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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

Print version ISSN 0037-8682

Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.43 no.6 Uberaba Nov./Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S0037-86822010000600039 

NECROLÓGIO OBITUARY

 

 

Hermann Gonçalves Schatzmayr

(1936 2010)

 

 

 

Hermann Gonçalves Schatzmayr, filho do austríaco Otto Schatzmayr e da brasileira, descendente de portugueses, Zulmira Gonçalves Schatzmayr, nasceu em 11 de maio de 1936 e faleceu em 21 de junho de 2010, no Rio de Janeiro. Hermann foi um dos mais brilhantes virologistas brasileiros, de todos os tempos, a quem o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) devem grande parte de sua evolução, nos últimos 48 anos, onde trabalhou em tempo integral de bolsista a Pesquisador Titular e Presidente da FIOCRUZ, com a dedicação de um filho agradecido, até os últimos dias de sua vida. Embora algumas vezes injustiçado, dedicou-se à nossa Instituição com a tenacidade dos grandes homens, sempre com aquela aparência tranquila e disposição de colaborar, como um verdadeiro servidor público. Mesmo quando tinha o coração magoado, por atitudes menores de outros, não se deixava abater, mas essa mágoa transparecia na tristeza dos seus olhos, quando falava com seus amigos mais íntimos.

Hermann Schatzmayr formou-se em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em 1957. Obteve uma bolsa de pós-graduação para o Instituto de Higiene em Viena, na Áustria, em 1961. Em 1962, ingressou no Instituto Oswaldo Cruz como bolsista de Joaquim Travassos, na área de Virologia, quando conheceu Monika Barth, que era bolsista de Henrique Pimenta Veloso, na área de Ecologia. Hermann e Monika casaram-se em 1965. Em dezembro desse mesmo ano, o casal seguiu para Freiburg na Alemanha; Hermann com uma bolsa da Fundação von Humboldt e Monika com bolsa do CNPq, quando fizeram estudos e desenvolveram projetos de pesquisa nas Universidades de Giessen e Freiburg, sendo que Hermann em um ano elaborou e defendeu sua tese de Doutorado, a qual, entretanto, por motivos não esclarecidos, não foi reconhecida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. De regresso ao Brasil, em 1967, Hermann foi convidado, por Edmar Terra Blois, para organizar um Laboratório de Virologia no Departamento de Ciências Biológicas, chefiado por Luiz Fernando Ferreira, na Escola Nacional de Saúde Pública, do qual participavam Akira Homma, Julio Mesquita e vários outros virologistas. Seu técnico, José da Costa Farias Filho, acompanhou-o desde então, até o último dia.

Em 1975, Hermann fez Livre-Docência em Virologia pela Universidade Federal Fluminense e em 1977, com a reestruturação da FIOCRUZ, regressou ao Instituto Oswaldo Cruz depois de 10 anos de grande produtividade na ENSP. No seu regresso ao IOC, chefiou os chamados projetos prioritários dentro de um grande Laboratório de Virologia, o qual transformamos em Departamento, em 1980, quando criamos os Departamentos no IOC em substituição à estrutura anterior. Com a liderança de Hermann Schatzmayr, o Departamento de Virologia tornou-se o maior e mais produtivo de todo o IOC, com os seguintes laboratórios: Desenvolvimento Tecnológico em Virologia, enterovírus, flavírus, hantavirose e ricketisioses, hepatites virais, virologia molecular, vírus respiratórios e sarampo, ultraestrutura viral e virologia comparada. Embora um virologista completo, tendo publicado praticamente em todas as áreas da virologia, Hermann teve uma grande contribuição na erradicação da varíola, no controle da poliomielite, no estudo dos flavivírus, particularmente do dengue e da febre amarela e nos últimos anos dedicou-se à biossegurança com inestimável contribuição ao Instituto Oswaldo Cruz nessa área.

Durante 45 anos de sua vida acadêmica, de 1965, quando publicou o seu primeiro trabalho, até 2010, quando, conforme consta em seu currículo Lattes, publicou seus dois últimos trabalhos completos, em revistas nacionais e internacionais. No total, publicou 201 trabalhos, com uma média de 4,5 trabalhos/ano, além dos 114 trabalhos publicados em anais de congressos nacionais e internacionais que somados aqueles, essa média subiria para 7 trabalhos/ano, atingida por poucos pesquisadores, em todo o mundo. Diante do seu reconhecimento pela comunidade científica brasileira, e internacional, Hermann foi Pesquisador 1-A do CNPq e Chefe de Grupo de Pesquisa desse Conselho, Assessor da Organização Mundial de Saúde, desde 1982, Membro das Academias Brasileira de Ciências e de Medicina Veterinária, Editor do periódico Virus Reviews & Research da Sociedade Brasileira de Virologia, da qual foi Sócio-Fundador e seu primeiro Presidente. Enfim, Hermann Schatzmayr foi um dos maiores Scholars que o Brasil já teve, na área de Virologia, onde formou dezenas de discípulos, organizou laboratórios do mais alto nível internacional e participou da erradicação e do controle de dois flagelos internacionais: a varíola e a poliomielite, além de sua enorme contribuição científica à Virologia como um todo.

Ao terminar este breve resumo, sobre a vida de Hermann Schatzmayr, eu diria que ele foi um Cientista e um Homem que serviu ao Brasil e ao Mundo e que deixou órfãos, além da sua esposa Monika e seus dois filhos Rainer e Betina, uma legião de discípulos e amigos, cujo único agradecimento possível é dizer: "Que Deus o abençoe. Obrigado por termos tido o privilégio de sua convivência".

 

José Rodrigues Coura

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