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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.37 no.5 Uberaba Sept./Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822004000500013 

CARTA AO EDITOR LETTER TO EDITOR

 

Erucismo

 

Erucism

 

 

Endereço para correspondência

 

 

Senhor Editor:

A propósito do termo erucismo, praticamente desconhecido na terminologia médica, consultamos algumas fontes bibliográficas e chegamos à conclusão de que o mesmo, embora não esteja dicionarizado, é um termo correto, que expressa com propriedade a ação tóxica de larvas peçonhentas como a lagarta do gênero Lonomia.

É um neologismo híbrido, formado com a raiz latina eruca + sufixo grego ismo.

O sufixo ismo, conforme assinala Houaiss em seu dicionário, é usado em medicina para designar uma intoxicação de um agente obviamente tóxico.

Horácio, o clássico escritor e poeta latino do século I a.C., deu o nome de eruca a uma planta cultivada na Europa (Eruca sativa), usada como comestível, cujas folhas têm a superfície aveludada.

Com o significado de larva, o termo eruca encontra-se registrado no Lexicum Latinum de Calepinus, de 1758, com a referência histórica de que o mesmo fora empregado por Columela no século I d.C., em seu livro Rei Rustica 1.II (...genus vermis qui in olerum folia repit). Provavelmente Columela deu este nome à larva por seu corpo recoberto de cerdas, lembrando o aspecto das folhas da planta descrita por Horácio.

Outras fontes, como o Dicionário Latino-Português, de Saraiva, atribuem a acepção de larva a Plinius, em sua clássica obra Naturalis Historiae.

Consultando o texto original dessa obra, no livro XI.xxxvii, verificamos que Plinius, na verdade, não usou eruca e sim uruca (inde porrigitur vermiculus parvus et triduo mox uruca).

A existência de variantes da palavra eruca é explicada por Ernout et Meillet, em seu Dictionnaire etymologique de la langue latine. A planta à qual Horácio dera o nome de eruca era considerada afrodisíaca e, por essa razão, surgiram as formas uruca (usada por Plinius) e urica, ambas por influência do radical uro (do grego oûron, que, segundo Bailly, além de urina, significa também líquido seminal).

Aceita esta explicação, parece evidente que deve prevalecer a forma eruca na formação de compostos como eruciforme e erucismo, o primeiro dos quais já averbado nos léxicos.

Erucismo pode ser comparado a outros tipos de envenenamento por peçonha de origem animal, a exemplo de ofidismo, escorpionismo, aracnidismo ou aracnoidismo. Uma vez legitimado pelo uso, certamente o termo erucismo irá integrar o acervo lexical não somente da língua portuguesa, como de outros idiomas de cultura, com as adaptações mórficas apropriadas a cada um deles. Em inglês, por exemplo, seria erucism, tal como em ophidism, scorpionism e arachnidism.

Joffre Marcondes de Rezende

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Bailly A. Dictionnaire Grec-Français. 16th edition, Library Hachette, Paris, 1950.

2. Calepinus. Lexicon latinum. 8 th edition, Patavii, Typis Seminarii, 1758.

3. Ernout A, Meillet A. Dictionnaire Étymologique de la langue latine. histoire des mots, 4 th edition, Klincksieck, Paris, 1979.

4. Houaiss A, Vllar MS. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Objetiva, Rio de Janeiro, 2001.

5. Plinius. Naturalis Historia. The loeb classical library, vol. III. Harvard University Press, Cambridge, p. 502, 1979.

6. Saraiva FRS. Dicionário Latino-Português. 10 th edition, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1993.

 

 

Endereço para correspondência
Prof. Joffre Marcondes de Rezende
R. João de Abreu 744/02, Setor Oeste
74120-110 Goiânia, GO
e-mail: jmrezende@mail.cultura.com.br

Recebido para publicação em 14/6/2004
Aceito em 16/6/2004