SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.39 issue1Paracoccidioidomycosis and acquired immunodeficiency syndrome: report of necropsyProlonged survival and immune reconstitution after chagasic meningoencephalitis in a patient with acquired immunodeficiency syndrome author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 no.1 Uberaba Jan./Feb. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822006000100017 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Diphyllobothrium latum: relato de caso no Brasil

 

Diphyllobothrium latum: case report in Brazil

 

 

Vanessa Erichsen EmmelI; Everton InamineII; Carina SecchiII; Tereza C.Z. BrodtII; Maria Cristina O. AmaroII; Vlademir Vicente CantarelliII; Sílvia SpaldingIII

IDepartamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
IIWeinmann Laboratório, Porto Alegre, RS
IIIDisciplina de Análises Parasitológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Difilobotriose é causada em humanos pela infecção com vermes adultos do gênero Diphyllobothrium adquiridos pelo consumo de peixe cru ou mal cozido. Diphyllobothrium latum foi confirmado pelo exame dos proglotes grávidos e típicos ovos operculados nas fezes. O paciente havia comido crustáceos e peixes. É o relato do primeiro brasileiro infectado.

Palavras-chaves: Diphyllobothrium latum. Difilobotriose. Brasil.


ABSTRACT

Diphyllobothriasis is caused in humans by infection with adult tapeworms of the genus Diphyllobothrium acquired by consuming raw or undercooked freshwater fish. Diphyllobothrium latum was confirmed by examination of the gravid proglottids and typical operculated eggs in the stool. The patient had a history of eating crustaceans and fish. This is the case report of the first Brazilian infected.

Key-words: Diphyllobothrium latum. Diphyllobothriasis. Brazil.


 

 

Diphyllobothrium latum, conhecido como a tênia do peixe, causa a difilobotriose.

A difilobotriose ocorre em áreas onde lagos e rios coexistem com o consumo humano de peixe cru, mal cozido ou defumado. Estas áreas são encontradas na Europa, Rússia, América do Norte e Ásia17. Somente dois países na América do Sul, Chile e Argentina, reportaram casos de difilobotriose por D. latum. O D. latum é endêmico nos lagos e deltas não poluídos do hemisfério norte e o D. pacificum ocorre na América do Sul1 3.

Uma grande variedade de parasitas tem sido identificada em peixes crus. O crescimento da população de mamíferos marinhos, particularmente focas e leões marinhos no oceano Pacífico e Atlântico norte, está relacionado ao aumento da ocorrência de parasitas de peixes. Também o aumento das infecções marinhas está associado à distribuição mundial e ao aumento da popularidade da ingestão de alimentos marinhos ingeridos crus9.

Dos cestódeos que infectam peixes e humanos, o gênero Diphyllobothrium apresenta a maior importância; este parasita desenvolve sua maturidade sexual no trato intestinal de mamíferos. O D. latum é encontrado na carne de peixes frescos de água doce ou de água salgada que migram para água doce para a reprodução; os ursos e os humanos são os hospedeiros definitivos deste parasita. O D. latum é um cestódeo largo e longo, podendo atingir o comprimento entre um a dois metros até dez metros; assim como o D. pacificum, normalmente maturam em focas ou outros mamíferos marinhos e alcança a metade do tamanho do D. latum. Os ovos imaturos são liberados nas fezes e, em contato com a água, liberam os coracídios que são ingeridos por pequenos crustáceos, onde ocorre o desenvolvimento de uma larva procercóide. Os artrópodes são ingeridos por peixes, e larvas plerocercóides infestam o organismo do peixe. No homem, o verme adulto se localiza no duodeno, no jejuno ou no íleo e os ovos imaturos são liberados pelos proglotes e são passados para as fezes cinco a seis semanas após a infecção. Os humanos são os hospedeiros definitivos e a infecção se dá pelo consumo de peixe cru contendo esparganos. O salmão é o peixe que mais comumente transmite a difilobotriose, que também pode ser transmitida por trutas17.

A difilobotriose é rara nos Estados Unidos da América, mas é comum na região dos grandes lagos onde é conhecida como doença da dona de casa Judaica ou Escandinava porque os preparados de peixe são provados antes de estarem completamente cozidos. Recentemente, foram reportados casos na costa oeste do país. Os primeiros casos de difilobotriose apareceram na América do Norte na década de 1930 em peixes do Lago Winnipeg, Manitoba, onde diminuiu a população de peixes e ainda existe um pequeno número de habitantes nesta área. Todavia, os altos níveis de plerocercóides em carne peixe rejeitaram a comercialização destes produtos em Manitoba e no norte de Ontário, Canadá, o que diminuiu o financiamento à indústria pesqueira local. D. latum tem alta prevalência em peixes de Manitoba e tem vida média de quatro a cinco anos10.

A distribuição e as rotas de infecção não mudaram durante séculos e está bem estabelecida em hospedeiros naturais das regiões boreais da América do Norte. Alguns pesquisadores defendem a teoria de que D. latum foi introduzido na América do Norte por imigrantes europeus ou pela passagem pelo estreito de Berink e após, envolvendo hospedeiros susceptíveis (imigrantes do norte europeu)5 14.

Em Labrador, Canadá, foram avaliados 401 voluntários assintomáticos, de 1 a 72 anos de idade e observaram-se baixas taxas de infecção por Diphyllobothrium, inferiores às encontradas no norte do Canadá e no Alasca10 14.

Na região da Patagônia, na Argentina e em várias regiões do Chile, principalmente na região dos lagos no sul do país, existe relatos associados ao consumo de carne de peixe defumada crua, o cebiche7 8 13 15. Em peixes dos lagos da região sul da Argentina foi observada prevalência de 28% de Diphyllobothrium latum e de 57,8% de D. dendriticum11.

Um surto ocorrido em 1980 em Los Angeles após o consumo de sushi de atum e salmão aumentou as requisições de niclosamida para o Center for Disease Control (CDC). Foram entrevistados 39 pacientes e, destes, 32 relataram o consumo de salmão antes de apresentarem os sintomas16.

No Brasil, dois casos já foram observados. Um, em 1915 por Pirajá da Silva, na Bahia, em um marinheiro escandinavo, e outro por Samuel Pessoa em São Paulo, numa francesa que residia na Suíça2.

A difilobotriose é caracterizada por distensão abdominal, flatulência, dor epigástrica, anorexia, náuseas, vômitos, astenia, perda de peso, eosinofilia e diarréia após 10 dias do consumo de peixe cru ou mal cozido. Uma complicação peculiar dessa helmintose é o desenvolvimento de anemia microcítica e megaloblástica, principalmente em pessoas geneticamente susceptíveis, usualmente de origem Escandinávia, pois o parasita adulto tem a capacidade de absorver intensamente a vitamina B12 no intestino do hospedeiro com prolongada infestação16 17. A maioria das infecções são assintomáticas.

A infecção é diagnosticada pelo encontro de ovos operculados nas fezes dos pacientes por avaliação microscópica. Estes ovos podem ser concentrados por sedimentação e são dificilmente distinguidos dos ovos de Nanophyetus spp. As larvas destes parasitas são encontradas em carnes de peixes16.

Como medidas profiláticas deve ser recomendada a inspeção visual do peixe e o consumo após o congelamento à temperatura de -20 ºC por 7 dias ou de -35 ºC por 15 horas, o que inviabiliza os parasitas e, desta forma, ser possível a ingestão crua6. Também é importante a prevenção da infecção pelo cozimento adequado dos peixes, dar destino higiênico aos excretos humanos, a inspeção do pescado e o congelamento adequado dos peixes nos frigoríficos.

 

RELATO DE CASO

O paciente CGF, de 65 anos, residindo em Porto Alegre viajou para New Orleans no início do ano de 2004, onde algumas de suas refeições foram pratos com camarão e peixe (aparentemente não cru) e também relatou uma passagem pelo continente europeu no ano de 2003 em países como Itália, Inglaterra e Espanha. No mês de julho, relatou dores abdominais leves e azia. Ao evacuar, suas fezes apresentavam os proglotes. Uma amostra de fezes e os proglotes foram enviados, separadamente, para análise no Weinmann Laboratório – Porto Alegre (Figura 1). Os proglotes foram analisados pelo Método do Ácido Acético Glacial e as fezes processadas pela técnica de Sedimentação Espontânea (Técnica de Lutz, 1919; Hoffman, Pons & Janer, 1934). O exame parasitológico de fezes foi realizado no mês de julho e identificada, por microscopia, a presença de ovos ovais, com opérculo, tamanho de médio de 64 X 45µm, coloração castanho-amarelada de Diphyllobothrium latum, após a ruptura dos proglotes grávidos (Figura 2). A terapia utilizada pelo paciente foi praziquantel 600mg - 1 dose e desde então permanece bem.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Alguns estudos mostraram uma freqüência relativa de casos importados (adquiridos durante viagens para outros países ou após consumo de peixe importado) que poderiam, em alguns casos, ajudar na manutenção do parasita, ou a introduzi-lo em áreas que já tivesse desaparecido12.

Novas infecções humanas são reportadas regularmente; especialmente na Rússia e em áreas da Ásia, não está claro se as fontes de infecção estão diminuindo ou se existe desconhecimento da infecção por não existir a notificação compulsória em saúde pública. Na América do Norte a prevalência de casos humanos tem diminuído e na América do Sul está aumentando a incidência em peixes, especialmente em samonídeos3 4.

No Brasil, trata-se do relato do primeiro brasileiro infectado por Diphyllobothrium latum. Os dados fornecidos pelo paciente sugerem que o contágio tenha ocorrido na América do Norte, apesar de serem raros os casos encontrados neste país.

Em zonas endêmicas ou nas que coexistem um reservatório animal e fatores de risco que mantenham o ciclo biológico desta zoonose, devem se aplicar medidas de controle e prevenção adequadas. Deve se educar as pessoas que viajam para que não consumam alimentos de procedência desconhecida.

O risco zoonótico da infecção humana por Diphyllobothrium sp está diretamente relacionado com o hábito de consumo de peixes crus, insuficientemente cozidos ou defumados. Diante deste risco, é necessário ampliar os estudos que permitam esclarecer os distintos aspectos que favorecem a infecção do homem, como também, o que ocorre no ciclo evolutivo na natureza, no qual, pelas complexidades das cadeias tróficas marinhas, persistem numerosas incógnitas sobre os hóspedes naturais e paratênicos do Diphyllobothrium sp. Assim, a utilização de novas metodologias para o estudo filogenético e molecular dos distintos estágios do cestódeo e dos hospedeiros intermediários, especialmente os peixes de interesse comercial envolvidos nas infecções humanas, se fazem necessária.

Persiste a necessidade de maiores esclarecimentos da infecção atual com plerocercóides presentes em peixes de consumo humano para poder explicar melhor os casos de infecção humana.

 

REFERÊNCIAS BILBIOGRÁFICAS

1. Bylund G. Diphyllobothrium latum. In: Akuffo H, Linder E, Ljungström I, Wahlgren M (eds) Parasites of the colder climates. Taylor & Francis, London & New York, p. 169-176, 2003.         [ Links ]

2. Coutinho E. Tratado de clínica das doenças infectuosas, parasitárias e peçonhentas, 6ª edição, Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, p.638, 1957.         [ Links ]

3. Crompton DWT. How much human helminthiasis is there in the world? Journal of Parasitology 85:397-403, 1999.         [ Links ]

4. Dick TA, Nelson PA, Choudhury A. Diphyllobothriasis: update on human cases, foci, patterns and sources of human infections and future considerations. Southeast Asian Journal of Tropical Medicine Public Health 32:59-76, 2001.         [ Links ]

5. Dupouy-Camet J, Peduzzi R. Current situation of human diphyllobothriasis in Europe. Eurosurveillance Monthly archives 9:31-35, 2004.         [ Links ]

6. Food and Drug Administration (FDA). Fish & Fisheries Products Hazards & Controls Guide. 2nd edition. Washington DC, FDA, Office of Seafood, 1998.         [ Links ]

7. Mercado R, Arias B. Taenia sp and other intestinal cestode infections in individuals from public outpatient clinics and hospitals from the northern section of Santiago, Chile (1985-1994). Boletín Chileno de Parasitología 50:80-83, 1995.         [ Links ]

8. Navarrete N, Torres P. Prevalence of infection by intestinal helminths and protozoa in school children from a coastal locality in the province of Valdivia, Chile. Boletín Chileno de Parasitología 49:79-80, 1994.         [ Links ]

9. Overstreet RM. Actual and potential human health risks associated with marine parasites In: AAAS - Abstract of Annual Meeting and Science Innovation Exposition, Anaheim (CA), p.21-26, 1999.         [ Links ]

10. Rausch RL, Hilliard DK. Studies on the helminth fauna of Alaska. XLIX. The occurrence of Diphyllobothrium latum (Linnaeus, 1758) (Cestoda: Diphyllobothriidae) in Alaska, with notes on other species. Canadian Journal of Zoology 48:1201-1219, 1970.         [ Links ]

11. Revenga JE. Diphyllobothrium dendriticum and Diphyllobothrium latum in fishes from southern Argentina: association, abundance, distribution, pathological effects, and risk of human infection. Journal of Parasitology 79:379-383, 1993.         [ Links ]

12. Semenas L, Kreiter A, Urbanski J. New cases of human diphyllobothriasis in Patagonia, Argentine. Revista de Saúde Pública 35:214-216, 2001.         [ Links ]

13. Semenas L, Ubeda C. Human diphyllobothriasis in Patagonia, Argentina. Revista de Saúde Pública 31:302-307, 1997.         [ Links ]

14. Sole TD, Croll NA. Intestinal parasites in man in Labrador, Canada. American Journal of Tropical Medicine Hygiene 29:364-368, 1980.         [ Links ]

15. Torres P, Franjola R, Weitz JC, Pena G, Morales E. New records of human diphyllobothriasis in Chile (1981-1992), with a case of multiple Diphyllobothrium latum infection. Boletín Chileno de Parasitología 48:39-43, 1993.         [ Links ]

16. United States Food & Drug Administration Center for Food Safety & Applied Nutrition Foodborne Pathogenic Microorganisms and Natural Toxins Handbook, United States Food and Drug Administration Center for Food Safety and Applied Nutrition. March 29, 2001.         [ Links ]

17. Von Bonsdorff B. Diphyllobothriasis in man. Academic Press, London, 1977.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dra. Vanessa Erichsen Emmel
Rua Monsenhor Veras 671
Santana, 90610-010 Porto Alegre, RS
Tel: 55 51 3223-8273
E-mail: vemmel80@yahoo.com.br

Recebido para publicação em 9/5/2005
Aceito em 14/11/2005

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License