemagogus janthinomys, Ha. leucocelaenus e Aedes fulvus, incluídas entre os vetores de febre amarela silvestre.

Palavras-chaves: Febre amarela silvestre. Culicidae. Vetores. Amazônia. Doenças tropicais.


ABSTRACT

After the occurrence of 14 sylvatic yellow fever cases in 10 cities in the State of Amazonas during 1996, an investigation into the presence of sylvatic yellow fever vectors was carried out. The material of larvae and adult insects was collected around residences and canopy trees within forests, using a light trap (CDC) and human bait. A total of 424 insects was collected. Thirty seven species were identified, some of which were sylvatic yellow fever vectors: Haemagogus janthinomys, Ha. leucocelaenus, Aedes fulvus.

Keywords: Sylvatic yellow fever. Culicidae. Species vectors. Amazonian. Tropical disease.


 

 

Arboviroses são doenças causadas por um grupo de vírus ecologicamente bem definidos, chamados arbovírus, constituindo problemas de importância em todos os continentes onde se apresentam sob forma endêmica ou epidêmica10. A febre amarela é uma arbovirose que a partir do século XVII, dizimou vidas em extensas epidemias nas áreas das regiões tropicais da África e das Américas11. É uma doença infecciosa aguda, cuja forma clássica se caracteriza por um quadro íctero-hemorrágico, sendo causada por um arbovírus do grupo B, pertencente ao gênero Flavivírus da família Flaviviridae12. O vírus ocorre basicamente nas bacias Amazônica e do Congo, localizadas respectivamente na América e África intertropical9 15. É transmitida em natureza por dípteros hematófagos da família Culicidae, principalmente os pertencentes aos gêneros Aedes (vetor urbano), Haemagogus e Sabethes (vetores silvestres)3 12 20, cuja distribuição é limitada pela altitude, e são encontrados em abundância em cidades e zonas rurais9 14. Considerada a maior floresta tropical do mundo e uma das mais ricas em diversidade de espécies4, a Amazônia abriga entre outros grupos um elevado número de espécies de dípteros hematófagos e vertebrados silvestres, propiciando condições ambientais favoráveis à manutenção de diversos grupos de vírus .

No inicio do século XX, o desenvolvimento de vacinas eficazes e a erradicação do vetor urbano, Aedes aegypti, alentaram por algum tempo a esperança de que a doença desapareceria, pelo menos no Novo Mundo9 14. No entanto, apesar dos trabalhos de vigilância realizados durante várias décadas, casos esporádicos, continuaram sendo registrados em populações rurais não imunes, em decorrência do ciclo silvestre de transmissão dessa doença14 23. Em 1996, foram confirmados em dez municípios do Estado do Amazonas (Manacapuru, Santa Isabel do Rio Negro, Anorí, Barcelos, Careiro, Iranduba, Manaquiri, Rio Preto da Eva, Tabatinga e Tapauá), 14 casos de febre amarela silvestre9 10 14 sem que se conhecesse registros dos vetores (urbano ou silvestre) nas áreas onde ocorreram os casos. Dessa forma, com o objetivo de registrar nesses municípios, a presença de espécies vetores de febre amarela silvestre, antes da reintrodução do Aedes aegypti no Amazonas, realizou-se um levantamento da fauna de culicídeos em cinco dos dez municípios.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado em cinco municípios do Estado do Amazonas, Rio Preto da Eva, Iranduba, Manacapuru, Manaquiri e Careiro (Figura 1), em áreas de zona rural, rodeadas de florestas, durante o período de 4 de setembro a 14 de outubro de 1996. Para coleta dos insetos adultos, realizadas em cada município durante cinco dias consecutivos, utilizou-se os métodos de armadilhas luminosa CDC em estratos de 1, 5 e 10 metros. Capturadores a base de sucção na isca humana (1º e 3º autores), em diferentes estratos, plataforma (15 metros) e solo respectivamente. Para a captura de imaturos foram realizadas buscas ativas em criadouros artificiais e naturais utilizando-se os métodos de redes pesca larvas e pipetagem3. O material foi identificado utilizando-se chaves dicotômicas1 2 3 5 6 8 11 15 16 17 18.

 

 

RESULTADOS

Foram coletados 299 adultos de 27 espécies de Diptera, Culicidae identificadas. Maior número foi registrado para Mansonia titillans (87), Mansonia humeralis (46), Culex quinquefasciatus (43), Anopheles oswaldoi (29), Culex coronator (24) e Anopheles triannulatus (19) (Tabela 1).

Entre os locais investigados encontrou-se maior número de adultos, no município de Manacapuru e de larvas no Careiro (Figura 2). Com exceção de Manacapuru, foram registradas 23 espécimes adultos de Haemagogus e 21 espécimes de Sabethes (Tabela 1), grupos onde estão espécies incriminadas na transmissão de febre amarela silvestre tais como, Haemagogus janthinomys encontrada nos municípios de Iranduba e Rio Preto, Haemagogus leucocelaenus no Careiro e Manaquiri e Aedes fulvus no Rio Preto (Tabela 1).

 

 

Conforme os métodos utilizados registrou-se 188 adultos com Isca Humana na plataforma representando 65%; 58 com Isca humana no solo (20%); 27 nas armadilhas CDC no estrato de 1 metro acima do solo (9,5%) e 16 na CDC 5m (5,5%) (Figura 3), na CDC de 10m não foram coletados exemplares de Culicidae apenas Psychodidae, Phlebotominae.

 

 

Desse material, foram encontrados nas inspeções domiciliares adultos de Culex quinquefasciatus e M. titillans. As espécies Aedes fulvus, Ae. serratus, Culex quinquefasciatus foram coletadas com armadilha CDC no estrato de 1 metro acima do solo, e as de Haemagogus janthinomys, Ha. leucocelaenus, Mansonia humeralis, M. titillan, Sabethes belisarioi e Sa. bipartipes com Isca Humana na plataforma e no solo (Tabela 2).

Foram coletadas ainda, 125 larvas distribuídas em 16 espécies, registrando-se maior número (31) para Culex quinquefasciatus (Tabela 2). Conforme os criadouros examinados, registrou-se 74 larvas nos criadouros naturais (pesquisas larvárias dentro da mata), dentre as quais 8 foram de Anopheles oswaldoi, 8 de Psorophora albipes, 6 de An. triannulatus e 4 de Sabethes sp. Nos criadouros artificiais (dentro dos domicílios) foram coletados 51 larvas, destas, 31 foram de Culex quinquefasciatus e 12 de Culex coronator (Tabela 2).

 

DISCUSSÃO

De acordo com o resultado, encontrou-se nos municípios investigados, a presença de Haemagogus janthinomys, Ha. leucocelaenus, Sabethes belisarioi e Aedes fulvus nas formas adultas e imaturos do gênero Sabethes, espécies importantes na veiculação do vírus amarílico, que podem ser incriminadas como vetores de febre amarela silvestre.

Esse resultado, sugere relação com a transmissão dos casos ocorridos, uma vez que Haemagogus janthinomys é o principal vetor da febre amarela silvestre no Brasil3 23 e que outras espécies deste, dos gêneros Sabethes e Aedes tem sido indicadas como vetores importantes dessa doença23, respondendo a principal questão deste estudo cujo objetivo era a o registro de insetos que pudessem ser relacionados com os casos ocorridos nos municípios.

As coletas foram realizadas nas áreas rurais dos 5 municípios investigados, todas com perfil para albergar o ciclo enzoótico natural do vírus amarílico6. O indicado numa investigação desse tipo é a integração de métodos, para uma busca mais completa, considerando-se que os vetores procurados são mosquitos essencialmente diurnos silvestres e acrodendrófilos3.

Dos métodos desenvolvidos, a captura utilizando a Isca Humana tanto na plataforma quanto no solo foi a mais eficaz, embora em curto período, a fauna encontrada mostrou-se bastante diversificada em cada município, registrando-se uma composição de espécies típicas de ambientes de florestas3, sendo a maioria mosquitos silvestres, ou de ambientes modificados pelo homem.

Provavelmente com um período maior de coletas, mais informações sobre a riqueza de espécies daquelas áreas, poderão ser obtidas e dessa forma aumentar os dados, sobre a diversidade de espécies de uma comunidade de Culicidae em áreas tropicais.

Assim, considerando-se que todas as áreas onde foram realizadas as coletas, apresentaram características dos habitats naturais dos vetores, que habitam primordialmente áreas de floresta densa e, secundariamente, zonas de capoeira e campos3 20, arboviroses podem ser transmitidas ao homem por artrópodes infectados em dois níveis: ciclos selvagens e urbanos20 22, sendo os municípios estudados limítrofes ao de Manaus, com alto fluxo de trânsito, podemos inferir que o homem não participa do ciclo natural de manutenção dessa arbovirose, caracterizando-se a infecção humana como acidental; acontecendo ao penetrar na mata muitas vezes em atividades de derrubada de árvores para extração de madeira, ou de turismo.

Alerta-se para a necessidade de maior incentivo de vacinação em áreas da Amazônia visando impedir a propagação do vírus amarílico para outras áreas, especialmente aquelas infestadas por Aedes aegypti, como é o caso da cidade de Manaus, áreas urbanas dos municípios onde foram coletados os dados e outras vizinhas; prevenindo assim a reurbanização da doença, alem das campanhas de conscientização da população como medidas de prevenção e proteção, para que o homem, não seja eventualmente inserido no ciclo de transmissão silvestre, sem estar devidamente protegido.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Gottfried Schmer pela revisão do texto em inglês. A Fundação Nacional de Saúde, Regional do Estado do Amazonas, Prefeituras Municipais de Rio Preto da Eva, Careiro e Manacapuru, pelo apoio logístico para execução do trabalho de campo.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Nelson Ferreira Fé
Av. Pedro Teixeira 25
Bairro D. Pedro I
69000-000 Manaus, AM
e-mail: nelson@fmt.am.gov.br

Recebido para publicação em 5/10/2001
Aceito em 10/4/2003