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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.36 no.4 Uberaba July/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822003000400016 

RELATO DE CASO

 

Parto prematuro após uso de antimonial pentavalente: relato de um caso

 

Premature birth after the use of pentavalent antimonial: case report

 

 

Bruna Pinheiro SilveiraII; José Araújo SobrinhoI; Lacínia Freire LeiteII; Maria das Neves Andrade SalesI; Maria do Socorro Araújo GouveiaI; Renato Leal MathiasII; Ricardo Amorim Guedes FilhoII; Sônia Maria BarbosaI

IUnidade de Infectologia do Departamento de Clínica Médica do Hospital Universitário Alcides Carneiro da Universidade Federal da Paraíba, Campina Grande, PB
IIHospital Universitário Alcides Carneiro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Relata-se o caso de uma mulher de 19 anos, na 24a semana de gravidez e com leishmaniose visceral. Tratada com antimonial pentavalente na posologia de 850mg/dia por 20 dias, ocorreu parto prematuro no quinto dia de tratamento e óbito da criança um dia após nascimento. Considerando a importância da protozoose no nosso meio e a raridade da associação com a gestação, julgamos de interesse a publicação do caso.

Palavras-chaves: Leishmaniose visceral. Gravidez. Antimonial pentavalente. Efeitos colaterais.


ABSTRACT

A case is reported of a 19-year-old woman, at week 24 of gestation, with visceral leishmaniosis. She was treated with meglumine antimoniate at a dose of 850mg/day for 20 days. There occurred premature birth on day five of treatment and the neonate died one day after birth. Considering the importance of protozoiasis in our population and the rarity of the association with pregnancy, we resolved to publish the case.

Keywords: Visceral leishmaniasis. Pregnancy. Pentavalent antimonial. Side effect.


 

 

A leishmaniose visceral ou calazar concentra-se no Brasil, mais notadamente, na região nordeste, onde se verifica mais de 90% dos casos. Focos importantes também localizam-se nas demais regiões norte, sudeste e centro-oeste14.

Desde o ano de 1944, essa moléstia faz parte do quadro nosológico do Estado da Paraíba1. Evidências de urbanização da doença foram constatadas a partir de 1973 com a descrição de um foco no litoral paraibano5.

A possibilidade do envolvimento de mulheres em idade reprodutiva desperta preocupações quanto aos riscos de transmissão congênita e dos efeitos da medicação específica para a mãe e o concepto4.

 

RELATO DO CASO

L. B. C, 19 anos, sexo feminino, branca, casada, natural de Pombal, PB e procedente de Carfanaum, BA.

Gestante, no curso aproximado da 24a semana de concepção, foi encaminhada para o Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Alcides Carneiro da Faculdade de Medicina de Campina Grande (PB) em outubro de 2000.

Relatava que há aproximadamente cinco meses apresentava febre diária, principalmente noturna, seguida de sudorese, que cedia com o uso de antitérmico (dipirona). Referia ainda anorexia, astenia, perda ponderal, escleras icterícas e colúria. Nos dois primeiros meses de evolução dos sintomas a paciente procurou atendimento médico, tendo sido levantada a suspeita de hepatite (SIC). Ocorreu um período de melhora, porém os sintomas retornaram.

No momento da internação, a paciente não apresentava outras queixas, afirmava precárias condições de vida e moradia e a existência de 3 casos de calazar na rua onde morava.

Ao exame físico encontrava-se com estado geral comprometido, afebril, normotensa, freqüência cardíaca de 72bpm, palidez cutâneo-mucosa (3+/4+) e icterícia nas escleróticas (3+/4+). Foi evidenciado abdômen gravídico com 20cm de altura uterina, 86cm de circunferência abdominal e esplenomegalia. Não foram observadas outras alterações.

Os exames complementares realizados no momento da internação mostraram: 1.900.000 hemácias/mm3; hemoglobina de 6.9g/dl; hematócrito - 19,7%; 1.260 leucócitos/mm3 com desvio à esquerda e presença de granulações tóxicas nos neutrófilos; 126.000 plaquetas/mm3. Proteinograma com globulinas de 3,9g% e albumina de 2,2g%. Bilirrubina direta - 3,9mg/dl; Bilirrubina indireta - 1,93mg/dl; AST - 81u/l; ALT - 46u/l; fosfatase alcalina - 1037u/l; ferro sérico - 24mg/dl. O sumário de urina demonstrou bilirrubinúria. A ultra-sonografia evidenciou esplenomegalia e gestação única de 27 semanas. Os marcadores virais para hepatite B (ELISA anti HBs e AgHBs) e C (ELISA anti-HCV) foram negativos. O exame de medula óssea mostrou presença de formas amastigotas de Leishmania chagasi.

Durante a internação, a paciente apresentou picos febris, epistaxe, hemoptise e equimoses disseminadas de grande diâmetro. Os batimentos e movimentos fetais estavam preservados e os exames laboratoriais mantiveram as mesmas anormalidades.

Decidiu-se iniciar o tratamento com uma cefalosporina de 3a geração (ceftazidima 1g IV de 12/12hs) e logo após a confirmação do diagnóstico de Calazar, introduziu-se o antimonial pentavalente (N-metil glucamina 10ml + 200ml de soro glicosado IV durante 1h uma vez ao dia).

A paciente entrou em trabalho de parto após o 5o dia de uso do antimonial pentavalente, dando à luz, em outro serviço hospitalar, a um feto vivo, pré-termo, feminino (FVPTF). O recém-nascido foi assistido em unidade de terapia intensiva neonatal e apresentava ao exame físico: peso de 1.300kg, palidez acentuada, cianose, bradicardia, com crises de apnéia. Não foi evidenciado visceromegalias ou edemas. Faleceu no dia seguinte ao nascimento com diagnóstico de prematuridade, insuficiência respiratória aguda, doença da membrana hialina, acidose respiratória mista e interrogado calazar congênito.

Durante o tratamento, a paciente recebeu vários concentrados de hemácias, plaquetas e plasma. Recebeu alta no 22o dia de internação hospitalar após término de tratamento específico.

 

DISCUSSÃO

Tratava-se de uma jovem de 19 anos, no curso da segunda gestação, sem a realização de acompanhamento pré-natal sistemático embora tivesse recebido atendimento médico.

Suas manifestações clínicas prolongavam-se por cinco meses e apresentava uma hipótese diagnóstica prévia de hepatite.

A procedência do interior da Bahia e a referência de casos de leishmaniose visceral na rua onde residia, foram dados que mereceram considerações.

Comprovado o diagnóstico etiológico através do exame da medula óssea, a paciente e seus pais foram informados sobre as conseqüências possíveis da doença na gestação e dos efeitos colaterais das drogas indicadas. Houve concordância quanto ao tratamento.

A associação de leishmaniose visceral e gravidez não é freqüente2 4 9 13, Thakur et al12, em 938 casos, sendo 756 do sexo masculino e 182 femininos, encontraram a associação em apenas quatro deles.

O antimonial pentavalente é a droga de escolha para o tratamento da leishmaniose visceral, podendo ser administrada na grávida a partir do segundo trimestre na posologia de 850mg/dia por vinte dias13.

Outros autores2 10 contra indicam sua utilização na gestante. Um dos argumentos é a possibilidade de impregnação neural com o desenvolvimento de retardo mental.

Há quem coloque como droga ideal para essa fase a aminosidina na posologia de 12-16mg/kg/dia em aplicação intramuscular durante quinze a vinte dias2.

Caldas et al3 relatam um caso da associação tratada com Anfotericina B (1mg/kg/dia - 14 dias) com sucesso.

A toxicidade cardíaca é provavelmente a principal causa de morte em pacientes sob o regime terapêutico de drogas antimoniais6. Geralmente, os compostos trivalentes são mais tóxicos que os pentavalentes11.

No âmbito local já foi observado a refratariedade ao antimonial N-metil glucamina em 3 crianças de um total de 80 estudadas10.

A informação sobre mutagenicidade, carcinogênese e teratogênese é escassa6.

Ocorrência de transmissão congênita tem sido aventada em número reduzido, até mesmo em mães que se mantiveram assintomáticas8.

No caso em estudo, não foi possível investigar a hipótese de transmissão congênita, em função da remoção da paciente para outras unidades hospitalares e por dificuldades técnicas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2. Caldas AJMC, Aquino DMC, Costa JMC, Barral AP. Leishimaniose visceral na gravidez. In: Resumos do XXXVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Foz do Iguaçu p. 315, 2002.        [ Links ]

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Endereço para correspondência
Dra. Maria das Neves Andrade Sales
Rua Pedro II, 449, Prata
58101-270 Campina Grande, PB
e-mail: marianeves.andrade@bol.com.br

Recebido para publicação em 19/6/2001
Aceito em 10/6/2003