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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967

Acta Amaz. vol.33 no.4 Manaus Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672003000400016 

NOTAS E COMUNICAÇÕES

 

Duração do ciclo de vida de Cornops aquaticum (Bruner, 1906) (Orthoptera: Acrididae: Leptysminae) e aspectos de seu comportamento alimentar na Amazônia central

 

Life cycle of Cornops aquaticum (Bruner, 1906) (Orthoptera: Acrididae: Leptysminae) and aspects of its food behavior at Central Amazonia

 

 

Maria de Fátima VieiraI; Aldaléia Carmo dos SantosII

IInstituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Caixa Postal 478, 69011-970, Manaus, Am, Brasil
IIPrograma Institucional de Bolsas de Iniciação Científica — PIBIC/INPA/CNPq

 

 


RESUMO

O gafanhoto Cornops aquaticum (Bruner, 1906) (Orthoptera: Acrididae: Leptysminae) completa seu ciclo de vida em Eichhornia (Pontederiaceae). Em experimentos ao ar livre, durante o período da enchente, foi verificado que a cópula pode durar entre 40 a 120 minutos. Cada postura tem em média 13,4 ovos (+/- 3,2) e o período de incubação durou 34,1 dias (+/- 1,97). A duração média do desenvolvimento de ovo a adulto foi de 156,2 dias, sendo 34,1 do estágio de ovo, 53,4 do estágio ninfal e 68,7 do estágio adulto. Alimentou-se de 6 espécies de macrófitas aquáticas dentre as 13 oferecidas. Ninfas (N) e Adultos (A) sobreviveram mais dias em Pistia stratiotes (N = 43 % até 30 dias e A =1 % até 27 dias) e Pontederia sp. (N = 85 % e A = 40 % até 24 dias) que em Limnobium sp. (N =13% e A =10 % até 12 dias), Ludwigia sp. (N =3 % até 24 dias e A =15 % até 9 dias), Azolla sp. (N =35 % até 9 dias e A =15 % até 12 dias) e Paspalum repens (N =3 % até 21 dias e A =5 % até 24 dias).

Palavras-chave: Ciclo de vida, Cornops aquaticum, macrófitas aquáticas, Amazônia.


Abstract

Life cycle of the grasshopper Cornops aquaticum (Bruner, 1906) (Orthoptera: Acrididae: Leptysminae) is dependent on Eichhornia (Pontederiaceae). Experiments were carried outdoors during receding water, the Mating last for about 40 and 120 minutes. The ootheca has an average of 13.4 (+/- 3.2) eggs. Incubation lasted for 34.1 days (+/- 1.97). Mean durations of total development from egg to adult was 156.2 days, being 34.1 in the egg stage, 53.4 in the ninphal stage, and 68.7 in the adult stage. Nymphs (N) and adults (A) accepted only six aquatic macrophytes out of 13 species offered during 30 days; survived more time in Pistia stratiotes (N = 43 %, 30 days and A = 1 %, 27 days) and Pontederia sp. (N = 85 % and A = 40 % until 24 days) than Limnobium sp. (N =13% and A =10 % until 12 dias), Ludwigia sp. (N =3 %, 24 days and A =15 %, 9 days) Azolla sp. (N =35 %, 9 days and A =15 %, 12 days) and Paspalum repens (N =3 %, 21 days and A =5 %, 24 days).

Key-words: Life cycle, Cornops aquaticum, aquatic macrophytes, Amazonia.


 

 

O gafanhoto Cornops aquaticum (Bruner, 1906) (Leptysminae: Acrididae: Orthoptera) está distribuído por toda a região neotropical, possui porte médio (3 cm de comprimento), cor verde escuro, com uma faixa preta e outra amarela nas laterais do corpo (Roberts & Carbonell, 1979). Sua biologia e morfologia foi estudada por Zolessi (1956), no Uruguai e por Guido & Perkins (1975) nos Estados Unidos. Alimenta-se de macrófitas aquáticas, porém seu ciclo de vida parece estar ligado obrigatoriamente às Pontederiaceae, principalmente as do gênero Eichhornia (Carbonell, 1981).É considerado um controlador biológico de Eichhornia crassipes, planta essa que é praga de lagos naturais e artificiais; no entanto, na Amazônia tanto E. crassipes quanto C. aquaticum estão em equilíbrio, provavelmente devido aos pulsos de inundação anuais (Junk, 1997).

O presente trabalho objetivou determinar a duração do ciclo vital e aspectos do comportamento alimentar de ninfas e adultos de C. aquaticum na Amazônia Central.

Cornops aquaticum, Eichhornia crassipes e demais macrófitas aquáticas foram coletados da Ilha de Marchantaria e arredores de Manaus, Amazonas. Os adultos, as ninfas e as plantas foram acomodados em tanques e recipientes plásticos com E. crassipes, lá permanecendo até vencer o estresse da coleta e do transporte. Os experimentos sobre o ciclo de vida foram realizados durante os meses de janeiro a junho de 1999, e os testes de aceitabilidade alimentar entre os meses de setembro de 1999 a maio de 2000, ao ar livre, em local parcialmente sombreado, com a temperatura ambiente variando entre 27 a 35°C, em Manaus, Amazonas.

Machos e fêmeas, adultos, foram agrupados em gaiolas de madeira (20X30X30cm), teladas, parcialmente submersas com E. crassipes e observados diariamente, enquanto aguardava-se que ocorresse acasalamento e oviposição. Também foram coletadas plantas com posturas, as quais foram isoladas e observadas diariamente até a eclosão. As ninfas resultantes destas eclosões foram isoladas, uma a uma, em copos (500 ml) com E. crassipes e água, cobertos com filó. Também foram criados grupos de ninfas, nascidas da mesma postura. As observações foram diárias e troca de alimento a cada cinco dias.

Para testar quais eram as plantas aceitas como alimento por C. aquaticum, foram utilizadas 13 espécies de macrófitas aquáticas. Para cada grupo de 10 gafanhotos (machos e fêmeas) ou 10 ninfas foi oferecido separadamente, uma espécie de planta, as quais foram colocadas inteiras dentro de gaiolas (20 X 30 X 30 cm e 25 X 30 X 60 cm) parcialmente submersas em bacias plásticas com água. As dimensões das gaiolas estavam relacionadas às das plantas. Foram feitas de quatro a oito repetições para cada teste, com leituras a cada 3 dias.

Foram admitidas como aceitas as plantas que apresentaram sinais de consumo e que, após 9 dias de observações no experimento, ainda havia indivíduos vivos, também por ser tempo suficiente para que as ninfas passassem, pelo menos, por um estádio de desenvolvimento.

Foi observado que a cópula de C aquaticum pode durar entre 40 a 120 minutos, enquanto que para C. frenatum cannae, um gafanhoto de hábito semelhante, é inferior a 40 minutos (Turk, 1984).

Neste estudo constatou-se que C. aquaticum deposita seus ovos na base do pecíolo de E. crassipes. Após a oviposição pode-se observar pequenos orifícios circulares, com uma substância cementosa e esbranquiçada que, após um dia, torna-se amarelo-marrom, semelhante à descrição de Zolessi (1956) em E. azurea. Dentro das posturas, os ovos estão dispostos um sobre o outro, com uma média de 13,4 ovos/postura (Tab. 1).

Durante a enchente (janeiro - junho), na Amazônia Central, a média de ninfas de C. aquaticum por postura foi de 12,7 (+/-2,2) e o período médio de incubação durou 34,1 dias (+/- 1,97), variando de 31 a 37 dias (Tab.1) enquanto que, na África, esse período foi inferior, variando entre 25 a 30 dias (Hill e Oberholzer, 2000).

C. aquaticum, neste estudo, completou o estágio ninfal em 53,4 dias, com cinco estádios (Tab. 1). Em outros locais, tanto a duração do estágio ninfal quanto o número de estádios foram diferentes; no Uruguai, foi de aproximadamente 51 dias com seis estádios (Zolessi, 1956), na África, foi de 50 dias com 6 e 7 estádios (Hill e Oberholzer, 2000). A plasticidade quanto ao número de estádios já foi observada em outros Leptysminae como por exemplo, C. frenatum e Stenacris fissicauda (Turk, 1984; Nunes et al. 1992) e provavelmente, no período de vazante da Amazônia Central, devido aos pulsos de inundação, C. aquaticum apresente outros estádios.

O ciclo completo pode durar 156,2 dias, dos quais 34,1 são do estágio de ovo, 53,4 do estágio ninfal e aproximadamente 68,7 dias do estágio adulto (Tab. 1).

Quanto aos hábitos alimentares, C. aquaticum aceitou 6 espécies de macrófitas aquáticas dentre as 13 oferecidas (Tab. 2). Ninfas (N) e adultos (A) sobreviveram mais dias consumindo P. stratiotes (N =43 % até 30 dias e A =1 % até 27 dias) e Pontederia sp.(N = 85 % e A = 40 % até 24 dias). Os baixos índices de sobrevivência em Limnobium sp. (N =13% e A =10 % até 12 dias), Ludwigia sp. (N =3 % até 24 dias e A =15 % até 9 dias), Azolla sp. (N =35 % até 9 dias e A =15 % até 12 dias) e Paspalum repens (N =3 % até 21 dias e A =5 % até 24 dias) indicam que essas plantas devem representar recursos alimentares alternativos, porém não essenciais para o desenvolvimento do gafanhoto pois em nenhuma delas observou-se mudança de estádio, como ocorreu na presença de P. stratiotes e Pontederia sp.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

Carbonell, C. S. 1981. Orthoptera.In: Hulbert. S. H; Rodrigues, G.; Santos, N. D. (eds). Aquatic Biota of Tropical South America. California. p. 92-99.         [ Links ]

Guido, A. S.; Perkins, B. D. 1975. Biology and Host Specifity of Cornops aquaticum (Bruner) (Orthoptera: Acrididae), a potencial biological control agent for waterhyacinth. Envirommental Entomology, 4(3): 400-404.         [ Links ]

Hill, M. P; Oberholzer, I. G. 2000. Host Specifity of the Grasshopper, Cornops aquaticum a Natural Enemy of Water Hyacinth. In: Neal R. Spencer (ed). Proceedings of the X International Symposium on Biological Control of Weeds. Bozeman, Montan., 1999: 349-356.         [ Links ]

Junk, W.J. 1997. The Central Amazon Floodplain. Ecology of a pulsing system. Ecological Studies 126. Berlin, Springer Verlag. 525 p.         [ Links ]

Nunes, A.L., Adis, J.; Mello J.A.N. 1992. Estudo sobre o ciclo de vida e fenologia de Stenacris fissicauda fissicauda (Bruner 1908) (Orthoptera- Acrididae) em um lago de várzea da Amazônia Central, Brasil. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi, sér. Zool., 8(2): 349-374.         [ Links ]

Roberts, H. R.; Carbonell, C. S. 1979. A revision of the genera Stenopola and Cornops (Orthoptera, Acrididae, Leptysminae). Proc. Acad. Natur. Sciencies Philadel: 131:130.         [ Links ]

Turk, S. Z. 1984. Acridios del N.O.A VI: ciclo de vida de Cornops frenatum cannae Roberts y Carbonell (Acrididae, Leptysminae) con especial referencia a su oviposicion endofitica. Revista de la Sociedad Entomológica Argentina, 43 (1-4): 91-100.         [ Links ]

Zolessi, L. C. 1956. Observaciones sobre Cornops aquaticum Br. (Acridoidea, Cyrtacanthacr.) en el Uruguay (1) Rev. Soc. Urugaya Ent., I(1): 3-28.         [ Links ]

 

 

Recebido: 09/04/2002
Aceito: 03/11/2003

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