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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.36 no.3 Uberaba May/June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822003000300020 

COMUNICAÇÃO

 

Avaliação do exame citopatológico como método para diagnosticar a paracoccidioidomicose crônica oral

 

Evaluation of cytopathologic exam for diagnosis of oral chronic paracoccidioidomycosis

 

 

Marcelo Sivieri de AraújoI; Suzana C.O.M. SousaII; Dalmo CorreiaIII

IDisciplina de Patologia Bucal do curso de Odontologia da Universidade de Uberaba, Uberaba, MG
IIDisciplina de Patologia Bucal da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP
IIIDisciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Com o objetivo de avaliar o exame citológico esfoliativo no diagnóstico das lesões orais da paracoccidioidomicose, foram estudados oito portadores desta doença. Em todos os casos, demonstrou-se o fungo através de esfregaços citológicos corados com impregnação pela prata Gomori-Grocott. Conclui-se que a citologia esfoliativa oral é um método diagnóstico útil e válido na paracoccidioidomicose, podendo auxiliar no controle terapêutico das formas orais desta micose.

Palavras-chaves: Paracoccidioidomicose crônica. Citologia esfoliativa. Cavidade oral. Impregnação pela prata.


ABSTRACT

With the aim of evaluating exfoliative cytology for the diagnosis of paracoccidioidomycosis oral lesions, eight patients that presented the disease were studied. The presence of fungi was demonstrated in all these cases. It was concluded that the oral exfoliative cytology exam can be effectively used in the diagnosis of paracoccidioidomycosis and contribute to the therapeutic control of oral forms of this mycosis.

Keywords: Chronic paracoccidioidomycosis. Exfoliative cytology. Oral cavity. Silver impregnation.


 

 

A paracoccidioidomicose (PCM) é uma doença infecciosa, que representa um sério problema aos países da América Latina, especialmente para o Brasil. Como micose profunda, apresenta diversas manifestações clínico-patológicas, como resultado da penetração do fungo no hospedeiro. O Paracoccidioides brasiliensis (P. brasiliensis) é um fungo dimórfico, que cresce a 37°C na forma de levedura, medindo de 5 a 25mm de diâmetro, com parede dupla e múltiplos brotamentos; à temperatura ambiente mostra-se, na forma de finos filamentos septados dando origem ao micélio2. Permanecem ainda desconhecidos o habitat e a ecologia do P. brasiliensis. É aceito que, o fungo viva saprofíticamente no solo úmido, rico em proteínas, e em solos cercados por rios, lagos e pântanos, onde as variações de temperatura são mínimas. Nestes ambientes, os fungos crescem na fase de micélio, produzindo conídios que sobrevivem por vários meses, possibilitando a dispersão aérea, possibilitando que propágulos infectantes sejam inalados pelo homem até os alvéolos pulmonares, dando origem a uma infecção subclínica que poderá se disseminar para outros órgãos por via linfo-hematogênica10.

Sua manifestação é endêmica no Brasil, principalmente nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e, por não ser uma doença de Notificação Compulsória, os dados oficiais sobre o perfil epidemiológico, são restritos, dificultando assim a caracterização pormenorizada da situação atual do país frente a esta patologia. A literatura médica sobre o assunto é bastante vasta, e muito já se sabe sobre a doença, possibilitando um aumento da sobrevida dos pacientes afetados, já que no passado o curso final da doença era fatal12.

A PCM ocorre na maioria dos casos, em indivíduos, que por sua atividade permanecem com mais freqüência diretamente em contato com vegetais e a terra, sendo geralmente trabalhadores rurais. Nestes trabalhadores rurais, podem ser encontrados hábitos de mascar folhas de vegetais, usar talos e gravetos para palitar os dentes e apresentar as mãos sujas de terra, além de casos, onde a toalete anal é feita com agentes vegetais. A manifestação clínica mais comum é a ocorrência da doença crônica, em pacientes do sexo masculino, com idade entre 30 a 50 anos, fumantes e/ou etilistas crônicos, onde as condições de higiene, nutricionais e sócio-econômicas são precárias14 .

Uma das formas clínicas crônicas do tipo multifocal, relativamente freqüente da PCM, é a tegumento cutâneo-mucosa. Caracterizada por lesões da mucosa oral, gengiva, língua, palato mole e mucosas labial, nasal, faríngea e laríngea4 .

As biópsias de lesões orais de PCM extensas, ulcerativas e dolorosas são pouco comuns na rotina da Odontologia, o que leva muitos casos da micose serem diagnosticados tardiamente; levando a sérios prejuízos para o doente.

Como as regiões periodontal e labial são as mais acometidas nas formas orais crônicas da PCM, a utilização da citologia esfoliativa - método de diagnóstico não traumático, rápido e eficaz de execução simples e de baixo custo operacional - pode ajudar muito no diagnóstico destas lesões10 12.

Acresce que, com o emprego de colorações especiais, aumenta ainda mais a acurácia da citologia esfoliativa oral no diagnóstico desta micose.

Tendo em vista o exposto, propusemos a avaliar a citologia esfoliativa no diagnóstico das lesões orais da PCM.

No decorrer do ano de 1998, foram estudados oito pacientes que se encontravam internados com diagnóstico prévio de PCM crônica, com ou sem manifestações orais clinicamente detectáveis. O estudo foi realizado nas enfermarias da Unidade de Isolamento Hospitalar e de Clínica Médica do Hospital Escola da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro da cidade de Uberaba, MG e na Unidade de Diagnóstico Estomatológico do Hospital Odontológico da Universidade de Uberlândia, MG. Todos os pacientes eram do sexo masculino, com idade variando de 29 a 54 anos (média de 44,1). Dos oito pacientes, dois apresentavam lesões orais generalizadas e em região de orofaringe, três apresentavam lesões na gengiva, um com lesões na mucosa jugal e dois não apresentavam lesões orais típicas aparentes. O protocolo deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (nº98.1.349.68.0). Os pacientes foram informados dos objetivos, dos métodos e dos riscos e benefícios do exame, e todos assinaram um termo de consentimento para execução da citologia esfoliativa oral. A citologia esfoliativa foi realizada a partir de esfregaços orais obtidos com espátula metálica estéril nº 74, raspando-se firmemente as regiões periodontais superiores e inferiores, mucosa jugal e labial e em áreas com lesões bucais clinicamente detectáveis, totalizando 4 ou 5 lâminas por caso. O material da coleta foi fixado em álcool a 95%, por 12 horas. Após a fixação, os esfregaços foram submetidos à impregnação pela prata segundo Grocott5 no Laboratório da Disciplina de Patologia Bucal da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. As lâminas foram examinadas em microscópio de luz em 400X e 1000X de aumento. A presença e as formas do P. brasiliensis foram examinadas em cada caso.

Os esfregaços de todos os 8 pacientes demonstraram formas do P. brasiliensis, claramente visíveis nas cores negra e marrom, muitas vezes com birrefringência nítida. Nas 35 lâminas examinadas, por 70 vezes, os fungos emitiram brotamentos múltiplos. A forma esférica foi observada 176 (61%) vezes, a oval 70 (39%) vezes, em banana 3 vezes, em granada 2 vezes, em roda de leme 2 vezes, em cacho de uva 4 vezes, e em meia lua 2 vezes (Figura 1). Os fungos estavam associados a infiltrado inflamatório crônico, colônias bacterianas e hifas de Candida albicans.

 

 

Os esfregaços de citologia esfoliativa oral realizados em pacientes com diagnóstico prévio de PCM, corados pela impregnação pela prata, permitiram identificar com nitidez o fungo P. brasiliensis em todos os 8 casos estudados, durante o ano de 1998.

O presente estudo, apesar de apresentar limitação quanto ao tamanho da amostra, está em concordância com a média de 6,6 casos anuais de PCM para a região do Triângulo Mineiro conforme demostrado por Araújo & Sousa em 20001.

A citologia esfoliativa pode ser usada no diagnóstico de várias doenças orais, como no caso do carcinoma epidermóide, infecções pelo vírus herpes simples, Candida albicans, no pênfigo vulgar, em diversas formas de anemia2 6 7 8 15, e também para avaliar o efeito de agentes externos sobre a mucosa oral9 11. Tani & Franco13 em 1984 demonstraram a eficiência da citologia em amostras pulmonares no diagnóstico da PCM em humanos. Uribe et al14 e Cabral3 relatam que, em decorrência da formação de microabscessos no epitélio, é possível por meio da citologia esfoliativa observar diversas formas de P. brasiliensis. Tradicionalmente, o diagnóstico de lesões orais suspeitas de PCM são realizados pela biópsia incisional, com análise histopatológica utilizando métodos tintoriais específicos para o fungo10 12. Para Grocott5, a impregnação pela prata metanamina mostra-se superior quando empregada para diagnóstico de lesões fúngicas, pois detecta glicogênio e mucina, possibilitando, por meio de fenômenos químicos, a liberação de grupos aldeídicos, resultantes do pré-tratamento com ácido crômico, com subseqüente detecção de redução do complexo alcalino pelo nitrato de prata, já que a parede celular do fungo é rica em polissacarídeos passíveis de serem convertidos em dialdeído por oxidação.

Os dados encontrados, neste estudo, indicam que a citologia esfoliativa oral é um exame útil e válido na PCM, devido a simplicidade na sua execução, de baixo custo operacional, que não apresenta efeitos indesejáveis, podendo ser utilizado como exame de rotina ambulatorial no diagnóstico de lesões orais suspeitas. O presente estudo confirma que a utilização da técnica de impregnação pela prata pelo método de Gomori-Grocott possibilita maior facilidade, fidelidade e nitidez em observar o P. brasiliensis além de ressaltar sua utilização como método auxiliar no diagnóstico precoce e no controle terapêutico das formas de PCM que comprometem a mucosa oral, bem como, no controle da cura.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
Dr. Marcelo Sivieri de Araújo
Rua Joaquim Borges Garcia 299, Bairro Olinda
38055-540 Uberaba, MG, Brasil
Tel: 55 34 3313-8031
e-mail: marcelo.sivieri@uniube.br

Recebido para publicação em 03/12/2003
Aceito em 10/5/2003