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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.40 no.1 Uberaba Jan./Feb. 2007

https://doi.org/10.1590/S0037-86822007000100017 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Prurido do traje de banho: relato de seis casos no Sul do Brasil

 

Seabather’s eruption: report of the six cases in southern Brazil

 

 

André Luiz RossettoI; Jamesson de Macedo MoraII; Patrícia Rossetto CorreaIII; Charrid Resgalla JuniorIV; Luís Antônio de Oliveira ProençaV; Fábio Lang da SilveiraVI; Vidal Haddad JuniorVII

IFaculdade de Medicina, Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC, Brasil
IIHospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, Itajaí, SC
IIIFaculdade de Fisioterapia, Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC
IVZooplâncton e Ecotoxicologia Marinha, Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC
VLaboratório de Oceanografia, Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC
VIDepartamento de Zoologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP
VIIFaculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista e Instituto Butantan, SP, São Paulo, SP

Endereço para Correspondência

 

 


RESUMO

O prurido do traje de banho ou seabather’s eruption é uma dermatite intensamente pruriginosa que ocorre pelo contato com larvas plânulas do cnidário cifozoário Linuche unguiculata, especialmente sob os trajes de banhistas. As larvas disparam seus nematocistos a partir de cnidócitos ou células urticantes de defesa na pele da vítima, causando uma típica erupção pápulo-eritemato-pruriginosa. Os primeiros cinco casos descritos no Brasil foram publicados em 2001, no litoral Sudeste (Ubatuba, SP), obtendo-se associação com larvas de Linuche unguiculata, uma vez que a ocorrência e o ciclo de vida do cnidário já haviam sido estudados no Canal de São Sebastião, SP. Os autores relatam os seis casos na região Sul do Brasil (Estado de Santa Catarina), enfatizando os aspectos clínicos e a pesquisa para identificação do agente na água do mar local.

Palavras-chaves: Dermatites. Linuche unguiculata. Cnidários. Animais marinhos venenosos. Brasil.


ABSTRACT

Seabather’s eruption is an intensely pruriginous form of dermatitis that occurs after contact with the planula larvae of the cnidarian scyphozoan Linuche unguiculata, especially under the bather’s clothes. They discharge their poisonous nematocysts from the cnidocytes, causing a typical eruption presenting papules, erythema and intense itching. The first five cases described in Brazil were published in 2001 and occurred on the southeastern coast (Ubatuba, State of São Paulo). Those cases were linked to larvae of Linuche unguiculata, because the occurrence and life cycle of this cnidarian had been studied in the São Sebastião Channel, State of São Paulo. The present authors report the six cases observed in southern Brazil (State of Santa Catarina), with a description of the typical clinical aspects and an investigation linking the cases to Linuche unguiculata in the local seawater.

Key-words: Dermatitis. Linuche unguiculata. Cnidaria. Venomous marine animals. Brazil.


 

 

O prurido do traje de banho ou seabather’s eruption é uma dermatite intensamente pruriginosa que ocorre em áreas do corpo cobertas por trajes de banho e áreas de dobras cutâneas após exposição à água do mar. Seu primeiro relato médico foi realizado por Thomas em 1939, na Flórida5. Segundo Williamson e cols vários organismos marinhos foram citados como causadores da dermatite do traje de banho, porém Black e cols foram quem indicaram pela primeira vez na Flórida as larvas da cifomedusa Linuche unguiculata como os prováveis agentes etiológicos da dermatite1 8. A pequena água-viva Linuche unguiculata tem presença marcante nas águas dos mares do Caribe (Belize, México e Cuba), no Golfo do México e regiões tropicais do Atlântico Norte Ocidental (Flórida, Cuba e Bahamas), onde foram feitos vários registros do prurido do traje de banho, atingindo proporções epidêmicas, ou surtos da água-viva2 5 6. No Brasil, Haddad Jr e cols publicaram em 2001 os primeiros cinco casos registrados no Brasil, ocorridos na região Sudeste, em Ubatuba, no Estado de São Paulo3. Silveira e Morandini, em 1998, verificaram que a fase de pólipo de Linuche unguiculata é muito freqüente na região próxima de Ubatuba, do Canal de São Sebastião, e demonstraram que as larvas plânulas são produzidas com grande freqüência por um mecanismo de reprodução assexuada a partir do próprio pólipo (Figura 1), independente da ocorrência da fase da água-viva ou medusa6 7.

 

 

O quadro ocorre por proliferação intensa e aprisionamento de larvas plânulas de Linuche unguiculata sob os trajes dos banhistas, que sem poder escapar, disparam seus nematocistos (células urticantes de defesa), provocando uma erupção pápulo-eritemato-pruriginosa, onde o papel de uma reação de hipersensibilidade é suspeitado, mas não tem ainda comprovação. Situações diversas, como a pressão contra uma prancha de surfe ou aderência em pêlos ou áreas intertriginosas poderiam explicar o envolvimento de áreas expostas, vistos com menor freqüência4. Segura-Puertas e cols descreveram que a L. unguiculata pode causar a dermatite nos três estágios de seu desenvolvimento: plânula, ephyra (medusa imatura) e a medusa adulta, podendo ser identificada pela morfologia da lesão cutânea e época do ano4. As manifestações clínicas são típicas, evidenciando-se a presença de uma erupção pápulo-eritematosa e pruriginosa, semelhante à picada de insetos, que aparece no momento do banho de mar, com aumento progressivo da intensidade do prurido, especialmente em áreas cobertas por trajes de banho. Ocasionalmente podem ser observados sintomas sistêmicos como febre, calafrios, náuseas, vômitos, cefaléia, dor abdominal e diarréia, principalmente em crianças. A erupção difere do prurido do nadador (swimmer’s icht) que ocorre na água doce, surge em áreas expostas do corpo e é causada por cercarias de Schistosoma sp9. Outros diagnósticos diferenciais são o prurido agudo ou estrófulo, que apresenta o mesmo caráter epidemiológico e morfologia das lesões, a dermatite de contato de cunho alérgico, a escabiose e outras condições que se manifestam por pápulas eritematosas e pruriginosas de aparecimento súbito. O exame histopatológico revela um infiltrado intersticial e perivascular superficial e profundo, constituído por linfócitos, neutrófilos e eosinófilos9. A técnica de ELISA (enzyme-linked immunosorbent assay) permite a demonstração de reatividade específica com anticorpos da classe IgG para L. unguiculata no soro de pessoas afetadas9.

O tratamento pode ser feito com loções, anti-histamínicos sistêmicos, corticóides tópicos e em casos mais severos, corticóides sistêmicos2 9. A limpeza com água corrente auxilia na remoção das larvas sobre a pele, porém pode estimular a liberação das toxinas, agravando as lesões e o prurido. Existe relatos do uso de álcool e vinagre sobre as lesões, com boa resposta na sintomatologia local4 5. O prognóstico é bom. A dermatite apresenta resolução espontânea em uma ou duas semanas.

 

RELATO DOS CASOS

A partir de três casos observados na fase aguda da dermatite, foi realizado um estudo retrospectivo em 8.971 prontuários de pacientes portadores de diferentes dermatoses, atendidos em clínica privada de Dermatologia, na Cidade de Balneário Camboriú, SC, Região Sul do Brasil no período de quatro anos (janeiro/2001 a dezembro/2004). Dos prontuários dos pacientes com diagnóstico clínico do prurido do traje de banho foram anotados: nome, idade, sexo, raça, procedência, praia e data do acidente e tratamento efetuado (tópico e sistêmico).

Foram encontrados seis (0,1%) casos típicos de prurido do traje de banho. Todos os casos ocorreram em áreas litorâneas catarinenses, sendo cinco (83,3%) casos na Praia de Balneário Camboriú e um (16,7%) caso na Praia de Mariscal, situada no Município de Bombinhas (Tabela 1). Em relação à procedência dos acidentados, 50% eram turistas e 50% residentes no local e todos relataram ser o primeiro episódio. Os residentes no local eram procedentes de duas cidades catarinenses do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú (66,7%) e Camboriú (33,3%), sendo freqüentadores assíduos das praias e com hábitos de banhos de mar. Todos os pacientes eram da cor branca, sendo 83,3% crianças abaixo de 12 anos e 16,7% adultos. A maioria (66,7%) pertencia ao sexo feminino.

 

 

Cinco (83,3%) acidentes, ocorreram num intervalo de oito dias no mês de janeiro do ano de 2001 e um (16,7%) acidente ocorreu no mês de novembro do ano de 2004 (Tabela 2). Todas as vítimas se queixaram de ardor e prurido durante os banhos de mar, além de lesões pápulo-eritematosas localizadas em áreas cobertas pelos trajes de banho. Após o banho de mar, a intensidade do prurido aumentou progressivamente, sendo o principal motivo da procura do atendimento dermatológico.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os pacientes foram medicados com corticosteróides tópicos e anti-histamínicos sistêmicos (Tabela 3). Metade dos pacientes utilizou creme de hidrocortisona, 33,3% valerato de betametasona e 16,7% de desonida. Em relação aos anti-histamínicos sistêmicos, 50% dos casos usaram loratadina, 16,7%, respectivamente, cloridrato de fexofenadina, dexclorfeniramina e hidroxizina. Todos os pacientes apresentaram boa evolução e desaparecimento dos sintomas após sete dias de tratamento. Uma (16,7%) paciente adulta, de 40 anos, apresentou infecção bacteriana secundária no ombro e no braço direito, além dos sintomas e lesões cutâneas descritas anteriormente, devido ao ato de coçar-se intensamente. Esta foi medicada com antibióticos tópico e sistêmico (pomada de fibrinolisina associada a desoxirribonuclease e cloranfenicol 3 vezes ao dia e roxitromicina 300mg V0 1 vez ao dia durante sete dias), com regressão total das lesões após sete dias.

 

 

DISCUSSÃO

Apesar de não ter sido identificado nos locais dos acidentes o agente mais provável da dermatite (larvas plânulas), uma colônia viva de L. unguiculata foi observada na Reserva do Arvoredo (Florianópolis, SC) em 2001. O local dista cerca de 80 km da região onde foram observados os casos descritos e o ano de 2001 foi o da observação do maior número de casos deste trabalho. A colônia observada em Florianópolis ainda está em cultivo no Instituto de Biociências da USP-SP (AC Morandini: comunicação pessoal, 2004). Os casos apresentados neste relato são típicos, em bases epidemiológicas e clínicas: todos os casos iniciaram no momento dos banhos de mar; a maioria dos casos ocorreu em crianças, possivelmente por permaneceram um período de exposição maior dentro da água que os adultos e a dermatite se manifestou por pápulas eritematosas extremamente pruriginosas sob as vestes de banho. Estes são os primeiros seis casos relatados na Região Sul do Brasil, mostrando dessa forma, a presença da dermatite, e evidenciando com isso implicações clínicas e terapêuticas para os médicos que atuam nas áreas litorâneas do país.

 

REFERÊNCIAS

1. Black NA, Szmant AM, Tomchik RS. Planulae of the scyphomedusa Linuche unguiculata as a possible cause of seabather’s eruption. Bulletin of Marine Science 54: 955-960, 1994         [ Links ]

2. Freudenthal AR, Joseph PR. Seabather's eruption. New England Journal of Medicine 329:542-544, 1993.         [ Links ]

3. Haddad Junior V, Cardoso JLC, Silveira FL. Seabather's eruption: report of five cases in southeast region of Brazil. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo 43: 171-172, 2001.         [ Links ]

4. Puertas LS, Lutz LL, Cotera EH, Burnett JW. Eruption caused by a deep-sea cnidarian. Contact Dermatitis 42:280-281, 2000.         [ Links ]

5. Puertas LS, Ramos ME, Aramburo C, Cotera EPH, Burnett JW. One Linuche mystery solved: all 3 stages of the coronate scyphomedusa Linuche unguiculata cause seabather's eruption. Journal of American Academy of Dermatology 44:624-628, 2001.         [ Links ]

6. Silveira FL, Morandini AC. Asexual reproduction in Linuche unguiculata (Swartz, 1788) (Scyphozoa: Coronatae) by planuloid formation through strobilation and segmentation. Proceedings of the Biological Society of Washington 111:781-794, 1998.         [ Links ]

7. Silveira FL, Morandini AC. New observations on dormancy mechanisms in Linuche unguiculata (Swartz, 1788) (Scyphozoa: Coronatae). Boletim do Museu Nacional, Nova série Zoologia 393:1-7, 1998.         [ Links ]

8. Williamson JA, Fenner PJ, Burnett JW, Rifkin JF. Venomous and poisonous marine animals: a medical and biological handbook. Brisbane, Queensland: Surf life Saving Queensland Inc Kensington, University of New South Wales Press Ltd, 1996.        [ Links ]

9. Wong DE, Meinking TL, Rosen LB, Taplin D, Burnett JW. Seabather's eruption: clinical, histologic, and imunologic features. Journal of American Academy of Dermatology 30:399-406, 1994.         [ Links ]

 

 

Endereço para Correspondência:
Dr. Vidal Haddad Junior
Caixa Postal 557, 18618-000 Botucatu, SP.
Telefax: 55 14 3822 4922
e-mail: haddadjr@fmb.unesp.br

Recebido para publicação em 24/5/2006
Aceito em 15/1/2007

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