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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.37 n.3 Uberaba mayo/jun. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822004000300016 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

A periurbanização de Lutzomyia whitmani em área de foco de leishmaniose cutânea, no Estado do Maranhão, Brasil

 

Lutzomyia whitmani periurbanization in a focus of cutaneous leishmaniasis in the State of Maranhão, Brazil

 

 

Francisco Santos LeonardoI; José Manuel Macário RebêloII

IDistrito Sanitário de Codó da Fundação Nacional de Saúde. São Luís, MA
IILaboratório de Entomologia e Vetores do Departamento de Patologia da Universidade Federal do Maranhão, São Luís, MA

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Em um inquérito entomológico realizado em 2000, na zona periurbana do município de Dom Pedro-MA, pretendia-se estimar a abundância de Lutzomyia longipalpis, por conta da ocorrência de um óbito suspeito de calazar. Entretanto, constatou-se que do total de 2.961 flebótomos capturados no peridomicílio, 82,4% (2.440 espécimes) eram de Lutzomyia whitmani. Esta associação vem determinando um novo padrão de transmissão da leishmaniose cutânea (o urbano), como vem acontecendo com o calazar nordestino.

Palavras-chaves: Lutzomyia whitmani. Leishmaniose cutânea. Estado do Maranhão.


ABSTRACT

An entomological survey was performed in the periurban area of the municipality of Dom Pedro in the state of Maranhão in 2000, in order to estimate the abundance of Lutzomyia longipalpis, due to the occurrence of one suspect death caused by kala azar. However, it was surprisingly verified that 82.4% (2,440 specimens) from the total of 2,961 sand flies captured in the peridomicile were Lutzomyia whitmani. This association has indicated a new pattern for cutaneous leishmaniasis transmission (urban), as has been observed with regard to kala azar in the northeast of Brazil.

Key-words: Lutzomyia whitmani. Cutaneous leishmaniasis. State of Maranhão.


 

 

A Lutzomyia (Nyssomyia) whitmani Antunes & Coutinho, 1939 é uma espécie (sensu lato) de ampla distribuição na América do Sul20. No Brasil, desenvolveu hábito antropofílico e ocorre nos domicílios humanos e abrigos animais de algumas áreas do Nordeste1 3 19 e Sudeste8 9. No Centro-Oeste, a antropofilia tem sido notada, mas esta prática ainda é exofílica6, enquanto no Sul tem sido associada com ambientes silvestres18.

Ao contrário do que se observa nas áreas onde transmite a Leishmania (V.) braziliensis, na Região Norte ainda conserva o hábito silvestre e é incriminada na transmissão de Leishmania (V.) shawi7.

Na Amazônia do Maranhão, é abundante no ambiente silvestre e peridoméstico da zona rural14 15, enquanto no leste do Estado a freqüência dos espécimes nas residências rurais ainda é muito baixa13.

Neste trabalho, estudou-se a freqüência de espécimes de L. whitmani na zona periurbana do município de Dom Pedro, área de ocorrência de leishmaniose cutânea (LC).

O município, situado a 5o 9´S e 44o 28´W, na região centro-leste do Maranhão, compreende uma área de 756,6km2 e uma população total de 21.779 habitantes (10.559 homens e 11.220 mulheres), sendo 13.867 urbanos e 7.912 rurais. A quantidade de domicílios é de 6.046, dentre estes, 5.191 encontram-se ocupados. O clima é o quente e úmido em transição para o quente semi-árido, com índice pluviométrico anual de 1.200mm (Figura 1). A vegetação original, também de transição, denominada floresta estacional perenifólia aberta com babaçu ou floresta latifoliada semidecídua, estende-se entre o cerrado e a floresta perene latifoliada densa e entre esta e a caatinga. É difícil caracteriza-la, tanto do ponto de vista estrutural, como do ponto de vista florístico, tais as nuanças que apresenta.

O estudo havia sido planejado para estimar a densidade de L. longipalpis, por conta da ocorrência de um óbito suspeito de calazar. Então, realizou-se um inquérito entomológico no período de 26 a 30 de junho de 2000, durante cinco noites consecutivas (das 18 às 6 horas) em uma residência de três bairros periurbanos contíguos ao centro da cidade por meio de outros bairros. Duas residências tinham o quintal arborizado, contíguo à capoeira adjacente, e na terceira, fazia contato com uma área descampada. Em cada residência foram instaladas duas armadilhas CDC a uma altura de 1,5 metros, sendo uma no galinheiro presente no quintal (peridomicílio), e outra no dormitório (intradomicílio). A distância dos galinheiros para as residências variaram de 5 a 10 metros. Considerando 6 armadilhas x 12 horas x 5 noites, o esforço de captura foi de 360 horas.

Do total de 2.961 espécimes de flebótomos capturados, apenas 17,6% eram de L. longipalpis contra 82,4% (2.440 exemplares) de L. whitmani. Destes, 98,7% (2.408 espécimes) estavam no peridomicílio, contra 1,3% (32 espécimes) dentro das habitações. Estes são dados que à primeira vista impressionam, sobretudo em se tratando de uma área tida como endêmica de calazar. Todavia, somente naquele ano haviam sido notificados aproximadamente 42 casos de LC em todo o município, e no ano seguinte (2001), as notificações aumentaram para 58 casos, atingindo o sexo masculino (34 casos) e o feminino (24 casos) (Gerência de Qualidade de Vida do Estado do Maranhão, 2002). A doença predominou no sexo masculino (58,6%), mas a freqüência no feminino foi elevada (41,4%), sugerindo transmissão peridomiciliar.

Pelo que se pode apurar, em conversa com membros da população local, o crescimento da cidade, nos últimos anos, foi acompanhado por um intenso desmatamento da cobertura vegetal periférica, predominando, atualmente, a capoeira e babaçu nas proximidades da cidade. Esse processo, provavelmente, criou condições favoráveis para a proliferação do vetor. A julgar pela freqüência de flebotomíneos capturados nos galinheiros, a criação de animais domésticos parece que também tem contribuído para atrair o vetor para a zona periurbana e aumentar a participação daqueles no ciclo epidemiológico da LC, fenômeno conhecido em áreas endêmicas da infecção4 16.

A ampla distribuição de Lutzomyia whitmani e a associação com Leishmania, em distintas regiões geográficas1 7, tem suscitado a hipótese dela constituir um complexo de espécies crípticas alopátricas, com tipos característicos de comportamento epidemiológico10. Estudos de mt-DNA indicaram a presença de pelo menos três linhagens filogenéticas11, as quais teriam divergido desde o final do Plioceno5 e, agora habitam três zonas bioclimáticas: a Floresta Amazônica; a zona dos Cerrados e a Mata Atlântica11.

A população de L. whitmani de D. Pedro ainda não é conhecida neste aspecto, entretanto, aquela encontrada no ambiente peridoméstico na Amazônia do Maranhão14 15, pertence à linhagem amazônica, enquanto sua peridomesticidade pode ter resultado da seleção de um comportamento prévio, pouco freqüente, ou do fluxo de genes da linhagem extra-amazônica12. Esta última hipótese é sustentada pelo extensivo processo de desmatamento ocorrido em Buriticupu, desde o início da década de 1970, transformando a região em um gradiente ecológico (ecótono) entre a floresta amazônica e os cerrados. Esse processo aumentou o contato do vetor com as pessoas e o risco de adquirirem a infecção na própria habitação ou em sua cercania.

Os registros da Gerência de Qualidade de Vida do Estado do Maranhão indicam que na década de 90, houve expansão da doença para novas fronteiras, inclusive para a região de D. Pedro. Tal fenômeno ocorreu, provavelmente, devido ao desmatamento nas áreas situadas entre as grandes cidades, em função de implantação dos diversos projetos de desenvolvimento. De acordo com os registros da FUNASA (Regional do Maranhão), a incidência da doença em D. Pedro, evoluiu de 34,61/100 mil habitantes no ano de 1994 para 74,23, em 1999. A existência da doença pode estar relacionada com a presença de L. whitmani. O achado deste estudo é um alerta de que L. whtimani vem se adaptando à zona periurbana podendo determinar um novo padrão de transmissão da LC no Maranhão – o urbano.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
Dr. José Manuel Macário Rebêlo
Praça Madre Deus 2
65025-560 São Luís, MA, Brasil
Telefax: 55 98 248-2929
e-mail: macariorebelo@uol.com.br

Recebido para publicação em 6/2/2003
Aceito em 19/2/2003