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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.36 no.4 Manaus Oct./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672006000400015 

ZOOLOGIA

 

Ectoparasitos de cães e gatos da cidade de Manaus, Amazonas, Brasil

 

Ectoparasites on cats and dogs from Manaus, Amazonas State, Brazil

 

 

Marcelo Cutrim Moreira de CastroI; José Albertino RafaelII

IMestrando (INPA/CPEN), Av. André Araújo 2936, Petrópolis, CxP. 478, 69011-970, Manaus, Amazonas. E-mail: marcelocutrim@yahoo.com.br
IIPesquisador - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/CPEN). E-mail: jarafael@inpa.gov.br

 

 


RESUMO

São apresentados resultados da coleta de ectoparasitos em cães e gatos entre agosto de 2001 e maio de 2002 em diferentes bairros da cidade Manaus. No cão foram encontrados: Ctenocephalides f. felis (Bouché, 1835) (Siphonaptera, Pulicidae), Heterodoxus spiniger (Enderlein, 1909)(Phthiraptera, Boopidae), Trichodectes canis (De Geer, 1778) (Phthiraptera, Trichodectidae) e Rhipicephalus sanguineus (Latreille,1806) (Acari, Ixodidae). No gato foi coletado C. f. felis. A prevalência de ectoparasitos foi de 80,8% para cães e 72,7% para gatos. Para a pulga C. f. felis foi de 28,7% para cães e 72,7% para gatos. Para o piolho H. spiniger foi de 12,3% para cães. Para o piolho T. canis foi de 0,1% para cães e para o carrapato R. sanguineus foi de 63% para cães. A média de infestaçãode pulga foi de 1,26 para cães e 1,27 para gatos. A proporção sexual fêmea/macho foi de 1,96:1 no cão e de 3,66:1 no gato. A pulga C. canis (Curtis, 1826), registrada em 1922, não foi coletada.

PALAVRAS-CHAVE: Ectoparasitos, Entomologia Urbana, Phthiraptera, Siphonaptera, Amazonas.


ABSTRACT

Ectoparasites from different neighborhood of Manaus were collected from august 2001 to May 2002. On dogs it was found: Ctenocephalides f. felis (Bouché, 1835) (Siphonaptera, Pulicidae), Heterodoxus spiniger (Enderlein, 1909)(Phthiraptera, Boopidae), Trichodetes canis (De Geer, 1778) (Phthiraptera, Trichodectidae) and Rhipicephalus sanguineus (Latreille,1806) (Acari, Ixodidae). On cats: C. f. felis. The prevalence of ectoparasites was 80.8% to dogs and 72.7% to cats. For the flea C. f. felis was 28.7% to dogs and 72.7% to cats. For the lice H. spiniger was 12.3% for dogs. For the lice T. canis was 0.1% for dogs and for the tick R. sanguineus was 63% for dogs. The infestation index for fleas was 1.26 to dogs and 1.27 to cats. The sexual ratio obtained was 1.96:1 to dogs and 3.66:1 to cats. The flea C. canis (Curtis, 1826) registered in 1922 was not found.

KEY WORDS: Ectoparasites, Urban Entomology, Phthiraptera, Siphonaptera, Amazonas.


 

 

INTRODUÇÃO

Os ectoparasitos de animais urbanos são de interesse médico-veterinário pela ação espoliadora e transmissão de agentes patogênicos para seus hospedeiros e à população humana. Em Manaus o conhecimento dessa fauna para cães e gatos está restrito a um estudo feito há mais de oitenta anos por Gordon & Young (1922). De lá para cá, tanto a população humana quanto a de cães e gatos cresceram muito e desordenadamente, principalmente nos últimos anos. A população humana é de aproximadamente 1.300.000 e a de cães cerca de 19 mil, sendo 12 mil errantes (inf. pess. Sub-Secretário Municipal de Saúde de Manaus, em 23/04/2002). A população de gatos não tem estimativa. Para manter a população desses animais em níveis aceitáveis a prefeitura mantém um serviço rotineiro de captura dos animais errantes, conhecido popularmente como "carrocinha". Este trabalho teve como objetivo acrescentar e atualizar informações sobre ectoparasitos de cães e gatos errantes e domiciliares de Manaus.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os cães e gatos foram examinados vivos entre agosto/2001 e maio/2002 em diferentes bairros da cidade de Manaus. Os cães errantes foram capturados pelo Serviço de Vigilância Sanitária da prefeitura e os domiciliares, assim como os gatos, foram examinados nas residências em visitas a diferentes domicílios. Os cães foram imobilizados com coleiras, tipo enforcador, e os gatos foram manipulados com auxílio de seus donos.

Os ectoparasitos foram coletados manualmente com auxílio de pentes finos e pinças, fazendo vistoria direta no pêlo dos animais. Foram imobilizados com acetato de etila ou álcool 70% e acondicionados em microtubos contendo álcool 70%. Cada frasco foi etiquetado com um número correspondente ao registro do hospedeiro, anotado em fichas.

No laboratório cada amostra foi colocada em uma placa de Petri com álcool 70% e analisada sob microscópio estereoscópico (lupa) para identificação, contagem e sexagem. Para a identificação, quando necessário, os espécimes foram diafanizados em ácido láctico 85%, a quente, desidratados em série alcoólica e montados entre lâmina e lamínula com bálsamo do Canadá diluído com xilol. Para a identificação, as seguintes referências foram utilizadas: Aragão & Fonseca (1961) e Guimarães et al. (2001) para carrapatos; Werneck (1936, 1948) para piolhos; Linardi & Guimarães (2000) e Guimarães et al. (2001) para pulgas. O material testemunho está depositado na coleção de invertebrados do INPA.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Apresentamos inicialmente os resultados obtidos em 1922 quando foram examinados, em Manaus, os ectoparasitos de cães e gatos (Gordon & Young, 1922). Naquele ano o método utilizado foi o de sacrificar os cães e gatos com fumaça de enxofre para em seguida coletar manualmente os ectoparasitos, os quais também morriam. Coletaram 4 carrapatos, 18 piolhos e 20 pulgas em 50 cães e 9 gatos. 18 cães e 4 gatos estavam infestados por ectoparasitos. O índice de infestação de ectoparasitos foi de 0,70 em cães e 0,77 em gatos. Os índices para cada espécie estão discriminados na Tabela I. A proporção sexual não foi fornecida. A prevalência total de ectoparasitos foi de 36% para cães e 44,4% para gatos e a prevalência para as diferentes espécies está na Tabela I.

Em 2002 foram examinados 73 cães e 11 gatos, todos vivos. 59 cães e 8 gatos estavam infestados por ectoparasitos. As espécies, a quantidade e respectivas proporções sexuais de ectoparasitos registrados estão listadas na Tabela II. O índice de infestação de ectoparasitos foi de 5,27 em cães e 1,27 em gatos. Os índices para cada espécie estão discriminados na Tabela I. A prevalência total de ectoparasitos foi de 80,8% para cães e 72,7% para gatos e a prevalência para as diferentes espécies está na Tabela I.

As fêmeas dos ectoparasitos foram registradas em maior número para todas as espécies. Os números absolutos para cada espécie/sexo são apresentados na Tabela II.

A pulga C. canis, registrada em 1922, não foi coletada em 2001-2002.

Apesar da diferença na metodologia entre os dois trabalhos é possível fazer algumas comparações, isso porque os trabalhos com ectoparasitos utilizam o animal como unidade de coleta. Aqui comparamos os resultados tomando por base o número de cães e gatos coletados nas duas épocas. O mesmo procedimento é feito quando as comparações são feitas com os trabalhos mais recentes e citados abaixo.

Na comparação dos resultados obtidos em 1922 e os obtidos em 2001-2002 é observado que as espécies de ectoparasitos são as mesmas, exceto pela substituição de uma espécie de pulga. Naquela época Gordon & Young (1922) registraram Ctenocephalides canis (Curtis, 1826) enquanto em 2001-2002 registramos Ctenocephalides f. felis (Bouché, 1835). Atualmente a espécie que predomina nos cães e gatos em Manaus é C. felis felis, espécie de clima tropical, resultado que concorda com os obtidos para Belo Horizonte (Linardi & Nagem, 1973), para o estado de Minas Gerais (Raszl et al., 1999), para Goiânia (Lustosa, 1973), para Vitória (Costa et al., 1990) e Rio de Janeiro (Fernandes et al., 1996). Discorda para o estado de Roraima onde a pulga registrada foi C. canis (Santiago & Costa, 1974). Não há material testemunho dos espécimes de Roraima para verificar a identificação específica.

O resultado de Manaus indica duas possibilidades: 1) que ocorreu o desaparecimento de C. canis ou 2) que seu índice populacional é muito baixo e não foi detectada neste estudo. C. canis é mais comum em áreas temperadas e mais rara em áreas tropicais (Hopkins & Rothschild, 1953). A explicação para a predominância de C. canis em 1922, se a identificação foi feita corretamente (não há informação de depósito de espécimes testemunhos em coleções científicas para confirmar a identificação), é que Manaus esteve sob grande influência da colonização européia no final do século retrasado e início do século passado; os imigrantes trouxeram seus animais domésticos infestados pela pulga predominante na Europa, C. canis, e a mesma predominava entre os animais locais. Com o tempo, esta espécie foi sendo substituída por C. f. felis, espécie adaptada ao clima tropical e que hoje predomina na cidade de Manaus.

O índice de infestação das espécies registradas de ectoparasitos aumentou nos cães de 0,70 para 5,17 e nos gatos de 0,77 para 1,27. O índice de infestação de pulgas aumentou nos cachorros de 0,26 para 1,26 e nos gatos de 0,77 para 1,27. A prevalência de ectoparasitos aumentou de 36% para 80,8% em cães e de 44,4% para 72,7% em gatos.

O aumento da densidade populacional de ectoparasitos em cães e gatos na cidade de Manaus se deve ao aumento da população humana e conseqüentemente da população de cachorros e gatos em condições favoráveis (clima e alimento abundante) para os mesmos.

Considerando os valores obtidos para as pulgas podemos verificar que o índice de infestação em Manaus (1,27) pode ser considerado baixo quando comparado com 1,40 em Salvador (Menezes, 1954); 11,7 em Curitiba (Artigas & Unti, 1934) e 15,9 em Belo Horizonte (Linardi & Nagem, 1973).

A prevalência de pulga é muito variável em diferentes regiões brasileiras e os valores obtidos em Manaus, 38,3% para cães e 72,7% para gatos, estão dentro das variações obtidas para outras regiões. Em Curitiba 63,3% para cães (Artigas & Unti, 1934); em Uberlândia 28,02% para cães e 66,67% para gatos (Raszl et al., 1999); em Belo Horizonte 87,23% para cães (Linardi & Nagem, 1973) e no Rio de Janeiro 50,9% para cães e 68,8% para gatos (Fernandes et al., 1996).

 

CONCLUSÃO

Apesar da metodologia utilizada em 1922 não ser a mesma nas coletas de 2001-2002, este trabalho atualiza as informações taxonômicas sobre os ectoparasitos de animais domésticos, cães e gatos, da cidade de Manaus. Foi possível verificar que a fauna atual de ectoparasitos é semelhante à registrada em 1922 por Gordon & Young (1922). A diferença foi a substituição de Ctenocephalides canis por Ctenocephalides f. felis, a última adaptada ao clima tropical. Verificamos aumento na densidade dos ectoparasitos, mas não foi possível fazer outras comparações porque não há informações sobre o censo populacional de cachorros e gatos em 1922.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Pedro Marcos Linardi, UFMG, pela leitura e comentários ao manuscrito e aos dois revisores anônimos que contribuíram com esse artigo.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

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Recebido em 19/08/2005
Aceito em 06/11/2006

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