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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.37 no.1 Uberaba Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822004000100006 

ARTIGO ARTICLE

 

Efeitos da ciclosporina A e betametasona na toxocaríase murina experimental

 

Effects of cyclosporin A or betamethasone on experimental murine toxocariasis

 

 

Susana A. Zevallos LescanoI; Pedro Paulo ChieffiI,II; Denise Katia IkaiI; Manoel Carlos S. A. RibeiroII

IInstituto de Medicina Tropical de São Paulo (LIM06) da Universidade de São Paulo
IIFaculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Estudou-se o efeito de ciclosporina A ou betametasona em camundongos experimentalmente infectados por larvas de Toxocara canis administrados 15 dias antes ou 45 dias após infecção por esse ascarídeo. Nos animais infectados determinou-se a cinética da resposta humoral por IgG 60 e 90 dias após infecção por meio de pesquisa de anticorpos anti-Toxocara, utilizando teste imunoenzimático, em amostras de sangue obtidas por punção do plexo orbitário. No 90º dia após a infecção todos os animais sobreviventes foram sacrificados e submetidos a digestão ácida da carcaça, pulmões, fígado e cérebro para recuperação de larvas de Toxocara canis encistadas nesses órgãos. Observou-se retardo na produção de anticorpos IgG anti-Toxocara nos animais tratados com ciclosporina A ou betametasona 15 dias antes da infecção, além de aumento significativo na quantidade de larvas de Toxocara canis recuperadas no grupo de animais que foi tratado com ciclosporina A 15 dias antes da infecção pelo ascarídeo.

Palavras-chaves: Toxocara canis. Toxocaríase experimental. Camundongos. Ciclosporina A. Betametasona.


ABSTRACT

The effects of administration of either cyclosporin A or betamethasone 15 days before or 45 days after experimental infection with Toxocara canis on mice had been studied. The dynamics of IgG antibody production, employing an enzyme-linked immunosorbent assay, was studied 60 and 90 days after mice infection by Toxocara canis. In the 90th day after infection all surviving mice were sacrificed and the tissue trapped larvae recovered by acid digestion in the muscles, lungs, liver and brain. A significative delay in the production of IgG antibodies anti-Toxocara was observed in all the mice treated with cyclosporin A or betamethasone 15 days before infection. On the other side, mice treated with cyclosporine 15 days before infection, but not with betamethasone, showed a significative higher number of trapped Toxocara canis larvae in the examined tissues.

Key-words: Toxocara canis. Experimental toxocariasis. Mice. Cyclosporin A. Betamethasone.


 

 

Toxocara canis é um ascarídeo parasita do intestino delgado de cães, com distribuição cosmopolita2 12 16. Seres humanos e outros mamíferos quando infectados por larvas de T. canis comportam-se como hospedeiros paratênicos, não permitindo o desenvolvimento completo do helminto. As larvas, contudo, podem sobreviver por longos períodos no organismo humano, realizando migrações por órgãos e tecidos, após o que permanecem encistadas e viáveis, podendo determinar manifestações clínicas diversas, que caracterizam a síndrome de larva migrans visceral, a larva migrans ocular e a toxocaríase oculta16 17.

A freqüência de infecção de seres humanos por esse ascarídeo, determinada pela pesquisa de anticorpos anti-Toxocara no soro, é bastante variável, porém tem sido assinalada onde quer que tenha sido pesquisada, com taxas que oscilam de 1% na Espanha14 a 86% em Santa Lúcia18. No Brasil Chieffi et al6 encontraram índice de positividade de 3,7% entre 2.025 indivíduos examinados em cinco municípios do Estado de São Paulo.

No presente trabalho, procura-se determinar, em camundongos experimentalmente infectados por T. canis, o efeito de ciclosporina A e betametasona, drogas freqüentemente utilizadas no controle de rejeição em transplantes e em outras situações clínicas que demandem modulação da resposta imunitária. Estudou-se a cinética da resposta humoral e a recuperação de larvas de Toxocara canis, em órgãos e musculatura, 90 dias após a infecção.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizaram-se 90 camundongos BALB/c, fêmeas, com cerca de 8 semanas, divididos em sete grupos:

· G1: 10 camundongos infectados com Toxocara canis.
· G2: 10 camundongos tratados com ciclosporina A, sem infecção.
· G3: 10 camundongos tratados com betametasona, sem infecção.
· G4: 15 camundongos tratados com ciclosporina A 15 dias antes de infecção com T. canis.
· G5: 15 camundongos tratados com ciclosporina A 45 dias após infecção com T. canis.
· G6: 15 camundongos tratados com betametasona 15 dias antes de infecção com T. canis.
· G7: 15 camundongos tratados com betametasona 45 dias após infecção com T. canis.

Cada camundongo dos grupos G1, G4, G5, G6 e G7 recebeu, por meio de sonda esofágica, 300 ovos larvados de T. canis, obtidos por dissecção de fêmeas do helminto e após permanência mínima de 30 dias em solução de formol a 2%, à temperatura de 28ºC. Os animais dos grupos G2, G4 e G5 foram tratados com ciclosporina A, por via oral (50mg/kg/dia), durante 8 dias. Os pertencentes aos grupos G3, G6 e G7 receberam, por via subcutânea, 1mg/kg/dia de betametasona, durante 8 dias.

Os animais foram sangrados por punção do plexo orbitário com 60 e 90 dias após infecção por T. canis . No caso dos camundongos dos grupos G2 e G3 considerou-se como início do experimento o primeiro dia de tratamento. Os soros obtidos foram processados por técnica imunoenzimática (ELISA) para pesquisa de anticorpos anti-Toxocara, empregando-se antígeno de excreção-secreção extraído de larvas de T. canis, conforme técnica descrita por Glickman et al9 e adaptada por Chieffi et al5. Para calcular o limiar de reatividade utilizaram-se soros de camundongos não infectados por T. canis, mantidos em estoque.

Noventa dias após início do experimento os animais sobreviventes foram sacrificados e realizou-se recuperação de larvas de T. canis no pulmão, fígado, cérebro e carcaça, segundo técnica descrita por Xi & Jin19.

Os dados obtidos foram analisados por meio de testes estatísticos não paramétricos (Kruskal-Wallis e qui-quadrado), utilizando-se nível de significância de 5% (p=0,05).

 

RESULTADOS

As Tabelas 1 e 2 mostram a evolução dos níveis de anticorpos anti-Toxocara observados nos soros dos camundongos dos diversos grupos experimentais, obtidos 60 e 90 dias após infecção por T. canis.

 

 

 

 

O número médio de larvas de T. canis recuperadas no pulmão, fígado, cérebro e carcaça dos animais dos grupos G1, G4, G5, G6 e G7 após digestão com ácido clorídrico está expresso na Tabela 3.

 

 

DISCUSSÃO

Ciclosporina A e betametasona são drogas com marcado efeito imunossupressor que, com freqüência, são utilizadas em esquemas terapêuticos para diversas situações clínicas, destacando-se o controle de processos de rejeição em pacientes submetidos a transplantes de órgãos.

No caso da ciclosporina A, além da atividade imunossupressora, tem sido assinalada ação antiparasitária em diversos modelos experimentais1 3 4 7 8 10 11. Palau & Pankey13 acreditam que em pacientes submetidos a transplante renal o uso de ciclosporina A pode ser responsável pela diminuição de casos de hiperinfecção por Strongyloides stercoralis, a exemplo do que foi verificado experimentalmente em camundongos1.

Não se conhece completamente o mecanismo pelo qual a ciclosporina A exerce ação antiparasitária. Sua ação imunossupressora depende de ligação com receptor intracelular denominado ciclofilina15 porém, como outras drogas análogas à ciclosporina A, que não utilizam o mesmo receptor, apresentam efeito anti-helmíntico semelhante ao da ciclosporina A no modelo representado por camundongos-Hymenolepis microstoma11 supõe-se que o mecanismo de ação antiparasitária seja diverso.

Camundongos e outros murídeos comportam-se como hospedeiros paratênicos quando infectados por larvas de T. canis, constituindo modelo adequado para estudo das relações hospedeiro-parasita na síndrome de larva migrans visceral, uma vez que reproduzem, a grosso modo, os fenômenos que ocorrem em seres humanos infectados por esse ascarídeo.

Os resultados do presente trabalho sugerem ausência de efeitos deletério ou sinérgico da ciclosporina A ou betametasona sobre larvas de Toxocara canis, quando administradas a camundongos previamente infectados pelo ascarídeo. No caso da betametasona a mesma ausência de efeitos foi observada quando se administrou a droga 15 dias antes da infecção; entretanto, quando a droga utilizada previamente foi a ciclosporina A verificou-se significativo aumento da quantidade de larvas recuperadas nos tecidos após digestão ácida (Tabela 3), indicando diminuição da capacidade de eliminação espontânea de parcela da carga parasitária, podendo resultar em infecção mais grave nesse caso, com predominância do efeito imunossupressor sobre a ação anti-parasitária da droga, ao contrário do que fora observado por El-Ganayni & Handousa7 anteriormente.

Com relação à produção de anticorpos IgG anti-Toxocara observou-se nítido retardo em seu surgimento nos animais tratados com ciclosporina A ou betametasona 15 dias antes da infecção por Toxocara canis (Tabelas 1 e 2), porém o mesmo não se verificou nos grupos que receberam essas drogas 45 dias após serem infectados. Deve-se ressaltar, entretanto, que quando se considerou o resultado qualitativo da reação imunoenzimática (teste positivo ou negativo), 90 dias após a infecção, os camundongos de todos os grupos experimentais, assim como os do grupo controle, mostraram resultados semelhantes com relação ao nível de anticorpos antiToxocara, revelando igualmente a presença da infecção.

Tais resultados indicam que o efeito anti-helmíntico da ciclosporina A não consegue sobrepujar os efeitos imunodepressores quando essa droga é administrada previamente à infecção por T. canis e, por outro lado, sugere que o emprego de ambas as drogas testadas não interfereria de forma significativa com os processos habitualmente empregados no diagnóstico laboratorial da síndrome de larva migrans visceral em seres humanos, nos casos de infecção crônica, isto é, com mais de 60 dias de evolução.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Pedro Paulo Chieffi
Instituto de Medicina Tropical de São Paulo
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar 470
05403-000 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: pchieffi@usp.br

Recebido para publicação em 7/10/2002
Aceito em 6/12/2003

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