SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.36 issue4Floristic and structure of tree communities in the floodplain forest on municipallity of Santa Bárbara do Pará, State of Pará, BrazilSelection of polynomial models to represent the profile and volume of the bole of Tectona grandisL.f. author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.36 no.4 Manaus Oct./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672006000400007 

CIÊNCIAS FLORESTAIS

 

Inventário florestal a 100% em pequenas áreas sob manejo florestal madeireiro

 

Forest inventory to 100% in small areas under wood forest management

 

 

Henrique José Borges de Araujo

Pesquisador da Embrapa Acre. BR 364, km 14, Caixa Postal 321, CEP 69908-970, Rio Branco-AC, Brasil. Tel.: (068) 3212-3200. E-mail: henrique@cpafac.embrapa.br

 

 


RESUMO

O inventário é uma etapa básica do manejo florestal em que é avaliado a composição da floresta e a sua potencialidade para o manejo. O inventário a 100% tem o propósito de determinar o estoque de madeira existente para fins de planejamento da exploração. Este trabalho apresenta resultados de inventário florestal a 100% de um projeto de manejo florestal comunitário madeireiro conduzido pela Embrapa Acre em parceria com um grupo de produtores do Projeto de Colonização Pedro Peixoto, no estado Acre. A área total inventariada foi de 206,8 ha, composta por 57 talhões de tamanho médio de 3,6 ha cada um, correspondente a 48% da área total sob manejo de 12 pequenas propriedades. Foram abordadas todas as árvores com DAP ³ a 50,0 cm. Os resultados foram expressos, por espécie, por propriedade e para a área total em: número total de árvores (NT); abundância por hectare (AB); volume total (VT); volume por hectare (V); área basal total (ABsT); área basal por hectare (ABs); índice de importância da espécie (IND); e condição de aproveitamento da tora. Para a área total os resultados foram: NT = 3.518 árvores; AB = 17,01 árvores.ha-1; VT = 21.667,41 m3; V = 104,77 m3.ha-1; ABsT = 1.413,77 m2; e ABs = 6,84 m2.ha-1. Foram reconhecidas em campo 204 espécies, pertencentes a 136 gêneros e a 43 famílias. Foi observado acentuada concentração dos dados dendrométricos em poucas espécies, pois somente cinco espécies respondem por um terço (33,6%) do IND total.

PALAVRAS-CHAVE: Inventário florestal, manejo florestal comunitário, espécies florestais, Projeto de Colonização Pedro Peixoto.


ABSTRACT

The inventory is a basic stage of the forest management in that is evaluated the composition of the forest and its potentiality for the management. The inventory to 100% has the purpose of determining the stock existent of wood logs for ends of planning of the exploration. This paper presents results of forest inventory to 100% of a wood forest management communitary project lead by Embrapa Acre in partnership with a group of small farmers of the Pedro Peixoto Colonization Project, in the State of Acre, Brazilian Amazonian region. The inventoried total area was of 206,8 ha, composed by 57 compartments with average size of 3,6 ha each one, corresponding to 48% of the total area under management of 12 small properties. Were included all the trees with DBH ³ to 50,0 cm. The results were expressed, for species, for property and for the total area in: total amount of trees (NT); amount of trees for hectare (AB); total volume (VT); volume for hectare (V); total basal area (ABsT); basal area for hectare (ABs); index of importance of the species (IND); and condition of use of the log. The results for the total area were: NT = 3.518 trees; AB = 17,01 trees.ha-1; VT = 21.667,41 m3; V = 104,77 m3.ha-1; ABsT = 1.413,77 m2; e ABs = 6,84 m2.ha-1. In the inventoried area 204 species were recognized, belonging to 136 botanical genera and 43 familiae. Was observed accentuated concentration of the dendrometric data in few species, because only five species answer for a third (33,6%) of the total IND.

KEY WORDS: forest inventory, communitary forest management, forest species, Pedro Peixoto Colonization Project.


 

 

INTRODUÇÃO

Entre as etapas fundamentais do ordenamento de atividades de manejo florestal esta a avaliação acerca da composição da floresta a ser manejada. Essa avaliação é feita por meio de inventários florestais, os quais qualificam e quantificam os recursos referentes às espécies vegetais ocorrentes, especialmente as árvores lenhosas, quanto aos seus dados dendrométricos (número de indivíduos, diâmetros, áreas basais, volumes do fuste, etc.).

Os inventários florestais fornecem os subsídios necessários para o planejamento das atividades de exploração e do manejo propriamente dito, tais como: espécies a explorar, intensidades e ciclos de corte, tratamentos silviculturais a serem conduzidos, necessidade de plantios de enriquecimento, etc. Outro aspecto importante da avaliação dos recursos existentes na floresta é a possibilidade de projeções de ordem econômicas e referentes à comercialização, tais como: cálculos de despesas e receitas esperadas, mercados a atingir, etc.

Basicamente, os inventários em florestas destinadas ao uso sustentado podem ser de três tipos: a) Inventário de reconhecimento, ou diagnóstico: é realizado em áreas onde se pretende implantar um plano de manejo. Seu propósito é analisar a composição e a estrutura da floresta, abordando indivíduos desde a regeneração natural até árvores adultas e permitindo determinar seu potencial e aptidão para o manejo. Este tipo de inventário é feito por métodos de amostragem em bases estatísticas em que são mensuradas e avaliadas, a uma intensidade amostral pré-estabelecida, parcelas de áreas de floresta, cujos resultados são estendidos à área total a ser manejada; b) Inventário a 100%, ou pré-exploratório: é realizado em áreas onde está em execução um plano de manejo florestal. Tem o propósito de determinar, com bom grau de precisão, o estoque de madeira existente nos compartimentos de manejo para fins de planejamento da exploração. Este inventário é denominado de 100% em razão de que é realizado em toda a área de interesse e onde são abordadas todas as árvores adultas ocorrentes a partir de um DAP mínimo estabelecido (p.ex.: 50,0 cm), mapeando-as e classificando-as quanto ao estado de aproveitamento, destinação de uso (p.ex.: exploração, estoque ou porta-sementes), etc. Em geral, é feito logo antes da exploração florestal, de modo a possibilitar a definição das espécies a explorar e os respectivos volumes; e c) Inventário contínuo, ou de monitoramento: pode ser realizado em áreas de floresta em qualquer situação (sob manejo ou não). Visa analisar e acompanhar o desenvolvimento estrutural de uma floresta ao longo do tempo por meio de mensurações sucessivas, abordando indivíduos desde a regeneração natural até árvores adultas. Sua finalidade é avaliar o comportamento de uma floresta frente às causas naturais de alteração e, principalmente, às intervenções de exploração promovidas por atividades de manejo florestal. Neste tipo de inventário são avaliados ingressos e mortalidade de árvores, crescimento volumétrico, reações da regeneração natural, danos provocados pela exploração, etc.

Este trabalho apresenta resultados de inventário florestal a 100% realizado em talhões de exploração florestal de pequenas propriedades componentes de um projeto de manejo florestal madeireiro comunitário conduzido pela Embrapa Acre em parceria com um grupo de produtores rurais do Projeto de Colonização Pedro Peixoto, no estado do Acre.

 

MATERIAL E MÉTODOS

LOCALIZAÇÃO E CARACTERÍSTICAS DA ÁREA INVENTARIADA

A área inventariada é composta por 57 talhões de exploração florestal de 12 pequenas propriedades localizadas no Projeto de Colonização Pedro Peixoto, extremidade leste do estado do Acre, Ramais Nabor Junior e Granada, às margens da rodovia BR-364, trecho Rio Branco-Porto Velho, distando, em média, a 110 km da capital Rio Branco (Figura 1).

 

 

O PC Pedro Peixoto possui área total de 378.395 ha e abriga cerca de 3.000 famílias (Cavalcanti, 1994). Os solos, em geral, são de baixa fertilidade, ocorrendo, porém, pequenas manchas com bom potencial agrícola. O clima é tipicamente tropical, bastante quente e úmido, composto de estações de seca (maio a outubro) e de chuva (novembro a abril) bem definidas. A temperatura média anual situa-se em torno de 25ºC. As precipitações anuais variam de 1.700 a 2.400 mm. A umidade relativa do ar é elevada, situando-se, em média, acima dos 80%. A cobertura florestal é constituída por típica floresta tropical primária densa de terra firme amazônica. Atualmente, estima-se em 50 a 60% a alteração da cobertura florestal original, principalmente na formação de pastagens e desmatamentos para agricultura em pequena escala (subsistência).

Em média, as pequenas propriedades componentes do projeto de manejo florestal possuem área total de 72 ha, com cobertura florestal primária variando entre 60 a 80% dessa área, sendo o restante, áreas alteradas para fins agrícolas ou de pecuária. A área efetivamente sob manejo florestal de cada propriedade, corresponde à metade (50%) da sua área total, equivalendo, portanto, em média, a 36 ha e é localizada, em relação à estrada de acesso, na sua parte posterior. A área total sob manejo das 12 propriedades é de 431 ha.

A área sob manejo das propriedades é parte da sua Reserva Legal, cujo uso econômico, segundo a lei (Lei nº 4771, de 15.09.65, atualmente regulamentada por MP's, que estabelecem em 80% a cobertura florestal a ser mantida), só é possível através do próprio manejo ou extrativismo tradicional. O sistema de manejo proposto para as propriedades do PC Peixoto possibilita dotar a parte que é preservada por lei, vista pelos produtores como um empecilho à expansão agropecuária, em uma atrativa alternativa econômica, reduzindo as chances de sua remoção.

SÍNTESE DO PLANO DE MANEJO FLORESTAL

Em linhas gerais, segundo Araujo (1998), o plano de manejo florestal das áreas do PC Peixoto consiste em dividir a parte sob manejo das propriedades em 10 compartimentos (talhões) de igual tamanho (aproximadamente 3,6 ha cada), explorando-se um ao ano, a uma intensidade exploratória média em torno de 8,0 m3.ha-1. O ciclo de corte é, portanto, de dez anos. A Figura 2 mostra uma representação esquemática padrão de uma pequena propriedade sob manejo florestal.

 

 

A intensidade exploratória de 8,0 m3.ha-1 representa cerca de um quinto das recomendações para o manejo florestal na Amazônia brasileira. Resultados de pesquisas em manejo florestal na Amazônia indicam uma intensidade exploratória e um ciclo de corte ótimos de 40 m3.ha-1 e 30 anos, respectivamente (Silva, 1990; Higuchi & Vieira, 1990). Essas recomendações são baseadas na produtividade volumétrica média de uma floresta manejada, que é situada em aproximadamente 2,0 m3.ha-1.ano. Assim, em termos de recomposição ou rotação sustentável da floresta, a expectativa é de que o curto ciclo de corte de dez anos previsto para as propriedades do PC Peixoto, seja compensado pela baixa intensidade exploratória de 8,0 m3.ha-1.

Estudos básicos realizados mostraram que as áreas possuem potencial de médio a bom para o manejo florestal. De acordo com Araujo & Oliveira (1996), o inventário de reconhecimento, ou diagnóstico, revelou a ocorrência (árvores com DAP ³ 10,0 cm) de aproximadamente 300 espécies que apresentaram uma distribuição diamétrica bastante equilibrada, abundância de 375 árvores.ha-1, área basal de 21,96 m2.ha-1, volume de 180,36 m3.ha-1 e volume comercial (árvores com DAP ³ 50,0 cm) de 73,07 m3.ha-1.

Os trabalhos de exploração florestal são, normalmente, iniciados nos meses de maio ou junho, estendendo-se até setembro a outubro. Nesse período, as atividades de manejo florestal são perfeitamente compatibilizadas com as outras atividades do calendário agrícola dos produtores (agricultura, pecuária e extrativismo), além das condições climáticas serem mais favoráveis, pois é o período de estiagem amazônico.

As operações de exploração são caracterizadas pela simplicidade operacional, dispensando investimentos elevados e de fácil assimilação e domínio por parte do produtores manejadores. Outro aspecto importante é de que são pouco agressivas à floresta, pois os danos são muito menores quando comparados com uma exploração convencional mecanizada.

A exploração é realizada sem utilização de máquinas pesadas. As árvores são derrubadas de maneira a reduzir ao máximo o dano na floresta através de derrubada orientada (queda direcionada para o lado que houver menor ocorrência de arvores em desenvolvimento). O processamento primário das toras (desdobro em peças de madeira serrada, tais como tábuas, vigas, etc.) é executado ainda dentro da floresta utilizando serraria portátil ou motosserra. O transporte da madeira processada, na forma de peças serradas, da mata até as vias de escoamento, é realizado por animais, após, é carregada em caminhões e transportada até os centros de processamento e consumo.

INVENTÁRIO FLORESTAL A 100%

No caso do sistema de manejo do PC Peixoto, no inventário florestal a 100% são abordadas todas as árvores ocorrentes com DAP ³ a 50,0 cm, sendo que, para cada árvore, são tomadas informações sobre a denominação usual da espécie, mensurado o DAP, observada as condições de aproveitamento da tora e feita a plotação em croqui.

Em campo, a realização do inventário a 100% inclui as seguintes etapas: a) abertura das picadas laterais fronteiriças das propriedades (relativas à parte de floresta sob manejo) e das picadas delimitadoras (centro e bordas) dos talhões de exploração. As picadas são abertas com terçado (facão), sendo que a direção de abertura (rumo e retidão) é aferida por meio de bússola e de balizas (varetas obtidas na mata), e as distâncias medidas por trenas; b) caminhamento longitudinal em "ziguezague" em cada uma das duas metades do talhão (cada metade possui 50 m de largura e, em média, 360 m de comprimento) para abordagem das árvores. Quando abordadas, além da tomada das informações dendrometricas e mapeamento (plotação em croqui), as árvores também recebem plaquetas de identificação contendo o número seqüencial (dentro do talhão) e respectivo número do talhão.

A identificação em campo das espécies (denominação usual) foi realizada por mateiros experientes, utilizando-se de observações das folhas, casca, lenho, exsudações, etc. Vale citar que atualmente já existem mateiros habilitados entre o grupo de produtores do projeto.

Com auxílio de uma fita métrica, são tomadas as CAP's (circunferências à altura do peito), que posteriormente são convertidas em DAP's.

A condição de aproveitamento da tora pode ser: 1) tora com aproveitamento total; 2) tora com aproveitamento parcial; e 3) tora sem aproveitamento. Esta classificação é definida em função dos defeitos existentes (tortuosidade, presença de podridão, oco ou rachaduras, etc.) e fornece um indicativo do estado da árvore, com vistas ao aproveitamento possível para peças de madeira serradas.

A plotação das árvores em croqui é realizada de modo aproximado, tendo como referenciais as picadas feitas no centro e nas bordas dos compartimentos.

São apresentados nos Anexos 1 e 2, respectivamente, um modelo da ficha de campo utilizada no inventário florestal a 100% e um exemplo de croqui com as árvores plotadas.

Embora não seja quantificado o nível de aproveitamento em termos volumétricos, ou percentuais, a condição de aproveitamento da tora é um critério de escolha para o abate da árvore (as árvores com defeitos são mantidas), juntamente com a abundância (árvores.ha-1), volume (m3.ha-1) e a manutenção de árvores porta-sementes.

Os resultados do inventário pré-exploratório são expressos, por espécie, em: a) número total de árvores (NT) na área inventariada; b) abundância (número de árvores) por hectare (AB); c) volume total das árvores em pé (VT) na área inventariada; d) volume por hectare das árvores em pé (V); e) área basal total (ABsT) na área inventariada; f) área basal por hectare (ABs); g) índice de importância da espécie em percentual (IND); e, h) condição de aproveitamento da tora em percentual (total, parcial e sem aproveitamento).

O volume individual da árvore em pé (V) corresponde ao volume potencialmente aproveitável da tora com casca, tendo como componentes de cálculo o DAP e a altura comercial, a qual, normalmente, é iniciada na base da árvore, junto ao solo, estendendo-se até as primeiras galhadas ou bifurcações. Esse volume é estimado pela equação (1) matemática de simples entrada (Araujo, 1998):

V= -0,692349+0,001339DAP2 (1)

Onde:

V = volume individual da árvore em pé, em m3

DAP = diâmetro à altura do peito (1,30 m), em cm

O índice de importância da espécie (IND) é um valor percentual, expresso pela média aritmética simples dos percentuais de cada espécie para NT, VT e ABsT, em relação aos respectivos totais (todas as espécies) dessas variáveis para a área inventariada (Araujo, 2002). É dado pela expressão:

(2)

Onde:

INDi = índice de importância da i-ésima espécie, em percentual

NTi = número total de árvores da i-ésima espécie

NTtotal = número total de árvores da área inventariada

VTi = volume total da i-ésima espécie, em m3

VTtotal = volume total das árvores na área inventariada, em m3

ABsTi = área basal total da i-ésima espécie, em m2

ABsTtotal = área basal total da área inventariada, em m2

Para as 12 propriedades foram inventariados 57 compartimentos de manejo, totalizando 206,8 hectares, correspondendo a 48% da área total sob manejo. A Tabela 1 apresenta a distribuição por propriedade, da área total, área sob manejo, área do compartimento, área inventariada e número de compartimentos inventariados.

DETERMINAÇÃO DAS ESPÉCIES OCORRENTES

A atribuição da denominação botânica das espécies, ou nome científico, foi baseada no trabalho de Araujo & Silva (2000), no qual foram relacionadas 786 espécies florestais (lenhosas e não lenhosas) ocorrentes nos 10 principais inventários florestais já realizados no estado do Acre, sendo que as áreas desses inventários somadas cobrem 4.499.686 ha, ou 29,4% da área total do estado.

Para o trabalho de Araujo & Silva (2000), os nomes usuais e científicos foram aferidos no herbário da Fundação de Tecnologia do Estado do Acre - FUNTAC, utilizando-se de consultas à literatura de taxonomia vegetal, coleções de referência (exsicatas) e da larga experiência e conhecimento prático de seus mateiros e técnicos.

Vale informar que as espécies ocorrentes nas áreas inventariadas não foram identificadas em laboratório, ou seja, por meio de exsicatas (folhas, flores, frutos, etc.) ou através da anatomia da madeira, e sim, receberam a denominação botânica a partir do reconhecimento em campo pelo nome usual, fornecido por mateiros. Não obstante, os nomes usuais atribuídos estão em concordância com nomes usuais de espécies já identificadas no laboratório (herbário) da FUNTAC, uma vez que foram fornecidos, em boa parte, pelos mesmos mateiros. Esse aspecto confere à denominação botânica dada às espécies credibilidade bastante satisfatória.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

INFORMAÇÕES DENDROMÉTRICAS

A área total inventariada a 100% (206,8 ha) revelou, para árvores com DAP ³ 50,0 cm, um número total de árvores (NT) de 3.518; abundância (AB) de 17,01 árvores.ha-1; volume total (VT) de 21.667,41 m3; volume por hectare (V) de 104,77 m3; área basal total (ABsT) de 1.413,77 m2; e, área basal por hectare (ABs) de 6,84 m2. A condição de aproveitamento da tora total foi de: 83,2% (2.926 árvores) com aproveitamento total; 14,0% (493 árvores) com aproveitamento parcial; e, 2,8% (99 árvores) das toras foram qualificadas como sem aproveitamento.

A Tabela 2 apresenta os resultados do inventário florestal a 100% em separado para as 12 pequenas propriedades. Os resultados dendrométricos por espécie, incluindo o índice de importância da espécie (IND), são apresentados no Anexo 3.

Os valores médios dos parâmetros dendrométricos das propriedades, foram os seguintes: abundância (AB) de 17,45 árvores.ha-1; volume (V) de 109,47 m3.ha-1; e área basal (ABs) de 7,13 m2.ha-1. O coeficiente de variação percentual (CV%) desses parâmetros (variando entre 15,6 e 18,2) demonstra uma relativa homogeneidade das áreas. Parte dessa variação, no entanto, pode ser atribuída ao fato de que houve, embora em escala reduzida em algumas das áreas, extração de madeira antes de iniciar o projeto de manejo florestal, o que alterou a ocorrência natural das árvores.

A condição 1 de aproveitamento da tora (aproveitamento total) apresentou um valor médio de 83,7%, denotando um bom estado das toras para fins de processamento industrial. O baixo CV% de 6,3 para esse dado indica homogeneidade das áreas quanto aos defeitos existentes nas suas árvores.

ESPÉCIES OCORRENTES

Na área inventariada, onde foi registrado um total de 3.518 árvores, foram reconhecidas, com base no nome usual de campo fornecido por mateiros, 204 espécies, pertencentes a 136 gêneros e a 43 famílias. A Figura 3 mostra a freqüência absoluta quanto ao número de espécies, gêneros e famílias.

 

 

Em número de espécies, as famílias mais importantes foram: Caesalpiniaceae e Fabaceae (14 espécies cada); Mimosaceae (8 espécies); Moraceae (7 espécies); Annonaceae e Sapotaceae (6 espécies cada); Apocynaceae e Meliaceae (5 espécies cada); e, Bombacaceae, Euphorbiaceae, Lauraceae, Lecythidaceae e Rubiaceae (4 espécies cada). Os gêneros mais importantes foram: Inga (6 espécies); Brosimum e Ficus (5 espécies cada); Aspidosperma, Licania e Ocotea (4 espécies cada); Cariniana, Cecropia, Guarea, Ormosia, Parkia, Pourouma, Pouteria e Trichilia (3 espécies cada).

Cabe ressaltar que 98 (2,8%) das 3.518 árvores ocorrentes não tiveram qualquer reconhecimento em campo, sendo consideradas desconhecidas. Desse modo, o número de árvores reconhecidas em campo totaliza 3.420. Essa informação revela que mesmo mateiros experientes, com grande vivência em áreas de florestas naturais, não são capazes de identificar 100% da diversidade existente, demonstrando que não é simples a tarefa de identificar árvores, mesmo as de porte elevado.

Das 204 espécies reconhecidas em campo, 130 (63,7%) foram identificadas botanicamente ao nível de espécie, 67 (32,9%) somente ao nível de gênero, e, 7 (3,4%) somente pela família (Figura 4).

 

 

A Tabela 3 apresenta a relação das 204 espécies reconhecidas em campo ocorrentes na área do inventário a 100%, contendo o nome usual, nome científico (gênero e espécie) e família.

 

 

ÍNDICE DE IMPORTÂNCIA DAS ESPÉCIES (IND's)

De acordo com o índice de importância da espécie (IND), calculado pela expressão (2), as cinco espécies de maior relevância ocorrentes na área inventariada foram, em ordem decrescente, as seguintes: Castanheira, Tauari, Cumaru-cetim, Seringueira e Cumaru-ferro. Essas espécies representam, sozinhas, um terço (33,6%) do IND total (soma dos IND's das espécies). Para o total das 204 espécies, foi verificado que as 20 mais importantes (com maior IND), ou a décima parte do total de espécies, respondem por quase 60% do IND total (Figura 5), e, na outra ponta, as 20 menos importantes (com menor IND) representam apenas 0,355% do IND total.

 

 

A Castanheira é, com grande vantagem, a espécie que mais se destaca com um IND de 15,359%, quase o triplo da segunda espécie mais importante, o Tauari, que apresentou um IND de 5,545%. A Castanheira também é destaque devido à relevância da amêndoa (castanha) na alimentação das populações tradicionais (seringueiros, índios, ribeirinhos, colonos, etc.), como fonte de renda, fator de contenção de emigração, entre outros aspectos. Cabe lembrar que a Castanheira e a Seringueira, outra espécie de elevado IND (4,248%), são espécies protegidas por lei, não podendo, portanto, serem manejadas para fins madeireiros.

Observando o grupo das 20 espécies com maior IND, verifica-se que a maioria são espécies de madeira de uso comercial reconhecido para as mais diversas finalidades (móveis, pisos, vigamentos, painéis, etc.). Nesse grupo podem ser citadas as seguintes espécies com lugar consolidado no mercado de madeiras: Cumaru-cetim, Cumaru-ferro, Samaúma, Jutaí, Ipê-amarelo, Cambará, Catuaba, Angico e Jequitibá. Essas nove espécies juntas somam um IND acima de 20% ou a quinta parte do total.

Do ponto de vista comercial, algumas das espécies do grupo das 20 com maior IND podem ser consideradas emergentes, visto que são relativamente pouco conhecidas no mercado de madeiras. Entre estas estão o Breu-vermelho e o Tauari. No caso do Breu-vermelho, a espécie é em termos de número total de árvores (NT = 124) a quinta mais importante, no entanto, por ser de menor porte físico em relação às demais (a espécie tem alta abundância na classe diamétrica situada entre 40,0 e 50,0 cm), possui menores volumes e área basal, o que a coloca em sexto lugar. O Tauari, cuja madeira apresenta excelentes propriedades tecnológicas, mostra-se uma espécie muito promissora, além de ser a segunda mais importante pelo critério do IND.

Ocorreram nas áreas muitas outras espécies de madeira conhecidas comercialmente, afora aquelas consideradas pouco conhecidas e que são potencialmente aptas a ingressar no mercado de madeira por possuírem boas propriedades tecnológicas. No entanto, essas espécies isoladamente, por apresentarem IND's baixos, não são muito representativas em termos quantitativos para o manejo.

De um modo geral, o inventário mostrou que uma parte significativa do estoque de madeira existente nas áreas é constituída por madeiras de valor comercial, apontando para a viabilidade econômica do manejo florestal, o que é de fundamental importância.

 

CONCLUSÕES

O acentuado desequilíbrio das espécies quanto aos IND's demonstra que nas florestas inventariadas, e por extensão a toda floresta amazônica, há expressiva concentração dos elementos dendrométricos, quer seja, poucas espécies reúnem a maior parte das árvores adultas e, conseqüentemente, a maior parte do volume de madeira. Deste modo, ao menos para florestas com estoque natural, é limitada a diversidade de espécies comerciais com grandes volumes de madeira disponíveis para o manejo florestal. Uma alternativa para as espécies de alto valor comercial que apresentam baixos IND's é conduzir tratamentos silviculturais, aliados à regeneração artificial, que aumentem suas participações.

O inventário florestal pré-exploratório, como etapa essencial de informações que possibilita todas as demais etapas seqüenciais do manejo sustentado de uma floresta, deve ser, no caso de pequenas áreas e na ótica técnico e operacional, acessível ao pequeno produtor, o qual, em regra, é desprovido de meios materiais e de conhecimentos educacionais elementares. No seu desenvolvimento, o método de inventário a 100% do PC Peixoto levou em conta a premissa de concepção simples, o que resultou na apropriação de competência por parte dos pequenos manejadores em executa-lo nas bases metodológicas estabelecidas.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

Araujo, H.J.B. 2002. Agrupamento das espécies madeireiras ocorrentes em pequenas áreas sob manejo florestal do Projeto de Colonização Pedro Peixoto (AC) por similaridade das propriedades físicas e mecânicas. Piracicaba, 168p. Tese (Mestrado). Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Araujo, H.J.B. 1998. Índices técnicos da exploração e transformação madeireira em pequenas áreas sob manejo florestal no PC. Pedro Peixoto - Acre. Rio Branco: Embrapa-CPAF/AC. 30p. (EMBRAPA-CPAF-Acre. Circular Técnica, 23).         [ Links ]

Araujo, H.J.B.; Silva, I.G. 2000. Lista de espécies florestais do Acre (ocorrência com base em inventários florestais). Rio Branco: Embrapa-CPAF/AC. 77p. (EMBRAPA -CPAF/AC. Documentos, 48).         [ Links ]

Araujo, H.J.B.; Oliveira, L.C. 1996. Manejo florestal sustentado em áreas de reserva legal de pequenas propriedades rurais do PC. Pedro Peixoto - Acre. Rio Branco: Embrapa-CPAF/AC. 7p. (EMBRAPA-CPAF/AC. Pesquisa em Andamento, 89).         [ Links ]

Cavalcanti, T.J.S. 1994. Colonização no Acre: uma análise sócio-econômica do Projeto de Assentamento Dirigido "Pedro Peixoto". Fortaleza, 196p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Ceará - UFCE.         [ Links ]

Higuchi, N.; Vieira, G. 1990. Manejo sustentado da floresta tropical úmida de terra-firme na região de Manaus - um projeto de pesquisa do INPA. In: Congresso Florestal Brasileiro, 6. Anais. Campos do Jordão: SBS/SBEF. p. 34-37.         [ Links ]

Silva, J.N.M. 1990. Possibilidades da produção sustentada de madeira em floresta densa de terra-firme da Amazônia Brasileira. In: Congresso Florestal Brasileiro, 6. Anais. Campos do Jordão: SBS/SBEF. p.39-50.         [ Links ]

 

 

Recebido em 08/09/2005
Aceito em 27/09/2006

 

 

ANEXO

 

 

Anexo 2 - Clique para ampliar

 

 

Anexo 3 - Clique para ampliar

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License