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Acta Amazonica

Print version ISSN 0044-5967

Acta Amaz. vol.42 no.1 Manaus Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0044-59672012000100003 

CIÊNCIAS DO AMBIENTE

 

Atributos de solos hidromórficos no Pantanal Norte Matogrossense

 

Attributes of the hydromorphic soils in the Pantanal of North Matogrosso

 

 

Elaine de Arruda Oliveira CoringaI; Eduardo Guimarães CoutoII; Xosé Luis Otero PerezIII; Pablo Vidal TorradoIV

I Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso - Campus Cuiabá Bela Vista, Av. Juliano Costa Marques, s/n, Bela Vista - Cuiabá - MT, Brasil. Email: elaine.coringa@blv.ifmt.edu.br
II Departamento de Solos e Engª Rural, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT, Av. Fernando Correa, s/n, Coxipó - Cuiabá-MT, Brasil. Email: couto@ufmt.br
III Departamento de Edafologia e Química Agrícola da Universidade de Santiago de Compostela. Faculdade de Bioloxia - Santiago de Compostela, Espanha. Email: xl.otero@usc.es
IV Departamento de Ciência do Solo, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - ESALQ, Universidade de São Paulo - Piracicaba-SP, Brasil. Email: pablo@esalq.usp.br

 

 


RESUMO

Os solos hidromórficos, comuns na Amazônia e no Pantanal, estão sujeitos à alternância natural de períodos de alagamento e secamento, que conduzem a uma formação e características diferenciadas. Estes solos guardam estreita relação com a natureza do material de origem e com os processos de deposição e sedimentação. O objetivo neste trabalho foi avaliar as características químicas, morfológicas e mineralógicas de três perfis de solos do Pantanal Norte Matogrossense (Planossolo, Plintossolo e Gleissolo), a fim de interpretar as relações entre suas propriedades e o ambiente em que foram formados. Os Planossolos e Gleissolos possuem maior fertilidade natural, evidenciada pelos valores expressivos de CTC (capacidade de troca de cátions) e saturação por bases. Os menores teores de Fe2O3 do Planossolo estão relacionados com a redução e remoção do Fe durante sua gênese A mineralogia da fração areia dos solos é constituída principalmente de quartzo, nódulos e concreções de Fe e de Mn, e em menor grau, biotita, muscovita e traços de turmalina, magnetita, ilmenita, epídoto, zircão e rutilo. Os solos apresentaram perfil mineralógico semelhante na fração argila, constituído por caulinita, esmectita, ilita e interestratificados do tipo ilita-esmectita. A mineralogia da fração argila dos solos foi compatível com as diferenças químicas constatadas entre eles, pois o Planossolo apresentou argila de maior atividade relativa às esmectitas e interestratificados ilita/esmectita, com maior soma de bases trocáveis e CTC, enquanto o Plintossolo e o Gleissolo, cujo mineral predominante foi a caulinita, apresentaram baixo teor de bases trocáveis e menor CTC.

Palavras-chave: hidromorfismo, planície de inundação, ilita, argila de alta atividade.


ABSTRACT

The hydromorphic soils, common in the Amazon and the Pantanal, are subject to alternating periods of natural flooding and drying, leading to formation and differentiated characteristics. These soils are closely related to the nature of the sediments, a consequence of the source material and the processes of deposition and sedimentation. The objective of this study was to evaluate the chemical, mineralogical, and morphological profiles of three soils in the North Brazilian Pantanal North (Solonetz, Plinthosol and Gleysol) in order to interpret the relations between their properties and the environment in which they were formed. The Solonetz and Gleysol have higher fertility, as evidenced by the significant values of CEC (cation exchange rate) and base saturation. The lowest levels of Fe2O3 in the Solonetz are related to the reduction and removal of Fe during its genesis. The mineralogy of sand fraction consists mainly of quartz, nodules and concretions of Fe and Mn and to a lesser extent, biotite, muscovite and traces of tourmaline, magnetite, ilmenite, epidote, zircon and rutile. The soil profile was similar in clay mineralogy, consisting of kaolinite, smectite, illite and interstratified illite-smectite type. The clay mineralogy of soils was consistent with the observed chemical differences between them, as the clay Planossolo showed greater activity on smectite and interstratified illite / smectite, with greater total exchangeable bases and CEC, while the Plinthosol and Gleysol, whose predominant mineral was kaolinite, showed a low content of exchangeable bases and lower CEC.

Keywords: hydromorphism, floodplains, illite, high activity clay.


 

 

INTRODUÇÃO

O Pantanal é uma das maiores extensões de áreas alagáveis do mundo, cuja posição geográfica representa um grande interstício entre os biomas da Amazônia (ao norte), o Chaco (ao sudoeste), o Cerrado (leste, norte e sul), a Mata Atlântica (sul) e o Bosque Seco Chiquitano (noroeste) (Ab´Saber 1988). Constitui uma complexa zona tropical úmida caracterizada por grandes inundações anuais, cujos solos estão sujeitos a uma alternância natural de períodos de alagamento e secamento, que conduzem ao domínio territorial de solos hidromórficos. Estes solos guardam estreita relação com a natureza dos sedimentos depositados, conseqüência da natureza do material de origem e dos processos de deposição/sedimentação (Assine e Soares 2004).

Geologicamente, os solos dessa região desenvolveram-se a partir de sedimentos inconsolidados arenosos, argilosos e orgânicos, depositados ao longo do período Quaternário. Segundo Fernandes et al. (2007), a maior parte da área é formada por sedimentos depositados no Cenozóico, constituindo a Formação Pantanal, os depósitos detríticos dos planaltos residuais e circundantes do Pleistoceno, e pelos depósitos de planície de inundação dos rios, que ocorreram no Holoceno. A Formação Pantanal é constituída por depósitos aluvionares constituídos de vasas, arenitos e argilas (Oliveira e Leonardos 1943), subdividida em três unidades, segundo Corrêa et al. (1976): a unidade mais antiga representa a planície aluvial com sedimentos de natureza arenosa e conglomerática, como arenitos conglomeráticos ou conglomerados polimíticos, de coloração pardacenta variada, semiconsolidados, bastante porosos, compostos predominantemente de fragmentos angulosos de rocha e quartzo, cimentados por material ferruginoso e matriz composta por argilas caulínicas, e compreende as áreas de topografia mais elevada; a segunda unidade é formada por sedimentos argilo-arenosos pardacentos, semiconsolidados, porosos, cimentados por material ferruginoso, macroscopicamente homogêneos, com estratificação incipiente, e corresponde à parte periodicamente alagável da planície pantaneira. Já a terceira unidade da Formação Pantanal corresponde aos depósitos aluvionares essencialmente fluviais, restritos às margens e calhas dos principais rios da planície do Pantanal, como os rios Paraguai, Nabileque e Aquidabã, sendo de natureza predominantemente areno-argilosa.

Devido à sua geomorfologia aliada ao regime hídrico, a região do Pantanal apresenta características pedológicas específicas, e é formada por solos com características diferenciadas que devem ser levadas em consideração por ocasião de sua utilização.

Parte significativa dos solos do Pantanal permanece saturada ou inundada por períodos que podem variar de alguns dias a vários meses, como resultado das inundações sazonais decorrentes da elevação do nível das águas durante o período de cheia dos rios da região, ou de elevadas precipitações pluviais, de restrições de drenagem ou da elevação do nível do lençol freático. Por isso, a ocorrência dos solos hidromórficos é generalizada em toda a região, e as características morfológicas destes solos advêm, principalmente, dos processos de redução e oxidação do ferro e manganês, que ainda lhes conferem cores distintas.

Os processos pedogenéticos mais comuns nestes solos são a gleização e plintização, responsáveis pelas cores cinzentas no todo ou em algumas partes do perfil (Couto e Oliveira 2010). Em decorrência desses processos, a Formação Pantanal apresenta grande diversidade de solos, como os Planossolos, Plintossolos, Gleissolos, Cambissolos Flúvicos, Neossolos, Luvissolos e Vertissolos (Couto et al. 2002).

As características mineralógicas e químicas desses solos são, em grande parte, ditadas pela natureza do material de origem e do regime de inundações periódicas, conferindo aos solos características diferenciadas, como alta saturação de sódio e, em alguns casos, de alumínio, textura variável em decorrência do tipo de sedimento depositado e riqueza em argilas expansivas (Fernandes et al. 2007). Além disso, os solos estão sujeitos à adição ou perda de materiais inorgânicos e orgânicos em solução e na forma particulada, especialmente por fluxos laterais (Bertsch e Seaman 1999), que altera o equilíbrio dos elementos e dos compostos no solo.

A inundação periódica causa decréscimo no potencial eletroquímico do solo (Lima et al. 2006), propiciando a alternância nas condições de redução e oxidação dos óxidos de ferro e manganês e alterando a sua solubilidade no solo. Este fenômeno influencia as características morfológicas dos solos, levando à segregação do ferro e à formação de zonas enriquecidas em ferro, produzindo uma coloração característica nos perfis (Vepraskas e Faulkner 2001; van Bodegom et al. 2003) com mosqueados marrom, cinza, azul, preto e amarelo, freqüentemente observados em solos hidromórficos (Fanning e Fanning 1989). Esses ambientes também podem conter concentrações de Fe-Mn na forma de concreções macroscópicas e nódulos variáveis quanto ao diâmetro e formato, comuns em solos com ferrólise (D´Amore et al. 2004; Vepraskas et al. 2006). Os horizontes do solo podem também ser escurecidos devido à acumulação de matéria orgânica, pois os organismos anaeróbios são menos eficientes na mineralização da matéria orgânica do que os aeróbios. Além disso, os processos de redução envolvem, freqüentemente, a produção ou o consumo de H+ e assim, têm também importante efeito sobre o pH do solo. Como resultado, esses solos têm maiores concentrações de nutrientes disponíveis para as plantas, como o Fe e o Mn (no estado reduzido), do que solos bem drenados.

Este trabalho teve como objetivo caracterizar solos hidromórficos representativos do Pantanal através da análise dos atributos físicos, químicos, morfológicos e mineralógicos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A região estudada é uma sub-região do Pantanal Norte Matogrossense, denominada Pantanal de Poconé (Figura 1), sob vegetação de savana (cerrado) dominante, clima Aw-tropical úmido, segundo classificação de Koppen, e precipitação média anual de 1.200 mm, com temperatura média de 22 a 32 ºC, e 100 a 150 metros de altitude (Hasenack et al. 2003).

 

 

Três perfis de solos foram selecionados a partir do levantamento detalhado realizado por Couto et al. (2002), situados em posições distintas na paisagem. Os perfis foram observados através de trincheiras abertas ao longo da rodovia MT 370, 50 km ao sul de Cuiabá, no trecho que liga o município de Poconé-MT ao Hotel Sesc Porto Cercado.

Os solos foram classificados por Couto et al. (2002) como: Plintossol O Argilúvico alítico típico (16°22'44,3"S e 56°27'02,3"W), Planossolo Háplico eutrófico típico (16°30'13,6"S e 56°24'18,7"W) e Gleissolo Háplico alítico argissólico (16°30'7,0"S e 56°24'51,1"W), segundo Embrapa (2006). O Plintossolo foi amostrado em área plana de campo inundável sob pastagem natural (Paratheria prostrata Grisibag e Setaria geniculata (Lam.) Beauv.), o Planossolo encontra-se em área plana em topo de cordilheira sob Bacurizal (Scheelea phalerata (Mart.)) e o Gleissolo ocorre em área plana sob vegetação de Paratudal (Tabebua aurea (Manso)) (Figura 2).

 

 

As análises físicas e químicas foram realizadas de acordo com Embrapa (1997) e Camargo et al. (1986) em amostras secas ao ar, destorroadas e passadas em peneira de malha 2 mm (terra fina seca ao ar - TFSA). As análises realizadas foram: distribuição granulométrica pelo método da pipeta e o teor de argila dispersa em água, pH em H2O e em KCl 1 mol L-1, teor de Ca2+, Mg2+, K+, Na+, Al3+, P, teor de carbono orgânico total e acidez potencial (H+Al). O teor de óxidos totais (SiO2, Al2O3, Fe2O3, TiO2, P2O5, MnO) foi obtido por ataque sulfúrico, os elementos Si, Al, Ti e P determinados por colorimetria, e Fe e Mn por espectrofotometria de absorção atômica. Foram calculadas a soma de bases trocáveis (SB), a capacidade de troca de cátions (T) em pH 7, a porcentagem de saturação por bases (V) e por Al+3 (m), e as relações moleculares Ki (SiO2x1,70/Al2O3) e Kr ((SiO2/0,6)/(Al2O3/1,02)+(Fe2O3/1,6)).

As análises mineralógicas da fração argila (<0,002 mm) em lâminas orientadas foram realizadas em condições naturais (amostra total e fração areia) e após deferrificação das amostras com ditionito-citrato-bicarbonato (Mehra e Jackson 1960), saturação com K e aquecimento em mufla a 110 , 350 e 550 ºC por 2 horas, e com Mg e solvatação em etilenoglicol (Moore e Reynolds 1989), em difratômetro de Raios X marca SEIFERT-FPM modelo: XRD 7, energia de irradiação 40 KV e 30 mA, com intervalo de varredura de 2° a 45° (2θ).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características morfológicas

A textura do horizonte superficial dos solos varia de franco-arenosa (Plintossolo) a franco-argilosa (Gleissolo), com aumento de argila em profundidade principalmente no Gleissolo (Quadro 1).

Em todos os perfis, nos horizontes superficiais predomina a estrutura em blocos subangulares, sendo que nos horizontes subsuperficiais é verificada maior expressão de estrutura prismática no Planossolo e no Gleissolo, indicativo da presença de argilominerais do tipo 2:1. A consistência desses solos é extremamente dura, muito plástica e muito pegajosa, corroborando a afirmação acima.

Verificou-se o predomínio da matiz 10YR (bruno-acinzentado a cinza) nos horizontes dos solos, típico de ambientes hidromórficos, com exceção dos horizontes Btf2 e Btf3 do Plintossolo, que apresentam coloração variegada (matiz 5YR) devido aos mosqueados de plintita nesses horizontes, resultantes do processo pedogenético de plintização. A coloração acinzentada da matriz dos solos é resultante da redução dos compostos de ferro em presença de matéria orgânica, com ou sem alternância de oxidação, por efeito de flutuação do nível do lençol freático, em condições de regime de excesso de umidade permanente ou periódico.

Características físicas e químicas

Os solos estudados apresentam variação textural que refletiu a natureza granulométrica do material sedimentado, já que são solos que apresentam pouca evolução pedogenética. Essa variação textural é mais evidente no Planossolo e no Gleissolo, a julgar pelos valores abruptos da relação silte/argila entre os horizontes A e B (Tabela 1).

O Plintossolo e o Planossolo apresentaram baixo grau de floculação (Tabela 1), evidenciando o efeito dos argilominerais 2:1 no aumento das cargas negativas do solo, promovendo, assim, a dispersão. Esses valores foram menores no Planossolo provavelmente devido ao efeito dispersivo do sódio e magnésio trocáveis. O papel do magnésio na dispersão das argilas (ADA) é mais evidente no Planossolo, condizente com os teores elevados de cálcio e magnésio que promovem a expansão da dupla camada difusa, aumentando a argila dispersa (Uehara e Gillman 1981).

O teor de carbono orgânico total (COT) é considerado médio (Tomé Jr 1997) e decrescente em profundidade, com maior valor no horizonte A do Planossolo (14 g kg-1).

O Plintossolo apresenta acidez elevada no horizonte A, enquanto que nos outros perfis a acidez é considerada média. Isso indica predomínio de cátions ácidos (H + Al) nos sítios de troca e alta saturação por Al+3 no Plintossolo (m > 90% nos horizontes B). Estes resultados estão de acordo Anjos et al. (2007) em Plintossolos do Maranhão, e com Lima et al. (2006) em Plintossolos da Amazônia. A acidez em profundidade, conjugada com elevados teores de Al trocável, pode ser decorrente do processo de ferrólise, geralmente observada em solos sujeitos a encharcamentos periódicos, como nos Plintossolos (Coelho et al. 2003; Anjos et al. 2007). Segundo Brinkman (1970), a ferrólise é comum em solos ácidos sujeitos à redução sazonal e ricos em ferro. Por outro lado, observou-se uma tendência à reação alcalina ao pH do solo no horizonte Bt3 do Planossolo, devido à presença de teores elevados de bases trocáveis e ausência de Al3+ trocável.

A fertilidade natural do Planossolo foi indicada pelos maiores valores de saturação por bases (V%) e CTC a pH 7, que variam de 63 a 95% (V) e de 48,2 a 64,5 cmolc kg-1 (T) no perfil, respectivamente, caracterizando esse solo como eutrófico. Os elevados valores de saturação por bases no Planossolo também podem ser resultantes do transporte e de posterior acumulação de íons no perfil. Os teores de Ca2+ e Mg2+ são maiores no Planossolo e Gleissolo, com aumento gradativo de seus teores de acordo com a profundidade. Com exceção do Planossolo, os demais perfis apresentam atividade da fração argila menor que 27 cmolc kg-1 sendo caracterizados como argila de atividade baixa nos horizontes B. As variações encontradas nos valores da saturação de base (V) nos solos do Pantanal em estudo indicam a presença de diferentes níveis de hidromorfismo no ambiente, além da presença de descontinuidades sedimentológicas.

Os elevados valores de CTC dos Planossolos e Gleissolos encontram-se condizentes com as feições morfológicas dos solos, em que a presença de superfícies de fricção ("slickensides"), a consistência e a estrutura mostram a participação de minerais de argila 2:1, confirmada pela Difratometria de Raios-X e pelos dados da relação Ki.

O magnésio apresentou-se como o principal contribuinte das bases trocáveis, seguido pelo cálcio, refletindo, assim, a natureza do material de origem sedimentar rico em micas, principalmente no Planossolo.

Com relação aos óxidos totais extraídos pelo ataque sulfúrico, a sílica (SiO2) é dominante em todos os solos, com maiores valores no Gleissolo, especialmente no horizonte Btg3 (249 g kg-1). O Gleissolo também apresenta maiores valores de Al2O3 e Fe2O3, com valores entre 81 e 196 g kg-1 e de 25 a 63 g kg-1, respectivamente (Tabela 2). Os teores destes óxidos são mais elevados nos horizontes B dos solos, mostrando uma distribuição geoquímica esperada para elementos pouco móveis.

A distribuição do Fe2O3 nos solos pode estar relacionada à presença de formas mais cristalinas de óxidos de ferro (Lima et al. 2005) e nódulos de ferro e manganês (Humphries et al. 2010) nos horizontes inferiores, e à perda de ferro nos horizontes superficiais pelo processo de redução, comum em ambientes mal drenados como o Pantanal, onde o ferro na forma reduzida torna-se bastante solúvel e passível de ser lixiviado. Os menores teores de Fe2O3 encontrados no Planossolo podem estar relacionados com a redução e remoção do Fe (Schwertmann 1989) durante sua gênese. A coloração bruno-acinzentada a cinzenta dos horizontes B (Quadro 1) corroboram esta afirmativa.

Os teores de TiO2 aumentam com a profundidade dos perfis, com valores mais expressivos no Gleissolo e Plintossolo.

Os maiores teores de P2O5 encontrados no Planossolo e o Gleissolo (média de 0,9 g kg-1) são devido à biociclagem desse elemento nesses solos eutróficos. Couto e Oliveira (2010) afirmam que o teor de fósforo total nos solos do Pantanal de Poconé, MT (média de 1,2 g kg-1) é duas vezes maior que o valor médio encontrado em solos brasileiros (Resende et al. 2002).

Características mineralógicas

A mineralogia da fração areia dos solos é constituída principalmente de quartzo (acima de 60%), fragmentos de petroplintita na forma de nódulos e concreções ferruginosas (Plintossolo e Gleissolo) e nódulos de manganês (Planossolo), biotita alterada e pouco alterada + muscovita (2%) e traços de turmalina, magnetita, ilmenita, epídoto, zircão e rutilo.

A difração de Raios-X da fração argila das amostras dos horizontes subsuperficiais diagnósticos dos solos evidenciou perfil mineralógico semelhante, constituído basicamente por caulinita, esmectita, ilita e interestratificados do tipo ilita-esmectita (Quadro 2), cuja estimativa se deu pela intensidade das reflexões nos difratogramas. Apenas o Plintossolo apresentou reflexões de goethita.

 

 

A presença da caulinita foi diagnosticada pelos picos de maior intensidade a 0,715 e 0,357 nm, que desapareceram com o tratamento a 550ºC. A expressão da caulinita nos difratogramas do Plintossolo e Gleissolo mostra que ela é predominante na fração argila desses perfis. A caulinita é um mineral tipicamente formado em associação com perfis de intemperismo, e sua formação está associada à hidrólise de silicatos precursores, sendo favorecida sob condições de boa drenagem e pH baixo (Gonçalves et al. 2006). Entretanto, algumas evidências discutidas por Furquim et al. (2010) sustentam a origem alóctone da caulinita em solos semelhantes do Pantanal Sul Matogrossense, onde o argilomineral seria transportado pelos sistemas fluviais até os solos adjacentes.

Proporcionalmente, a presença de interestratificados de ilita-esmectita e de esmectita é maior no Planossolo, de acordo com as maiores intensidades das reflexões na amostra saturada com Mg e glicolada (Figura 3). Segundo Mota et al. (2002), a ocorrência do mineral interestratificado pode estar associada a alterações incipientes da biotita.

 

 

O predomínio de esmectitas nestes solos confere elevada CTC, retenção de umidade e presença de superfícies de fricção ("slickensides") nos horizontes subsuperficiais. As esmectitas são componentes freqüentemente encontrados em solos pouco intemperizados, formadas pelo intemperismo de micas e vermiculitas e pela conservação de parte das camadas 2:1 (Melo et al. 2009), além da neogênese a partir da liberação de Al, Si e bases na solução do solo pelo intemperismo simultâneo de minerais primários silicatados (p.ex., feldspatos, olivinas magnesianas, hornblendas, etc.) em condições de baixa a moderada lixiviação de sílica (Reid-Soukup e Ulrey 2002; Melo et al. 2009). Nos solos estudados, a esmectita foi detectada por meio de reflexões a aproximadamente 1,500 nm que se expandiram a 1,700 - 1,770 nm, na amostra de argila saturada com Mg e etilenoglicol (Figura 3).

A presença de ilita foi detectada por reflexões a 1,000 nm, com baixa intensidade na maioria dos tratamentos, e que não sofreu deslocamento com os tratamentos a que foram submetidas as amostras da fração argila (Figura 3). A ilita pode ser um produto do intemperismo do material de origem o que caracterizaria uma origem autóctone, além da fonte detrítica. A ilitização é um processo que pode ocorrer com ou sem a presença de esmectita, onde a ilita pode se formar a partir de um mineral precursor como, por exemplo, o feldspato potássico, ou por aporte de K em caulinita (Prada-Gamero et al. 2004).

O perfil mineralógico dos solos em estudo permite prever que grande parte dos argilominerais encontrados (especialmente os expansíveis) pode ter origem detrítica, uma vez que o processo intempérico nestes solos é pouco intenso, a julgar pelos valores elevados dos índices de intemperização dos solos (Ki e Kr, Tabela 2) e pelo ambiente sazonalmente inundado que retarda a sua evolução.

 

CONCLUSÕES

Os principais atributos morfológicos e físicos são a presença de mosqueamento associado a cores mais brunadas e acinzentadas nos perfis e o predomínio da estrutura em blocos subangulares no Plintossolo e prismática no Planossolo e Gleissolo, com variação textural mais evidente no Planossolo e no Gleissolo.

Quanto aos atributos químicos, verificou-se predomínio de argilas de atividade baixa (CTC < 27 cmolc kg-1 argila), exceto no Planossolo, que apresentou maiores valores de saturação por bases e CTC a pH 7, caracterizando elevada fertilidade natural. A sílica foi o óxido predominante nos solos, seguida do Al2O3 e Fe2O3, cuja distribuição nos perfis está associada à presença de formas cristalinas de óxidos de ferro e à perda de ferro nos horizontes superficiais pelo processo de redução, principalmente no Gleissolo e Plintossolo.

A mineralogia da fração argila foi compatível com as diferenças químicas constatadas entre os solos. O Planossolo apresentou esmectitas e interestratificados Ilita/Esmectita e maior soma de bases e CTC, enquanto que o Plintossolo e o Gleissolo, com predominância de caulinita, apresentaram valores mais baixos de soma de bases e CTC. Por meio da análise dos atributos morfológicos, químicos, físicos e mineralógicos, constatou-se a influência do material de origem e do grau de hidromorfismo como principais atuantes na gênese dos solos estudados.

 

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Recebido em 10/12/2010
Aceito em 03/05/2011

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