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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.34 no.2 Manaus  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672004000200021 

NOTAS E COMUNICAÇÕES

 

Valor nutricional do mel e pólen de abelhas sem ferrão da região amazônica

 

Nutricional value of honey and pollen of stingerless bees of the Amazonian region

 

 

Rosa Cristina da Silva SouzaI; Lucia Kiyoko Ozaki YuyamaII, 1; Jaime Paiva Lopes AguiarIII; Francisco Plácido Magalhães OliveiraIV

IBolsista PCI do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia da Coordenação de Pesquisas em Ciência da Saúde. Av. André Araújo 2936, Petrópolis, Manaus, AM. CEP. 69083-000
IIOrientador e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia da Coordenação de Pesquisas em Ciência da Saúde. Av. André Araújo 2936, Petrópolis, Manaus, AM. CEP. 69083-000. e mail: yuyama@inpa.gov.br
IIICo-orientador e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia da Coordenação de Pesquisas em Ciência da Saúde. Av. André Araújo 2936, Petrópolis, Manaus, AM. CEP. 69083-000
IVColaborador do projeto e Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Botânica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Av. André Araújo 2936, Petrópolis, Manaus, AM. CEP. 69083-000

 

 


RESUMO

Avaliou-se os constituintes nutricionais de amostras do mel e pólen das espécies Melipona seminigra merrillae (jandaíra), Melipona compressipes manaosensis (jupará), Melipona rufiventris paraensis (uruçu boca de ralo), provenientes do meliponário da Fazenda Poranga no município de Itacoatiara - AM e Meliponário Abelhudo em Manaus AM. Os resultados demonstraram o potencial do mel como fonte de energia, particularmente a M. rufiventris com 305,3±2,4 kcal em 100g. O pólen da espécie M. compressipes apresentou a maior concentração de proteína 15,7±0,0% e energia 309,8±0,8 kcal. Tais constatações sugerem a implementação de novos estudos visando à incorporação destes produtos na dieta dos amazônidas, possibilitando uma nova fonte alternativa de alimento potencialmente nutritivo e saudável.

Palavras-chave: mel, pólen, energia, proteína, lipídio


ABSTRACT

We evaluated the nutricional constituent of honey and pollen samples of the Melipona species seminigra merrillae (jandaíra) Melipona compressipes manaosensis (jupará), Melipona rufiventris paraensis (uruçu boca de ralo), proceeding from the Poranga Honey Farm in Itacoatiara - AM, and Meliponário Abelhudo in Manaus, AM. The results demonstrated the potencial of honey as a source of energy, particularly the kcal M. rufiventris with 305.3±2.4 kcal in 100g. The compressis pollen of species presented the highest concentration of protein 15.7±0.0 % and energy 309.8±0.8 kcal. Thus we suggest the implementation of new studies aiming at the incorporation of these products in the diet of the Amazon population, making possible a new potentially nutritional and alternative healthful food source.

Key words: honey, pollen, energy, protein, lipid.


 

 

O conhecimento da composição química de nutrientes em alimentos é de fundamental importância para o estabelecimento de dietas adequadas aos indivíduos, para a recomendação de uma alimentação balanceada a grupos populacionais e desenvolvimento de novos produtos (Lajolo, 1995). Apesar dos avanços em relação à quantificação dos constituintes nutricionais dos alimentos da região amazônica (Aguiar, 1996, Yuyama et al., 1997), pouco se sabe sobre o mel e pólen de abelhas sem ferrão.

No Amazonas, o interesse pela criação de abelhas sem ferrão justifica-se pelo alto valor terapêutico do mel e pólen, pela promoção do aumento da renda familiar, polinização e perpetuação de milhares de plantas (Kerr et al., 1996). Além de servir como fonte de lazer, há muito que se estudar em relação aos constituintes nutricionais e farmacológicos. O mel, pólen, geoprópolis e cera de abelha sem ferrão tem sido utilizados pelos índios e sitiantes no combate às doenças pulmonares, inapetência, infecção dos olhos, fortificantes e agentes bactericidas. Além de ser o adoçante natural e fonte de energia, o mel apresenta efeitos imunológicos, antibacteriano, antiinflamatório, analgésico, sedativo, expectorante e hiposensibilizador (Wiese, 1986). É produzido a partir do néctar e outras exsudações naturais das plantas que são coletadas, processadas e armazenadas pelas abelhas (Crane, 1985).

O pólen é o elemento masculino da flor e tem sido utilizado há muito tempo, principalmente entre adeptos da alimentação natural, como um suplemento da dieta humana (Dadant, 1966), provavelmente pela riqueza em relação a proteínas, lipídios, vitaminas e sais minerais (Schause, 1998, Silveira, 1996).

Os estudos analíticos para o mel e pólen tem sido realizados principalmente para as abelhas Apis mellifera e poucos são os estudos que tratam do valor nutricional dos produtos das abelhas sem ferrão. Deste modo, a presente proposta avaliou a composição centesimal do mel e pólen de espécies de abelhas nativas da região amazônica.

Amostras de pólen e mel foram coletadas entre os meses de Novembro a Dezembro de 2002 de cinco colônias de abelhas das espécies Melipona seminigra merrillae (jandaíra), Melipona compressipes manaosensis (jupará), Melipona rufiventris paraensis (uruçu boca de ralo), provenientes do meliponário da Fazenda Poranga no município de Itacoatiara - AM e Meliponário Abelhudo em Manaus AM. O pólen foi acondicionado em frascos de polietileno, com tampa rosqueada, capacidade de 180 mL, previamente higienizadas. As amostras de mel de abelhas sem ferrão foram retiradas dos favos com auxílio de uma seringa descartável e acondicionados em frascos de polietileno, da mesma forma que o pólen. Todo o material foi transportado até o Laboratório de Nutrição e Físico-Química de Alimentos da Coordenação de Pesquisa em Ciência da Saúde (CPCS), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia INPA para a realização das análises.

As amostras em triplicata de pólen foram liofilizadas em liofilizador de marca EDWARDS módulo 4K Freeze Dryer por oito horas para a determinação do teor de umidade e o mel seco em estufa à temperatura de 105ºC até o peso constante, para a quantificação do teor de umidade (AOAC, 1995).

O teor de proteína em triplicata foi determinado pelo método Micro Kjeldahl para nitrogênio total, utilizando-se o fator de 6,25 para conversão de acordo com a AOAC (1995). A fração etérea (triplicata) em extrator intermitente de Soxhlet, tendo o éter de petróleo como solvente (AOAC, 1995). A determinação de cinzas ou resíduo mineral fixo (triplicata), por gravimetria em mufla a 550ºC até peso constante segundo a AOAC (1995). Foi utilizada a análise de variância e para fins de comparação entre as médias das diferentes espécies de abelha o teste de Tukey com 5% de probabilidade (Pimentel Gomes, 1987).

De acordo com as características físico-químicas, constatou-se que o mel das abelhas sem ferrão M. compressis é mais fluído e de cristalização lenta quando comparado com a Apis mellifera. Para fins de análise química foram consideradas as amostras das cinco (distintas) colônias e sob o ponto de vista nutricional, a concentração média de energia de 285,3±18,7 kcal em 100 g das amostras analisadas, ratifica o potencial do mel como fonte de energia, particularmente a M. rufiventris com 305,3±2,4 kcal em 100g (Tabela 1).

O mel apresentou ainda uma concentração média de umidade na ordem de 28,6±4,6%, sendo o maior percentual constatado na M. compressis 34,6±0,5% e a menor concentração na Melipona rufiventris paraensis 23,9±0,6 (Tabela 1). Valores similares ao da Melipona compressipes manaosensis 25,3±0,7 foram registrados nas análises preliminares de características físico-químicas de méis de Tiúba (Melípona compressipes) do Piauí 25% (Souza & Bazlen, 1998). O teor de proteína do mel foi extremamente baixo, com valores inferiores a 1% (Tabela 1). O mesmo é extensivo às concentrações de cinzas e lipídios (Tabela 1). De modo geral, os resultados das análises de mel, corroboram com os estudos de Dantas et al. (1998) no que se refere aos teores de umidade de 18,8 a 35,2% e cinzas 0,03% a 0,71% no mel de abelhas sem ferrão no Estado do Acre e proteína 0,51±0,32% no mel da abelha urucu (Melípona scutellaris) na Bahia (Marchini et al., 1998). Os autores relatam que o mel de Meliponinae é propício à fermentação e, assim, deve ser consumido rapidamente. A região amazônica pela sua imensa diversidade de espécies de plantas presentes em diferentes ecossistemas apresenta também méis com características distintas. O mel aqui produzido é considerado na sua maioria silvestre ou heterofloral, proveniente de diversas fontes florais. Neste caso apresenta também uma riqueza maior de tipos de pólen do que outras regiões do Brasil.

As amostras de pólen de abelhas sem ferrão apresentaram umidade média de 36,9±11,1% com uma variação de 22,3±0,2% a 49,2±0,09% (Tabela 2). Entretanto, em relação aos constituintes nutricionais do pólen, os resultados demonstraram uma concentração média substancial de proteína 19,5±3,3 %, particularmente na espécie M. seminigra com 23,8±0,3 %. O mesmo é extensivo ao teor de energia, tendo como contribuição as fontes de lipídios e glicídios (Tabela 2). O período de coleta coincidindo com o início das chuvas (inverno) e conseqüentemente com o maior armazenamento de pólen pelas abelhas, assim como, a presença de espécies de plantas que podem diferir de uma estação para outra são fatores que contribuem na maior ou menor concentração desses constituintes nutricionais. Salienta-se da necessidade de se quantificar o teor de fibra alimentar do pólen para não superestimar o teor energético (estudo em andamento).

Apesar da ausência de informações em relação à composição centesimal do pólen dessas abelhas sem ferrão, os resultados preliminares permitem concluir que a espécie M.seminigra apresentou um pólen com concentrações substanciais de proteína e lipídio e a M compressipes o maior teor de energia.

Quando comparado com alguns alimentos da região amazônica, como castanha do amazonas (20,7%), peixes de um modo geral como tambaqui, sardinha, pacu e tucunaré com uma concentração média em torno de (20%), (Aguiar, 1996), não se pode negar a riqueza deste componente protéico no pólen de abelhas sem ferrão.

O pólen da espécie A. mellifera da região de Piracicaba, SP da mesma forma que as abelhas sem ferrão contém quantidades apreciáveis de proteína: 21,3%, lipídios 3,4% e cinzas 2,9% (Reis & Marchini, 2000). O mesmo é extensivo às amostras de pólen apícola desidratado brasileiro com um teor de proteína na ordem de 21,58±6,26%, lipídeos 7,46±2,81%, cinzas 2,18±0,65% e carboidratos 56,50±10,11% (Almeida-Muradian & Presoto, 2000), demonstrando que independente das espécies, o pólen é detentor de nutrientes essenciais como a proteína e energia.

O pólen tem despertado a atenção do homem pela riqueza dos seus constituintes nutricionais, a fim de que haja um aproveitamento de suas propriedades alimentícias na dieta humana. O mesmo é extensivo ao mel como fonte de energia. Portanto, estudos da incorporação destes produtos na dieta humana devem ser implementados, possibilitando uma nova fonte alternativa de alimento potencialmente nutritivo e saudável aos amazônidas.

 

AGRADECIMENTOS

A FINEP/ PPG-7 e PPI: 1-3100 pelo suporte financeiro, ao CNPq pela concessão da bolsa e George Nakamura pela revisão do Abstract.

 

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Recebido em 07/09/2003
Aceito em 26/04/2004

 

 

1 Correspondência para Lucia K.O. Yuyama.

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