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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 no.5 Uberaba Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822006000500013 

ARTIGO ARTICLE

 

Doença de Chagas: notificação de triatomíneos no Estado de São Paulo na década de 1990

 

Chagas' disease: triatomines notification of the São Paulo State during the 1990s

 

 

Rubens Antonio da Silva; Dalva Marli Valério Wanderley; Maria de Fátima Domingos; Sueli Yasumaro; Sirle Abdo Salloun Scandar; Clóvis Pauliquévis-Júnior; Susy Mary Perpétuo Sampaio; Luiz Takaku; Vera Lúcia Cortiço Corrêa Rodrigues

Superintendência de Controle de Endemias, São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar a vigilância da doença de Chagas no Estado de São Paulo, através da notificação, na década de 1990. As informações foram originadas quando da notificação de triatomíneos pelos moradores e seguiram o normatizado pelo Programa de Controle. Foram recebidas 20.563 notificações de triatomíneos com queda ao longo dos anos, sendo esta mais acentuada na região que compreende a área de maior freqüência de encontro de Panstrongylus megistus. Cada notificação correspondeu em média a 1,3 exemplares de triatomíneos capturados (mediana=1), predominantemente no intradomicílio, enquanto nos atendimentos a média de insetos coletados foi de 3,6 (mediana=2), presentes na maioria no peridomicílio. A distribuição das notificações permitiu demarcar três áreas distintas do Estado: área 1- compreendida pelas regiões de São José do Rio Preto, Araçatuba e parte de Presidente Prudente; área 2- São Vicente e Sorocaba; área 3- municípios situados a nordeste da região de Campinas. A análise mostrou que a vigilância entomológica através da notificação de triatomíneos, a despeito da queda das mesmas, não tem detectado colônias intradomiciliares associadas a infecção por Trypanosoma cruzi que possam dar origem à transmissão vetorial da doença de Chagas humana.

Palavras-chaves: Doença de Chagas. Programa de Controle. Notificações de triatomíneos. Vigilância entomológica.


ABSTRACT

The objective of this study was to analyze the surveillance of Chagas' disease in São Paulo State through notifications registered from 1990 to 1999. The information originated when notification of triatomines was announced by inhabitants and the established control program was followed. 20,563 triatomine notifications were received, showing a decrease over the years, with more accentuated decreases in the area of greatest frequency of Panstrongylus megistus. Each notification corresponded to an average of 1.3 examples of captured triatomines (median = 1), predominantly in the intradomicile area, while during attendance, the mean number of collected insects was 3.6 (median = 2), mostly present in the peridomicile area. The notification distribution permitted the demarcation of three different areas in the state: area 1, comprising the areas of São José do Rio Preto, Araçatuba and part of Presidente Prudente; area 2, São Vicente and Sorocaba; area 3, municipalities located to the northeast of the Campinas region. Analysis showed that entomological surveillance through triatomine notification, despite the fall in the same, has not detected intradomiciliary colonies associated with Trypanosoma cruzi which could give rise to vectorial transmission of Chagas' disease.

Key-words: Chagas' disease. Control Program. Triatomine notification. Entomological surveillance.


 

 

A possibilidade da notificação de focos de triatomíneos, utilizando elementos da própria comunidade, proposta inicialmente por Dias, em 19573 e Freitas11, em 1963, foi implementada por Silva em 197021 e conduzido pela Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN). A experiência de um ano em área piloto apresentou resultados muito favoráveis, mas a proposta não se estendeu para o conjunto do Estado com exceção do Vale do Ribeira, no início da década de 1980, conforme descrito por Patucci em 198915. No âmbito do controle, a participação da população na notificação de insetos suspeitos de serem triatomíneos passou a ser incentivada, no Estado como um todo, a partir de 1983. Esse incentivo consistiu na realização de pesquisa domiciliar em resposta a cada notificação de triatomíneo encaminhada por qualquer munícipe, numa perspectiva de se alcançar maior envolvimento da população na detecção de colônias de triatomíneos em seus domicílios. Desde então, a norma técnica em vigor preconizou, além das pesquisas rotineiras de triatomíneos, o atendimento à notificação em prazo não superior a 30 dias, levando-se em consideração que um pronto atendimento permitiria maior envolvimento da população na detecção de colônias de triatomíneos. Ao mesmo tempo, houve um investimento em recursos humanos da área de educação em saúde no serviço de controle, passando esses profissionais a atuar em conjunto com as equipes de campo, visando incrementar o componente educativo do programa junto aos moradores, por meio do repasse de informações necessárias à compreensão da importância do trabalho de pesquisa de triatomíneos, orientando-os quanto aos locais mais habituais de encontro dos mesmos25.

Com a reformulação do Programa de Controle da Doença de Chagas (PCDCh) no Estado de São Paulo, realizada no ano de 1989, as atividades de pesquisas rotineiras de triatomíneos passaram a ser direcionadas apenas para as áreas infestadas e foi priorizada a atividade de notificação pelos moradores como medida para a descoberta de colônias de triatomíneos19. O encaminhamento de insetos suspeitos de serem triatomíneos por intermédio das Unidades Básicas de Saúde, das Escolas ou diretamente aos Serviços Regionais da SUCEN, desencadeia uma pesquisa na casa notificante, sempre que o inseto identificado tratar-se de triatomíneo. Avaliações realizadas demonstraram maior eficácia dessa atividade, medida pelos percentuais de casas positivas entre as pesquisadas em atendimento a notificação quando comparados com as pesquisas programadas em rotina e a maior possibilidade de detectar insetos dentro das unidades domiciliares que a atividade de pesquisa integral em uma localidade23 24.

No Estado de São Paulo, as espécies de triatomíneos mais freqüentemente coletadas nas pesquisas realizadas pelas equipes de campo são: Triatoma sordida, encontrados em maior concentração na área do planalto, incluindo as regiões de Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Araçatuba, Rhodnius neglectus que coincide com a área de distribuição do T. sordida; Panstrongylus megistus nas regiões do Vale do Ribeira, Sorocaba, Campinas e em municípios da região de Ribeirão Preto, que fazem divisa com o Estado de Minas Gerais e Triatoma tibiamaculata disperso na região sul, principalmente no Vale do Ribeira25. Estas espécies têm hábitos peridomiciliares e invadem esporadicamente o interior das residências.

O objetivo deste estudo foi analisar a vigilância da doença de Chagas por meio da notificação de triatomíneos no Estado de São Paulo, na década de 1990, com vistas a implementar o funcionamento adequado desse sistema de vigilância.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados foram originados a partir da notificação de triatomíneos realizada pela população aos Serviços Regionais da SUCEN. Os trabalhos seguem as normas no PCDCh desenvolvido no Estado de São Paulo para o período de 1990 a 199919. Quando o morador notifica um triatomíneo, o Serviço programa uma visita a moradia correspondente, pesquisando-a integralmente com direcionamento para os locais de abrigo de animais que são utilizados como fonte alimentar pelos triatomíneos, numa atividade designada atendimento à notificação.

Durante o trabalho de pesquisa no campo, as informações foram transcritas em boletim padronizado para todo o Estado, sendo selecionadas para esta avaliação as variáveis município, data de captura, atividade realizada (notificação ou atendimento a notificação), local de captura (intradomicílio ou peridomicílio), espécie, estádio evolutivo e infecção por Trypanosoma cruzi. Estas informações foram codificadas e digitadas em programa informatizado e as freqüências extraídas através de programas de análise.

Os 645 municípios do Estado de São Paulo foram distribuídos em 10 Serviços Regionais da Superintendência do Controle de Endemias, aqui denominadas regiões (Figura 1).

 

 

RESULTADOS

Na década de 1990, foram recebidas no Estado de São Paulo 20.563 notificações de triatomíneos, procedentes de 430 municípios, sendo todas atendidas. Houve concentração de notificações em três áreas distintas, quais sejam: - área 1, constituída pelas regiões de São José do Rio Preto, Araçatuba e parte de Presidente Prudente; - área 2, regiões de São Vicente e Sorocaba; e - área 3, municípios situados a nordeste da região de Campinas. Constatou-se que 215 (33,3%) municípios dos existentes não apresentaram notificação de triatomíneo e que 61 (9,4% dos existentes) encaminharam mais do que 100 notificações no período (Figura 2).

 

 

A comparação do número de notificações recebidas, referentes aos primeiros 5 anos da década com os 5 últimos, apontou queda de 36,1%. Esta queda foi mais acentuada nas regiões de São Vicente, Ribeirão Preto, Campinas e Sorocaba, cujos percentuais variaram, em ordem crescente, de 48,2 a 61. Para a região de Presidente Prudente, a queda observada foi a menor do estado com 3,5% (Tabela 1). No mesmo período, houve queda (- 7,3%) na população rural do Estado, sendo a mesma presente na maior parte das regiões.

 

 

Os atendimentos às notificações resultaram positivos em 26,3%, ou seja, em 5.411 domicílios, novos exemplares de triatomíneos foram encontrados nas pesquisas realizadas pelas equipes de campo (Tabela 2). As regiões de São José do Rio Preto e Araçatuba foram os que receberam maior (61%) número de notificações e responderam por 65,7% dos triatomíneos coletados nos atendimentos. Maior percentual de positividade nos atendimentos à notificação foi verificado na região de Ribeirão Preto com 52,4. Os moradores foram responsáveis pelo encaminhamento de 27.647 exemplares de triatomíneos, na atividade de notificação, sendo que a maioria pertencia à fase adulta (82,7%) e foram coletados no intradomicílio (88,3%). Nos atendimentos a estas notificações, as equipes de campo coletaram mais 19.537 exemplares, sendo que 75,6% destes estavam no peridomicílio e tratavam-se de ninfas (60,9%). Verificou-se que cada morador notificou, em média, 1,3 exemplares de triatomíneos (mediana=1) e nos atendimentos a estas notificações 3,6 exemplares (mediana=2) foram coletados, em média. Embora a região de São Vicente tenha apresentado o menor número de unidades domiciliares positivas nos atendimentos (apenas 7), esta região ao lado da de Campinas, apresentaram as maiores densidades de triatomíneos, com valores médios de 10,4 e 12,3 exemplares, respectivamente. No entanto, os valores das medianas apontaram distribuição heterogênea das colônias, quando se considera o número de exemplares coletados nas casas.

 

 

Do total de 47.184 triatomíneos capturados destacam as espécies T. sordida e P. megistus com 33.741 (71,5%) e 9.625 (20,4%) exemplares coletados, respectivamente (Tabela 3). As notificações ocorreram em todos os meses do ano, sendo observados para área de T. sordida maior número de recebimento nos meses de abril, maio e junho, enquanto para área de P. megistus se concentraram nos meses de outubro e novembro. Os maiores índices de infecção natural por T. cruzi foram observados para as espécies P. megistus (5,3% na notificação e 16,7% no atendimento) e T. tibiamaculata (20,5% na notificação). Para P. megistus, destaca-se o percentual de 10,5% de infecção natural obtido para ninfas na atividade de notificação. Porém, é importante destacar que 74,5% destas ninfas infectadas foram capturadas no peridomicílio. A atividade de notificação foi responsável pela maior captura de exemplares adultos quando comparado com a atividade de atendimento as notificações, responsável pela captura de maior número de ninfas. Não se observou tendência quanto ao estádio evolutivo, local de captura e positividade para T. cruzi para as espécies.

 

 

No período do estudo foram notificados 3 exemplares de T. infestans, todos com pesquisa negativa para T. cruzi. Um exemplar, oriundo do município de Tapiratiba, no ano de 1990, foi notificado em residência cujo morador se deslocava regularmente para Minas Gerais, em área com persistência desse vetor, possivelmente sendo o mesmo transportado passivamente entre os seus pertences: outro exemplar foi procedente do município de Sumaré, também introduzido passivamente no estado e o terceiro notificado do município de Paulínia. O atendimento dos dois primeiros casos resultou em pesquisa negativa. Porém, no terceiro foi localizado um foco com 108 exemplares localizados em ninhos de pássaros, utilizando-se do sangue desses como fonte de alimento. Destaque-se que os 3 municípios pertencem a região de Campinas e que o seguimento nos dois primeiros focos resultaram negativos. Para o município de Paulínia a revisão da pesquisa e controle realizado, 30 dias após os trabalhos, resultou no encontro de 2 ninfas de 5º estádio desta espécie. Dada a importância deste episódio aos 6 meses do controle inicial, nova pesquisa foi realizada, resultando negativa12.

 

DISCUSSÃO

As atividades de vigilância dos vetores da doença de Chagas no Estado de São Paulo têm como objetivo geral manter interrompida a sua transmissão vetorial, atingida na década de 1970, quando os indicadores entomológicos apontavam redução significativa nas capturas de Triatoma infestans, com ausência de infecção por T. cruzi a partir de 1979 e os indicadores sorológicos demonstravam que os índices de infecção em crianças mostravam-se descendentes, tornando-se nulos a partir de 198220 22 25.

As notificações de triatomíneos, encaminhadas por moradores no período de 1990 a 1999, estiveram concentradas em três áreas distintas do estado. Na primeira, formada pelas regiões de São José do Rio Preto, Araçatuba e parte de municípios que compõem a região de Presidente Prudente, observa-se formação vegetal predominante do tipo cerrado com presença da espécie T. sordida, adaptada ao ambiente peridomiciliar associada a ninho de aves7 9. A segunda é formada pelas regiões de São Vicente e Sorocaba, localizada na área de abrangência da Serra do Mar, com presença de mata atlântica e de espécies como P. megistus e T. tibiamaculata. Na terceira, os municípios de Caconde, Divinolândia, São João da Boa Vista, São José do Rio Pardo, São Sebastião da Grama e Vargem Grande do Sul, pertencentes à região de Campinas, foram os que se destacaram com P. megistus como espécie predominante em colônias mais numerosas do que nas outras áreas (Figura 2). Nesta região, o processo de povoamento e de utilização do solo implicou em destruição considerável da vegetação primitiva, dando lugar à formação de campos. O que restou reduz-se, na atualidade, a manchas de matas residuais onde se notam elementos representativos da cobertura vegetal primitiva, entremeados de matas de segunda formação, com concentração de animais vertebrados (marsupiais e roedores)9. A partir dessas áreas, este vetor tenta invadir e instalar-se no ambiente humano8 10.

Na região de Presidente Prudente, que apresentou na década de 1990 a menor queda no número de notificações recebidas, um trabalho de incentivo às notificações foi realizado pelas equipes de visitadores sanitários da região junto às escolas e moradias da zona rural com visitas e entrega de material educativo com orientações sobre a importância da notificação (Tabela 1).

Os resultados aqui apresentados permitem afirmar que as espécies de triatomíneos presentes atualmente no estado estão adaptadas ao peridomicílio e que esporadicamente invadem as casas, as quais não encontram condições apropriadas para a formação de colônias, uma vez que não passam despercebidas pelo morador que as coletam e notificam. Por outro lado, a manutenção da presença de colônias peridomiciliares é facilitada pelo desinteresse na limpeza dos arredores da casa para evitar a infestação26. Acresce-se que neste ambiente a ação de inseticidas é menos eficaz, embora alguns piretróides sintéticos apresentem ação residual considerável13 14 16 17. Porém, independentemente do poder residual do inseticida deve-se levar em consideração a renovação do ambiente peridomiciliar4 6.

De acordo com Forattini7, a domiciliação do vetor está relacionada a maior ou menor preservação de seus ambientes naturais, do tipo de habitação na área e da possibilidade de abrigo para os triatomíneos, da oferta alimentar existente bem como dos diferentes graus de antropofilia de cada uma das espécies. No entanto, para a maioria dos triatomíneos, a transmissão intradomiciliar do Trypanosoma cruzi está associada à capacidade da espécie promover neste ambiente colônia com muitos indivíduos, que colonizam as casas de maneira permanente e com marcada antropofilia6. A ausência de colonização em grau significativo de densidade no ecótopo humano, dissociado de infecção natural, é fator impeditivo para a transmissão da doença humana5. Pelos dados aqui apresentados, depreende-se que o risco de ocorrência de transmissão é bastante remoto, ou inexistente, uma vez que as colônias com exemplares jovens (ninfas) de triatomíneos associadas a infecção por T. cruzi foram localizadas fora do ambiente intradomiciliar. Vale ressaltar, que para o decênio 1990 a 1999, a sorologia aplicada em moradores de unidades domiciliares onde tenha se dado a captura de triatomíneos infectados por T. cruzi, revelou a presença de sororreagentes com idades compatíveis com a época considerada como limite para a aquisição da doença de Chagas autóctone2.

O modelo de vigilância desenvolvido no estado permite garantir sustentabilidade às ações, assegurando a detecção precoce dos triatomíneos e sua eliminação, em área de transmissão interrompida, uma vez que vem sendo realizada de forma contínua, com o envolvimento da população e dos serviços locais de saúde e educação, permitindo monitorar a situação. Porém, as ações de educação em saúde tem sido consideradas como fundamentais para manutenção desta sustentabilidade, uma vez que as intervenções verticais têm se mostrado menos eficaz do que as notificações de insetos pela população23 25.

No período em análise, as notificações de triatomíneos apresentaram queda ano a ano. Nesta década, novas problemáticas epidemiológicas que foram surgindo, como a dengue, desde o seu início, e a leishmaniose visceral americana, a partir de 1998, exigiram por parte do serviço maior envolvimento dos profissionais da área de educação em saúde, interferindo nos trabalhos de estímulo às notificações de triatomíneos nas populações. A necessidade de implementar o componente educativo para estas doenças dificultou o direcionamento das atividades de vigilância de triatomíneos. Salienta-se que se observou queda na população rural, porém acreditamos que a mesma não pode ser atribuída a observada nas notificações, uma vez que em regiões, onde se verificou quedas no número de notificações houve aumento na população rural (Tabela 1).

As ações de Educação em Saúde devem nortear os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) de universalização, descentralização, integralidade e participação da comunidade. Nessa lógica, programas que buscam uma atuação em vigilância à saúde e uma concepção de saúde centrada na promoção da qualidade de vida, como o Programa de Agente Comunitário da Saúde e Programa de Saúde da Família, são modelos de assistência que podem fortalecer esse processo, pois pressupõem a reorganização da atenção básica. Quando estes se estendem à área rural, se tornam um pólo catalisador para a sensibilização dos residentes da área rural, para vigilância e controle de triatomíneos4 24, principalmente, em áreas como no Estado de São Paulo, onde, a partir de 1998, a reestruturação das Unidades Escolares Rurais, no processo de municipalização da rede de ensino, propiciou um esvaziamento desse mecanismo que envolve alunos e professores de escolas rurais, e que foi um dos mais utilizados pelo serviço de controle no estimulo a participação da população. Esse modelo tem sido implantado e implementado no estado, nas diferentes regiões, e será futuramente analisado.

Concordamos com Briceño-León1, ao afirmar que a participação popular tem papel cada vez mais importante no contexto das endemias, uma vez que as mesmas são fenômenos coletivos que afetam grande parte da população e, portanto, qualquer política de controle requer a cooperação das pessoas submetidas ao risco. Nesse aspecto, a sustentabilidade da participação da população na vigilância de triatomíneos perpassa também pela reorientação das ações educativas. Ver e manusear instrumentos para entender, no concreto, o ciclo de vida dos vetores, e a doença, por exemplo, podem ser uma forma pedagógica de criar oportunidade para a população participar no processo de conhecimento e prática. Um programa dialógico e participativo em saúde implica que todos atuem por igual, porém com regras diferenciadas num contexto de perspectivas e prioridades tão legítimas e válidas para o Serviço de controle como para a comunidade.

No campo da investigação, destaca-se como importante o desenvolvimento de estudos de caráter social que objetivem identificar ações sustentáveis de informação, educação e capacitação dirigidas à população nas diversas faixas etárias, que apoiem as ações do programa através da mudança de práticas no uso e manutenção das habitações, além de investigações que selecionem medidas que estimulem a população a realizar a vigilância entomológica e reorganização do meio no domicílio como um todo, visando implementar a vigilância e diminuir a possibilidade de recolonização de casa pelo vetor18.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Rubens Antonio da Silva
SUCEN
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e-mail: rubens@sucen.sp.gov.br

Recebido em 07/10/2005
Aceito em 10/8/2006