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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.38 n.3 Uberaba mayo/jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822005000300016 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Aspectos epidemiológicos de um foco de malária no município de São Luis, MA

 

Epidemilogical aspects of a malaria focus in the districts of São Luis, MA

 

 

Marília Cristina Tavares RibeiroI; Eloísa da Graça do Rosario GonçalvesII; Pedro Luiz TauilIII; Antonio Rafael da SilvaII

ICurso de Mestrado em Saúde e Ambiente da Universidade Federal do Maranhão, São Luis, MA
IICentro de Referência em Doenças Infecciosas e Parasitárias do Departamento de Patologia da Universidade Federal do Maranhão, São Luis, MA
IIINúcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília, Brasília, DF

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O estudo foi realizado na localidade de Residencial Paraíso, São Luis, Maranhão, de 1999 a 2001, com o objetivo de analisar os aspectos epidemiológicos da malária, tendo sido constatado que a localidade é receptiva e vulnerável. Houve 129 casos, com maior acometimento do sexo masculino e da faixa etária de 20 a 29 anos. O Plasmodium vivax foi o agente responsável pelas infecções, tendo como vetor o Anopheles aquasalis. Foram identificadas evidências de transmissão extradomiciliar.

Palavras-chaves: Malária. Foco. Epidemiologia. São Luis.


ABSTRACT

The study was developed in the neighborhood of Residencial Paraíso, São Luis, Maranhão, Brazil, from 1999 to 2001. The aim was to analyze the epidemiological aspects of malaria. The location is receptive and vulnerable to malaria. There were 129 cases. Men from 20 to 29 years of age were most involved. Plasmodium vivax was the agent of all cases and Anopheles aquasalis was the vector. There was no evidence of transmission occurring outside of the houses.

Key-words: Malaria. Focus. Epidemiology. São Luis.


 

 

O estudo foi realizado na localidade de Residencial Paraíso, situada numa área de 1,5km2, a oeste do Município de São Luis, no período de 1999 a 2001. Cercada de pântanos em mais de dois terços de seus limites, a localidade apresenta clima quente e úmido. O período chuvoso estende-se de janeiro a julho, apresentando pluviosidade maior que 2000mm/ano. É desprovida de sistema de água encanada e de rede de esgoto, bem como de serviço de coleta de lixo. A população é composta por 1295 habitantes que residem em 339 domicílios (média de 3,8 pessoas por domicílio). Grande parte (67,7%) dos habitantes é proveniente de outras áreas da Ilha de São Luis; 25,4%, de municípios do interior e 0,8%, de outros estados. A prática de hospedar familiares por semanas ou meses foi referido em 40,1% das famílias. A população distribui-se em 49,1% do sexo masculino e 50,8%, do feminino, com 89,2% dos indivíduos tendo de 0 a 39 anos de idade. Num grupo de 643 pessoas acima de 18 anos apenas 0,6% completou o curso superior; 13,5% o ensino fundamental e 11,5%, o ensino médio. Houve 10,3% de não alfabetizados. Houve predomínio de estudantes e pessoas com atividades domésticas, sendo a renda mensal auferida por 64,3% das famílias inferior a 2 salários mínimos.

Do total de domicílios, 58,3% têm paredes de alvenaria. Em 95% há portas e janelas de madeira de modo que em relação à entrada de mosquitos 89,7% podem ser consideradas protegidas. Constatou-se que em 77,4% das casas os banheiros e as instalações sanitárias situam-se no quintal e em 72% o destino final dos dejetos é a fossa negra.

Foram notificados 26 casos de malária em 1999; 93, em 2000 e 10, em 2001, com maior incidência no período chuvoso. A distribuição por idade demonstra diferença significativa (p < 0,05) quando se compara a faixa de 0-4 anos com as demais (Tabela 1). Houve predomínio do sexo masculino sobre o feminino (p < 0,05), 34 % eram estudantes; 13,1%, pedreiros; 13,1%, do lar; e 8,8% estavam desempregados. A maior (41,76%) proporção possuía escolaridade equivalente ao fundamental incompleto e 11% não eram alfabetizados. A maioria (68,1%) dos doentes utilizava água proveniente de chafariz público ou de poços vizinhos, enquanto na casas de 81,3%, o banheiro situava-se do lado de fora. Quando se comparou o grau de isolamento e de proteção das casas em relação à entrada de mosquitos com a ocorrência ou não de malária, constatou-se que não houve diferença estatisticamente significativa (p > 0,05), sendo que 93,4% dos pacientes viviam em casas não isoladas e 89%, em casas consideradas protegidas. O agente etiológico foi o Plasmodium vivax e o vetor, o Anopheles (N) aquasalis.

 

 

A Índicidência Parasitária Anual (IPA) foi 16,2/1000 em 1999 e chegou a 71,8/1000 em 2000. Em 2001, houve decréscimo de 8,4 vezes neste indicador. Observou-se que, dos 26 casos registrados em 1999, 14 (52,8%) foram autóctones e 12 (46,15%), importados. No ano 2000, houve 85 (91%) casos autóctones e 8 (8,6%) importados. Em 2001, 100% dos casos tiveram orígem na localidade.

Houve redução do intervalo de tempo entre a coleta da lâmina para o diagnóstico parasitológico e a instituicão da terapêutica quando se compara os dados dos três anos estudados (Tabela 2). Todos os pacientes foram tratados com cloroquina, em dose total de 25mg/Kg, administrada em três dias, associada à primaquina (7 dias), não tendo sido observado abandono de tratamento, nem intolerância ou reações adversas.

 

 

O grande fluxo de pessoas procedentes de áreas endêmicas do estado e de outros bairros de São Luis caracteriza o Residencial Paraíso como de grande vulnerabilidade em relação ao potencial malarígeno a semelhança do que ocorre em outras capitais na Região Amazônica2 5 12 e noutras áreas da Ilha de São Luis13.

A introdução da malária na área deu-se em 1998, 10 meses após o início de sua ocupação. Verificou-se que em 1999 e 2000, anos em que foram registrados os maiores números de casos de malária, houve o maior fluxo migratório. O hábito de hospedar familiares por semanas ou meses pode ter contribuído para o fenômeno. As características socioeconômicas observadas na população, como baixa renda, pouca escolaridade, condições precárias de moradia e de saneamento, refletem situações de deslocamentos e assentamentos humanos em regiões sem infra-estrutura vividas na Amazônia3 4. O perfil das áreas de transmissão é o resultado do processo de urbanização recente e desordenado, gerando desequilíbrios no ecossistema natural, com incremento do número de criadouros de vetores e maior exposição à infecção1 10.

As condições climáticas de temperatura, a umidade relativa do ar, a proximidade com o mar e a altitude situam-se na faixa ideal para o desenvolvimento do Anopheles (N) aquasalis, único vetor encontrado na localidade. Pântanos e áreas inundadas com certo grau de salinidade, nos limites da região, representam criadouros potenciais ao desenvolvimento, longevidade e dispersão desta espécie11.

O predomínio, estatisticamente significativo (p < 0, 05) do sexo masculino entre os pacientes aproximam-se daqueles encontrados por outros autores no estado do Maranhão8. A análise da distribuição dos casos de malária por idade sugere uma transmissão de caráter extra ou peridomiciliar, uma vez que a população menos atingida foi a de 0-4 anos que, juntamente com as mulheres tendem a permanecer mais tempo no interior das residências5 14. O hábito de tomar banho nas primeiras horas do dia e/ou da noite, em banheiros localizados fora das residências, assim como a necessidade da utilização de água de fontes públicas, são outros fatos que podem ter facilitado o contacto do homem com o vetor. Corrobora a possibilidade deste tipo de transmissão, a observação de que o A. aquasalis tem hábitos exofílicos e exofágicos, fazendo repastos no crepúsculo vespertino e primeiras horas da noite, embora possa fazê-lo durante toda a noite, até o alvorecer9. A constatação de que o grau de proteção das casas quanto à entrada de mosquitos e a localização das mesmas em áreas isoladas ou arruadas não exerceram influência no aparecimento da malária (p > 0,05) vem reforçar ainda mais a hipótese de transmissão extra-domiciliar.

O predomínio de casos próximos a áreas inundadas e de pântano parece estar relacionado à maior densidade das formas aladas nesses locais. Da mesma forma, a maior concentração de casos no primeiro semestre coincide com o período das chuvas na Ilha de São Luis, época em que os criadouros ficam cheios e há aumento da densidade de formas aladas do mosquito. Este padrão é semelhante ao encontrado em Guarapiranga, localidade do município de São José de Ribamar8 e difere do encontrado em Manaus7 e em Roraima6, locais onde houve incremento de casos nos meses menos chuvosos, e onde a espécie vetora predominante é o A. darlingi.

A tomada de diretrizes pelo Plano de Intensificação das Ações de Controle de Malária com a descentralização das ações de controle podem ter influenciado positivamente na redução da transmissão da doença na localidade em nossa casuística.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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14. Silva AR. Malária: fotografia de uma crise no setor saúde. Editora da Universidade Federal do Maranhão, São Luis, 1989.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Antonio Rafael da Silva
Deptº de Patologia/UFMA
Praça Madre Deus 02, Térreo
65025-560 São Luis, MA, Brasil
Telefax: 55 98 221-0270
e-mail: regionalsbmt@elo.com.br

Recebido em 22/9/2004
Aceito em 5/3/2005