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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.37 no.1 Uberaba Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822004000100018 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Criptococose mamária manifesta após corticoterapia

 

Cryptococcal mastitis after corticosteroid therapy

 

 

Sória Ramos-Barbosa; Luciana Silva Guazzelli; Luiz Carlos Severo

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Descrevemos caso de criptococose mamária em paciente de 46 anos em uso de corticoterapia. A micose foi diagnosticada por histopatologia e detecção de antígenos criptocócicos. Destacamos o dilema diagnóstico do granuloma sarcóide e a rara manifestação de mastite criptocócica.

Palavras-chaves: Criptococose. Sarcoidose. Mastite criptocócica. Granuloma.


ABSTRACT

We described a case of cryptococcal mastitis in a 46 years old female patient receiving corticosteroids for sarcoidosis. There was radiological pulmonary deterioration and a cystic lesion was found in the left breast.The mycosis was diagnosed by histopathology and cryptococcal antigens. We emphasized the sarcoid granuloma diagnostic's dilemma an the rare manifestation of cryptococcal infection as mastitis.

Key-words: Cryptococcosis. Sarcoidosis. Cryptococcal mastitis. Granuloma.


 

 

A criptococose é adquirida por inalação e é conhecido o marcado tropismo do fungo pelo sistema nervoso central, sendo a principal manifestação clínica desse acometimento a meningoencefalite. Contudo, qualquer órgão do corpo pode ser acometido. O principal fator predisponente é o defeito na imunidade celular, tais como o verificado na Aids e na imunossupressão terapêutica5.

Apresentaremos caso de criptococose mamária secundária a corticoterapia, em paciente com diagnóstico operacional de sarcoidose.

 

RELATO DO CASO

Paciente feminina, branca, 46 anos, procedente de Novo Hamburgo (RS), notou há dois meses tumefação na fossa ilíaca esquerda, associada 'a dor em região lombar irradiada para abdome, além de dispnéia. Referia anorexia, emagrecimento de 10kg em 4 meses, cefaléia matinal com localização occipital e parietal. Negava febre ou sintomas cardiovasculares. O exame físico revelou linfadenomegalia difusa e esplenomegalia. A telerradiografia do tórax mostrou infiltrado intersticial micronodular em ambos os pulmões, predominante a direita e nas metades superiores. A sorologia para vírus HIV foi negativa e a glicemia de jejum foi de 95mg/dl. A biópsia de gânglio cervical em cortes corados à hematoxilina-eosina evidenciou a presença de inflamação granulomatosa de tipo tuberculóide, sem necrose caseosa.

O tipo das lesões pulmonares sugeriu processo inflamatório granulomatoso crônico. O aspecto histopatológico do gânglio cervical e a anergia à tuberculina levaram à hipótese operacional de sarcoidose, sendo introduzido o uso de corticóide: prednisona 30mg/dia/1 semana, seguido de 20mg/dia, sem melhora da linfadenomegalia. Após 4 meses, foi reduzido o corticóide para l0mg/dia e notou-se, ao exame físico, nódulo doloroso em mama esquerda. Após mamografia, foi realizada exérese do nódulo mamário. O estudo anatomopatológico mostrou lesão cística contendo grande número de elementos fúngicos, esféricos encapsulados característicos de Cryptococcus neoformans. Nova telerradiografia do tórax nesta ocasião mostrou cavitações múltiplas parenquimatosas em ambos os pulmões. O exame sorológico evidenciou antígenos criptocócicos em título de 1:512.

Houve boa resposta ao tratamento antifúngico (cetoconazol 100mg, 12/12h por um ano) com regressão das lesões pulmonares e da linfadenomegalia.

 

DISCUSSÃO

A demonstração de granuloma não caseoso, a linfadenopatia, o envolvimento pulmonar bilateral levantaram a hipótese diagnóstica de sarcoidose. Contudo, a falta de resposta clínica à corticoterapia e o surgimento de lesão tumefasciente mamária fizeram com que a criptococose fosse diagnosticada. Este fato, associado ao sucesso terapêutico com antifúngico colocaram em dúvida o diagnóstico de sarcoidose.

A sarcoidose, devido a inversão da relação CD4/CD8, consequência da redistribuição dos linfócitos T auxiliares do sangue periférico para os pulmões, determina imunodepressão relativa, o que facilita a infecção por germes oportunistas de célula T, como é o caso do C. neoformans2, principalmente após corticoterapia7 9.

A criptococose mamária foi inicialmente descrita em animais6; em humanos restringe-se a uma dezena de relatos4, em sua maioria com lesões de disseminação, especialmente para sistema nervoso central. A mama, por tratar-se de glândula apócrina, favorece o crescimento fúngico3. A manifestação da lesão mamária pode ser a apresentação inicial da micose ou de doença sistêmica manifesta4.

Por sua vez, a sarcoidose é grande mimetizadora de infecções respiratórias1, especialmcnte fúngicas, sendo que o granuloma não caseoso, observado nesta doença, e seus achados laboratoriais podem ser encontrados também em micoses sistêmicas1 10 11, particularmente na histoplasmose onde há elevação dos níveis da enzima conversora de angiotensina, que é utilizada para avaliar a evolução da sarcoidose11 12.

Por fim, a evolução clínica e radiológica e a refratariedade ao tratamento com corticóides em paciente com sarcoidose estável deve suscitar a possibilidade de infecção superimposta1 8, ou infecção fúngica não diagnosticada, ou mesmo doença fúngica produzindo resposta inflamatória crônica similar à sarcoidose11.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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10. Wanke B, Londero AT. Paracoccidioides brasiliensis. In: Ajello L, Hay RJ (eds) Medical mycology, Arnold, London, vol 4, p. 395-407, 1988.         [ Links ]

11. Wheat LJ, French LV, Wass JL. Sarcoidlike manifestations of histoplasmosis. Archives of Internal Medicine 149:2421-2426, 1989.         [ Links ]

12. Yassen Z, Havlichek D, Mathes B, Hahn M-H. Disseminated histoplasmosis in a patient with sarcoidosis; a controversial relationship and a diagnostic dilemma. The American Journal of the Medical Sciences 313:187-190, 1997.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Luiz Carlos Severo
Laboratório de Micologia/Hospital Santa Rita, Santa Casa
Complexo Hospitalar Annes Dias 285,
90020-090 Porto Alegre, RS
Fax: 55 51 3214-8435
E
mail:severo@santacasa.tche.br

Recebido para publicação em 30/12/2002
Aceito em 6/12/2003

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