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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

versión impresa ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. v.41 n.1 Uberaba ene./feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822008000100015 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Técnicas histopatológicas no diagnóstico de criptococose por Cryptococcus deficiente de cápsula: relato de caso

 

Histopathological techniques for diagnosing cryptococcosis due to capsule-deficient Cryptococcus: case report

 

 

Alexandra Flávia GazzoniI; Karla Lais PegasII; Luiz Carlos SeveroIII

ICurso de Pós-Graduação em Ciências Pneumológicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
IIDepartamento de Patologia, Santa Casa-Complexo Hospitalar, Porto Alegre, RS
IIIDepartamento de Medicina Interna, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Caso de criptococose por Cryptococcus deficiente de cápsula, no qual cultivo do espécime clínico e pesquisa do antígeno capsular no líquor e soro foram negativos. As técnicas histopatológicas foram: Hematoxilina-eosina, Grocott, Mucicarmim de Mayer e Fontana-Masson. Confirmou-se o diagnóstico do Cryptococcus deficiente de cápsula pela técnica de Fontana-Masson e pela imunofluorescência direta. É discutida a potencialidade das técnicas histoquímicas.

Palavras-chaves: Cryptococcus deficiente de cápsula. Mucicarmim de Mayer. Fontana-Masson.


ABSTRACT

A case of cryptococcosis due to capsule-deficient Cryptococcus is presented, in which culturing of the clinical specimen and tests for capsular antigen in cerebrospinal fluid and serum were negative. The histopathological techniques evaluated were hematoxylin-eosin, Grocott methenamine silver, Mayer’s mucicarmine and Fontana-Masson. The diagnosis of cryptococcosis due to capsule-deficient Cryptococcus was confirmed by means of the Fontana-Masson technique and by direct immunofluorescence. The potential of the histochemical techniques is discussed.

Key-words: Capsule-deficient Cryptococcus. Mucicarmine. Fontana-Masson.


 

 

A criptococose é uma micose sistêmica causada fundamentalmente por duas espécies do basidiomiceto, naturalmente encapsulado Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii. Enquanto o Cryptococcus neoformans tem distribuição mundial, é sapróbio do solo e está presente em maior abundância em ambientes contaminados pelas fezes de pombos, o Cryptococcus gattii fica praticamente restrito a climas tropicais e subtropicais e está associado a árvores como Eucalyptus camaldulensis2.

O estabelecimento do diagnóstico laboratorial da criptococose é feito pelos achados microscópicos (exame direto e histopatologia), isolamento em cultivo e soromicologia, realizada pelo teste de aglutinação das partículas do látex através da detecção do antígeno capsular. As características micromorfológicas do Cryptococcus são elementos esféricos a ovais, com ou sem brotamentos, medindo de 4 a 20mm de diâmetro, envoltos por uma cápsula gelatinosa2. Contudo, a literatura registra casos de criptococose sem estas características, dificultando o diagnóstico por simular outros elementos fúngicos1 4 5 6 7 12 13 14 15 16 17 18, o que demanda uma técnica laboratorial mais específica8 15.

Justifica o relato a avaliação das potencialidades e limitações diagnósticas das técnicas histopatológicas na criptococose.

 

RELATO DO CASO

Paciente feminina, de 42 anos, branca, natural e procedente de Guaíba, Rio Grande do Sul. Interna com tosse seca, cefaléia, dor ventilatório-dependente no hemitórax direito e febre. Exame físico sem particularidades. Radiografia do tórax revelou nódulos subpleurais no lobo inferior do pulmão direito. Realizada toracotomia à direita. A macroscopia da peça cirúrgica evidenciou três nódulos subpleurais de aspecto caseoso. Realizada punção liquórica, o exame microbiológico do líquor mostrou ausência de germes aos esfregaços corados; os cultivos para bactérias, micobactérias e fungos obtiveram resultados negativos.

Espécime clínico. Peça cirúrgica de tecido pulmonar macroscopicamente alterado foi submetido a processamento histológico padrão e incluso em blocos de parafina. A seguir, os cortes foram corados por meio de técnicas padronizadas8.

Técnicas histoquímicas. Hematoxilina-eosina (HE): rotina no diagnóstico histológico e de grande utilidade na avaliação dos padrões de reações teciduais5 9.

Grocott: também chamada de impregnação pela prata é a mais sensível, sendo largamente utilizada na pesquisa dos elementos fúngicos tanto nos cortes de tecido, quanto nos esfregaços, corando de negro a parede celular, que é visualizada sobre um fundo verde-claro8 9.

Mucicarmim de Mayer: diferencia o Cryptococcus de outros fungos similares em tamanho e forma. Método exclusivo de visualização do material polissacarídico capsular. O carmim liga-se a mucina, a qual destaca-se dos outros componentes celulares pela coloração magenta3 9 11.

Fontana-Masson: evidencia a parede celular fúngica por reagir com pigmentos de melanina, bem como grânulos argentafins. A melanina corada destaca-se do restante do tecido, que adquire coloração amarelada8 9 11.

Imunofluorescência: técnica restrita a único centro de referência, baseada na formação de um conjugado composto por anticorpos fluorescentes específicos e antígenos do polissacarídeo capsular3.

Soromicologia. teste de detecção do antígeno polissacarídeo capsular através da aglutinação das partículas de látex sensibilizadas2.

A Tabela 1 resume as finalidades e limitações das colorações histoquímicas quando do diagnóstico de criptococose por Cryptococcus deficiente de cápsula.

 

 

Posteriormente, houve análise microscópica comparativa entre a técnica de rotina (HE) e três técnicas especiais da micologia.

Aos cortes, os achados microscópicos à coloração de hematoxilina-eosina revelaram lesões granulomatosas, de intensa resposta inflamatória, constituídas por macrófagos, coleções nodulares de células epitelióides (macrófagos modificados que adquirem citoplasma mais pálido, à semelhança das células epiteliais), células gigantes e fagocitose. Alguns linfócitos estavam dispostos perifericamente (Figura 1A). Não foram identificados polimorfonucleares. Alguns organismos esféricos de tamanho varíavel foram identificados no interior dos granulomas (Figura 1B). A coloração de Grocott revelou numerosos organismos dispostos ora dentro de células gigantes (fagocitados), ora no tecido necrótico e espaço extracelular. A parede celular dos elementos fúngicos corou-se de marrom-escuro a preto, sem visualização do espaço claro circundante. Raramente, se observou elementos com brotamento unipolar (Figura 1C). A coloração de mucicarmim de Mayer para estrutura capsular foi fracamente reativa (Figura 1D). A melanina foi evidenciada com a coloração de Fontana-Masson, a qual variou de marrom-escura a negra (Figura 1E). Duas técnicas diagnósticas foram realizadas no CDC (Centers for Disease Control and Prevention), Atlanta, EUA. A pesquisa do antígeno polissacarídico capsular (aglutinação com partículas de látex sensibilizadas) no líquido cefalorraquidiano e no soro que foram negativas. A técnica de imunofluorescência direta, obtendo resultados fracamente reativos para material capsular, confirmando o diagnóstico de Cryptococcus deficiente de cápsula.

 

 

DISCUSSÃO

A literatura mostra relatos de criptococose pulmonar5 e disseminada14 por formas deficientes de cápsula. Em 28 casos revisados, 14 (50%) pacientes exibiam infecção pulmonar4 5 15 17 e os outros 14 (50%) pacientes apresentavam sinais de doença extrapulmonar: meningite1 16, sepse1, sepse concomitante com meningite14, infecção óssea6, prostatite13 e artrite12. O diagnóstico histopatológico foi realizado em 17 (61%) pacientes4 5 6 7 12 13 15. A técnica de hematoxilina-eosina foi realizada em 9 (53%) pacientes3 5 6 7 12 13 15, com observação de granuloma, célula gigante e fagocitose em 100% dos casos, demonstrando que a criptococose ocasionada por formas deficientes de cápsula produz intensa resposta inflamatória. A técnica de Grocott foi realizada em 100% dos casos4 5 6 7 12 13 15 17, foram visualizados aspectos como parede celular e brotamentos compatíveis com Cryptococcus. A técnica de mucicarmim de Mayer também foi realizada em 100% dos casos4 5 6 7 12 13 15 17, sendo negativa em 7 (41%) pacientes4 5 6 7 13 15; nos 10 (59%) casos restantes7 12 17, a técnica obteve resultados levemente positivos. A técnica de Fontana-Masson foi realizada em 6 (35%) pacientes, sendo reativa em todos os casos4 7 13 15. Portanto, esta coloração demonstra-se altamente específica no diagnóstico das formas deficientes de cápsula. A técnica de imunofluorescência foi realizada em 4 (14%) casos6 7 12 16. Conforme resultados observados em outra revisão de 39 casos18, estruturas fúngicas deficientes de cápsula exibiram reações fracamente positivas para material capsular por esse método. Em adição, a baixa porcentagem deste último, é devido ao fato de que este tipo de procedimento está restrito a um único centro de referência. Como vimos, os achados do presente caso estão em concordância com a literatura.

Por outro lado, a soromicologia baseada na aglutinação das partículas de látex sensibilizadas foi realizada em 22 (79%) casos1 5 6 12 13 16 17, 13 foram aplicados no soro1 5 6 12 13 17, 11 aplicados no líquido cefalorraquidiano1 5 12 16 e 1 aplicado no líquido sinovial12. No soro, a negatividade foi em 8 (36%) casos1 6 12 17 e a positividade em 5 (22%) casos1 5 13. No líquido cefalorraquidiano, a negatividade em 3 (13%) casos5 12 16 e a positividade foi em 8 (36%) casos1. No líquido sinovial, o resultado foi negativo12. Este percentual de negatividade, como era de se esperar, é reflexo da deficiência de material capsular.

Em resumo, os achados morfológicos proporcionados pelas colorações de hematoxilina-eosina e Grocott, bem como os resultados oferecidos pelas técnicas histopatológicas de Fontana-Masson e mucicarmim de Mayer estabelecem o diagnóstico dos organismos criptocóccicos. Portanto, o Fontana-Masson é alternativa diagnóstica para casos de infecções por organismos morfologicamente sugestivos de Cryptococcus, uma vez que a imunofluorescência direta está disponível somente em um centro de referência.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Leo Kaufman pela realização da soromicologia e ao Dr. William Kaplan pela realização da imunofluorescência direta, ambos do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Atlanta, USA.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dr. Luiz Carlos Severo. Laboratório de Micologia/Santa Casa Complexo Hospitalar
Rua Anne Dias 285
90020-090 Porto Alegre, RS
Tel: 55 51 3214-8409
e-mail: severo@santacasa.tche.br

Recebido para publicação em: 10/09/2007
Aceito em: 15/01/2008