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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.39 n.4 Uberaba jul./ago. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822006000400006 

ARTIGO ARTICLE

 

Estudo das fontes alimentares de Panstrongylus lutzi (Neiva & Pinto, 1923) (Hemiptera: Reduviidae: Triatominae) no Estado do Ceará

 

Feeding sources evaluation of Panstrongylus lutzi (Neiva & Pinto, 1923) (Hemiptera: Reduviidae: Triatominae) in the State of Ceará

 

 

Lindembergh CaranhaI; Elias Seixas LorosaII; Dayse da Silva RochaII; José JurbergII; Cleber GalvãoII

INúcleo de Controle de Endemias Transmissíveis por Vetores da Secretaria Estadual de Saúde, Fortaleza, CE
IILaboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores utilizaram a técnica de precipitina para identificar as fontes alimentares de Panstrongylus lutzi (Neiva & Pinto, 1923) em 20 municípios do Estado do Ceará, Brasil. Os resultados detectaram a presença de sangue de oito diferentes fontes sanguíneas e alimentações mistas, demonstrando que Panstrongylus lutzi é uma espécie eclética. Altas taxas de infecção por tripanosomatídeos foram detectadas.

Palavras-chaves: Panstrongylus lutzi. Fontes alimentares. Triatominae. Doença de Chagas.


ABSTRACT

The authors used precipitin technique to detect the feeding sources of Panstrongylus lutzi (Neiva & Pinto, 1923) in 20 municipalities of Ceará State, Brazil. The results detected the presence of blood from eight different blood sources and mixed feedings, demonstrating that Panstrongylus lutzi is an eclectic species. High infection rates for Trypanosoma like-cruzi were detected.

Key-words: Panstrongylus lutzi. Feeding sources. Triatominae. Chagas' disease.


 

 

A doença de Chagas continua sendo um grave problema de saúde pública na América Latina, afetando mais de 12 milhões das pessoas. Os vetores dessa enfermidade são insetos hematófagos da subfamília Triatominae (Hemiptera, Reduviidae) composta atualmente de 136 espécies10 11. Embora todas as espécies possam ser consideradas como vetores potenciais do Trypanosoma cruzi, apenas algumas delas estão atualmente adaptadas às moradias humanas e, portanto, apresentam importância epidemiológica.

Após o sucesso do controle do Triatoma infestans (Klug, 1834), em países do Cone Sul, e das iniciativas visando controlar populações domésticas de triatomíneos em outros países da América do Sul, o trabalho de vigilância entomológica sobre as espécies com capacidade de invadir e/ou colonizar áreas controladas tornou-se imprescindível. De fato, nos últimos anos, tem ocorrido um incremento do número de relatos de espécies silvestres invadindo as habitações humanas e o peridomicílio no Brasil e países vizinhos2 4 5 7 12 13 14 15 20 22 24 25 27 28.

Panstrongylus lutzi (Neiva & Pinto, 1923) é uma das espécies nativas da caatinga, e já foi encontrada em oito estados da região nordeste do Brasil3 11. Pode ser considerada uma das mais importantes dentre aquelas consideradas secundárias na manutenção da doença de Chagas, pois, apresenta altas taxas de infecção natural16 e grande capacidade de invasão das residências através do vôo. No Estado do Ceará, sua presença nos domicílios em mais de uma dezena de municípios foi detectada ainda na década de 601. No período de 1975 a 1983, foi a oitava espécie mais capturada no Brasil17, atingindo à quinta posição em 199926; atualmente é encontrada em 137 dos 184 municípios do Estado8 9. Recentemente, sua capacidade de formar pequenas colônias peridomiciliares no Estado do Ceará foi demonstrada por Sousa & Galvão22 e Sousa e cols20. Apesar de sua crescente importância, pouco se sabe sobre sua biologia e ecologia23.

O estudo dos hábitos alimentares dos triatomíneos através da técnica de precipitina pode contribuir significativamente para ampliar o conhecimento de seus hospedeiros naturais e seu papel na transmissão do T. cruzi, contribuindo para aperfeiçoar o controle e a vigilância dos vetores, uma das metas do programa de controle da doença de Chagas. O objetivo do presente trabalho foi identificar as fontes alimentares de espécimes de P. lutzi coletados em diversos municípios do Estado do Ceará.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os triatomíneos examinados eram adultos e provinham de 20 municípios, onde foram coletados pelos próprios moradores, dentro dos domicílios e encaminhados para os Postos de Identificação de Triatomíneos (PITs) e posteriormente ao laboratório de entomologia médica da 11ª célula regional da saúde em Sobral. As coletas foram feitas de janeiro a dezembro de 2004. No laboratório, amostras do conteúdo estomacal foram impregnadas em papel de filtro e armazenadas em geladeira até a realização das análises. A identificação das fontes alimentares foi feita utilizando-se a técnica de precipitina19. As fontes sangüíneas pesquisadas foram os prováveis hospedeiros que ocorrem na área de estudo. A bateria de anti-soros e os respectivos títulos foram: humano, 1:15.000; ave, 1:14.000; cabra/boi, 1:17.000, cão, 1:15.000; gato, 1:12.000; tatu, 1: 15.000; cavalo,1:15.000; ovelha, 1:13.000; roedor, 1: 15.000, gambá, 1: 10.000, réptil 1: 10.000. Para verificar a infecção por tripanosomatídeos, todos os espécimes foram dissecados com auxílio de pinças entomológicas, e parte do conteúdo estomacal, foi diluído em solução salina. O material foi colocado em lâmina para microscopia em camada delgada e examinados em microscópio biológico com aumento de 400X. Posteriormente, todas as lâminas positivas foram fixadas com álcool metílico e coradas pelo método Giemsa-Maygrunwald e examinadas em microscópio biológico com aumentos de 400 e 1000X.

 

RESULTADOS

Dos 79 espécimes adultos coletados nos vinte municípios estudados (Figura 1), 63 eram machos e 16 fêmeas (relação 1:4). Não foram encontradas ninfas nos domicílios estudados. Desse total, 23 (29,1%) estavam positivos para Trypanosoma tipo cruzi. Dentre os municípios estudados, mais de 40% dos espécimes vieram dos municípios vizinhos, Sobral e Alcântaras (Tabela 1).

 

 

Com relação ao estudo das fontes alimentares, das 79 amostras analisadas, 14 (17,7%) não reagiram, 39 (49,4%) reagiram para uma única fonte, 23 (29,1%) reagiram para duas fontes enquanto 3 (3,8%) reagiram para três fontes (Tabela 2).

 

 

DISCUSSÃO

Na região Nordeste do Brasil, a doença de Chagas ocorre de forma endêmica com a presença de espécies nativas responsáveis pela transmissão da doença ao homem. Na atualidade, destacam-se Triatoma brasiliensis Neiva, 1911 e Triatoma pseudomaculata Corrêa & Espínola, 1964 com ampla distribuição no semi-árido nordestino3. Ambas as espécies vem sendo objeto de preocupação e estudos dos órgãos responsáveis pelas ações de controle18. Por outro lado, estudos mais aprofundados sobre as espécies emergentes são ainda escassos. No caso de P. lutzi, com exceção dos estudos de Sousa e cols21 que encontraram pela primeira vez espécimes sob cascas de Auxemma oncocalyx (Allemao) Taub. (pau branco) e de Dias-Lima e cols6 que incriminaram tatus como hospedeiros de P. lutzi, ao encontrarem ninfas dessa espécie em tocas de Dasypodidae, pouco se sabe sobre os habitats e hospedeiros naturais dessa espécie. Os resultados obtidos no presente trabalho mostraram que P. lutzi é uma espécie eclética quanto à fonte de alimentação, pois, dentre os espécimes examinados foram observadas alimentações em 8 diferentes fontes. As alimentações mistas sugerem que a espécie circula entre os ambientes silvestre e peridomiciliar, apresentando alta taxa de infecção por Trypanosoma tipo cruzi (29,1%). A presença desses espécimes no domicílio poderia introduzir cepas silvestres no ambiente domiciliar já que a maioria dos espécimes infectados provavelmente adquiriu a infecção de animais silvestres como, roedores, gambás e tatus. Apesar da presença de cães ser freqüente nos domicílios estudados não foram encontrados espécimes positivos para essa fonte, reforçando a hipótese de que esses insetos se alimentam preferencialmente da fauna silvestre. Por outro lado, é importante ressaltar a participação do homem na cadeia alimentar dessa espécie (4 espécimes), demonstrando ser fundamental a manutenção de um sistema eficiente de vigilância entomológica, aliado à conscientização e educação das populações envolvidas.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Cleber Galvão
LNIRTT. Deptº de Protozoologia/FIOCRUZ
Av. Brasil 4365
21040-900 Rio de Janeiro, RJ
Telefax: 55 21 2560-7317
e-mail: galvao@ioc.fiocruz.br

Recebido para publicação em 28/04/2005
Aceito para publicação em 15/5/2006

Trabalho realizado com auxílio do CNPq, Serviço de Vigilância em Saúde - Ministério da Saúde e Chagas Disease Intervention Activities-CDIA