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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682On-line version ISSN 1678-9849

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.40 no.4 Uberaba July/Aug. 2007

https://doi.org/10.1590/S0037-86822007000400014 

ARTIGO ARTICLE

 

Triatoma tibiamaculata (Pinto, 1926): Tábua de vida das ninfas, duração das formas adultas e postura das fêmeas (Hemiptera – Reduviidae)

 

Triatoma tibiamaculata (Pinto, 1926): life table for nymphs, duration of adult forms and oviposition of females

 

 

Vera Lúcia Cortiço Corrêa Rodrigues; Antenor Nascimento Ferraz Filho; Eduardo Olavo da Rocha e Silva

Superintendência de Controle de Endemias, Mogi Guaçu, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores analisaram em condições de laboratório, a taxa de sobrevida das ninfas, duração mínima e máxima de cada estádio, tempo de vida das formas adultas e postura das fêmeas. Foram acompanhados dois grupos de 100 ovos. Lote A, exemplares criados em um único cristalizador. Lote B os exemplares foram mantidos isolados um a um e ao atingir a fase alada formaram 20 casais, possibilitando o controle da postura das fêmeas e o tempo de vida de cada exemplar. O percentual de eclosão dos ovos foi de 96%; a taxa de vida no final da fase ninfal foi de 69,5% no Lote A e de 78,4% no Lote B. A maior freqüência observada no tempo decorrido entre postura e eclosão da ninfa do 1º estádio foi de 28 dias. O tempo de permanência na fase de ninfa foi de 4 a 8 meses e de 5 meses na fase adulta. A postura total (média) no Lote B foi de 181,6 ovos por fêmea.

Palavras-chaves: Triatoma tibiamaculata. Triatominae. Tábua de vida. Doença de Chagas.


ABSTRACT

Under laboratory conditions, the authors analyzed the survival rate of nymphs, the minimum and maximum duration of each stage, the length of life of the winged forms and oviposition of the females. Two groups of 100 eggs each were monitored. In batch A, the specimens were reared in a single glass receptacle. In batch B, the specimens were kept apart, one by one, and when they reached the winged stage, they formed twenty couples, which made it possible to watch over the oviposition of the females and the length of life of each specimen. The egg eclosion rate was 96%; the proportion still alive at the end of the nymph phase was 69. 5% in batch A and 78. 4% in batch B. The most frequent length of time observed between oviposition and eclosion of first-stage nymphs was 28 days. The nymph phase lasted four to eight months and the adult phase five months. The mean total oviposition in batch B was 181. 6 eggs per female.

Key words: Triatoma tibiamaculata. Triatominae. Life table. Chagas’ disease.


 

 

As alterações provocadas pela ação predatória do homem sobre a cobertura florestal nativa presente na região litorânea do Estado de São Paulo, acabaram por transformar a invasão ocasional das moradias pelos triatomíneos, em um fato já que chamava a atenção de Forattini e cols4 em 1978. Entre as espécies que assim procedem, encontra-se o Triatoma tibiamaculata8, cuja área de dispersão atinge não apenas a Mata Atlântica em São Paulo, como também nos Estados do Paraná e Santa Catarina, mais ao Sul e Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia e Sergipe ao norte9 13. Esta espécie é rotulada como silvestre pela inexistência de registros que demonstrem sua capacidade de formar, espontaneamente, colônias nos ecótopos artificiais. Quando suas formas aladas são encontradas nas habitações, são consideradas visitantes12. Por outro lado o interesse pela espécie aumentou em nosso meio, pelo encontro de exemplares com infecção natural2 e de casos humanos da doença de Chagas autóctones em municípios, localizados no litoral sul paulista1 5 6 11. Os escassos relatos na literatura especializada sobre o Triatoma tibiamaculata, notadamente quanto a aspectos da biologia, foi dos fatores que nos levaram a efetuar estudos, em condições do laboratório, preliminarmente a respeito do tempo de vida dos imagos e postura das fêmeas3, completado com observações a respeito da taxa de sobrevida das ninfas e duração de cada estádio.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Inicialmente, acompanhamos a postura de 10 fêmeas do Triatoma tibiamaculata, cuja produção em sete dias consecutivos atingiu 200 ovos. Oriundas do insetário da SUCEN, situado em Mogi Guaçu, SP essas fêmeas representavam parte da primeira filiação de um exemplar adulto, capturado na zona rural do município de Iguape, SP. Logo após a postura (oitavo dia), os ovos foram aleatoriamente distribuídos em dois lotes iguais, contendo cada um 100 ovos. Do lote A, eclodiram ninfas que durante o transcurso da observação permaneceram abrigadas em um cristalizador de acrílico, fumê, com cerca de 25cm de diâmetro e 10cm de altura. Em decorrência, se propiciou a formação de uma colônia única que de ovos, evoluiu a adultos. Do lote B, eclodiram ninfas do primeiro estádio que independentemente do número de exemplares, diariamente, eram transferidas para caixas plásticas semitransparentes, com 6cm de diâmetro e 5cm de altura. Na medida em que iam acontecendo as ecdises subseqüentes, as caixas que continham mais de uma ninfa foram diminuindo de número, até que ao atingir o quinto estádio, todas as ninfas já estavam isoladas em caixa plástica própria. Deste modo, foi possível ao atingir a fase de imago, se compor 20 casais jovens mantidos segregados entre si, fato que permitiu a anotação do tempo de vida e postura de cada exemplar fêmea. Ao final do trabalho, foi comparada a postura total de cada lote. No que se refere às ninfas, foi possível apenas registrar os tempos, mínimo e máximo, de duração de cada estádio e respectivas taxas de sobrevida.

Os dois lotes permaneceram durante toda a observação em uma das dependências do insetário de Mogi Guaçu, onde a temperatura foi mantida a 30ºC e a umidade relativa do ar em 80%. Os exemplares eram alimentados semanalmente, em repasto com uma hora de duração, realizados em aves: galos no Lote A e pombos no Lote B. As anotações necessárias eram efetuadas todos os dias, inclusive sábados e domingos.

Os resultados são descritos sob a forma de médias aritméticas, medianas e taxas de sobrevida. As definições e os parâmetros estatísticos mencionados são os utilizados por Rabinovich10.

 

RESULTADOS

As Tabelas 1 e 2 apresentam as tábuas de vida do Triatoma tibiamaculata, na fase de ninfa. A Tabelas 1 mostra a taxa de sobrevida observada entre as ninfas criadas em conjunto, ou seja, na forma de colônia única Lote A. A Tabela 2 mostra a mesma taxa obtida entre as ninfas mantidas segregadas nas caixas plásticas (Lote B). Em virtude dos diferentes procedimentos adotados quanto aos processos de criação e alimentação, esses resultados não são comparáveis. Em ambos os lotes, a mortalidade foi significativa, o que proporcionou uma taxa de sobrevida final de 69,5% no Lote A, e uma taxa de sobrevida de 78,4% no Lote B. A maior mortalidade aconteceu no decorrer do segundo estádio, sendo de 10 mortes no Lote A e de 13 mortes no Lote B.

 

 

 

 

A Tabela 3 apresenta o tempo de duração de cada fase do ciclo de vida dos triatomíneos no Lote B. Vinte e oito dias foi a maior freqüência observada no intervalo de tempo decorrido entre a postura do ovo e eclosão da respectiva ninfa. A seguir são apresentados na mesma tabela, o tempo mínimo e máximo de duração das ninfas de 5º estádio e das formas adultas. O período total da fase de ninfa ficou entre quatro e oito meses. No caso das formas adultas, o tempo médio de vida foi de 156 dias, para os machos e 167 dias para as fêmeas.

 

 

A Tabela 4 mostra a postura total (ovos férteis e inférteis) das fêmeas acasaladas com um só macho (Lote B). Nela, observamos que a menor postura foi de 31 ovos (casal 11) e a maior de 381 ovos (casal 18), sendo de 181,6 ovos a postura total média das vinte fêmeas consideradas e de 1,1 a postura-dia, por fêmea.

 

 

Ao finalizar, comparamos as posturas totais alcançadas em cada lote onde podemos observar que o maior número de ovos férteis é conseguido quando as fêmeas são mantidas em colônia (Tabela 5).

 

 

DISCUSSÃO

O percentual de eclosão dos ovos que iniciaram as colônias e que deram origem aos Lotes A e B foi de 96%. A mortalidade das ninfas foi mais acentuada no Lote A (colônia única). A maior mortalidade aconteceu no 2º estádio sendo 10 mortes no Lote A e 13 mortes no Lote B. Resultado diferente foi encontrado por Galvão7 com o Triatoma nitida e Rabinovich10 com o Triatoma infestans que observaram uma maior mortalidade das ninfas de 5º estádio. Triatoma tibiamaculata apresentou um período maior de duração na fase de ninfa, de 248 dias para os exemplares machos e 238 dias para os exemplares fêmeas, semelhante ao encontrado por Souza cols14, em 1978, com o Triatoma sordida que observaram para a fase de ninfa dos exemplares machos o período de 249 dias e para as fêmeas um período um pouco maior 259 dias. O período médio de vida das adultas foi de 156 dias para os machos e 167 dias para as fêmeas tempo bem menor do que o encontrado por Souza14, para o Triatoma sordida, que foi de 284 dias e 503 dias para macho e fêmea, respectivamente. Um dos períodos mais longos já relatados na literatura foi o encontrado por Galvão7, com o Triatoma nitida que apresentou uma média de duração do ciclo, da eclosão à fase adulta de 897,6 dias. Souza14 observou um período médio para as fêmeas de Triatoma sordida de 673,6 dias. As taxas de sobrevivência, ao atingirem a fase alada, foram 69,5% no Lote A (colônia única) e de 78,4% no Lote B (exemplares isolados), talvez isto se deva ao maior manuseio da colônia única. A postura total foi maior na colônia única (Lote A) 7. 832 ovos, a percentagem de ovos inférteis também foi no maior no Lote A. A maior quantidade de ovos postos por uma fêmea foi de 381 ovos diferente do Triatoma sordida14 em que as fêmeas mostraram-se como verdadeiras poedeiras e uma das fêmeas observadas colocou 1. 281 no período em que foi acompanhada. O Lote B (exemplares isolados) com a vantagem da criação individual permitiu uma observação detalhada do tempo de vida e postura das fêmeas.

O tempo de vida (aproximado) dos exemplares que atingiram a fase adulta alcançou 12 meses.

 

AGRADECIMENTO

Os autores agradecem aos funcionários Pedro Ribeiro da Silva e Vera Lúcia Braga Tonietti, pelo suporte técnico.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Drª Vera Lúcia Cortiço Corrêa Rodrigues
SUCEN
Rua Afonso Pessini 86
Caixa Postal 192
13840-970 Mogi Guaçu, SP
Tel: 55 19 3861-1233
e-mail: veracorrea@dglnet.com.br

Recebido em: 01/08/2006
Aceito em: 20/06/2007

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