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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 no.2 Uberaba Mar./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822006000200004 

ARTIGO ARTICLE

 

Avaliação eletromanométrica do esfíncter superior do esôfago em portadores da forma indeterminada da doença de Chagas

 

Manometric evaluation of upper esophageal sphincter in patients with indeterminate form of Chagas' disease

 

 

Eduardo CremaI; Renata Mônica de OliveiraII; Ana Márcia WerneckII; Ricardo PastoreI; Aiodair Martins JuniorI; Alex Augusto SilvaI

IDisciplina de Cirurgia do Aparelho Digestivo da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG
IIAcadêmica do Curso de Medicina da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Objetivou-se avaliar as alterações do esfíncter superior esofágico pela eletromanometria em 37 pacientes portadores da forma clínica indeterminada da doença de Chagas. Foram encontrados 18 (48,6%) pacientes portadores de ondas sincrônicas. A média das pressões máximas do esfíncter foi significativamente maior entre os portadores de ondas sincrônicas. Assim, alguns indivíduos portadores da forma indeterminada da doença de Chagas possuem alterações funcionais caracterizadas pelo aumento da pressão do esfíncter superior do esôfago, que podem ser detectadas à eletromanometria.

Palavras-chaves: Doença de Chagas. Forma indeterminada. Eletromanometria. Esfíncter superior do esôfago.


ABSTRACT

The objective was to study the disorders of upper esophageal sphincter in 37 patients with indeterminate clinical form of Chagas' disease. Eighty (48.6%) patients with synchronic waves were found. The average maximum pressure value of the upper esophageal sphincter was significantly higher in the synchronic group. Subjects with indeterminate clinical form of Chagas' disease may have functional disorders demonstrated by an increase in the pressure of the upper esophageal sphincter.

Key-words: Chagas' disease. Indeterminated form. Manometric study. Upper esophageal sphincter.


 

 

A doença de Chagas cursa com degeneração e conseqüente redução do número de neurônios do plexo mioentérico esofágico, ocasionando alterações funcionais e morfológicas características da doença7.

Os indivíduos que apresentam a forma indeterminada da doença de Chagas se caracterizam por apresentarem reação imunológica positiva para a enfermidade, ao mesmo tempo em que não se constatam sintomas clínicos ou alterações eletrocardiográficas ou radiológicas nos exames cardíaco e contrastados do esôfago e cólon11 12.

O conhecimento atual nos permite afirmar, que testes mais sensíveis podem detectar alterações precoces em pacientes com a forma indeterminada da doença de Chagas. Em relação à esofagopatia, a eletromanometria torna-se um importante exame permitindo a detecção de alterações funcionais precocemente3 9, além de orientar quanto a melhor opção para o tratamento cirúrgico2.

O esfíncter superior do esôfago (ESE) é considerado um esfíncter funcional, formado principalmente pelo músculo cricofaríngeo, controlado pelo sistema nervoso central através do nervo vago em resposta a estímulos originados na orofaringe e no esôfago8.

Sabe-se que a desnervação decorrente da doença de Chagas é a responsável pela redução da amplitude de contração e pela alteração da peristalse harmônica do corpo esofágico1 3 9 13 14 que conduz o bolo alimentar ao estômago. Estas alterações, são dependentes da forma como a doença se apresenta. Muitos estudos têm procurado demonstrar alterações funcionais da esofagopatia chagásica através da análise eletromanométrica do esôfago1 4 6 10. Entretanto, pouco se estudou sobre as alterações específicas que ocorrem no ESE na doença de Chagas5. Este estudo objetivou analisar as alterações eletromanométricas do esfíncter superior do esôfago em portadores da forma indeterminada da doença de Chagas.

 

PACIENTES E MÉTODOS

Foram incluidos neste estudo 37 pacientes portadores da doença de Chagas, comprovados por pelo menos dois testes sorológicos positivos (imunofluorescência indireta, ELISA ou hemoaglutinação) e que tinham eletrocardiograma e exames cardiológicos do coração, esôfago e colon normais.

Os 37 pacientes foram submetidos à eletromanometria esofágica através de uma sonda plástica introduzida pelo orifício nasal até o estômago. A sonda é composta por 6 canais (3 orifícios na extremidade mais distal, e os outros 3 com espaçamento de 5cm entre eles) por onde perfundiu-se água destilada a uma velocidade constante de 0,6ml/min/canal. Após a comprovação, de que todos os canais se encontravam situados no abdome, a sonda foi retirada de forma intermitente, centímetro a centímetro. Ao final do procedimento, foi possível analisar simultaneamente a localização, extensão e pressão máxima do esfíncter esofágico superior. Qualquer obstáculo ao fluxo de água era traduzido como variação da pressão intraluminar. O registro das alterações pressóricas foi feito através de um polígrafo e decodificado por um software próprio (Polygram for Windows versão 2.02), possibilitando a análise da pressão do esfíncter superior do esôfago. A pressão da ESE foi medida por três vezes em cada paciente, e a média aritmética das três medidas foi empregada como valor de referência de cada paciente. Os dados obtidos foram analisados por um programa estatístico, aplicando-se o teste t-student.

Este ensaio foi submetido e aprovado pelo Comitê de ética em pesquisa da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, e os pacientes nele envolvidos mantêm-se sob acompanhamento médico-ambulatorial e assistência social freqüentes.

 

RESULTADOS

Após analise manométrica do esôfago, os pacientes foram divididos em 2 grupos: grupo 1, constituído por 19 (51,4%) pacientes que apresentavam ondas assincrônicas e grupo 2, constituído de 18 (48,6%) pacientes em que foram detectadas ondas sincrônicas. Não se observou diferenças estatisticamente significantes entre os grupos quanto idade e sexo, sendo, portanto os grupos considerados homogêneos.

A comparação das médias das pressões máximas do esfíncter superior do esôfago nos pacientes portadores de ondas sincrônicas ao teste manométrico foi significativamente maior (204,17mmHg) que a média encontrada nos portadores de ondas assincrônicas (142,44mmHg) (Figura 1).

 

 

DISCUSSÃO

Na investigação das alterações funcionais decorrentes da desnervação esofágica que ocorre na doença de Chagas, alguns estudos já demonstraram uma diminuição total ou parcial do relaxamento do esfíncter inferior do esôfago, acompanhada do sincronismo das ondas de contração do corpo esofágico, chamada por alguns autores de aperistalse4 5 13. Poucos estudos, porém, avaliaram a alteração funcional do esôfago em pacientes com a forma indeterminada da doença de Chagas.

Dantas4 em 2000 comparou as medidas de pressão do ESE em indivíduos voluntários sadios, chagásicos e portadores de acalasia idiopática sem, porém avaliar o grupo da forma indeterminada. Sua conclusão foi a de que os indivíduos chagásicos e que apresentaram aspecto radiológico normal do esôfago demostraram pressões estatisticamente mais elevadas do ESE.

Neste estudo, optou-se por não utilizar a comparação com grupo controle sadio, como o fez Dantas4, uma vez que os padrões de normalidade da fisiologia esofágica à eletromanometria já estão amplamente estabelecidos16.

Nesse ensaio observou-se que dentro do grupo de pacientes com a forma indeterminada da doença de Chagas, existem dois tipos de indivíduos. Aquele que apresenta alteração da eletrofisiologia esofágica, traduzida pela presença de ondas peristálticas sincrônicas do corpo esofágico, e aqueles que apresentam a fisiologia normal do esôfago (ondas assincrônicas).

A existência de 18 (48,6%) indivíduos portadores da forma indeterminada com esofagopatia inicial condiz com a conceituação de Ribeiro e Rocha15, Macêdo12 e Marin-Neto e cols14 de que tais indivíduos quando submetidos a testes mais sensíveis podem demonstrar alterações fisiológicas não detectáveis nos testes usuais.

O grupo de indivíduos com ondas sincrônicas evidenciou maiores pressões do esfíncter esofágico superior, com significância estatística, quando comparado ao grupo cujo corpo esofágico apresentou ondas assincrônicas, isto talvez se deva a resposta compensatória do músculo cricofaríngeo (músculo estriado) a diminuição do peristaltismo esofágico.

Dantas5 apesar de não ter estudado especificamente o grupo da forma indeterminada, obteve resultados semelhantes quando comparou a pressão do ESE em pacientes chagásicos com e sem dilatação radiográfica, voluntários normais e portadores de acalásia idiopática. Em seu estudo, notou que pacientes chagásicos e sem alteração radiológica apresentavam maior pressão do esfíncter superior do esôfago, quando comparados aos demais.

A eletromanometria é um método sensível na avaliação das alterações eletrofisiológicas primitivas do esôfago dos indivíduos com reação imunológica positiva para doença de Chagas e sem alterações anátomo-clínicas. Neste grupo evidenciou-se aumento da pressão do ESE, talvez como primeiras alterações fisiológicas em relação ao esôfago normal.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência:
Dr. Eduardo Crema
R. Marcos Lombardi 305
38050-170 Uberaba-MG
Fax: 55 34 3315-4500
E-mail: eduardocremafmtm@mednet.com.br

Recebido para publicação em 2/12/2005
Aceito em 28/5/2004
Apoio: FAPEMIG