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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.38 no.4 Manaus Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672008000400011 

CIÊNCIAS FLORESTAIS

 

Efeito da exploração madeireira sobre o número de indivíduos férteis de três espécies arbóreas comerciais na Amazônia oriental

 

Effects of logging on the number of fertile individuals of three commercial tree species in Eastern Amazonia

 

 

Marisa Gesteira FonsecaI; Edson VidalII; Flavio Antonio Maës dos SantosIII

IUNICAMP. Programa de Pós-graduação em Biologia Vegetal, Departamento de Botânica, Instituto de Biologia, CP 6109, Universidade Estadual de Campinas, CEP 13083-970, Campinas, SP, Brasil. e-mail: marisa_fonseca@yahoo.com.br
IIEsalq/USP. Departamento de Ciências Florestais, ESALQ/USP, Caixa Postal 9, 13418-900, Piracicaba, SP, Brasil. e-mail: edvidal@esalq.usp.br
IIIUNICAMP. Departamento de Botânica, Instituto de Biologia, CP 6109, Universidade Estadual de Campinas, 13083-970, Campinas, SP, Brasil. e-mail: fsantos@unicamp.br

 

 


RESUMO

Estudos da ecologia reprodutiva de árvores são fundamentais para compreender os possíveis impactos da exploração madeireira e para subsidiar o aperfeiçoamento das práticas de manejo. Os objetivos desse trabalho foram: 1) estimar a proporção e o número de indivíduos reprodutivos por classe de diâmetro de Chrysophyllum lucentifolium subsp. pachycarpum, Lecythis lurida e Pseudopiptadenia psilostachya, três espécies madeireiras, em uma floresta em Paragominas (PA) e; 2) estimar o impacto da exploração de 90% dos indivíduos com DAP > 50 cm sobre o número de indivíduos reprodutivos das mesmas espécies no local. Durante uma estação reprodutiva de cada espécie, foram amostradas 80 árvores de L. lurida, 76 de P. psilostachya e 76 de C. lucentifolium. Foi estimado que 14,9% de todos os indivíduos férteis de C. lucentifolium, 35,9% de L. lurida e 72,4% de P. psilostachya tinham DAP > 50 cm no ano de amostragem. Assim, o corte de 90% dessas árvores causaria uma redução de 13,4%, 32,6 % e 65,2 % do número de indivíduos férteis de C. lucentifolium, L. lurida e P. psilostachya, respectivamente. Se as proporções de indivíduos férteis fossem constantes ao longo do tempo, para preservar metade dos indivíduos férteis de P. psilostachya seria necessário manter 30% e não 10% daqueles com DAP > 50 cm. Os resultados indicam que, adotando-se um único diâmetro mínimo de corte e retendo-se a mesma proporção de árvores acima desse diâmetro, o efeito em termos de porcentagem de indivíduos reprodutivos retirados da população pode variar entre espécies na ordem de aproximadamente cinco vezes.

Palavras-chave: Diâmetro mínimo de corte, Ecologia reprodutiva, Exploração madeireira, Frutificação.


ABSTRACT

Studies concerning the reproductive ecology of trees are important so as to better understand the impacts of logging and for the definition of guidelines to improve management practices. The aim of this study was to estimate (1) the number and proportion of reproductive individuals of Chrysophyllum lucentifolium subsp. pachycarpum, Lecythis lurida e Pseudopiptadenia psilostachya per size class, and (2) the impact of harvesting 90% of individuals > 50 cm dbh on the number of reproductive trees. We sampled 80 L. lurida, 76 P. psilostachya and 76 C. lucentifolium trees during one reproductive season. We estimated that 14.9% of all fertile individuals of C. lucentifolium, 35.9% of L. lurida and 72.4% of P. psilostachya were > 50 cm dbh in that year. Therefore, the harvest of 90% of these trees would cause a 13.4%, 32.6 %, and 65.2 % reduction in the number of fertile individuals of C. lucentifolium, L. lurida and P. psilostachya, respectively. If these proportions were stable over time, it would be necessary to keep 30% instead of 10% of individuals > 50 cm dbh in order to preserve half of the P. psilostachya fertile individuals. The results indicate that the effects of adopting a single minimum cutting diameter and of setting aside the same proportion of trees above that diameter on the proportion of remaining fertile individuals may vary by a factor of five among species.

Keywords: Logging, Minimum cutting diameter, Reproductive ecology.


 

 

INTRODUÇÃO

A exploração madeireira seletiva em florestas naturais implica na retirada de indivíduos reprodutivos das espécies arbóreas comerciais, podendo reduzir significativamente a produção total de frutos e sementes das populações exploradas (Gullison et al., 1996; Grogan & Galvão, 2006). Tendo em vista que a regeneração de árvores tropicais é limitada pela disponibilidade de sementes (Svenning & Wright, 2005), tal redução pode afetar a regeneração de espécies comerciais (Plumptre, 1995), assim como a quantidade de recursos alimentares para a fauna (Johns, 1988). Estudos da ecologia reprodutiva e regeneração de árvores são fundamentais tanto para compreender os possíveis impactos da exploração madeireira quanto para subsidiar o aperfeiçoamento das práticas de manejo (Guariguata & Pinard, 1998; Sheil & Heist, 2000).

Segundo a legislação brasileira que define as práticas de exploração madeireira em florestas naturais na Amazônia (Brasil, 2006), o diâmetro mínimo de corte (DMC) de cada espécie deve ser definido com base em estudos técnicos e, na ausência destes, poderão ser cortadas árvores com diâmetro à altura do peito (DAP) igual ou superior a 50 cm. Entre outras práticas, a Instrução Normativa determina ainda que pode ser explorado até 90% dos indivíduos acima do DMC de uma espécie na área destinada ao manejo em um dado ano, podendo essa porcentagem ser reduzida ou aumentada de acordo com a distribuição diamétrica e outras características ecológicas da espécie em questão. Tais informações, contudo, não estão disponíveis para as espécies madeireiras da Amazônia brasileira, com raras exceções (Grogan e Galvão, 2006; Grogan et al, 2006; Lacerda, 2007).

Chrysophyllum lucentifolium subsp. pachycarpum Pires e T.D. Penn. (Sapotaceae), Lecythis lurida (Miers) Mori (Lecythidaceae) e Pseudopiptadenia psilostachya (DC.) G.P. Lewis & M.P. Lima (Leguminosae) são espécies arbóreas comerciais de grande porte (dossel superior ou emergentes) e alta densidade de indivíduos na floresta onde foi realizado o presente estudo. Suas madeiras podem ser utilizadas na construção civil externa e interna, entre outras aplicações (Sudam, 1981; Teixeira et al., 1988; Loureiro et al., 2000).

Os objetivos desse trabalho foram: 1) estimar a proporção e o número de indivíduos reprodutivos por classe de tamanho dessas três espécies em uma floresta em Paragominas (PA) e; 2) estimar o impacto da exploração de 90% dos indivíduos com DAP > 50 cm sobre o número de indivíduos reprodutivos das mesmas espécies no local.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Esse estudo foi realizado em uma floresta de terra firme na Fazenda Agrosete (3o00"-3o05"S; 47o10"-47o15"W), Paragominas, PA. O dossel na área atinge de 25 a 40 m de altura e a densidade média é igual a 206 indivíduos entre 15 cm e 45 cm de DAP e 17 indivíduos com DAP > 45 cm por ha (Barreto et al., 1998). Os solos da região são latossolos e a precipitação anual média é de 1750 mm, com uma estação seca bem definida (< 50 mm por mês) de julho a novembro (Holmes et al., 2002). O relevo é relativamente plano, com inclinação de no máximo 5o (Barreto et al., 1998). As árvores foram amostradas em três áreas de 24,5 ha cada. Duas delas foram submetidas à exploração madeireira em 1993 (com e sem planejamento prévio, veja Johns et al. (1996) para uma descrição detalhada das práticas adotadas) e na terceira área não há registro de perturbação recente.

C. lucentifolium é popularmente conhecida no Brasil como abiu-casca-grossa, abiu-branco, abiurana, abiurana-goiaba, cariúba, guajará ou goiabão. Seus frutos são drupas ovóides, subglobosas ou obovóides, com látex branco (Pennington, 1990) e constituem importante fonte de alimento para aves, macacos, pacas, cotias, porcos e veados (Feer & Forget, 2002). Sua distribuição geográfica inclui o Panamá, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa e Amazônia brasileira (Pennington, 1990). Normalmente ocorre em florestas úmidas abaixo de 500 m de altitude, mas é também encontrada em florestas montanas de até 1400 m de altitude na Venezuela e em regiões secas no Equador e no Peru (Pennington, 1990).

L. lurida é uma espécie decídua, conhecida popularmente como jarana, jarana-branca, jarana-buroja, inhaúba, inhaíba ou inhaíba-gigante. Os frutos são pixídios indeiscentes, com pericarpo coriáceo (Mori & Prance, 1990). Ocorre ao longo da costa brasileira do Rio de Janeiro a Pernambuco e na amazônia oriental, em florestas maduras não sujeitas a alagamento, florestas secundárias e cerrados, apresentando menor estatura nesses dois últimos ambientes (Mori & Prance, 1990).

P. psilostachya é chamada popularmente de timborana, caferana-açu ou faveira-folha-fina. Os frutos são longas vagens deiscentes com até 60 cm de comprimento (Parrota et al., 1995). É típica da região amazônica, sendo encontrada no Brasil em florestas de terra firme do Pará, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia. Ocorre também na Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela e Colômbia (Lewis & Lima, 1990).

Para a estimativa visual da frutificação, foram sorteados, em cada uma das três áreas, cinco indivíduos de cada espécie em cada uma das seis classes de DAP (10 a 20 cm, 20 a 30 cm, 30 a 40 cm, 40 a 50 cm, 50 a 60 cm, >60 cm). Os dados de inventário utilizados para o sorteio de indivíduos foram coletados em 2000, mas nas análises foram considerados os valores de DAP em 2003. Três indivíduos de C. lucentifolium mudaram de classe de tamanho entre 2000 e 2003, o que explica a amostragem de 18 árvores dessa espécie com 40 cm < DAP < 50 cm. Em algumas classes de tamanho de algumas espécies existiam menos de cinco indivíduos disponíveis por tratamento e nesses casos todos os indivíduos disponíveis na classe foram amostrados. Para C. lucentifolium, as duas últimas classes de tamanho foram agrupadas devido ao baixo número de indivíduos.

Durante uma estação reprodutiva de cada espécie, a intensidade de frutificação de indivíduos foi avaliada visualmente com o uso de binóculos em intervalos de aproximadamente 15 dias até que os últimos frutos fossem observados nas copas, sendo classificada como alta (copa completa ou abundantemente coberta de frutos), baixa (poucos frutos em um ou poucos galhos) ou média (intermediária entre baixo e alto; Chapman & Chapman, 1997; Lepsch-Cunha & Mori, 1999).

Os primeiros frutos de C. lucentifolium em estádio inicial de desenvolvimento foram observados na primeira quinzena de setembro de 2003. A estimativa visual da frutificação dessa espécie foi iniciada na segunda quinzena de outubro de 2003 e se estendeu até a segunda quinzena de fevereiro de 2004. Em novembro e início de dezembro de 2003 foram vistas árvores de L. lurida com flores e os primeiros frutos imaturos foram avistados na segunda quinzena de janeiro de 2004. Indivíduos dessa espécie começaram a ser vistoriados a partir do início da segunda quinzena de fevereiro e a estimativa visual se estendeu até a primeira quinzena de abril de 2004. Indivíduos de P. psilostachya floresceram em setembro e outubro de 2003 e os primeiros frutos em estádio inicial de desenvolvimento foram vistos na segunda quinzena de novembro do mesmo ano. Árvores dessa espécie foram visitadas entre o início da segunda quinzena de dezembro de 2003 e da primeira quinzena de abril de 2004. A frutificação foi avaliada em 80 árvores de L. lurida, 76 de P. psilostachya e 76 de C. lucentifolium.

Foi estimada, dessa forma, a proporção de árvores reprodutivas por classe de tamanho no ano de estudo. A partir de um inventário realizado em 2003 de todas as árvores com DAP > 10 cm na área não explorada, foi possível estimar o número e a distribuição de tamanho de todos os indivíduos férteis das espécies estudadas nessa floresta. A proporção estimada de indivíduos férteis com 20 cm < DAP < 50 cm e com DAP > 50 cm foi comparada entre espécies através de teste de Qui-quadrado de partição (Ayres et al. 2003). Supondo-se que a intensidade de exploração (em termos de porcentagem de indivíduos cortados) seja a mesma para indivíduos férteis e estéreis acima do diâmetro mínimo de corte, foi estimado o efeito do abate de 90% das árvores com DAP > 50 cm sobre o número de indivíduos férteis na floresta primária.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Aproximadamente 47% dos indivíduos de C. lucentifolium acompanhados durante a estação reprodutiva produziram frutos e a menor árvore que frutificou possuía 22,8 cm de DAP. A proporção de árvores férteis dessa espécie foi aproximadamente 2 vezes maior a partir de 40 cm de DAP do que na classe de 30 cm a 40 cm de DAP (Figura 1). A proporção de árvores de L. lurida férteis entre aquelas acompanhadas foi de ~41% e a porcentagem de indivíduos reprodutivos por classe de tamanho aumentou a partir de 30 cm de DAP (Figura 1). A menor árvore dessa espécie que frutificou tinha 20,0 cm de DAP. Apenas 15 indivíduos de P. psilostachya (20% do total amostrado) produziram frutos e a menor árvore que frutificou possuía 29,0 cm de DAP. A proporção de árvores férteis foi mais de 2,5 vezes maior entre as árvores com DAP > 60 cm do que nas demais classes de tamanho (Figura 1).

 

 

Entre todos os indivíduos de C. lucentifolium com DAP > 20 cm na floresta primária estudada (N = 94), apenas ~9,6% tinham DAP > 50 cm. Essa proporção foi ~3,4 vezes maior em L. lurida (N = 31 indivíduos com DAP > 20; 32,3% dos quais com DAP > 50 cm) e ~5,5 vezes maior em P. psilostachya (N= 59, 52,5% dos quais com DAP > 50 cm). Aplicando-se a proporção de indivíduos férteis ao número total de indivíduos em cada classe de tamanho na floresta primária, estima-se que, nessa área, 14,9% de todos os indivíduos férteis de C. lucentifolium, 35,9% de L. lurida e 72,4% de P. psilostachya tinham DAP > 50 cm no ano de amostragem (Figura 2). A proporção estimada de indivíduos férteis com 20 cm < DAP < 50 cm e com DAP > 50 cm não diferiu significativamente entre C. lucentifolium e L. lurida (χ21 = 2,446; p = 0,117), mas sim entre essas e P. psilostachya (χ21 = 16,498; p < 0,001).

 

 

O corte de 90% das árvores com DAP > 50 cm implicaria em uma redução de 13,4%, 32,6 % e 65,2 % do número de indivíduos férteis de C. lucentifolium, L. lurida e P. psilostachya, respectivamente. Como a proporção de indivíduos classificados nas categorias de frutificação intermediária e alta é maior nas maiores classes de tamanho (Figura 1), estima-se de forma análoga que, respectivamente, 14,4 %, 48,0 % e 70,0 % dos indivíduos de C. lucentifolium, L. lurida e P. psilostachya nessas categorias de frutificação seriam cortados se fosse adotada a prática de manejo acima mencionada.

Se as proporções de indivíduos férteis fossem constantes ao longo do tempo, para preservar metade dos indivíduos férteis de P. psilostachya seria necessário manter 30% e não 10% daqueles com DAP > 50 cm. De forma similar, Lacerda (2007) estimou que aproximadamente 65% dos indivíduos reprodutivos de Jatobá (Hymenaea courbaril) seriam cortados em um plano de manejo executado na Floresta Nacional de Tapajós (PA) que previa a derrubada de todos os indivíduos da espécie com DAP > 81 cm (equivalente a 54% de todos com DAP > 50 cm).

Os resultados obtidos no presente estudo indicam que, adotando-se um único DMC (DAP > 50 cm) e retendo-se a mesma proporção (10%) de árvores acima desse diâmetro, o efeito em termos de porcentagem de indivíduos reprodutivos retirados da população pode variar entre espécies na ordem de aproximadamente cinco vezes. Essa variação interespecífica se deve às diferenças tanto na distribuição de indivíduos por classe de tamanho quanto na proporção de indivíduos férteis em cada classe.

Adicionalmente, foi observado que o tamanho mínimo em que as árvores começam a se reproduzir não é um bom indicativo do efeito das práticas de manejo. No caso de P. psilostachya, por exemplo, apesar de árvores com DAP > 29 cm serem capazes de produzir frutos, a proporção de indivíduos férteis só aumenta a partir de 60 cm de DAP.

A frutificação de espécies arbóreas é amplamente variável entre anos (e.g. De Steven & Wright, 2002; Kelly & Sork, 2002; Pedroni et al., 2002) e a continuidade do acompanhamento das espécies estudadas é necessária para uma avaliação mais consistente dos efeitos da exploração madeireira sobre a produção de frutos de cada população. Tendo em vista que nem todos os indivíduos férteis se reproduzem todo ano, a avaliação realizada em um único ano possivelmente implica em uma subestimativa da redução do número destes indivíduos. Além disso, o efeito da exploração deve ser maior se forem consideradas estimativas quantitativas da intensidade de frutificação, já que indivíduos maiores tendem a produzir uma maior quantidade de frutos (Chapman et al., 1992; Grogan & Galvão, 2006). Estudos sobre o sistema reprodutivo e a polinização de tais espécies também são de fundamental importância para a avaliação do impacto da exploração, já que o aumento da distância entre indivíduos férteis pode afetar a atividade dos polinizadores e, conseqüentemente, a qualidade e quantidade de sementes produzidas pelos indivíduos remanescentes (Sheil & Heist, 2000; Ghazoul & McLeish, 2001).

Apesar de se referir apenas à proporção de indivíduos férteis em um único evento reprodutivo, o presente estudo sugere que a produção de frutos de algumas espécies madeireiras pode ser intensamente afetada pelas práticas de exploração atualmente permitidas pela legislação brasileira em florestas naturais da Amazônia, caso tais práticas não sejam adaptadas para as características reprodutivas de cada espécie. É urgente, dessa forma, a realização de estudos sobre a ecologia reprodutiva de árvores madeireiras, assim como do efeito da retirada dos maiores indivíduos sobre a dinâmica populacional das mesmas (Gourlet-Fleury et al., 2005; Fonseca, 2007; Lacerda, 2007). Critérios para a escolha de espécies a serem estudadas podem incluir a intensidade de exploração à qual a espécie está sujeita, sua importância para a fauna e/ou para a estrutura florestal e a susceptibilidade potencial aos efeitos da exploração (avaliada através de critérios como distribuição geográfica, síndrome de dispersão das sementes, taxa de crescimento, entre outros; Martini et al., 1994). Tais estudos devem subsidiar o aperfeiçoamento das práticas de manejo e favorecer, portanto, a sustentabilidade do manejo florestal.

 

AGRADECIMENTOS

Esse estudo foi financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP; processo 02/14073-5), pela WWF Brasil (processo CSR 304-2004) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) através do Edital Universal (processo 472962/2003-5), da bolsa de doutorado cedida à primeira autora (processo 141465/2002-6) e da bolsa de produtividade em pesquisa cedida ao terceiro autor (processo 304937/2007-0). Os autores são gratos ainda ao Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) pelo apoio logístico e aos proprietários da Fazenda Agrosete, Pérsio e Tales Lima, pela permissão para a coleta de dados na área.

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

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Recebido em 12/09/2007
Aceito em 21/05/2008

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