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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.34 no.4 Manaus Oct./Dec. 2004

https://doi.org/10.1590/S0044-59672004000400001 

EDITORIAL

 

Semeando o futuro

 

 

A capa desta edição da Acta Amazonica parece-me especialmente atraente. Lembra o cuidado que temos que ter em escolher as sementes para o futuro que desejamos. Faz parte do trabalho da equipe que produz esta revista, mostrar alguns dos melhores resultados das pesquisas científicas e tecnológicas desenvolvidas na Amazônia, mas muitas vezes esta é uma dura missão, dada a complexidade das explicações, o uso de fórmulas matemáticas, testes estatísticos, gráficos elaborados, tabelas gigantescas e pranchas detalhadas, que precisam ser acomodadas no espaço que dispomos. Neste número, na seção Ecologia, ciência e arte se fundem no artigo de Isolde Ferraz, Niwton Leal Filho, Ângela Imakawa, Vânia Varela e Fátima Piña-Rodrigues sobre espécies madeireiras da Amazônia, a partir da página 621.

Madeiras são produtos da maior importância para a economia amazônica, mas até recentemente não havia um sistema de classificação das árvores que fornecem madeiras com base nas suas características ecológicas e silviculturais. A Amazônia possui 4000-5000 espécies de árvores, das quais cerca de 60 são consideradas espécies madeireiras. Antes disso, a atenção sempre esteve voltada para a exploração florestal de modo geral, mas já e hora de se procurar definir práticas e metodologias de exploração por grupos de espécies, uma vez que, como mostram os autores, há grandes diferenças entre espécies pioneiras, oportunistas e clímax. Nessa floresta, a maioria das espécies que interessam ao mercado são oportunistas e clímax (60%), adaptadas as fases finais da sucessão ecológica, ou seja, são mais sensíveis a perturbação.

A perturbação antrópica é acelerada por grandes projetos de colonização e desenvolvimento. Este é o presente, será este o futuro da Amazonia? Na seção Ecologia Humana vale destacar o artigo que mostra os efeitos inesperados da ocupação de terras ao longo de rodovias na Amazonia equatoriana. A partir da página 635, Richard Bilsborrow, Alisson Barbieri e William Pan relatam como a ocupação humana em assentamentos agrícolas, após a descoberta de petróleo na região, levou, através de migração e alta fecundidade, a um aumento na subdivisão dos lotes, e não a concentração de terra nas mãos de poucos como no Brasil. Porém isto não reduziu o desmatamento e a alteração da cobertura florestal.

Quais serão afinal as mudanças decorrentes da ocupação desordenada da Amazônia, seja decorrente da expansão da agricultura ou da pecuária? Paulo Oliveira, Edson Rocha, Gilberto Fisch, Bart Kruijt e João Ribeiro, nos dão algumas pistas sobre o que pode acontecer no clima da região a partir da página 613. O desmatamento pode aumentar a freqüência de ocorrência de friagens, que reduzem o fluxo de calor na floresta, aumentam o fluxo de carbono, reduzem a radiação, alterando as condições em que a floresta pode se estabelecer ou regenerar no futuro.

Finalmente, não deixem de ler a entrevista do botânico William Rodrigues, que viveu boa parte dos 50 anos do INPA, e com seu modo imaginativo e mineiro de falar, descreve cenas de uma Manaus que não existe mais e o começo turbulento do INPA. Ecos de um passado que tem muito a nos ensinar. Tudo detalhado em uma longa entrevista dada para a escritora, poeta e jornalista Regina Melo, que com suas ações de resgate histórico, semeia o futuro, como se classificasse e selecionasse sementes adormecidas.

 

George Rebêlo
Editor-chefe

jacare@inpa.gov.br

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