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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967On-line version ISSN 1809-4392

Acta Amaz. vol.39 no.4 Manaus  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672009000400022 

Hidroquímica do rio Solimões na região entre Manacapuru e Alvarães - Amazonas - Brasil

 

The Solimões river hydrochemistry between Manacapuru and Alvarães - Amazonas - Brazil

 

 

Maria Mireide Andrade QueirozI; Adriana Maria Coimbra HorbeII; Patrick SeylerIII; Candido Augusto Veloso MouraIV

IUniversidade Federal do Amazonas, Departamento de Geociências. Av. General Rodrigo Otávio Jordão Ramos, 3000 - Japiim. CEP: 69077-000 Manaus, AM. e-mail: mireidequeiroz@yahoo.com.br
IIUniversidade Federal do Amazonas, Departamento de Geociências. Av. General Rodrigo Otávio Jordão Ramos, 3000 - Japiim. CEP: 69077-000 Manaus, AM. e-mail: ahorbe@ufam.edu.br
IIIUniversité Paul Sabatier Institut de Recherche pour lê Développement (IRD), Laboratoire des Mécanismes de Transfert en Géologie (LMTG), 38 rue dês trente-six ponts, 31400, Toulouse. e-mail: seyler@unb.br
IVUniversidade Federal do Pará, Instituto de Geociências. Rua Augusto Correia, 1 - Guamá. CEP: 66075-110 Belém, PA. e-mail: candido@ufpa.br

 

 


RESUMO

Este trabalho discute as características físico-químicas das águas dos rios Solimões, Purus e seus afluentes, coletadas em novembro de 2004 no Estado do Amazonas, entre as cidades de Manacapuru-Alvarães e Anamã-Pirarauara. Foram realizadas análises físico-químicas (temperatura, pH, condutividade elétrica, turbidez, Ca2+, Na+, K+, Mg2+, HCO3-, SO42-, Cl-), de elementos-traço (Li, B, Al, Sc, V, Cr, Mn, Fe, Co, Cu, Zn, As, Se, Rb, Sr, Mo, Cd, Sb, Cs, Ba, Pb, La, Ce e U) e isótopos de estrôncio. Os parâmetros analisados e a composição química mostram que as águas dos rios e igarapés da região central da Amazônia são quimicamente distintas entre si. As águas brancas do Solimões são cálcicas-bicarbonatadas e as do Purus bicarbonatadas, os respectivos afluentes são sódico-potássico-bicarbonatados e sódico-potássico-sulfatados. Isso acarreta águas brancas fracamente ácidas a neutras e mais condutivas, enquanto as pretas são menos mineralizadas, mais ácidas, especialmente as do Purus. O Ba, Sr, Cu, V e As mais elevados diferenciam as águas brancas do Solimões das do Purus, bem como os afluentes do primeiro em relação ao segundo. Esse conjunto de características indicam que tanto o Solimões, como o Purus e os respectivos afluentes, estão submetidos a condições geológicas/ambientais distintas. A influência do aporte de sedimentos dos Andes é diluída ao longo da bacia do Solimões e se reflete na formação das várzeas dos Solimões e Purus. Por outro lado as rochas crustais, representadas pelos escudos das Guianas e Brasileiro também contribuem, mas em menor proporção.

Palavras chave: Parâmetros físico-químicos, Afluentes do Solimões, Águas pretas, Isótopos de Sr, Diagramas de estabilidade.


ABSTRACT

The present study evaluated the physical and chemical characteristics of the water of the rivers Solimões, Purus and their tributaries, collected in November of 2004 in the State of Amazonas between the cities of Manacapuru and Alvarães and Anamã and Pirarauara. Physical-chemical analyses (temperature, pH, electrical conductivity, turbidity, Ca2+, Na+, K+, Mg2+, HCO3-, SO42-, Cl-), and trace-elements (Li, B, Al, Sc, V, Cr, Mn, Fe, Co, Cu, Zn, As, Se, Rb, Sr, Mo, Cd, Sb, Cs, Ba, Pb, La, Ce e U) and Sr isotopes were accomplished. The analyzed parameters and the chemical composition show that the waters of the rivers and tributaries of the central region of the Amazonia are chemically distinct between them. The white waters of Solimões are calcium-bicarbonate and of Purus are bicarbonates, and the respectives tributaries are sodium-potassium-bicarbonate and sodium-potassium-sulphate. This causes the white poorly acided waters to the neutrals and more conductives, while the black ones are less mineralized, more acids, mainly of Purus. The Ba, Sr, Cu, V e As in highest levels differentiate the Solimões white waters of the Purus`s waters, well as the tributaries of the first related to the second. This complex of caracteristics indicates that the Solimões as the Purus and their respectives tributaries are submitted to geological/ambiental distinct conditions. The influence of arrives in port of sediments of Andes is diluted at the currency of basin of the Solimões and it reflects on formation of fertile valleys Solimões and Purus. By another view, the crust rocks, represented by the Shields of the Guianas and Brasileiro both contribute, but in a reduced proportion.

Keywords: Physical and chemical parameters, Tributaries of the Solimões and Purus, Black water, Isotopes of Sr, Diagrams of stability.


 

 

INTRODUÇÃO

Os rios cujo, ambiente natural ainda está preservado, mostram relação entre a hidroquímica e o ambiente por onde percolam (p. ex.: Sioli & Klinge, 1962; Sioli, 1968; Gibbs, 1970; Stallard & Edmond, 1983, 1987; Junk & Furck, 1985; Viers et al., 2000; Tosiani et al., 2004; Berger & Forberg, 2006; Hren et al., 2007). Alguns elementos podem ser relacionados diretamente com tipos de rochas, por exemplo Mg2+, Ca2+, Sr, HCO3- e SO42- têm relação com carbonatos e gipsita; K+, B e Na+ com illita; Si com bentonita e fontes termais; Na+ e Cl- com evaporitos; Fe e B com glauconita. Outros como U, PO43-, F-, NO3- Ni, Cu e Zn não mostram essa mesma relação (Stallard & Edmond, 1983). Influências da vegetação são observadas nos rios de águas pretas que apresentam grande quantidade de matéria orgânica dissolvida, o que os torna mais ácidos (Sioli, 1985).

Sioli & Klinge (1962), pioneiros no estudo dos rios da Amazônia, os classificaram em três categorias: águas brancas, pretas e claras. As brancas são típicas dos rios Solimões, Amazonas, Madeira, Purus entre outros, possuem elevada quantidade de material em suspensão e sais dissolvidos provenientes dos Andes e da erosão dos sedimentos encontrados ao longo das bacias de drenagens. O pH é próximo a 7, são relativamente ricas em Ca2+ e HCO3-, o que as classificam como carbonatadas (Sioli, 1968; Konhauser et al., 1994; Gaillardet, et al., 1997). As águas pretas, cujo principal representante é o rio Negro, provém da drenagem dos escudos das Guianas e Brasileiro. Sua cor é resultado de substâncias fúlvicas e húmicas dissolvidas, têm altos conteúdos de Na+ e K+, o que acarreta menor pH (4,0) que as brancas (Furch, 1984; Walker, 1987; Forti et al., 1991). As claras (rios Tapajós e Xingu) são oriundas da Amazônia Central, que em virtude do relevo mais regular, oferece menor taxa de erosão. São límpidas, apresentam características químicas de transição entre os dois tipos anteriores e o pH varia entre 4,5 e 7,0 (Sioli, 1960; Stallard & Edmond, 1983).

Apesar dos rios Solimões, Amazonas e Negro já terem sido alvo de vários estudos, a influência da diversidade geológica e de ambientes na Amazônia (terra firme, várzeas, igapós e lagos) na composição química dos rios ainda é pouco conhecida. Estudos nos pequenos tributários dos grandes rios da Amazônia mostram que há relação direta entre o ambiente e a química das águas (Santos & Ribeiro, 1988; Cunha, 2000; Horbe et al., 2005). Portanto, são eles que melhor permitem avaliar a influência do ambiente na sua composição. Com vista a contribuir nesse tema, foram selecionados afluentes dos rios Solimões e Purus no Estado do Amazonas, localizados na porção central do Amazonas (Fig. 1).

CONTEXTO FISIOGRÁFICO E GEOLÓGICO

A cobertura vegetal é de floresta densa (Radambrasil, 1978). O clima na região é do tipo tropical quente e úmido, com temperatura média anual de 27° C, durante quase todo o ano, com sensível diminuição de amplitude térmica no período das chuvas. Geralmente, de junho a agosto, devido às freqüentes entradas de frentes frias de origem polar, ocorre o fenômeno denominado friagem com maior influência no oeste da Amazônia e relativa diminuição da temperatura durante poucos dias (Nimer, 1979). Embora as massas de ar sejam em geral secas, é uma região bastante úmida devido à alta taxa de evapotranspiração.

É relevante destacar o alto índice pluviométrico, com média de 2100 mm/ano, com o máximo de janeiro a maio quando tem-se o inverno regional e mínimo no verão amazônico de julho a outubro (Cáuper, 2000). A umidade relativa do ar é bastante elevada, apresenta nos meses mais chuvosos 80 a 90% e na estiagem atinge o mínimo de 75%. O relevo tem pouca influência no clima, pois a maior parte do território tem altitude inferior a 200 metros (Cunha & Appi, 1990).

As rochas sedimentares das Formações Solimões, Içá e sedimentos quaternários são as unidades geológicas que influenciam diretamente a química das bacias de drenagem dos afluentes dos rios Solimões e Purus, apesar da forte influência dos sedimentos em suspensão em grande parte provenientes da erosão dos Andes. A Formação Solimões é constituída de arenitos e siltitos de idade miocena de origem marinha (Nogueira et al., 2003). Segundo Horbe et al. (2007) quartzo, caolinita, illita, hematita+goethita e muscovita são os minerais principais e na sua composição química predominam SiO2, Al2O3 seguidos de Fe2O3, K2O, CaO, MgO e Na2O. Sobreposta ocorre a Formação Içá, se estende do alto Solimões até próximo a Manaus, é formada de arenitos e arenitos argilosos fluviais rosados e esbranquiçados, siltitos e argilitos friáveis amarelados, avermelhados, localmente ferruginizados que se assentam em discordância com a Formação Solimões (Maia et al., 1977).

Os sedimentos quaternários são genericamente, divididos em Quaternário Antigo e Recente, representam respectivamente as planícies aluviais e ilhas/barras dos rios de água branca da Amazônia. Os depósitos sedimentares recentes da calha do rio Solimões-Amazonas são compostos por arenitos e siltitos constituídos de quartzo, caulinita, K-feldspato, plagioclásio, mica, hematita, fragmentos de rochas sedimentares (siltitos e arenitos), metamórficas (xistos) e vulcânicas, além de raros fragmentos de rochas carbonáticas (Franzinelli & Potter, 1989).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram coletadas oito amostras de água ao longo dos rios Solimões e Purus e dezenove em seus principais afluentes na porção central do Amazonas em novembro de 2004, no fim do período de estiagem, quando o rio atinge seu nível mais baixo (Fig. 1). As amostras foram retiradas de jusante para montante, aproximadamente 15 centímetros de profundidade, coletadas em garrafas de polietileno de 1 L previamente desmineralizadas com solução de ácido nítrico (HNO3-) a 25% (v/v), lavadas com água deionizada e secas. Durante a amostragem os recipientes foram lavados três vezes com a própria amostra. No local da coleta foram analisados temperatura, pH, condutividade elétrica (potenciometria), turbidez (turbidimetria), HCO3- e Cl- (titulometria) uma vez que esses parâmetros se modificam rapidamente. As amostras foram filtradas com membrana de celulose de 0,45 μm e submetidas a análises de SO42- (fotometria) no laboratório de Geoquímica da Universidade Federal do Amazonas. As demais amostras foram acidificadas com HNO3 bidestilado para posterior análise de Ca2+, Na+, K+, Mg2+, Fe, Al, Zn, Mn, Ba, Sr, Cu, B, V, Cr, Co, As, Se e Sb (espectrometria via ICP-MS) no Laboratoire des Mécanismes de Transfert en Géologie (LMTG) - Université Paul Sabatier - Toulouse - França.

Os valores encontrados para δ 87Sr, foram calculados com auxílio da fórmula: δ 87Sr = {[( 87Sr/86Sr)a / (87Sr/86Sr)am] - 1} x 1000 onde (87Sr/86Sr)a é a razão isotópica da amostra e (87Sr/86Sr)am é a razão isotópica da água do mar atual (0,70920). As análises foram realizadas no Laboratório de Geologia Isotópica do Centro de Geociências da UFPA - Pará-Iso em Belém.

Os resultados foram submetidos à análise estatística multivariada por componentes principais (Statística 6.1) com o objetivo de reduzir os parâmetros analisados (variáveis) e as amostras a um conjunto mais significativo. Esta técnica, que possibilita avaliar a inter-relação existente entre as variáveis (parâmetros) e as amostras, gera fatores e escores que representam à variância dos dados, ou seja, o grau de correlação ou significância. A análise multivariada abrangeu duas etapas: na primeira, obtiveram-se os escores de todas as variáveis; posteriormente, nos dois primeiros fatores, foram selecionadas aquelas maiores que 0,6 para determinar os escores das amostras, também nos dois primeiros fatores. Esses escores foram representados em gráfico para melhor visualização.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

PARÂMETROS FÍSICOS

As temperaturas das águas variaram entre 28,2 ºC e 34,5 ºC e não houve diferença em termos de cor, mas foi observado que as coletadas entre às 10 e 16 horas apresentaram temperaturas acima de 30 ºC (Tab. 1), em função da alta incidência da radiação solar.

As águas dos rios Solimões e Purus, classificadas como brancas, são fracamente ácidas a neutras (6,5 - 7,0), enquanto as pretas são as mais ácidas, especialmente as dos afluentes do rio Purus (entre 5,3 e 6,7), enquanto as dos afluentes do Solimões tendem a ser mais básicas (5,9 - 7,2) assemelhando-se as brancas destes (Tab. 1). A maior acidez nas águas pretas, conforme relatado por diversos autores (Sioli & Klinge, 1962; Sioli, 1968; Thurman, 1985; Starllard & Edmond, 1987), é devido à decomposição da matéria orgânica do solo em ácidos orgânicos (ácidos húmicos e fúlvicos), que são lixiviados para as águas. Esses ácidos, que têm em sua estrutura grupos carboxílicos (-COOH) e hidroxílicos (-OH), se dissociam e liberam na água íons H+, o que reduz o pH do meio. O pH das águas dos rios da Amazônia também tem relação, até certo grau, com o ambiente geológico (Starllard & Edmond, 1987), pois os minerais silicatados influenciam, juntamente com as espécies de CO2, as reações do meio aquoso e conferem forte poder de tamponamento nas águas. Portanto, enquanto a matéria orgânica tende a acidificar a água, a geologia e os sedimentos em suspensão contribuem para manter o pH próximo a neutralidade, pois a dissolução dos silicatos por hidrólise consome íons H+ e eleva o pH das águas.

A condutividade elétrica é mais elevada na águas brancas do rio Solimões (média 98,8 µS cm-1), seguida pelo Purus (49,30 µS cm-1) e pelas águas pretas dos afluentes dos rios Solimões (35,3 µS cm-1). As menos condutivas são os afluentes do Purus (26,2 µS cm-1) (Tab. 1).

PARÂMETROS QUÍMICOS

Na somatória da carga total dissolvida, com erro inferior a 3%, há predominância dos cátions sobre os ânions, especialmente no rio Solimões (4,7 meq L-1), bem como nos seus afluentes (3,9 meq L-1) quando comparados aos do Purus (1,0 meq L-1) (Tab. 1). Segundo Appelo et al. (2005) a diferença no balanço de carga de 2% é inevitável e às vezes um erro de até 5% deve ser aceito.

A somatória dos cátions e de ânions é maior nas águas brancas, enquanto nas pretas é mais elevada nos afluentes do Solimões que nos do Purus e em ambos há tendência de aumento para montante (Tab. 1). Dentre os cátions, predomina o Ca2+ nas brancas e este se alterna com o Na+ nas pretas. Nas águas brancas esses dois cátions representam 64% da carga total, enquanto nas pretas perfazem 42% (Tab. 1). O HCO3- é o ânion mais abundante, exceto nos afluentes do Purus onde predomina SO42- e HCO3- está abaixo do limite de detecção (< 0,02 mg L-1) (Tab. 1). Nos afluentes do Solimões, também há exceções, no igarapé Manacapuru predomina o SO42- seguido do Cl-.

ELEMENTOS-TRAÇO

Dentre os elementos-traço analisados (Li, B, Al, Sc, V, Cr, Mn, Fe, Co, Cu, Zn, As, Se, Rb, Sr, Mo, Cd, Sb, Cs, Ba, Pb, La, Ce e U) somente Fe, Al, Zn, Mn, Ba, Sr, Cu, B, V, Cr, Co, As, Se e Sb apresentam valores significativos, contudo há variações acentuadas (Tab. 2). O Fe é o elemento mais elevado (entre 53 µg L-1 e 917 µg L-1) sobre os demais, seguido do Al (entre 26 e 258 µg L-1). Ambos representam pelo menos 68% da carga dos elementos-traço nas águas brancas e 81% nas águas pretas, contudo, somente o Al, mais elevado no Solimões, permite diferenciar este rio das demais drenagens analisadas (Tab. 2). Segundo Robison (1981) e Förstner & Wittmann (1983) os elevados teores de Fe e Al são atribuídos ao aumento nas condições oxidantes do ambiente, pois na época da coleta das amostras ocorreram chuvas esparsas, que podem ter aumentado o teor de oxigênio dissolvido e a quantidade de material em suspensão e alterado os processos de adsorção e co-precipitação dos elementos-traço.

Apesar das variações acentuadas de elementos-traço, é possível diferenciar os afluentes de águas pretas do Solimões dos do Purus (Tab. 1) pelo conteúdo, em geral mais elevado em Ba (4 a 53 µg L-1) e Sr (6 a 35 µg L-1) nos do Solimões, e de Mn nos afluentes mais a jusante deste (7 a 64 µg L-1) e no Purus. Nas águas brancas a distribuição é mais homogênea e com o mínimo mais elevados em Mn (30 a 98 µg L-1 no Solimões e 14 a 24 µg L-1 no Purus), bem como Ba (37 a 55 µg L-1 no Solimões e 34 a 35 µg L-1 no Purus) e Sr (50 a 78 µg L-1 no Solimões e 24 a 27 µg L-1 no Purus). Esses elementos são mais elevados nas águas brancas que nas pretas (Tab. 1).

O Cu (0,9 a 12,7 µg L-1), B (2,1 a 9,6 µg L-1), V (0,4 a 3,0 µg L-1) e As (0,2 a 1,5 µg L-1) apesar das variações, especialmente do segundo, tendem a serem mais elevados nas águas do Solimões. Contudo, valores similares a estes ou mais altos de Cu são encontrados nos igarapés Cabaliana (12,7 µg L-1) e Copeá (6,4 µg L-1), afluentes do Solimões (Tab. 2). No rio Purus as concentrações desses elementos se assemelham às águas pretas, enquanto Zn, Cr, Co, Se e Sb quase não têm variações entre os tipos de águas.

Quando comparados aos valores máximos permitidos (CONAMA 357/05) constata-se que, apesar do Fe estar acima do máximo permitido (300 µg L-1) na maioria das drenagens (Tab. 2), assim como o Al (200 µg L-1), especialmente no ponto 22 (258 µg L-1) do rio Solimões, as demais características se mantém preservadas. Isso indica que não ocorreram modificações significativas nos seus ambientes naturais. Os teores de Fe e Al encontrados neste estudo estão na mesma unidade de grandeza que os de Gaillardet et al. (1997), Elbaz-Poulichet et al. (1998), Mortati & Probst (2003) e Seyler & Boaventura (2003).

COMPOSIÇÃO ISOTÓPICA DE ESTRÔNCIO

A razão isotópica 87Sr/86Sr e δ 87Sr são mais elevadas nas águas brancas do rio Solimões (0,708861 a 0,714461 e -0,369 a 7,418 ) e as mais baixos no rio Purus. Os afluentes do rio Purus têm razões 87Sr/86Sr e δ 87Sr entre 0,708685 a 0,713293 e -0,726 a 5, 771 , um pouco mais altas que os do rio Solimões (0,708674 a 0,710980 e -0,025 a 2,509 ) (Tab. 3). Destaca-se, ainda que a bacia do rio Purus é mais homogênea, com tendência a razões menores no canal principal, exceto nos igarapés Itapuru e Paricatuba. Os da margem esquerda dos afluentes do rio Solimões possuem 87Sr/86Sr mais baixas que os da direita, exceto Ipixuna e Caiambé, que são similares ao canal principal. Ao longo do Solimões há tendência de redução da razão isotópica (de 0,714461 para 0,709098) para jusante.

Em relação à água do mar (0,709211 a 0,709241) as razões em geral, são mais elevadas (Fig.4), exceto nos igarapés Manacapuru, Cabaliana, Anamã, Copeá, Ipixuna, Caiambé, Alvarães (afluentes do Solimões), Paricatuba (afluente do Purus) e parte do rio Solimões que são próximas da razão isotópica dos calcários (0,7082 - Allègre et al. 1996). Destaca-se que todas as amostras estão abaixo da razão isotópica dos rios Solimões (0,71319) e Negro (0,71698) de Allègre et al. (1996).

CLASSIFICAÇÃO E AMBIENTE GEOQUÍMICO

Com o diagrama de Piper (Fig. 2) foi possível classificar as águas do rio Solimões em cálcicas-bicarbonatadas e as do Purus em bicarbonatada, enquanto os seus afluentes de águas pretas, possuem tendência sódico-potássica-bicarbonatada e sódica-potássica-sulfatada, respectivamente. Essa tendência e a composição química como um todo das águas estudadas, é compatível com os registrados por Stallard e Edmond, (1983, 1987); Konhauser et al. (1994); Gaillardet et al. (1997); Küchler et al. (2000) e Seyler e Boaventura (2003) em rios similares da Amazônia.

Dentre os elementos químicos analisados, a estatística multivariada por componentes principais (CP) indicou, com base nas cargas mais elevadas (> 0,6) do primeiro fator que a condutividade elétrica, Ca2+, Mg2+, HCO3-, SO42-, Cl-, Ba, Sr, Cu, Sc, V e Co são as mais significativas para caracterizar as águas estudadas (Tab.4). Com base nessas variáveis, foram obtidos os escores das amostras e identificados grupos distintos. As águas pretas estão dispersas no segundo e terceiro quadrante e os igarapés Cabaliana (2) e Catuá (24) afluentes do Solimões, com valores negativos de CP1 e CP2, localizam-se no quarto quadrante (Fig. 3). O Solimões e Purus, localizados nos quadrantes 3 e 4 em conseqüência das cargas negativas do CP2, formam um grupo separado entre si e em relação a maioria das águas pretas, principalmente, devido a menor condutividade, HCO3-, Ca2+ e Ba neste último (Fig. 3). A maior dispersão das águas pretas é indicativa da variabilidade dos ambientes percolados por essas águas (Stallard & Edmond, 1983), especialmente, os afluentes do Solimões, pois cobrem uma área maior que os do Purus (Fig. 1).

 

 

 

 

A relação entre as concentrações dos íons e isótopos nas águas de ambiente natural permitem inferir o tipo de rocha percolada e avaliar a mistura de águas que lixiviam regiões geologicamente distintas (Custódio & Llamas, 1976; Stallard & Edmond 1983; Faure, 1986). Dentre eles, Na+, K+ e Cl- são os mais representativos, pois são relativamente estáveis nas águas, facilmente analisados, têm tempo de residência mais elevada e não são afetados facilmente por variações nas condições de oxi-redução do ambiente, como o sulfato (Gibbs, 1970, Stallard & Edmond, 1983, 1987). Os valores encontrados nas razões iônicas (Na/Cl 0,60 - 21,0 e (Na+K)/Cl 2,35 - 30,72 meq/L respectivamente) indicam à interação com rochas clásticas psamíticas e pelíticas, típicas da bacia do rio Solimões. Contudo, as variações encontradas indicaram que tanto o Solimões, como o Purus e os respectivos afluentes, estão submetidos a condições geológicas/ambientais distintas.

Outro modo de determinar a influência do ambiente geológico e os processos geoquímicos é por meio de diagramas de atividade que descrevem o equilíbrio químico entre minerais e soluções aquosas (Drever, 1997). O diagrama log ([K+] / [H+] versus log [H4SiO4] (Fig. 5) elaborado para temperatura de 25°C mostra que as águas estão em equilíbrio com a caulinita e que são super saturadas em quartzo, minerais que predominam nos sedimentos da região (Franzinelli & Potter, 1989 e Horbe et al., 2007). Isto indica ambiente lixiviante, submetido a alta pluviosidade, compatível com o observado na Amazônia.

 

CONCLUSÕES

Os parâmetros analisados e a composição química mostram que as águas dos rios e igarapés da região central da Amazônia são quimicamente distintas entre si. As águas brancas do Solimões são cálcicas-bicarbonatadas e as do Purus bicarbonatadas, os respectivos afluentes são sódico-potássico-bicarbonatados e sódico-potássico-sulfatados. Isso acarreta águas brancas fracamente ácidas a neutras e mais condutivas, enquanto as pretas são as mais ácidas. A somatória dos cátions e ânions é maior nas águas brancas e, conseqüentemente a condutividade, enquanto nas pretas essa relação é mais elevada nos afluentes do Solimões que nos do Purus. Dentre os parâmetros analisados, pH, condutividade, Ca2+, Na+, K+ e Fe são os mais significativos na identificação das características das bacias. Desse modo, o Solimões é marcado pelo maior teor de íons dissolvidos, especialmente Ca2+ e HCO3-, e os afluentes do Purus, por serem menos mineralizados, especialmente em direção a jusante. As águas pretas deste estudo, são distintas entre si e em relação ao rio Negro, possuem teores de elementos dissolvidos mais elevados que este, especialmente em álcalis. Portanto, a carga química reflete o meio ambiente lixiviante com alta pluviosidade da Amazônia e indica a variabilidade do ambiente geológico e hidrológico em que estão situadas, uma vez que não foi constatada atuação antrópica.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa de mestrado do primeiro autor. Agradecem também a infra-estrutura do LMTG (Laboratoire des Mécanismes de Transfert en Géologie) - Université Paul Sabatier - Toulouse - França.

 

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Recebido em 14/07/2008
Aceito em 29/12/2008

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