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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.38 n.3 Uberaba mayo/jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822005000300013 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Flebotomíneo em fragmentos de Mata Atlântica na Região Metropolitana do Recife, PE

 

Phlebotomine sandflies in fragments of rain forest in Recife, Pernambuco State

 

 

Dílvia Ferreira SilvaI; Simão Dias VasconcelosII

ILaboratório de Leishmaniose e Doença de Chagas do Centro de Pesquisa em Ciência da Saúde do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, AM
IIDepartamento de Zoologia do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Foi realizada uma investigação sobre a distribuição da fauna flebotomínica em 4 fragmentos da Mata Atlântica na Região Metropolitana do Recife. Consistiu na captura de insetos adultos com auxilio de armadilhas luminosas CDC. 1.173 espécimes distribuídos em 11 espécies de Lutzomyia: Lutzomyia evandroi, Lutzomyia choti, Lutzomyia walkeri, Lutzomyia umbratilis, Lutzomyia brasiliensis, Lutzomyia sordellii, Lutzomyia claustrei, Lutzomyia wellcomei, Lutzomyia fluviatilis, Lutzomyia furcata e Lutzomyia aragaoi.

Palavras-chaves: Lutzomyia. Flebotomíneos. Mata Atlântica. Fragmentos.


ABSTRACT

An investigation was conducted into the distribution of sandfly fauna in 4 fragments of Atlantic forest in the Metropolitan Area of Recife. It consisted of the capture adult insects using CDC light traps. A total of 1,173 specimens were distributed in 11 species of Lutzomyia: Lutzomyia evandroi, Lutzomyia choti, Lutzomyia walkeri, Lutzomyia umbratilis, Lutzomyia brasiliensis, Lutzomyia sordellii, Lutzomyia claustrei, Lutzomyia wellcomei, Lutzomyia fluviatilis, Lutzomyia furcata e Lutzomyia aragaoi.

Key-words: Lutzomyia. Sandflies. Rain Forest. Fragment.


 

 

No Nordeste do Brasil existe uma grande riqueza de espécies de flebotomíneos. Estados como Maranhão, Ceará e Bahia apresentam uma fauna bastante diversificada, constituída por um grande número de espécies13 15.

Em Pernambuco, a fauna flebotomínica de Lutzomyia ainda é pouco estudada quanto à diversidade e distribuição das espécies. Os dados disponíveis relatam o encontro de algumas espécies no município de Igarassu e na Região Metropolitana do Recife10 12. Na Zona da Mata há apenas ocorrência de algumas espécies em área endêmica da leishmaniose tegumentar3 4, não sendo possível determinar com mais clareza a composição da fauna flebotomínica existente naquela área. Entre os anos de 1990 -1999 foram registrados para o Estado de Pernambuco 7.616 casos, dos quais 6.308 (82,8%) eram de leishmaniose tegumentar americana e 1.308 (17,2%) leishmaniose visceral. O número de homens afetados pelas leishmanioses foi superior ao encontrado em mulheres14.

Este trabalho tem como objetivo investigar a distribuição dos flebotomíneos em fragmentos da Mata Atlântica localizadas na Região Metropolitana do Recife.

Área de estudo. Para este estudo, foram escolhidas 4 áreas formada por fragmentos de Mata Atlântica localizadas em diferentes pontos da Região Metropolitana do Recife. Pernambuco compreende uma área de 98.937km² e uma população de 7,5 milhões de habitantes. O clima é tropical, com índice pluviométrico de 2000mm no litoral e 600mm no interior. A Estação Ecológica do Tapacurá (34º60' W; 08º07' S), município de São Lourenço da Mata, ocupa uma área de 776ha, sendo 348 ha referente ao lago formado pelo represamento do rio Tapacurá. A área é ocupada por floresta ombrófila aberta. A Mata do Curado (34º57' W ; 8º04' S), município de Recife, com cerca de 43,40 ha. situada na 7ª Região Militar do Comando Militar do Nordeste. Área de formação pioneira, apresentando estratos arbóreos, arbustivos e herbáceos. Mata de Dois Irmãos (34º56'00''W; 8º00'00''S), próxima a Universidade Federal Rural de Pernambuco, possui área de 387,42ha com estrato arbóreo denso formando um dossel que atinge 20m de altura, estrato arbustivo escasso e herbáceo presente em áreas semi-abertas com maior penetração da luz. O Refúgio Ecológico Charles Darwin (34º27'25''W; 7º48'37"S) no município de Igarassu, litoral norte de Pernambuco, possui área de 60ha com mata úmida, remanescente da primitiva floresta atlântica costeira.

Captura dos flebotomíneos. As coletas foram realizadas no período de um ano compreendido entre outubro/1999 e setembro/2000. Para captura, foram utilizadas armadilhas CDC a uma altura de 1 metro com períodos de 12 horas, dois dias em cada área de mata, perfazendo um total de 1.152 horas. Os insetos coletados foram colocados em álcool 70% e levados para identificação no Laboratório de Invertebrados Terrestres do Departamento de Zoologia, Universidade Federal de Pernambuco. Para identificação, foi utilizada a chave de Young & Duncan16.

No período de 12 meses (outubro/1999 a setembro/2000) foram coletados um total de 1.173 flebotomíneos nas quatro áreas de mata da Região Metropolitana do Recife. Estes flebotomíneos estão distribuídos em 11 espécies pertencentes ao gênero Lutzomyia França. As espécies deste gênero são L. evandroi (Costa Lima & Antunes 1936), L. choti (Floch & Abonnenc 1944), L. walkeri (Newstead 1914), L. umbratilis (Ward & Fraiha 1977), L. brasiliensis (Costa Lima 1932), L. sordellii (Shannon & Del Ponte 1927), L. claustrei (Abonnenc, Léger & Fauran 1979), L. wellcomei (Fraiha, Shaw & Lainson 1971), L. fluviatilis (Floch & Abonnenc 1944), L. furcata (Mangabeira 1941) e L. aragaoi (Costa Lima 1932) (Tabela 1).

 

 

Dentre os espécimes coletados 678 (58%) fêmeas e 495 (42%) machos, ocorrendo uma diferença significante na abundância entre ambos os sexos (p< 0,05) (Figura 1).

 

 

Os resultados deste trabalho apresentaram a fauna flebotomínica encontrada em 4 áreas compostas por fragmentos da Mata Atlântica localizadas na Região Metropolitana do Recife. Das 11 espécies capturadas, apenas Lutzomyia furcata e L. evandroi já haviam sido citadas em levantamentos anteriores conduzidos nesta região para as áreas de Dois Irmãos e Igarassu6 7 8. Por outro lado, as espécies L.schereiberi, L. oswaldoi, L. intermedia, L. shannoni e L. squamiventris registradas nos citados estudos, conduzidos há cerca de 20 anos, não foram capturadas na presente pesquisa. Podemos inferir que o horário de coleta e as armadilhas utilizadas podem ter influenciado na captura de diferentes espécies.

A razão total fêmeas/machos das espécies coletadas encontra-se próxima de 2:1. Aguiar et al1 2, acreditam que coletas com armadilha luminosa possa atrair um maior número de machos, visto que estes formam um agregado com o propósito de acasalamento. Em nossas coletas foi observado que o número de machos foi inferior ao número de fêmeas, não corroborando com o pressuposto observado pelos autores acima citado.

Verificou-se que a Estação Ecológica do Tapacurá apresentou o menor índice de diversidade, o que pode estar relacionado ao nível de devastação local com modificação da sua flora original. Na mata do Curado foi observado o maior índice de diversidade, acredita-se que a conservação da mata primitiva neste local resulte na permanencia dos mamíferos silvestres nos quais os flebotomíneos realizam o repasto sanguineo.

Das espécies encontradas, duas são importantes para a saúde pública, L. umbratilis e L. wellcomei. A primeira, considerada vetor silvestre da Leishmania (Viannia) guyanensis no norte do país, aparentemente prefere praticar hematofagia na copa das árvores onde se encontram seus hospedeiros naturais5 15, Ready et al9 afirmaram que pessoas que realizaram desmatamentos em seus lotes para estabelecer suas moradias em áreas próximas a Manaus contraíram leishmaniose quando picadas pela L. umbratilis.

Ready et al10 registraram a ocorrência de L. wellcomei fora da Bacia Amazônica, em ambiente florestal no Estado do Ceará. É provável que a larga distribuição de Leishmania (Viannia) braziliensis nos Estados da Paraíba, Bahia e Ceará resultem da transmissão por L. wellcomei4 10 15, Rebêlo et al12 13 ao relatarem a presença destas espécies no Maranhão, sugerem que a retirada da cobertura vegetal da Ilha de São Luís pode ter favorecido o deslocamento de animais silvestres no qual os flebotomíneos fazem o repasto, conduzindo estes insetos a procurarem fontes alternativas de alimento, ocorrendo com isso surtos epidêmicos da leishmaniose visceral e tegumentar americana.

Embora L. umbratilis e L. wellcomei tenham sido capturadas no Refúgio Ecológico Charles Darwin e na Mata de Dois Irmãos, não se pode responsabilizá-las como vetores da Leishmania (Viannia) braziliensis e Leishmania (Viannia) guyanensis em Pernambuco devido à ausência de análise destes insetos encontrados com parasitos, relatando a ocorrência e possíveis implicações na transmissão da leishmaniose tegumentar. Esta carência também se deve à falta de estudos específicos demonstrando o envolvimento de diferentes espécies de Leishmania na infecção da leishmaniose tegumentar americana. Até o momento, apenas L. whitmani tem sido incriminada como responsável pela transmissão da leishmaniose cutânea e L. longipalpis pela leishmaniose visceral para este estado.

Os resultados deste trabalho ampliam o conhecimento acerca da distribuição dos flebotomíneos em áreas de mata localizadas na Região Metropolitana do Recife. O registro nessas matas de duas espécies incriminadas na transmissão da leishmaniose em outra região, é motivo de preocupação, justificando maiores investigações sobre este fenômeno.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência
Drª Dílvia Ferreira da Silva
Laboratório de Leishmaniose e Doença de Chagas /INPA
Av. André Araújo 2936, Petrópolis
Caixa Postal 478, 69011-970, Manaus, AM
Tel:55 92 643-3065
e-mail: dilvia@inpa.gov.br

Recebido para publicação e 10/3/2004
Aceito em 3/3/2005