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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.39 no.6 Uberaba Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822006000600012 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Detecção do genótipo 4 do vírus da hepatite C em Salvador, BA

 

Detection of genotype 4 of the hepatitis C virus in Salvador, BA

 

 

Maria Alice Sant' Anna ZarifeI, II; Eline Carvalho Pimentel de OliveiraI; Jane Maria Santos Leal RomeuI; Mitermayer Galvão dos ReisII

ILaboratório Central de Saúde Pública Professor Gonçalo Moniz Salvador, BA
IILaboratório de Patologia e Biologia Molecular do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz/Fundação Oswaldo Cruz, Salvador, BA

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

É descrito o primeiro caso de detecção do genótipo 4 do vírus da hepatite C (VHC) em Salvador, BA. Foram utilizados os testes de RT-PCR para detecção do VHC-RNA, e o LIPA para genotipagem. O genótipo 4 responde mal ao tratamento, sendo portanto importante a busca ativa dos contactantes.

Palavras-chaves: Vírus da hepatite C. VHC-RNA. Genotipagem.


ABSTRACT

The first detected case of genotype 4 of the hepatitis C virus (HCV) in Salvador, Bahia, is described. RT-PCR tests were used to detect HCV-RNA, and LIPA was used for genotyping. Genotype 4 responds poorly to treatment, and it is therefore important to actively search for people who have been in contact with it.

Key-words: Hepatitis C virus. HCV-RNA. Genotyping.


 

 

A hepatite C é um dos principais problemas de Saúde Pública no Brasil e no mundo, por ser uma causa importante de doença no fígado em adultos, com elevada taxa de cronificação, evolução para a cirrose e desenvolvimento de carcinoma hepatocelular4.

O vírus da hepatite C (VHC) segundo dados da OMS, atinge entre 150 e 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Trata-se de uma epidemia silenciosa, em que a maioria dos pacientes evolui de forma assintomática por muitos anos, só obtendo diagnóstico de forma incidental.

No Brasil, em estudos realizados com doadores de sangue, a soroprevalência do VHC varia de 1 a 5%10. Na Bahia, em Salvador, um estudo de base populacional demonstrou uma prevalência de 1,5% da infecção pelo VHC11.

A elevada taxa de mutação do VHC (1,44 a 1,92 x 10-3 substituições de nucleotídeos/local no genoma/ano) determina a sua classificação em grupos filogenéticos. Apesar de não haver um sistema de classificação padronizado para as variedades genéticas, a maioria dos investigadores concorda que existem pelo menos seis genótipos principais e uma série de subtipos7 9, que hoje já se constituem em mais de 503.

Dados epidemiológicos sugerem que a distribuição dos genótipos do VHC varia entre diferentes regiões2 7. Os genótipos 1, 2, e 3 estão mais presentes no Japão, Europa Ocidental, América do Norte e América do Sul; o genótipo 4, na África Setentrional e Central e no Oriente Médio; o genótipo 5 na África do Sul e o 6 no Sudoeste Asiático6.

No Brasil, um estudo sobre a distribuição dos genótipos1 coletadas de pacientes cronicamente infectados pelo VHC, em laboratórios de diferentes cidades do país, demonstrou que 64,9% eram do genótipo 1, 4,6% do genótipo 2, 30,2% do genótipo 3, 0,2% do genótipo 4, e 0,1% do genótipo 5. Em todas as regiões, o genótipo 1 foi o mais freqüente, principalmente na região norte; o genótipo 2 foi mais prevalente na região centro-oeste, especialmente no Mato Grosso, enquanto que o genótipo 3 foi mais comum na região sul; os genótipos 4 e 5 foram raramente encontrados, e somente no estado de São Paulo, na região sudeste. Na Bahia, em amostras coletadas de pacientes atendidos no Serviço de Hepatologia do Hospital Prof. Edgard Santos, foi demonstrado também o predomínio do genótipo 1 (62,7%), seguido pelos genótipos 3 (21,7%) e 2 (3,6%)8. Nenhum genótipo 4 foi encontrado.

O objetivo deste trabalho foi descrever o primeiro caso de genótipo 4 em Salvador, Bahia, num paciente atendido no Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN-BA), em março de 2005.

 

RELATO DE CASO

Homem de 44 anos, natural de Salvador, solteiro, portador do HIV e HTLV, fazendo uso de anti-retrovirais para o HIV. Realizou a primeira detecção de anticorpos para o vírus C da hepatite (anti-VHC) em 2004, quando o resultado foi repetidamente positivo. Não possui resultados das aminotransferases (ALT e AST), nem de biópsia hepática.

O paciente reportou ser homosexual, ter residido em Portugal no período de 1989 a 1999, quando visitou a Itália e a Espanha. Nessa época, fez uso de drogas intravenosas com compartilhamento de seringa, e inalou cocaína com canudinho. Apresenta uma tatuagem no antebraço esquerdo desde 1982. Não faz uso do álcool.

O paciente, originário do Hospital Central Roberto Santos, foi atendido no LACEN-BA com solicitação para detecção do RNA do vírus C (VHC-RNA) e genotipagem. Foram colhidos 5ml de sangue por punção venosa, a vácuo, em tubo estéril com EDTA. O tubo foi centrifugado, em até duas horas após a coleta, a 1300rpm durante 20 minutos, para obtenção do plasma. Foram feitas três alíquotas do plasma e armazenadas a -70ºC. Todo esse procedimento foi repetido em uma segunda amostra de sangue, para confirmação dos resultados.

Para a detecção do VHC-RNA, foi realizada a RT-PCR (ROCHE, AMPLICOR), e para a genotipagem foi utilizado o LIPA (BAYER), segundo as normas do fabricante. O resultado da RT-PCR foi positivo, e na genotipagem, foram visualizadas as bandas 1, 2, 5, 16, 17 e 18, caracterizando o genótipo 4c/d (Figura 1).

 

DISCUSSÃO

Este é o primeiro relato da presença do genótipo 4 na Bahia. No Brasil este genótipo só foi encontrado, até o momento, em São Paulo1.

O genótipo 4 predomina na África Setentrional e Central e no Oriente Médio6.

O paciente do nosso estudo reportou ter residido em Portugal durante 10 anos, quando fez uso de drogas intravenosas, com compartilhamento de seringa, e de drogas inalatórias, com utilização do canudinho. O uso de drogas intravenosas é um importante fator de risco para a aquisição do VHC5, assim como a utilização do canudinho, já que a principal via de transmissão do VHC é a parenteral. O mais provável, portanto, é que este paciente tenha se infectado neste período.

Por ser um genótipo que, como o genótipo 1, responde mal ao tratamento12, faz-se necessária a busca ativa de outros casos a partir deste caso index, e a implementação de uma vigilância para o esclarecimento daqueles casos que não foram previamente genotipados como 1, 2, ou 3.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dra. Maria Alice Sant'Anna Zarife
LACEN-BA. R. Waldemar Falcão 123, Brotas
40295-001 Salvador, BA.
Tel: 55 71 3356-2299; fax: 55 71 3356-0139
e-mail: mzarife@cpqgm.fiocruz.br; azarife@hotmail.com

Recebido para publicação em 6/6/2005
Aceito em 5/12/2006

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