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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.43 no.2 Uberaba Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0037-86822010000200010 

ARTIGO ARTICLE

 

Anofelinos de Santa Catarina (Diptera: Culicidae), Brasil

 

Anophelines of Santa Catarina (Diptera: Culicidae), Brazil

 

 

Maria da Graça Teixeira PortesI; Juliana Chedid Nogared RossiII; João Cezar do NascimentoII; Suzana ZeccerII; Luis Antonio SilvaII

IGerência de Saúde, Secretaria de Estado do Desenvolvimento Regional, Joinville, SC
IIDiretoria de Vigilância Epidemiológica, Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, Florianópolis, SC

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: No Brasil, a Região Amazônica é endêmica em malária. Em Santa Catarina, a malária foi eliminada na década de 80. A partir daí, ocorreram poucos casos autóctones isolados, e esporádicos. No entanto, em função da existência do vetor em seu território, da existência de extensa área endêmica no Brasil e da grande mobilidade de pessoas em áreas turísticas no estado, existe a probabilidade de reintrodução da doença.
MÉTODOS: Utilizou-se os seguintes dados: Banco de Dados do Núcleo de Entomologia da Fundação Nacional de Saúde, Santa Catarina (ACCES,1997-2000); Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica, Secretaria de Vigilância em Saúde (Malária/SC) e Sistema de Informação de Notificação e Agravo(SINAN/SC). Os mesmos foram transportados e analisados, no programa Microsoft Office Excel 2007.
RESULTADOS: As coletas foram realizadas em 48 municípios, 159 localidades, sendo identificados 12.310 Culicídeos, 11.546 (93,7%) Anopheles e 764 (6,2%) como outros. Foram identificados três subgêneros e 13 espécies de anofelinos.
CONCLUSÕES: Considerando que nos municípios pesquisados, foi identificada a presença de importantes vetores como Anopheles cruzii e Anopheles albitasis e há circulação de pessoas infectadas provenientes de áreas endêmicas, pode-se considerar que os mesmos são áreas receptivas e vulneráveis à malária. Essas espécies são suspeitas de serem responsáveis pela transmissão de malária na região, principalmente nos municípios de Gaspar, Indaial e Rodeio.

Palavras-chaves: Anopheles. Malária. Vetores.


ABSTRACT

INTRODUCTION: The Amazon region of Brazil is endemic for malaria. In the State of Santa Catarina, malaria was eliminated in the 1980s. Since then, a few sporadic isolated autochthonous cases have occurred. However, because malaria vectors are present within Brazilian territory and extensive endemic areas exist in this country, along with the great mobility of people in tourist areas of Santa Catarina, there is the likelihood of reintroduction of the disease.
METHODS: The following data were used: the database of the Entomology Group of the National Health Foundation, Santa Catarina (ACCES, 1997-2000); the epidemiological surveillance information system of the Health Surveillance Department (Malaria/SC); and the notifiable disease information system (SINAN/SC). These data were transferred to and analyzed in the Microsoft Office Excel 2007 software.
RESULTS: Collections were carried out in 48 municipalities and 159 localities, and 12,310 culicids, 11,546 anophelines (93.7%) and 764 others (6.2%) were identified. Three subgenera and 13 species of anophelines were identified.
CONCLUSIONS: Given that in the municipalities investigated, important vectors such as Anopheles cruzii and Anopheles albitasis were found to be present, with movements of infected individuals from endemic areas, these areas can be considered to be receptive and vulnerable to malaria. These species are suspected of being responsible for malaria transmission in this region, especially in the municipalities of Gaspar, Indaial and Rodeio.

Key-words: Anopheles. Malaria. Vectors.


 

 

INTRODUÇÃO

A malária é uma doença infecciosa e febril, aguda, causada por protozoários e transmitida por insetos vetores do gênero Anopheles. É reconhecido como grave problema de saúde pública no mundo atingindo 40% da população de mais 100 países, de acordo com Organização Mundial de Saúde1. É a doença parasitária mais importante da região tropical, com altas taxas de morbidade e mortalidade. No Brasil, a região endêmica é a amazônica, ou responsável por nada menos do que 99,8% dos casos2,3. Os demais casos ocorrem fora desta região cujos registros são esporádicos e isolados.

Existem cerca de 380 espécies de anofelinos, mas apenas 60 são capazes de transmitir a doença. Para o território nacional cinco espécies têm maior envolvimento na transmissão humana da malária: Anopheles darlingi, Anopheles aquasalis, Anopheles albitarsis, Anopheles (Kerteszia) cruzii, Anopheles (Kerteszia) bellator4,5. Todavia o destaque recai sobre Anofheles darlingi no interior, Anofheles cruzii na Serra do Mar e Anofheles aquasalis na faixa litorânea1,6.

Santa Catarina já foi considerado como área endêmica para malária nas décadas de 1940 a 1960, chamada de bromélia-malária ou malária de bromélias, devido à associação de sua ocorrência em matas ricas neste tipo de vegetal, onde se desenvolvem formas imaturas do mosquito do subgênero Kerteszia, transmissor da doença4,5. Os primeiros estudos foram realizados por Coutinho em 1943, quando traçou o perfil completo e epidemiológico da malária em Santa Catarina, na época localidade de Caldas da Imperatriz município de Palhoça, atual município de Santo Amaro da Imperatriz. Embora limitado a uma localidade, o trabalho sugeria que a malária no estado era transmitida exclusivamente por anofelinos do subgênero Kerteszia, que estava relacionado ao complexo bromélia-malária7.

Com ações desenvolvidas para erradicação do mosquito transmissor, o território catarinense eliminou a transmissão da malária em 19867, e a partir daí ocorreram uns poucos casos autóctones isolados e esporádicos.

O presente estudo teve por objetivo consolidar e atualizar as informações sobre as espécies de Anopheles, complementado por situações epidemiológicas dos municípios, em relação à vulnerabilidade das áreas para reintrodução da doença no Estado de Santa Catarina.

 

MÉTODOS

É um estudo descritivo retrospectivo, no qual foram utilizados: Banco de Dados de Entomologia da Fundação Nacional de Saúde, Santa Catarina, ACCES, 1997-2000; Banco de Dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica, Secretaria de Vigilância em Saúde (SIVEP/SVS-SC) para 2004 a 2006; Sistema de Informação de Notificação e Agravo (SINAN/SC). Todos os dados foram transportados e analisados no programa Microsoft Office Excel 2007.

Área de estudo

O Núcleo de Entomologia da Fundação Nacional de Saúde/SC fez levantamento de anofelinos, em 48 municípios, no período de 1997 a 2000. A equipe da Gerência de Zoonoses e Entomologia/Diretoria de Vigilância Epidemiológica/Secretaria do Estado da Saúde/SC explorou aspectos particulares dos anofelinos de Gaspar, Rodeio, Indaial, em função dos casos autóctones, e em Blumenau e Ascurra, por estarem geograficamente muito vinculados aos primeiros.

Pesquisa de vetores

Do manual da FUNASA/MS sobre as operações de controle vetorial consta nos registros de operações da pesquisa anofélica o mapeamento da distribuição geográfica de anofelinos, recomendando atividade de campo diurna (fases imaturas), e noturna (captura de alado). A captura de anofelino foi realizada tanto no período de 1997 a 2000, como no período de 2004 a 2006, durante três noites consecutivas, em três localidades por município, duas vezes ao ano (inverno e verão). Foi realizado captura no intra, peri e extradomicílio, com método atrativo natural (isca animal), armadilha luminosa (Barraca de Shannon), com o auxílio de capturador de Castro, sendo um imóvel por localidade. O tempo de captura em cada imóvel foi de três horas/por homem/ponto (intra, peri, extra), iniciando trinta minutos antes do crepúsculo vespertino. O alado capturado foi colocado em caixas de papelão com algodão e naftalina devidamente etiquetada, para identificação em laboratório, no tubo mortífero foi utilizado acetato de etila.

A coleta de fase imatura foi realizada no período vespertino, todo ecótopo com água, dos imóveis foi examinado, com os seguintes procedimentos: No ecótopo de tamanho pequeno (inferior a 30m), coletou-se 5 conchadas; no ecótopo de tamanho médio (maior que 30m e até 300m), coletou-se 10 conchadas; no ecótopo de tamanho grande (maior que 300m, coletou-se 20 conchadas. Foi utilizado uma concha de alumínio, com volume de 350ml presa em um cabo de madeira. Na coleta de bromélia, foi considerado um ecótopo, em cinco unidades de tamanho médio por ambiente, exposta ou não ao sol. Em relação a fase imatura: a larva foi colocada em tubito com álcool 70%; a pupa foi acondicionada em potes de vidro com tampa telada e água do próprio ecótopo, rotulados por número e local de coleta, para identificação e evolução em laboratório.

Para identificação foi utilizada a chave para identificação de adultos das espécies de Anofheles que ocorrem no Brasil5.

 

RESULTADOS

No primeiro levantamento, foram realizadas capturas em 144 localidades de 48 municípios, no período de abril de 1997 a abril de 2000; no segundo em 15 localidades de 5 municípios, no período de agosto de 2004 a agosto de 2006. Durante os dois períodos de desenvolvimento da carta anofélica, em Santa Catarina foram coletados 12.310 Culicídeos, sendo identificados 11.546 (93,7%) Anofelinos (Tabelas 1, 2 e 3) e 764 (6,2%) como outros gêneros. Foram coletadas 498 espécimens em fases imaturas do gênero Anopheles. Foram identificados, 3 subgêneros e 13 espécies de anofelinos nos 48 municípios pesquisados em Santa Catarina: 1) Anopheles (Kerteszia) cruzii Dyar e Knab, 1908. 2) Anopheles (Kerteszia) bellator Dyar e knab, 1906. 3) Anopheles (Kerteszia) humunculus Komp, 1937. 4) Anopheles (Nyssorynchus) albitarsis Arribalzaga, 1878. 5) Anopheles (Nyssorynchus) argyrytarsis Rineau - Desvoydi, 1827. 6) Anopheles (Nyssorinchus) strodei Root, 1926. 7) Anopheles (Nyssorinchus) Oswaldoi Peryassú, 1922. 8) Anopheles (Nyssoyinhcus) nunestovari Gabaldón, 1940. 9) Anopheles (Nyssorynchus) evansae Brethes, 1926. 10) Anopheles (Nyssorynchus) deanorium Rosa-Freitas, 1989. 11) Anopheles (Nyssorynchus) lutzi Cruz, 1901. 12) Anopheles (Nyssorynchus) parvus Chagas, 1907. 13) Anopheles (Anopheles) mediopunctatus Lutz, 1903.

 

 

 

 

No primeiro período de desenvolvimento da fauna anófelica, a espécie que apresentou a maior freqüência foi Anopheles evansae com 32%, seguido por Anopheles cruzii com 21%, Anopheles albitarsis s.l. 11%, Anopheles strodei 10%, Anopheles deanorium 5%, Anopheles mediopunctatus 4,2% Anopheles lutzi 4%, Anopheles parvus 2,5%, Anopheles oswaldoi 3,3%, Anopheles bellator 2,4%, Anopheles argirytarsis 1,6%, Anopheles humunculus 1,5%, Anopheles nuneztovari 1% e Anopheles s. p. 0,5% nos 48 municípios.

Como resultado do primeiro estudo, a espécie Anopheles evansae apresentou maior abundância tanto no extra como no peridomicílio, no segundo período foi a terceira mais abundante. Os municípios de Biguaçú, Florianópolis e São Francisco do Sul apresentaram maior diversidade de anofelinos.

A espécie Anopheles albitarsis s.l. foi encontrada no peri e extradomicílio nos municípios de: Apiúna, Ascurra, Blumenau, Biguaçú, Garuva, Gaspar, Guaramiriam, Ibirama, Jaraguá do Sul, José Boiteux, Nova Veneza, Lontras, Palhoça, Pomerode, Rodeio, Rio do Sul, São Francisco do Sul, São José, Schroeder, Zortéia, Tubarão, Presidente Getúlio, Peritiba, Gravatal, Concórdia, Campos Novos.

A freqüência de Anopheles bellator foi baixa registrada nos municípios de: Balneário Barra do Sul, Biguaçú, Florianópolis, Joinville e São Francisco do Sul. Foi observado sua atividade em ambiente domiciliar e nas proximidades de áreas de mata primitiva.

Durante a identificação dos alados, foi observada a presença na asa do caráter mancha clara na veia anal, em alguns indivíduos de Anopheles cruzii, nos municípios de Palhoça, Guabiruba e Jaraguá do Sul. Nos exemplares examinados, a mancha variou de 1μm a 18μm.

Dentre outros gêneros, foram identificados: Aedes Meigen, 1818; Psorophora Robyineau - Desvoidoy, 1827; Culex Linnaeus,1758; Mansonia Blanchard,1901; Coquilettidea Dyar,1905; Limatus Theobald, 1901. No Município de Peritiba, foi capturado um exemplar de Haemagogos (Conopostegus) leucocelaenus Dyar & Shannon, 1924 um dos transmissores da febre amarela silvestre.

No período de 2004 a 2006, nos 5 municípios foram capturados 247 alados e 20 imaturos do gênero anofelino, sendo identificado 3 subgêneros e 6 espécies, na ordem crescente de suas abundâncias: Anopheles albitarsis s.l. 53,4%, Anopheles cruzi 31,6%, Anopheles evansae 2,4%, Anopheles mediopunctatus 1,6%, Anopheles argyrytarsis 0,8%, Anopheles. oswaldoi 0,4% e Anophele sp 9,7%.

Anopheles cruzii foi a espécie mais frequente nos municípios de Indaial, Gaspar, Rodeio. Essa espécie foi a segunda mais abundante, tanto no primeiro como no segundo período de desenvolvimento da pesquisa entomológica, foi capturada no extra e peridomicílio. Em Gaspar, foi observado que dos 60 exemplares coletados, 37 foram no intradomicílio. O município de Rodeio apresentou a maior diversidade na composição de anofelinos. Anopheles cruzii, também foi registrada nos municípios de: Angelina, Apiúna, Ascurra, Araquari, Balneário Barra do Sul, Biguaçú, Botuverá, Blumenau, Brusque, Capivari de Baixo, Florianópolis, Garuva, Guabiruba, Guaramirim, Gravatal, Ibirama, Indaial, Itá, Itajaí, Joinville, Jaraguá do Sul e Rodeio.

Nos municípios pesquisados, foram identificados mais de uma espécie de anofelino, com exceção do município de Ipira, que registrou somente a espécie Anopheles evansae.

Nas fases imaturas, foi possível identificar apenas 30% do material coletado que evoluiu até adulto no laboratório, sendo essas Anopheles evansae, Anopheles strodei, Anopheles albitarsis e Anopheles cruzii.

O material das coletas atualmente faz parte da coleção entomológica da Gerência de Vigilância de Zoonoses e Entomologia/Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina.

 

DISCUSSÃO

"Anopheles evansae, e Anopheles strodei, têm sido esporadicamente detectadas com infecção natural por plasmódio (principalmente oocistos), as quais detêm pouca atenção dos especialistas. Esses mosquitos são essencialmente zoofilícos e exófilos5. Se não estão envolvidos com plasmódios de primatas não humanos, essa infecção pode ser secundária6, durante epidemias promovidas por um vetor primário competente, além do que sua frequência nunca está relacionada com a malária"5. Foram registrados recentemente em Belém do Pará, nos estudos de Silva8. Anopheles evansae é uma espécie de ampla distribuição neotropical; entretanto, em algumas áreas tem sido encontrada em alta densidade, podendo desempenhar papel vetorial secundário9. Nos estudos de Rachou10, o qual registrou 23 espécies de anofelinos em Santa Catarina não consta a espécie Anopheles evansae.

Espécies do complexo Albitarsis s.l. têm história de maior participação na transmissão da malária humana, onde Anopheles darlingi está ausente5,11. Portanto, essa é uma possibilidade para explicar os casos humanos. Nas áreas investigadas, a primeira espécie foi encontrada picando durante todo o ano, e abundante na estação chuvosa, quando são ampliados seus criadouros.

Anopheles bellator é restrito ao litoral brasileiro, cria-se apenas em bromélias rupestres, epífitas ou terrestres, expostas ao sol, prefere os gravatás de maior tamanho que contenham maior acúmulo de água, pode transmitir plasmódio humano11. Conforme estudos de Ueno11 e Forattini12, têm sido registradas em ambientes domiciliares nas proximidades de áreas de mata primitiva. Ainda que baixa a frequência dessa espécie, merece atenção, diante da ausência de estudos dessa espécie em outros trabalhos, no estado.

A espécie Anopheles cruzii, é muito oportunista e eclético, em presença de fonte sanguínea torna-se imediatamente excitado, independentemente do horário ou do tipo de hospedeiro. "É considerado um mosquito exófilo, porém, em muitas localidades do Sul do Brasil e em épocas do ano de elevada densidade, invade as casas facilmente e com alta incidência, especialmente aquelas situadas próximo às matas onde ele se cria"5,10,11. A característica dessa espécie é registrada há mais de 40 anos por seu comportamento: preferência em picar nos níveis elevados das florestas, junto à copa das árvores denominado acrodendrofilia5,11,13-15. Vale ressaltar que as coletas foram realizadas ao nível do solo. É considerado vetor primário e importante no Brasil1,12,16. "Não divide a transmissão da malária com outros anofelinos, senão com outros Kerteszias, Anopheles bellator e Anopheles humunculus, em seus domínios territoriais"4,12. Conforme estudos de Peyton17, o subgênero Kerteszia pode apresentar a veia anal totalmente escura, ou raramente com 1 ou 2 pequenas manchas claras.

A fauna de Culicidae em Santa Catarina foi estudada devido à ocorrência de filariose e malária, nas décadas de 1950 a 19608,18. Com o processo de crescimento das áreas urbanas, ocupação de áreas consideradas rurais, evolução dos municípios mediante construções de conjuntos habitacionais e novos loteamentos, o que ocasionou acentuada alterações no ambiente natural, pode ter afetado a diversidade de anofelinos para um número de apenas 13 espécies atualmente nos municípios pesquisados no estado. Mesmo com as medidas adotadas nas décadas de 1960 a 1970, que incluía a destruição de bromélias e aplicação de larvicidas e inseticidas nas matas7,19, as espécies de Anopheles identificados nos municípios pesquisados, poderão contribuir para a receptividade de malária, principalmente em Indaial, Gaspar e Rodeio, visto que o registro de casos alóctones é expressivo no estado e que recebe muitos turistas de áreas endêmicas. Nos anos de 1996 a 2003, foram notificados em Santa Catarina 366 casos de malária, dentre esses 8 eram autóctones distribuídos entre os municípios de: Indaial, Garuva, Barra Velha, Gaspar, Rodeio.

Dentre várias funções da vigilância entomológica destaca-se: "promover a agilização na identificação de características vetoriais para a análise de riscos epidemiológicos1,20, com objetivo de propiciar as intervenções oportunas, e recomendar medidas de prevenção e controle através da execução de análise qualificada das informações sobre vetores para acompanhamento contínuo dos indicadores eleitos"21. Além disso, a vigilância enseja um olhar especial da área de saúde pública, visto que o registro de casos alóctones aumenta a probabilidade de risco da reintrodução do agente etiológico da malária.

Conhecer a entomofauna anofelina catarinense, sua distribuição, sua biologia e comportamento, e também informar a população bem como instituições de saúde, para os riscos de uma possível reintrodução da doença, não deixa de ser uma estratégia para prevenção e vigilância, principalmente nos municípios que registraram presença de vetores considerados competentes.

Assim sendo, todas essas informações não poderão ser ignoradas e os serviços de saúde deverão ser estimulados para o monitoramento de vetores, aperfeiçoando o sistema de informação nas atividades de vigilância entomológica, com o objetivo de propor estratégias adequadas, no planejamento das ações de vigilância da mesma.

 

AGRADECIMENTOS

Aos colegas do Núcleo de Entomologia da Fundação Nacional de Saúde de Santa Catarina: Maria Bernadete Elias da Conceição e Marcos Nunes Nascimento, pelos dados fornecidos. Aos colegas Bento Pedro Simão, João Goulart Filho, Elisa Filter, Ingo César Westphal, da Gerência de Vigilância de Zoonoses e Entomologia/Diretoria de Vigilância Epidemiológica/Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, pelas coletas e identificação. Especialmente ao Prof. Dr. Almério de Castro Gomes, Faculdade de Saúde Pública ( USP), pelas sugestões e revisão do texto.

 

CONFLITO DE INTERESSE

Os autores declaram não haver nenhum tipo de conflito de interesse no desenvolvimento do estudo.

 

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Endereço para correspondência:
Dra. Maria da Graça Teixeira Portes
Rua XV de Novembro 70, Centro
89201-600 Joinville, SC
Tel: 47 3433-2222, Fax: 47 3433-4109
e-mails: entojoinville@saude.sc.gov.br; gracatp@hotmail.com

Recebido para publicação em 04/06/2009
Aceito em 05/03/2010

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