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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967

Acta Amaz. vol.41 no.1 Manaus Mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672011000100020 

ZOOLOGIA

 

Predação oportunista de Artibeus planirostris (Spix, 1823) e Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae) por marsupiais e anuro na APA do Rio Curiaú, Amapá, Brasil

 

Opportunistic predation of Artibeus planirostris (Spix, 1823) and Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae) by marsupials and anuran in the APA do Rio Curiaú, Amapá State, Brazil

 

 

Isai Jorge de CastroI; Claudia Regina SilvaII; Arley José Silveira Da CostaIII; Ana Carolina Moreira MartinsIV

IInstituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá- Divisão de Zoologia e Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Tropical - Universidade Federal do Amapá. isai.j.castro@gmail.com
IIInstituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá- Divisão de Zoologia. crsilva.ap@gmail.com
IIIPrograma de Pós-Graduação em Biodiversidade Tropical - Universidade Federal do Amapá. arleyunifap@gmail.com
IVDepartamento de Pós-Graduação em Ecologia - Universidade de Brasília. ana.martins@pq.cnpq.br

 

 


RESUMO

Durante estudos com morcegos em floresta de várzea na APA do Rio Curiaú, Amapá, Brasil, observamos três casos de predações oportunistas de morcegos frugívoros capturados em redes de neblina. Duas destas predações ocorreram por marsupiais e uma por anuro. Artibeus planirostris (Spix, 1823) (Chiroptera, Phyllostomidae) foi predado por Didelphis marsupialis Linnaeus, 1758 e Philander opossum (Linnaeus, 1758) (Didelphimorphia, Didelphidae). Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae) foi predado por Leptodactylus pentadactylus (Laurenti, 1768) (Anura, Leptodactylidae). A vocalização dos morcegos provavelmente atraiu os marsupiais para a rede, onde estes os predaram aproveitando que estavam presos. Este tipo de interação pode ocorrer naturalmente, no entanto, com maior dificuldade de registro.

Palavras-chave: Anura, Didelphidae, floresta inundável, Amazônia, quirópteros.


ABSTRACT

We observed three occasional predations of bats captured in mist nets by marsupials and a frog during studies in a várzea forest in the Amapá state. Artibeus planirostris (Spix, 1823) (Chiroptera, Phyllostomidae) was preyed upon by Didelphis marsupialis Linnaeus, 1758 and Philander opossum (Linnaeus, 1758) (Didelphimorphia, Didelphidae). Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae) was preyed on by Leptodactylus pentadactylus (Laurenti, 1768) (Anura, Leptodactylidae). The bats vocalizations probably attracted the marsupials and a frog to the mist nets where they preyed. This interaction form can occur naturally, however, are more difficult to observed.

Key words: Anura, chiropterans, flooded forest, marsupial.


 

 

A predação em morcegos é pouco documentada, mas, sabe-se que diferentes espécies de vertebrados, como serpentes, mamíferos e aves podem predá-los (Rodriguez-Duran e Lewis 1985; Souza et al. 1997; Esberard e Vrcibradic 2007). Estes registros ocorrem, geralmente, em colônias de morcegos abrigados principalmente em cavernas. Entretanto, a predação incide, também, em indivíduos capturados em redes de neblina durante estudos de quiropterofauna. Neste caso, os predadores mais freqüentes são marsupiais e morcegos carnívoros (Voss et al. 2001; Oprea et al. 2006; Gazarini et al. 2008). O objetivo deste trabalho é comunicar novas ocorrências de predação ocasional em morcegos, observadas durante estudos realizados em floresta de várzea no Estado do Amapá.

O estudo foi realizado entre maio de 2007 e abril de 2008 em uma área de floresta de várzea na Área de Proteção Ambiental do Rio Curiaú, município de Macapá. Para inventários de morcegos foram utilizadas dez redes de neblina 12 m x 2,5 m, armadas ao longo de um transecto de 150 metros no sub-bosque, durante três dias mensalmente. As redes foram abertas às 18 horas e fechadas após seis ou doze horas de exposição.

Foram registrados três casos de predação ocasional de morcegos em redes de neblina. Para os três casos foi possível obter fotos que possibilitaram a confirmação das espécies que efetuaram a predação. Dois Artibeus planirostris (Spix, 1823) (Chiroptera, Phyllostomidae) foram predados por duas espécies de marsupiais, Didelphis marsupialis Linnaeus, 1758 (Didelphimorphia, Didelphidae) e Philander opossum (Linnaeus, 1758) (Didelphimorphia, Didelphidae). Estes morcegos foram encontrados, na primeira bolsa da rede (próxima ao solo) na predação por D. marsupialis e na segunda bolsa por P. opossum. O registro da predação por P. opossum ocorreu no dia 12 de dezembro de 2007 às 00:00 h. A predação por D. marsupialis ocorreu no dia 27 de novembro de 2007, também por volta das 00:00 h, nas proximidades do evento anterior. As duas espécies de marsupiais iniciaram a predação arrancando a cabeça de A. planirostris e em seguida estraçalhando o restante do corpo. Durante as revistas às redes de morcegos, por várias vezes, foi possível observar P. opossum caminhando sobre as mesmas, e, quando nos aproximávamos, corriam e adentravam na mata.

As duas espécies de marsupiais registradas predando morcegos possuem a dieta bastante diversificada (Santori e Astua de Moraes 2006; Queiroz et al. 2008). Didelphis marsupialis foi classificado como insetívoro-onívoro (Fonseca et al. 1996) e, como onívoro (Queiroz et al. 2008). Este marsupial se alimenta primariamente de pequenos animais (insetos, vermes e pequenos vertebrados) (Emmons e Feer 1997). Em exemplares coletados na RESEX Cajarí, Amapá, Queiroz et al. (2008) encontraram predomínio de insetos na sua dieta. Philander opossum foi considerada primeiramente carnívora (Hunsaker 1977), onívora (Hershkovitz 1997), e frugívora–insetívora (Fonseca et al. 1996).

Outro registro de predação ocorreu em um indivíduo de Carollia perspicillata (Linnaeus, 1758) (Chiroptera, Phyllostomidae), adulto do sexo masculino, que foi predado por Leptodactylus pentadactylus (Laurenti, 1768) (Anura, Leptodactylidae) no dia 8 de fevereiro de 2008. Carollia perspicillata foi predada por volta das 19:00 h, na primeira bolsa da rede de neblina armada no sub-bosque, sobre um pequeno córrego. O espécime de C. perspicillata foi totalmente engolido pelo anuro, mas foi regurgitado por estar preso à rede de neblina quando chegamos ao local. Pesou 17 gramas e mediu 40 cm de antebraço. Adultos de L. pentadactylus são predadores oportunistas e consomem tudo que possam engolir, incluindo filhotes de aves, cobras, escorpiões e outros sapos (Leenders 2001). Este é o primeiro relato de predação de morcegos por L. pentadactylus, no entanto há registros de outros anuros predando morcegos, como Lithobates catesbeianus (Shaw, 1802) (Anura Ranidae). Lee (1969) encontrou esta espécie (citado como Rana catesbeiana) predando morcegos em uma caverna nos Estados Unidos. Demonstrando que estas predações podem ocorrer na natureza, no entanto, com maior dificuldade de registro.

Voss et al. (2001) verificaram na Guiana Francesa que marsupiais maiores como Didelphis Linnaeus, 1758, Philander Brisson, 1762 e Metachirus Burmeister, 1854 se aproximam das redes de captura atraídos pela vocalização dos morcegos. Tuttle et al. (1981) observou que P. opossum é capaz de caçar anuros utilizando o canto para localizá-los. Neste trabalho, aparentemente, os predadores se aproximaram das redes atraídos pela vocalização dos morcegos, principalmente os marsupiais. Embora este tipo de predação oportunista em rede de neblina não reflita uma relação que ocorra naturalmente entre estas espécies, pode indicar a ocorrência de consumo de um animal que esteja ferido ou com dificuldades de locomoção. Neste sentido, os morcegos, mesmo não sendo presas regulares de marsupiais e anuros generalistas, podem ser identificados como presas potenciais quando encontrados em situações nas quais não conseguem esboçar comportamentos de defesa ou fuga. Além disso, quando presos nas redes, ou em eventos não artificiais (comunicação e alarme, durante o vôo, acasalamento e agressão) os guinchos emitidos pelos morcegos são audíveis (fora da faixa de ultra som). Assim, as vocalizações dos morcegos quando em situações de risco podem ser utilizadas, eventualmente por espécies predadoras, como marsupiais ou anuros, para localizá-los.

 

AGRADECIMIENTOS

Agradeço aos biólogos Alcides Freitas e Eddeivid Reis pelo apoio nas coletas de campo. Ao Programa BECA – IEB (B/2007/02/BMP/05) e Gordon & Betty Moore Foundation pelo financiamento. Ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amapá pelas licenças concedidas (IBAMA nº 12150-1 e SEMA nº 02/2007).

 

BIBLIOGRAFIA CITADA

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Recebido em 12/02/2010
Aceito em 17/05/2010

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